Milagre Pessoal
POV EDWARD
“Estávamos em Paradise, o pôr-do-sol era musical... coloria o céu de rosa e lilás e pintava o mar num tom de laranja quente e familiar. Eu estava no escritório da nossa empresa de pescados e enquanto trabalhava me sentia ansioso, volta e meia eu olhava através da imensa janela que dava para a pequena praia próxima à Casa dos Cullen, sim, eu procurava algo. Então meu coração perdeu uma batida, voltou a bater como um cavalo de corrida e se desenlaçou em amor... Em meu rosto um sorriso atravessou as feições e meus olhos se prenderam às duas mulheres da minha vida. Com seus passinhos ligeiros, pulando e fazendo festa para a água do mar que batia em seus pezinhos, nossa pequena fazia sua celebração para o pôr-do-sol... Seus cabelos eram lindos, num tom meio acobreado como os meus, mas as madeixas terminavam em lindos cachos como os cabelos de Bella. E quando ela sorria? Ah! Quando ela sorria, exibia as mesmas covinhas do sorriso de Emmett, seus olhos eram como pequenas trufas de chocolates, aconchegantes e macios, iguais aos da mãe... Isabella... Ela caminhava a passos lentos e ritmados, seu barrigão da gestação avançada indicava que os Cullen ganhariam mais um herdeiro, mas um fruto de nosso amor singular. Bella sorria para a nossa menina e dizia em sua voz doce ‘não corra tanto, princesