ZION
Entramos no escritório que pertencia a Carlisle no mais absoluto silêncio. Minhas pernas tremiam mais que galhos de bambu ao vento e se não fosse Edward ali, ao meu lado, eu nem sei o que seria de mim ...
Desabei no imenso sofá preto com Ed do meu lado direito e Alice, no esquerdo. Rose se acomodou numa poltrona, Mansen em outra e, apesar do estresse, não pude deixar de perceber que Emmett se sentou no braço da poltrona em que Rose estava sentada. Nos últimos dias, tenho percebido que ele faz de tudo pra ficar perto dela. Ela não age da mesma forma, mas parece não repelir a aproximação dele.
- Fala logo, Mansen! Fala porque eu já to ... - ‘querendo fazer xixi de novo’ (foi o que pensei) – tendo um treco (foi o que falei).
- M comunicou que Alec está literalmente desesperado. Hoje cedo ele fez uma longa reunião com TODOS os chefes de divisões e agentes da Diretoria de Investigações ... Brandon, ele percebeu a nossa ausência.
- Não entendo. – murmurei.
- Bella, vamos recapitular alguns pontos. – Mansen se levantou e começou a andar enquanto falava – Ben Chenney, assim que entrou em contato com as provas e assumiu oficialmente as investigações do caso Volturi, se reuniu com Alec e contou-lhe TUDO.
- Alec, por sua vez, não deu crédito àquelas provas e tentou convencer Ben a não prosseguir com o caso e até disse que ele não devia perder tempo. Sugeriu também que entregasse o caso para qualquer agente que não tivesse nada melhor para fazer. – Alice completou - Então, após a morte de Ben, seria natural se Alec tivesse informações sobre o andamento do caso e sobre os agentes que estão investigando as provas. Mas aí é onde tá o problema, ele tá puto vida porque como diretor, teria de ser informado imediatamente sobre isso.
- Mas ele tá envolvido. – Ed falou o óbvio.
- Como ele ainda não desconfiou de vocês? E o mais importante, como ele ainda não chegou até nós? – Rose perguntou.
- M nos colocou de férias, falsas férias, é claro, e também está desacreditando Alec quando este afirma que Ben tinha uma cópia de um dossiê e de um pendrive. – Mansen respondeu.
- Mas o marginalzinho que assassinou Ben roubou a pasta onde ele guardava as provas. Então, Alec DEVE ter esse material com ele. – Emmett deduziu.
- Sim. O inquérito policial dizia que o jovem tinha roubado a pasta que Ben carregava. Mas não podemos dizer que Alec recuperou essas provas. Um dos dois pode estar mentindo ... ou ambos. – Mansen respondeu.
- Não seria mais fácil tirar esse Alec da jogada? Já que vocês já têm provas contra ele? – perguntei.
- Alec é uma sardinha. Se quisermos pegar os tubarões, temos que agir sem sermos notados. – Alice respondeu.
- E por que, exatamente, temos que sumir de NY? – Emmett questionou.
- Porque aquele desgraçado parece mais um polvo do que uma sardinha. Seus tentáculos estão por todo o FBI, é só uma questão de tempo pra ele nos localizar aqui ... Dizer que estamos agindo em desconformidade com as normas, tomar para si o curso dessa investigação e incluir, ele mesmo, Edward e Bella no serviço de proteção a testemunhas. – Mansen estava desanimado.
- Daí, ele teria controle sobre tudo, inclusive sobre nossas vidas. – Emmett entendeu o X da questão.
Tombei meu corpo no encosto do sofá e fiquei estática.
- Mas que droga, Jasper! – Rose falou exasperada – Quem é que manda nessa porra? Alec ou M?
- Calma, Rose. – ele advertiu – Você sempre trabalhou no escritório daqui de NY, por isso você nunca percebeu o clima de rivalidade entre Alec e M.
- Alec é o segundo cara mais forte do FBI, Rose. – Alice prosseguiu na explicação – Quando saiu a nomeação para Diretor Geral do FBI, feita pelo presidente da república, todos achavam que seria Alec Hartman e não M. Goleman.
- Então, foi um chute no saco dele, quando saiu a nomeação ... A-HA-HA-HA-HA – a risada ruidosa de Emmett ecoou pelo escritório – Eu tava lá ... A-HA-HA-HA-HA ... Ele ficou com cara de xana ... A-HA-HA-HA-HA
Tá, com essa a gente riu pra valer. Só mesmo o Emmett pra conseguir nos fazer relaxar mesmo nos momentos mais críticos.
Ai, meu Deus! Xixi!
- Gente, licencinha ... – falei já me levantando
Corri pro banheiro e voltei correndo também, tínhamos coisas sérias pra resolver ainda.
- Perdi alguma coisa? – falei ofegante enquanto me sentava no sofá.
- Só Alice dando uns foras no Mansen ... – Emmett falou zombeteiro.
Mansen pigarreou alto e prosseguiu.
- Então, Rose, o clima entre M e Alec nunca esteve tão pesado ... Por isso, M não quer tomar atitudes drásticas. Além de chamar a atenção para nós, Alec iria tomar isso como uma ofensa pessoal e isso prejudicaria mais ainda as investigações.
- M precisa deixar Alec se sentir ‘o rei da cocada da preta’. – Emmett falou.
- Claro. Até porque uma pessoa acuada muda seus padrões de comportamentos. Precisamos que Alec continue agindo como se nós não existíssemos. – Alice continuou.
- Freud explica. – Mansen ironizou e ela estirou a língua pra ele.
- ‘Entre tapas e beijos, é ódio, é desejo, é sonho, é ternura’ ... – Emmett cantarolou uma música estranha.
A-HA-HA-HA
A-HA-HA-HA
Emmett e Rose desataram a rir. Eu olhei pra Ed e ele não entendeu nada também. Alice segurava o riso e Mansen lançava olhares homicidas para Emmett e para sua irmã.
- O que é isso? – perguntei.
- Ah! É um brega-sertanejo ... Não é do seu tempo, Bella ... – Rose explicou.
- DÁ PRA VOLTARMOS PRO ASSUNTO EM PAUTA? – Mansen rosnou.
Caraca! Ele ficou puto com a musiquinha! Todos nós olhamos pra ele com atenção.
- Precisamos dar um tempo, sair de NY. Pelo menos até que M consiga as novas identidades de Edward e Bella. – ele continuou – A pergunta é: para onde vamos?
- A casa de praia em Martha’s Vineyard. – Ed falou.
- Todo mundo sabe que os Cullen têm uma casa lá. – Rose descartou a idéia.
- Hotel? – guinchei.
- Chamaria muita atenção. – Emmett respondeu.
- Canadá? – Ed chutou.
- Não somos agentes lá. – Mansen respondeu.
- ZION!!! – Alice gritou e deu um pulo do sofá – Vamos para Zion!
- ZION?! – dissemos em coro.
- É a fazenda dos meus pais ...
- Alice, você não acha que o Texas é meio que, tipo, dentro da toca do lobo? – Rose perguntou.
- Ah! Não! Eu morei em Galveston, no Texas, com meus pais biológicos, até os 5 anos de idade. Os Jones me adotaram e eu fui morar com eles no norte da Georgia.
- Onde? – Emmett questionou.
- No condado de Wilkes. Fica a 2 horas de Atlanta, próximo à fronteira com a Carolina do Sul. – ela sorria ao falar de sua terra.
- Fica a quanto tempo daqui? Naturalmente iremos de carro, não é? – Rose perguntou.
- Umas 14 horas. O trajeto é fácil, pela I-81 S, tem em torno de 830 milhas.
- Alice ... Você não acha que poríamos em risco a segurança de sua família? – questionei.
- Não, Bella. Meu pai é um pastor batista aposentado e minha mãe, uma enfermeira também aposentada, da primavera ao outono, a mansão da fazenda é uma pequena pousada e também existe uma cooperativa de produção de algodão na fazenda, então o fluxo de gente entrando e saindo é grande ... Eu sou a filha dos donos da fazenda que está de férias e resolveu ...
- Viajar com os amigos ... – Rose completou.
- Mas vocês dois serão Edward Smith e Isabella Smith. – Mansen sentenciou.
- Seremos irmãos? – Ed arqueou uma sobrancelha.
- Não! Serão órfãos! – Alice se levantou e começou a andar, de um lado pro outro – Mansen, acho que estamos pensando a mesma coisa ...
Ela sorriu pra ele.
- Quando eu tava na faculdade de Psicologia, fiz estágio não remunerado em um orfanato de Berkeley ... Fiz muitos amigos por lá. – Alice sorria ao vislumbrar seus planos.
- Muitos órfãos acabam sendo adotados pelo padre que dirige a instituição. – Mansen nos explicou com calma – Então vários deles têm o mesmo sobrenome. – ele se virou e olhou pra Alice – Parabéns, Brandon, esse plano é brilhante.
- Mas Alice ... Bella tem razão. Não seria fácil para Alec nos encontrar lá? O risco para a sua família ...
- Não, Edward. – Alice interrompeu – A Jones’ Farm pertence a Solomon Jones, meu pai adotivo. Eu não tenho o sobrenome Jones ...
Parecia que a própria Alice tinha tocado num assunto delicado pra ela mesma, ela baixou a cabeça e fitou o chão. Então, eu vi uma coisa I-NÉ-DI-TA. Mansen, numa demonstração de afeto, envolveu os ombros de Alice, abraçando-a com ... carinho. Sim, tenho certeza que foi CARINHO, no mínimo.
Rose sorriu quando viu a cena e eu também. Depois, Mansen se lembrou de onde estava e voltou ‘ao normal’.
- Gente, quando devemos partir? – perguntei.
- Logo. – Mansen respondeu.
- Bella, temos pouco tempo. Por sorte as coisas que estavam na mansão Swan já estão na loja da tia Mandy.
No último final de semana, os funcionários da loja da tia de Alice trabalharam intensivamente, pegando cada item da mansão Swan que poderia ter alguma chance de ser vendido. Roupas, bolsas, perfumes, bijuterias, objetos de decoração, tudo seria vendido na loja. Alice combinou com sua tia que dali a alguns dias, ela entraria em contato informando o número de nossa conta corrente para recebermos o dinheiro.
Antes de despedir a Nettie, oficialmente, ela também trabalhou muito, trazendo pra cá todos os objetos de arte, faqueiros de prata e mais um monte de coisas de valor. Pegamos todos esses itens e os levamos ao bunker onde também deixamos todos os objetos de valor da mansão Cullen. Pegamos também os nossos quadros que trouxemos de Boston, então tudo o que era importante já estava no bunker. Susan e Ruth até estranharam a intensa movimentação que houve. Ed apenas explicou que faríamos uma longa viagem e que queríamos apenas guardar os objetos de valor.
- Então, devemos nos apressar. – Rose falou – Bella, sugiro que todos nós almocemos cedo e enquanto isso, eu posso te ajudar a fazer as malas de vocês ...
- Eu também ajudo ... – Alice se prontificou.
- Todas as malas, Bella. – Mansen sentenciou – Vocês dois sairão da Georgia já com as suas novas identidades e com uma nova vida pela frente. M disse que assim que possível se encontrará conosco onde quer que estejamos. Ele só precisa de mais um pouco de tempo para contornar Alec e conseguir trazer Zafrina Senna para o nosso lado.
- Vamos pegar só o necessário. – Alice ordenou.
Meu coração perdeu uma batida e eu me encostei em Edward que me abraçou. Seu toque era gelado, pude perceber seu pânico. Respirei fundo, pedi a Deus coragem e falei.
- Vamos, Edward. – me levantei mas ele permaneceu estático – Edward? – seus olhos estavam parados – Edward? – me inclinei um pouco e toquei em seu rosto com ambas as mãos, ele pareceu ‘acordar’.
- Amor, precisamos nos mexer. Agora. – beijei sua testa – Tudo vai ficar bem, Edward.
Ele deu um sorriso forçado e assentiu. Caminhamos em silêncio até a sala, Mansen e Emmett começaram a fazer ligações de seus celulares, enquanto eu, Alice e Rose fomos até a cozinha.
- Susan, Ruth, vocês precisam se apressar. O almoço terá que ser servido logo. – ordenei.
- Mas Srta. Swan ...
- É sério, gente. Estamos com pressa. – falei seca – Aliás, preparem também lanches para nós seis. Sanduíches, sucos, barrinhas de cereal, ponham tudo em cestas e caixas térmicas .
As duas assentiram, eu, Rose e Alice subimos as escadas em direção ao quarto. Ed já estava lá, separando algumas coisas dele.
- Edward, eu vou pegar todas as malas que eram de Esme e de Carlisle. Enquanto isso, pegue as suas malas também. – ele entrou no closet e saiu de lá com um jogo completo de malas.
Quando entrei no quarto de meus sogros, uma nova onda dor, saudade e medo me atingiu e eu me escorei na parede para não cair. Ainda fiquei imóvel, tentando controlar a respiração por um bom tempo. Nessa hora, Edward entrou no quarto que era dos seus pais.
- Bella, você tava demorando e ...
Ele me olhou de cima a baixo e seus olhos ficaram alarmados.
- BELLA! BELLA! – suas mãos sacudiam meus ombros levemente – Fala comigo, amor!
- To bem ... Edward ... – murmurei – Vamos.
Saímos do quarto carregando um conjunto de malas cor de cereja, que deviam ser de Esme, e outro azul marinho. Cada um deles tinha 3 malas e 2 frasqueiras, iguais as de Edward, só que as dele eram pretas.
- Amor, agora pegue tudo o que é seu. Tudo o que você acha que vai ser necessário para a nossa nova vida. – falei quando ele parou à minha frente.
- Mas Bella, eu ... sou péssimo fazendo malas ...
- Ed, não tenho tempo pra cuidar de 9 malas e 6 frasqueiras! – falei exasperada.
- Tá, desculpa. – ele murmurou.
- Bella, tenha calma. Respire. – Rose sugeriu.
Respirei fundo.
- De novo, Bella. – respirei mais uma vez – Agora, você vai jogando em cima da cama tudo o que pretende levar e nós duas vamos arrumando as malas. OK? – Alice sugeriu.
Eu apenas assenti e murmurei um ‘obrigada’.
- Nem vai ser tão difícil assim ... As malas que trouxemos de Boston não foram desfeitas. – Rose lembrava de uma coisa importante – Então, só temos metade da tarefa pra terminar.
Entrei no closet e Ed me seguiu feito uma barata tonta, comecei a jogar vários cabides nas mãos dele. Ele ia até a cama e jogava tudo lá, depois voltava e eu fazia tudo de novo. Passamos uns trinta minutos nesse vai e vem até que tudo terminou. Era a vez de pegarmos itens menores, separei uma frasqueira vermelha e outra azul, peguei a minha nécessaire e a de Edward, peguei também um kit de primeiros socorros.
- Amor, vou ao bunker agora, pegar nosso dinheiro e nossos documentos falsos. – ele me deu um selinho e entrou closet a dentro.
Aproveitei e peguei também o nosso minicofre onde estavam nossos documentos verdadeiros e as minhas jóias. Quando Ed voltou, em menos de cinco minutos, juntei tudo isso e coloquei numa mochila.
- Ed, não podemos perder essa mochila de vista. OK?
Ele me olhou sem entender nada.
- Tudo o que é vital para nós está aí dentro, então não vamos desgrudar dela. OK?
- OK.
As empregadas foram bastante eficientes, quando terminamos de arrumar tudo, elas já tinham terminado o almoço e estavam apressadas em terminar de arrumar lanches para levarmos. Emmett ajudou Ed a carregar as malas e eu desci com a mochila nas costas.
Comemos com calma, depois todos nós descansamos um pouco, afinal a viagem seria longa. Depois do almoço, Edward falou diretamente com o Sr. Howard, por telefone, informando-o que partir do dia seguinte, nós não estaríamos mais em NY.
- Susan, Ruth, obrigada por tudo. – Edward falou solenemente – Por hoje vocês estão dispensadas, podem ir para casa. A partir de amanhã, o escritório de advocacia que administrará nossos bens entrará em contato com vocês.
AS duas assentiam e em seus olhos eu pude ver lágrimas discretas. É claro que aquelas senhoras gostavam de Edward, trabalhavam lá há muito tempo.
- Sr. Cullen ... Deus ilumine você e a Srta. Swan. – Susan falou.
- Adeus, obrigada por tudo, Sr. Cullen. – Ruth se despediu.
Depois que elas foram embora e enquanto nossos amigos-agentes estavam todos na sala de estar, pendurados ao telefone celular, tomando as ‘providências’ necessárias à nossa partida, eu e Edward subimos ao primeiro andar mais uma vez.
- Amor, por que estamos aqui de novo? – perguntei quando entramos no quarto de Esme e Carlisle.
- Estamos cuidando para que o bunker permaneça em segredo. – ele falou enquanto entrávamos no closet.
- Aqui, Bella. – ele me mostrou a parede falsa – Nesse ponto aqui há um dispositivo. Vê? – apontou para uma haste – São persianas de aço com 5 mm de espessura.
Edward ‘fechou’ a parede falsa com essa grossa persiana, saímos do closet e trancamos a sua porta, saímos do quarto e também traçamos a porta, não apenas com a fechadura comum, mas também com outra fechadura que, até então, eu nunca tinha reparado que existia ali. Fizemos a mesma coisa no outro quarto que estava vazio. Caminhávamos em silêncio, nossas mãos estavam entrelaçadas e entramos no quarto de Edward, nosso quarto. Fizemos todo o processo de novo mas dessa vez, foi muito pior. A tensão e a dor eram palpáveis entre a gente, era muito difícil se despedir não só do quarto, mas da casa toda.
- Nós vamos voltar, Bella. – Ed me abraçou e sussurrou ao meu ouvido – Eu, você e os pequenos Cullen que faremos. Nós ainda seremos muito felizes aqui.
Seu abraço era terno, sua voz era doce e quente. Beijei sua bochecha.
- A minha felicidade está em você, Edward. – sussurrei de volta – O lugar é só geografia.
Descemos as escadas e nossos amigos apenas nos assistiam mas eu podia notar várias mensagens em seus olhares. Rose olhava de nossos rostos para nossas mãos entrelaçadas e sorria timidamente, já o sorriso de Alice era mais amplo. Emmett parecia raciocinar sobre algo importante e Mansen estava agitado, olhando de nós para a porta, parecia um cachorrinho querendo pedir ao dono pra fazer xixi no quintal da casa.
Caraca! Xixi de novo! Corri pro lavabo e voltei correndo de novo.
Emmett havia alugado uma SUV preta e de vidros escuros, Mansen trocou o carro que tava por uma SUV idêntica. Alice e Mansen puseram doze malas (oito eram minhas e de Edward) no veículo deles enquanto Emmett, Rose, Edward e eu fomos na outra SUV. Edward carregava a nossa mochila e eu pus as duas frasqueiras ao meu lado no banco de trás, junto com duas caixas térmicas cheias de comida.
Quando já estávamos dentro do carro, não pude resistir e mais uma vez olhei para a imponente fachada de tijolos vermelhos e umbrais brancos da mansão Cullen. Aquela não era apenas uma mansão rica e imponente de mais de 200 anos, era um lugar que eu aprendi a amar, um lugar que sempre foi a minha segunda casa. Respirei fundo e tentei estancar as lágrimas que já caiam de meus olhos.
- Nós vamos voltar, amor. – Ed também olhava para trás e segurava em minha mão – Eu prometo, Bella.
Eu olhei pra ele e assenti, beijei sua mão e me aproximei mais dele. Ficamos ali, juntinhos, sentados no banco de trás, escoltados por agentes do FBI, que agora eram nossos amigos, rumo ao desconhecido. Encostei minha cabeça no peito de Edward e ele se encostou em mim também. Acho que estávamos cochilando, ou quase ...
Abri os olhos e Emmett dirigia, Rose estava ao seu lado, sempre em alerta.
- Mansen ficou meio puto da vida ... – Emmett comentou com Rose.
- Jasper já nasceu puto da vida! Não se preocupe. – ela respondeu e eu não tava entendendo nada.
- Não tinha necessidade de os dois fazerem essa viagem em carros separados ... Eles já têm tanto estresse ...
Emmett falou e eu entendi. Quando fomos à Boston seguimos em carros separados. Então Mansen queria que fizéssemos o mesmo agora.
- Jasper só estava tentando fazer as coisas certas ... – Rose defendia o irmão.
- Eu sei, não estou criticando a racionalidade dele. Só que, às vezes, é racionalidade demais. Se não fosse por Alice ... aquela baixinha é foda mesmo!
- É, só mesmo Alice pra ter coragem de contestar o ‘poderoso Mansen’ – Rose falou zombeteira.
Estávamos numa auto-estrada, a paisagem era só branca, neve de um lado e de outro. Os braços de Ed ainda me envolviam, talvez ele ainda estivesse cochilando.
- Gente, que horas são? Onde estamos? – falei baixo mas, mesmo assim, Ed acordou.
- São quase três da tarde, Bella. – Rose respondeu – Estamos em algum lugar da Pennsylvania.
- Eu ... eu preciso ir ao banheiro. – corei e baixei meu olhar.
Emmett e Rose me olharam de soslaio. Edward virou seu rosto e me encarou cheio de interrogações.
- Podemos parar em alguma lanchonete? – Ed sugeriu.
- Não. Daqui a uns dez minutos nós vamos passar por Allentown, uma cidade. Lá é seguro parar. Dá pra esperar, Bella? – Emmett perguntou como se eu tivesse cinco anos de idade, corei mais ainda e assenti.
Rosalie pegou o celular e imediatamente ligou pra Alice, ela e Mansen nos seguiam no carro de trás, dizendo que pararíamos na próxima cidade.
- Amor, você está com cistite? – Ed sussurrou pra mim.
- Não ... não sei Edward. Mas eu tenho feito muito xixi. Só pode ser estresse. Cistite pode ser causada por estresse? – perguntei, afinal o ‘quase médico’ ali era ele.
- Pode. O estresse pode desencadear várias doenças. – ele beijou minha testa – Mas a gente vai observar isso. Se persistir, procuramos um médico.
Pouco tempo depois, paramos numa lanchonete mas era dentro dos limites da cidade. Emmett ficou no nosso carro e Mansen, no outro. As meninas me acompanharam ao banheiro e Edward ficou, literalmente, na porta, esperando por nós. Quando Alice viu o óbvio, que Edward não poderia entrar conosco, ficou na porta também, ‘guardando ele’. Tudo isso não durou nem cinco minutos mas só o tempo de sair da auto-estrada e voltar pra ela, tomava mais alguns minutos. E então, a viagem que duraria quatorze horas, durou quase dezesseis.
- Hora do pic-nic, Bella. – Emmett falou quando entramos no carro – Passa pra cá qualquer coisa pra eu comer.
Entreguei-lhe um sanduíche de requeijão e peito de frango e uma garrafinha de bebida energética.
Paramos em mais algumas cidades e em todas elas eu fui ao banheiro, isso é patético, mas é verdade ... Quando a fome nos atacava, comíamos ali mesmo dentro do carro. Rose revezou com Emmett na direção, eu e Ed falamos pouco mas sempre nos tocávamos e nos abraçávamos.
Passamos por sete estados e à medida que deixávamos o norte, em direção ao sul, a paisagem ia gradualmente mudando, se tornando mais verde. Finalmente chegamos ao Condado de Wilkes às cinco da manhã do dia 20 de janeiro de 2010.
O pequeno pedaço da Georgia que eu pude ver, era coberto por florestas, muitos pinheiros, pessegueiros e magnólias, e apesar do rigoroso inverno no norte, aqui as folhas eram verdes. Da janela do carro pude ver que o sol se espalhava sobre montanhas modestas e alguns vales estreitos. O rádio do carro estava ligado e o locutor informou que a temperatura local estava em 8°C, tava frio mas pelo menos não nevava. O carro de Alice e Mansen nos ultrapassou, na certa ela queria indicar o caminho até o Condado de Wilkes.
Seguindo Alice, pude perceber que estávamos, tipo, entrando num túnel do tempo. O lugar parecia congelando no tempo, parado no século XIX, o ambiente era muito bucólico e lindo. À nossa esquerda já havia uma linda fazenda e à direita, um pequeno bosque. Mais alguns minutos e avistamos uma placa Jones’ Farm, cruzamos um imenso portão de ferro e só havia uma estrada de terra batida e árvores dos dois lados. Muitos carvalhos, salgueiros, pinheiros e ciprestes davam àquela propriedade uma beleza peculiar. Mas o mais encantador estava ainda por vir, a grande mansão da fazenda. Ela era imensa, branca e imponente, parecia uma ilha branca, perdida num mar de verde.
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| Mansão da Fazenda Jones |
O sol brilhava discretamente sobre a varanda da casa, nela, dois jovens, altos e fortes, além de um casal de meia-idade esperavam por nós com sorrisos enormes nos rostos. Alice estacionou o carro ao lado da imensa fonte onde um lindo querubim de mármore jorrava água de sua boca, Rose estacionou o nosso carro atrás do de Alice.
- FILHA!!! – a mulher gritou e correu em direção ao carro, antes mesmo de Alice sair dele.
- Mama Grace! – Alice foi ao encontro do abraço materno.
Então era isso, Alice foi adotada por um casal de negros. Sua mãe era alta, forte, seios fartos, os cabelos curtos e bem grisalhos e possuía um lindo sorriso. Era uma mulher de meia-idade muito bonita.
- Meu anjinho ... – o pai de Alice caminhou em sua direção e colocou-a no braço, giraram num abraço muito bonito.
O homem tinha a pele mais escura que já havia visto na vida, era magro e alto, quase dois metros de altura, eu acho, cabelos brancos, óculos de grossas lentes e também exibia um sorriso de pura satisfação.
- Que saudades, filha! – ele exclamou depois que separaram os braços.
- Eu também tava, papai. – ela beijou sua face e pegou em sua mão, se aproximou mais de sua mãe e pegou na mão dela também – Venham conhecer meus amigos ...
Nós ainda estávamos meio que hesitantes, em pé, ali no jardim. Os três se aproximaram e eu sentia minhas pernas tremerem ...
- Mamãe, papai, estes são meus amigos do FBI, Jasper Mansen, sua irmã, Rosalie Hale e Emmett McCarty – à medida que Alice ia falando, seus pais iam nos cumprimentando - E esses dois aqui são Edward e Isabella Smith, são os amigos de quem lhes falei.
- Sejam todos bem-vindos. É uma alegria recebermos os amigos de nossa filha ... – O Sr. Jones parecia ser muito simpático.
- Sim! Fiquem à vontade, meus jovens. – a Sra. Jones fez uma mesura com as mãos, nos convidando a entrar – Acredito que todos vocês estão cansados ...
Todos nós assentimos fervorosamente pra ela.
- Então, deixem que os rapazes lhes ajudem com as malas e vamos todos lá pra dentro. – pegamos tudo rapidamente e a seguimos – Vou levá-los até seus quartos, durmam o quanto quiserem. Depois, sigam o cheiro bom de comida. Na cozinha, uma refeição quentinha estará esperando vocês.
Subimos as escadas, carregados de malas, os dois jovens ajudaram Edward com a NOSSA bagagem, eu estava com a mochila nas costas. O silêncio era apenas a prova de nossa exaustão física, mesmo com o dia já claro não seria difícil dormir. E nesse momento, dormir era tudo o que eu mais queria.
- Aqui. – a Sra. Jones parou diante de uma porta – Um quarto duplo para o Sr. Mansen e o Sr. McCarty.
- Obrigado, Sra. Jones. – eles murmuraram em coro.
- Srta. Hale, uma cama quentinha lhe aguarda na próxima porta. – a Sra. Jones falou afetuosamente, Rose sorriu pra ela e assentiu.
- Filha, descanse e quando acordar, quero conversar com você.
A mãe de Alice falou e ela apenas assentiu. Fiquei imaginando se o assunto da conversa seria eu e Edward ...
- Isabella e Edward ... o quarto de vocês é mais adiante.
Ed me olhou preocupado, eu acho, e teria entrelaçado nossas mãos se ele não estivesse carregando as malas, caminhamos em silêncio, ela parou diante de uma enorme porta.
- Deixem as malas aí dentro e podem se retirar. Obrigada, meninos. – ela falou para os dois jovens.
Eles murmuraram um ‘com licença’, eu e Ed murmuramos um ‘obrigado’.
- Meus filhos, tentem descansar ...
A Sra. Jones se aproximou mais de nós dois e tocou em nossos rostos ao mesmo tempo.
- Alice me ligou ontem de manhã, dizendo que viria passar uns dias conosco e que traria um grupo de amigos, dentre eles, um casal em especial. – sim, ela estava falando de nós dois – E eu não sei bem como expressar em palavras o que eu sinto agora, mas sei que vocês dois são importantes para ela ... Então também são importantes para a mãe dela.
Eu fiquei boquiaberta com a atitude da mãe de Alice! Que pessoa maravilhosa ela é! Seu sorriso e sua voz serena renovaram minhas forças, minhas esperanças.
- Obrigada! – falei emocionada.
- Muito obrigado, Sra. Jones. – Ed falou.
Entramos no quarto, Edward fechou a porta e ficamos encantados. As paredes tinham um papel de parede amarelo claro muito bonito, os móveis eram no estilo colonial, em madeira cor de chocolate. A cama era enorme, de madeira entalhada, sobre ela, um lindo edredom cor de marfim, estampado com flores lilases e inúmeros travesseiros e almofadas me convidavam para um cochilo. Ao lado da cama havia uma cômoda bem espaçosa e mais à direita, um modesto guarda-roupa. Próximo a uma imensa janela, havia um sofazinho de dois lugares em tecido marrom. Eu tava tão exausta que me sentei lá e fiquei olhando pro nada por um bom tempo mas pela minha visão periférica, pude ver que Ed entrou numa porta.
- Bella ... – ele me chamou – Amor? – chamou de novo.
- Oi ... – em minha cabeça, toda a confusão dos últimos dias se passava em câmera lenta.
Minha resposta foi vaga, então ele caminhou até mim, tirou a mochila das minhas costas e me fez levantar.
- Vamos ... tomar um banho e dormir.
Não sei como, só sei que Edward me deu banho e tomou banho também. Tenho a ligeira impressão que ele prendeu meus cabelos de qualquer jeito, tirou minha roupa e me arrastou pro box do banheiro com ele ... A água tava quente, disso eu tenho certeza. Depois me vi vestida em moletons fofinhos e deitada naquela imensa cama, envolvida nos braços dele. Devo ter ‘apagado’ em menos de trinta segundos ...
Mesmo com as cortinas do quarto estando fechadas, dava pra perceber que o sol lá fora já estava alto. Olhei pro lado e vi um despertador sobre o criado-mudo, eram onze e vinte da manhã, então dormi menos de seis horas. Meu corpo ainda tava cansado mas minha bexiga tava protestando ... isso de fazer xixi o tempo todo já tá tirando a minha paciência ...
Sai da cama com cuidado, pra não acordar Edward. ARGH! Que frio! Depois que cedi aos ‘apelos da natureza’, voltei para o quentinho do edredom e do corpo de Ed ... Meu amor, minha vida ... Se mais nada me restar nesse mundo, eu sei que Edward me restará. ‘Obrigada, meu Deus’, foi o que pensei. Fui chegando mais pertinho dele e instintivamente, eu acho, seus braços me envolveram de novo.
- Bella ... Amor – ele suspirou e resmungou mais alguma coisa ininteligível.
Sorri e fiquei meio estática, olhando seu rosto tão lindo, às vezes, é engraçado quando ele fala meu nome dormindo. Fiquei ali, naquela contemplação toda ... Dormi de novo.
Acordei devido à ‘outro apelo da natureza’, dessa vez, meu estômago roncava que nem motor de carro velho ... Olhei pro relógio e eram quase duas da tarde, achei melhor acordar Edward.
- Ed ...
- Hum ... – ele fez biquinho.
- Amor, ta tarde - cheguei mais perto e sussurrei.
- Hum ...
Bom, tava na cara que eu teria de usar de ‘meios nada convencionais também’. Comecei a beijá-lo bem devagarzinho, meus lábios roçavam os dele com delicadeza. Num instante, Edward passou a corresponder ao beijo com força, desejo, paixão. Suas mãos se prenderam ao meu rosto com firmeza e eu me agarrei aos seus cabelos com determinação. O motor velho que passou a ocupar o lugar de meu estômago, rangeu de novo. Edward sorriu com seus lábios ainda nos meus.
- Amor ... deve ter um leão ai dentro ... – falou zombeteiro enquanto passava a mão pela minha barriga.
Nos trocamos rapidamente, vestimos jeans e camisas de flanela xadrez, saímos do quarto em silêncio. Estávamos meio tímidos, afinal, não havia sinal de Alice, Rose, Emmett e Mansen pela casa. Descemos as escadas, nossas mãos entrelaçadas. Mesmo tímida, meus olhos corriam pela casa que era muito bonita.
O corrimão da escada parecia ser de ferro fundido, cheio de detalhes rebuscados que lembravam aqueles desenhos clássicos de folhas de louro. O piso, não só da escada, mas de toda a casa (pelo menos até por onde eu passei), era de mármore marfim. Já do meio das escadas pude reconhecer a voz de nossos novos amigos e também a inconfundível risada de Emmett.
- Boa tarde! – corei porque todos olharam em nossa direção.
- Boa tarde a todos. – Ed também falou.
Rose, Alice, Mansen, Emmett, os pais de Alice e uma outra mulher negra estavam na sala de estar, porém, esta última estava sentada no chão, aos pés da mãe de Alice. Pareciam conversar despreocupadamente. Todos nos cumprimentaram e a mãe de Alice se levantou, caminhando em nossa direção.
- Oh! Minhas crianças, eu estava esperando vocês dois acordarem ... Tem um lanche bem gostoso aguardando vocês lá na cozinha ...
E mais uma vez eu me vi encantada com o carinho e a simplicidade da Sra. Jones. Sua boca e seus olhos sorriam afetuosamente para nós.
- Obrigada. – corei mais ainda – Nós não queremos incomodar ...
- Pode deixar mamãe, eu levo os dois até a cozinha. – Alice se levantou também e em seguida, a mulher negra que eu ainda não conhecia, seguiu Alice.
- Eu vou ajudar. – a mulher falou e se dirigiu até nós – Eu sou Joanne Eleanor Hudson ... Sou a irmã mais nova de Grace ... Sou tia de Alice!
Ela falava com reverência mas eu pude perceber que o sorriso meio estranho de seu rosto mostrava claramente que ela não era uma pessoa mentalmente normal. Sua pele era morena clara, seu rosto aparentava a idade de uns 40 anos, seus cabelos pretos estavam arrumados em pequenas traças espetadinhas. Ela usava um vestido verde claro, de mangas compridas, por cima, usava um casaco de lã, verde escuro e nos pés, meias verdes.
- Jô, querida, calce seus chinelos ... Você vai pegar uma gripe ... – a mãe de Alice falou a irmã.
- Não, Grace! – ela se virou e falou com naturalidade – Hoje é quarta feira, dia de usar verde! Eu pedi chinelos verdes também ...
A Sra. Jones deu um meio sorriso em sinal de derrota e se calou.
Alice nos levou até a cozinha, caminhávamos num ritmo normal mas a sua tia Joanne, correu à nossa frente, gritando ‘Fannie, esquenta a sooooopa’.
- Não se espantem com a ti Jô. – Alice falou – Ela é especial ... Mamãe diz que o parto dela foi difícil ... Faltou oxigênio no cérebro dela ...
Chegamos a uma imensa cozinha, cheia de móveis escuros, no melhor estilo ‘cozinha de fazenda’ e encontramos uma cena engraçada, Jô estava fazendo cócegas numa senhora gordinha e bem morena, esta usava avental e uma touca na cabeça.
- Pára, Jô – a senhora se desmanchava em rir – Pára, Jô ...
- Tia Jô, não torture a Fannie ... – ela foi até as duas e tirou a tia de lá – Fannie, querida, esses são Edward e Isabella, os meus outros amigos.
- Olá. – a senhora falou timidamente para nós – Sentem-se.
Naquela hora da tarde não fazia sentido almoçar mas comemos um delicioso creme de abóbora com camarão, pãezinhos de aveia e café com leite. Enquanto comíamos, a tia de Alice não parava quieta, mexia nas panelas, abria a geladeira, mexia em vidrinhos de tempero ...
- Jô, pára quieta, menina ... – a cozinheira falou.
- Alice, sua tia está bem? – sussurrei depois que terminei de comer.
- Está. – Alice sorriu um pouco – Ela está ansiosa ... esperando vocês terminarem de comer.
- Por quê? – perguntei desconfiada.
- Ah! Ela estava doida ... Bom, ‘doida’ não é a palavra mais adequada. Ela está ansiosa para mostrar aos meus amigos as dependências da casa ... Mamãe havia dito que ela só poderia fazer o tour depois que vocês dois acabassem de comer ...
- PRONTO! – Jô veio depressa até nós e tirou, num átimo, o meu prato e o de Edward da mesa – VAMOS! VAMOS! UM PEDAÇO DA HISTÓRIA AMERICANA NOS ESPERA!
- Tia Jô ... tenha modos. – Alice ‘ralhou’ afetuosamente com a tia, esta apenas sorriu um pouco e assentiu.
- EMMETT, ROSALIE, TÁ NA HORA! – os berros de Jô ecoavam pela casa.
Emmett, Rose e Mansen apareceram rapidamente e formamos um pequeno grupo.
- Eu disse: Emmett e Rosalie. – ela fez cara feia para Mansen.
Caraca, Mansen ficou meio sem jeito.
- Oh! Jô, desculpe ... – ele sorria – Pensei que tinha sido convidado também.
- Claro que NÃO! – ela falou calmamente – Você já fez seu tour da outra vez que veio aqui ... E depois, eu to muito decepcionada com você, Jasper Mansen ... – ela levantou as mãos de Alice – Eu esperava que quando o visse de novo, fosse para reunir a família e colocar um anel de ouro nessa mão – levantou a mão esquerda de Alice – ou nessa, pelo menos – levantou a mão direita.
- Mas, Jô, por que você acha que a culpa é minha? – Mansen tentou se justificar.
- A culpa, nesses casos, sempre é dos homens. – ela falou naturalmente.
Todos nós assistíamos a tudo com muita atenção, pude perceber que Rose segurava o riso, Alice corava, Mansen estava sem ação e Emmett ... bom, Emmett explodiu numa ruidosa gargalhada que nos fez olhar pra ele.
- Boa, Jô. – eles fizeram um high five – É isso mesmo, não dê moleza pro Mansen, não!
Mansen olhou pra ele com olhar triplamente homicida e Rose, percebendo o perigo que Emmett corria, falou apressadamente.
- Vamos, Jô. Estou ansiosa pelo passeio ...
Caminhamos até a sala de estar, onde havia um quadro a óleo de um jovem senhor gordinho e grisalho.
“Essa casa é um exemplar do estilo neoclássico grego, foi construída em 1849, por Francis Jones, um irlandês produtor de algodão. A fazenda era a mais próspera de todo o condado de Wilkes, o velho Francis chegou a ter mais de 300 escravos na época. Mas ...”
Jô fez suspense e apontou para o quadro ao lado onde havia a imagem de uma linda morena, parecia com a Beyoncè, vestida num lindo vestido de época.
“ O cupido mandou uma flecha certeira para o coração do homem branco ... Ele se apaixonou pela jovem Susannah, uma negra muito bonita, gentil e delicada ... Ah! O poder do amor atingiu a ambos! Em 1868, quando a jovem ex-escrava tinha 18 anos, casaram-se. Tiveram onze filhos ... Tadinha, naquela época não tinha televisão em casa ...”
Todos nós rimos um pouco com esse enredo.
“Então, o resto vocês já sabem. O meu cunhado Solomon e seus irmãos, são os herdeiros da fazenda ... Pronto! Fim da história.”
Jô andou rapidamente e se sentou no sofá, nos deixando ali, parados.
- O tour já acabou tia Jô? – Alice e Mansen entraram na sala.
- Já. To com frio nos pés ... – ela falou e cruzou os braços sobre o peito.
Alice acendeu a lareira e todos sentamos no sofá também.
- Esta casa é mesmo muito antiga, meu pai e tios são os herdeiros. – Alice completou – Seu piso em mármore, os lustres de cristal austríaco e a madeira de nogueira das portas e janelas são originais. Os espelhos vieram da França e a prataria é inglesa. Essa casa tem mais de 800 m² e a sua área privativa, 2.000 m². Todas as janelas do andar superior possuem sacadas adornadas em ferro fundido. É uma linda casa ...
- Puxa, Alice, deve ter sido ótimo crescer num lugar tão grande e bonito. – Rose falou.
- Sim! Sem dúvida, tive uma boa infância ...
Naquele primeiro dia, jantamos cedo e dormimos cedo também, tudo ainda era um reflexo da longa viagem que fizemos. Na quinta-feira todos acordamos cedo e descemos para tomar o café da manhã. A linda mesa da sala de jantar estava repleta de comida eu pude testemunhas que as pessoas do sul são realmente hospitaleiras. Mas somente Jô estava sentada na mesa, usava um vestido em tecido leve e por cima, um casaquinho de crochê, ambos amarelos, lhe dissemos ‘bom dia’ e sentamos para comer .
- Onde estão mamãe e papai, tia Jô? – Alice perguntou.
- Na plantação ... Parece que o algodão esse anos vai ser bom ... Mas tem uns australianos que disseram que vão comprar tudinho ...
- A nossa fazenda produz três tipos de algodão, o normal, que é branco e ocupa 40% da área produtiva, o orgânico, que também é branco mas possui a vantagem de não provocar nenhum tipo de alergia, ele é muito usado para a confecção de roupas antialérgicas, porque seu plantio se dá, sem uso de fertilizantes, agrotóxicos ou resíduos químicos.
- O algodão colorido ... – Jô murmurou.
- Já o algodão colorido, que também é orgânico, ocorre nas cores marrom avermelhado e verde. – Alice terminou a explicação.
Puxa! Nunca poderia imaginar que existia algodão colorido!
- Alice, Grace mandou lhe avisar para avisar o aviso aos seus amigos ... – Jô falou numa enrolação danada.
- Qual aviso, tia Jô?
- Jantar especial, hoje à noite! – Jô escancarou um sorriso abobalhado e se levantou da mesa – Com licença.
- Jantar especial? – Rose perguntou.
-Ah! Toda vez que eu venho à fazenda, mamãe e papai organizam um jantar especial com toda a família. – Alice explicou.
- Esse é o ‘toda a grande família’? – Mansen arqueou uma sobrancelha.
- Exatamente.
Eu, Ed, Rose e Emmett resolvemos sair um pouco pra passear pela fazenda. Encontramos com um dos jovens que nos ajudaram com a bagagem.
- Bom dia! – ele falou sorridente e nos lhe respondemos – Meu nome é Abner, sou um dos empregados permanentes da pousada e posso lhes mostrar, sem andar muito, as partes mais bonitas da fazenda.
Sorrimos pra ele e assentimos, caminhamos em direção a um modesto morro, subimos sem grande dificuldade e de lá, podíamos ver toda a extensão da propriedade.
- Ali. – ele apontou para um pequeno pomar – Quando a primavera chega, as flores dos pessegueiros se destacam como nuvens delicadas e o cheiro nos faz lembrar do doce em calda que a Sra. Jones faz ...
Ele inspirou profundamente e fechou os olhos.
- Agora, do lado de cá, podemos ver os grandes campos de algodão. Em toda a Georgia, não existe solo argiloso melhor do que esse, a terra vermelha é bastante úmida, propícia ao crescimento do melhor algodão. Vocês precisam voltar aqui na primavera, quando os jasmins espalham seu perfume por todos os lados, quando as glicínias enchem as varandas da mansão e os tufos de murta cor-de-rosa crescem junto a magnólias e dentes-de-leão.
O cara falava com tamanho respeito que eu puder perceber que ele amava cada palmo de terra, cada árvore, cada pé de algodão daquela fazenda. De fato, a quietude bucólica daquele lugar era maravilhosa, olhei para os meus pés e percebi que não havia grama, e sim, trevos verdinhos.
Por todo o dia nós mal vimos os pais de Alice e a cozinheira Fannie, deviam estar preparando o tal jantar. Depois do almoço bateu um sono ... Tirei um cochilo revigorante e acordei com Ed me beijando na testa.
- Princesa ... Alice pediu pra avisar que o jantar será servido no salão de festas, às seis da noite e que devemos nos vestir com roupas bonitas e confortáveis. – Ed sorria torto, seu rosto estava a poucos centímetros do meu.
- Hum ... Ela disse isso mesmo? – perguntei curiosa.
- An-ham ...
Dei um selinho nele e olhei no relógio, já eram quatro e meia da tarde. Então eu dormi muito, de novo ... Tava parecendo o Soneca dos sete anões ... Tomei um banho, lavei meus cabelos ... senti falta de meu xampu de morangos. Deixei meus cabelos secarem naturalmente, dispensei a maquiagem e só usei gloss. Escolhi um vestido de veludo rosa magenta, uma pelerine cor de pérola, de tricô e lã e minibotas de saltos médios na cor marrom. Edward vestiu jeans claro, camisa de tecido branca e um suéter de tricô e lã preto.
Quando descemos, todos já estavam em volta da lareira conversando animadamente, não pude deixar de perceber que Jô usava um vestido longo em tecido brim, todo AMARELO, nos pés, sapatilhas levemente douradas. Então quinta-feira era mesmo o dia de usar amarelo ... Mais um tempinho depois e ouvimos buzinas de carro.
Muitas vozes se aglomeraram e de repente, uma multidão chegou de uma vez. Pude ouvir um festival de ‘Alice, querida, há quanto tempo’ e também muitos ‘Seja bem-vinda, querida’.
Pude contar rapidamente, umas catorze pessoas, eu acho e fomos apresentados a todos. Eu sorria e assentia, todos eram muito simpáticos mesmo, mas só pude memorizar o nome de uma linda menininha de longas tranças negras, olhos muitos vivos e dona de um lindo sorriso de marfim. Seu nome era Cynthia, ela era filha de uma prima de Alice e tinha cinco anos de idade.
O jantar foi muito agradável, depois, todos fomos para o jardim de inverno, onde tivemos uma linda surpresa. Jô apareceu com um violino nas mãos, um dos primos de Alice pegou (não sei da onde) uma flauta e outra prima apareceu com um violão. Nos sentamos todos nuns baquinhos de madeira que havia ali e todos começaram a cantar músicas sacras, tipo músicas de igreja mesmo. O som era tão gostoso, tão harmonioso ... me encostei no peito de Ed e senti suas mãos me envolverem.
- A noite está muito agradável ... Sim, o Senhor Jesus nos proporcionou um lindo jantar em família ... – o pai de Alice ficou de pé e falou solenemente.
Alguns exclamaram ‘Aleluia’ e ‘Graças a Deus’ mas nada que pudesse se confundir com aquelas igrejas onde as pessoas gritam. Daí, me lembrei que o pai de Alice era pastor ...
- Nossa Alice está entre nós novamente ...
‘Glórias a Deus’ – alguém murmurou.
- E trouxe seus agradáveis amigos com ela – ele se virou para nós – Meus filhos, sim, eu digo ‘meus filhos’ porque tenho idade de ser o pai de vocês, isso aqui não é uma reunião religiosa ... – ele sorria calmamente – Mas é assim que nossos jantares em família terminam ... com certeza nós não queremos catequizar ninguém ...
- Não se preocupe, Sr. Jones. – Rose falou por nós – Estamos gostando muito e pra ser sincera ... Temos passado por grandes momentos de estresse ... Se a paz de Deus puder nos ajudar ...
Rose falava com muita convicção e sinceridade.
‘Jesus é fiel’ – alguém exclamou.
‘Deus está você, filha’ – uma senhora sorridente falou.
E então, não só Rose mas eu creio que todos nós apreciamos muito aquele momento de música gospel. Uma paz muito necessária invadiu a minha alma, a respiração de Edward era suave contra meus cabelos, ele devia estar gostando também.
O tempo começou a passar mais rápido desde que chegamos naquela linda fazenda. Percebi que Ed estava menos tenso, menos cabisbaixo, eu também me sentia melhor. Era como se o ar daquele lugar pudesse me renovar, me curar, aos poucos.
No sábado, Jô estava vestida num lindo macacão florido, todo na tonalidade lilás, então esse deveria ser o dia de usar lilás ... Alice e Rose já estavam animadíssimas na varanda da mansão, esperando por mim.
- Vamos, Bella ... – Rose estava impaciente.
- Pra onde? – perguntei confusa.
- Bella, você é muito bobinha ... – Jô falou e eu segurei o riso diante de tanta ironia – No jantar você concordou que hoje iria ao Cora’s Coiffure ...
- Foi? Falei?
Jô revirou os olhos e balançou a cabeça em sinal de desaprovação.
- É, Bella. A tia Cora e minhas primas Mary Violet, Mary Hellen e Mary Dayse são proprietárias de um salão de beleza ...
- Numa fazenda? – perguntei.
- Nossa! Alice, onde você encontrou uma amiga tão bobinha?
Jô perguntou com espanto e Emmett rachou de rir ao nosso lado. Ed deu uma tapa no ombro dele e ele murmurou um ‘Ai’.
- Em Washington, Bella, a cidadezinha mais desenvolvida do condado. – Alice revirou os olhos.
- Hoje será um dia só de garotas!!!!!! – Jô começou a pular e a bater palmas, Alice só pode ter adquirido esse hábito dela.
- Dia de garotas? – Ed falou e estreitou o olhar.
- E de garotos também, cara. – Emmett falou – Vamos sair por aí, espairecer um pouco ... Tomar umas cervejas ... Afinal, estamos numa casa de pastor! – ele sussurrou essa parte – Nada de álcool ...
- EMMETT! – Rose falou exasperada – Por que você não ver se Jasper já está pronto?
Dei um selinho em Ed e nos abraçamos, até que a idéia não era ruim ... Um dia de garotas, num salão de beleza ... Tirando a saudade que eu ia sentir de meu amor, o resto seria legal.
- Vou morrer de saudades ... – ele sussurrou ao me abraçar.
- Eu também. – respirei fundo, aspirando seu cheiro gostoso – Te amo.
- Eu te amo mais. – ele sorriu baixinho.
No carro, nós três conversávamos animadamente, Alice dirigia e Rose ia no banco de trás ao meu lado. As ruas da cidade tinham um discreto movimento, nada que denotasse que a cidade tivesse um comércio muito desenvolvido.
- Ali, Alice. – Rose apontou para o sinal de trânsito – Pare naquela farmácia, preciso comprar meu colírio antialérgico ...
Nós três entramos no estabelecimento e eu me lembrei do meu xampu de morangos, talvez eu pudesse comprá-lo. Caminhei rapidamente por entre prateleiras de produtos de higiene pessoal com Alice em meus calcanhares, me escoltando ...
PAREI! ARFEI!
Tive um insight, uma vertigem e senti uma tremedeira enorme nas pernas. Cai sentada no chão e fiquei olhando para aquelas dezenas de pacotinhos azuis que pareciam pular diante meus olhos.
- Bella? – Alice guinchou – BELLA! BELLA! BELLA! – Alice gritava e me sacudia.
- O que foi, Alice? – Rose correu até nós.
Eu conseguia ver tudo, toda a movimentação das duas ao meu redor, me guardando, me protegendo do que quer que fosse ... Mas eu não podia responder ainda, eu tava fazendo contas.
Contando ...
Contando mais...
Contando de novo ...
- Pelo amor de Deus, Bella! Fale com a gente ... – Rose estava desesperada.
- Atrasada ... – falei num fio de voz.
- Hãm? – as duas disseram em coro.
- Minha menstruação está 15 dias atrasada ...
As duas olharam espantadas pra mim e embora nada mais fosse dito, eu sabia muito bem o que já estava acontecendo comigo. Instintivamente, pousei as duas mãos sobre o meu ventre e sorri e chorei ao mesmo tempo.
Um misto de amor, medo, esperança e preocupação brotaram em meu peito. Eu já me sentia carregando a coisa mais preciosa do mundo ...

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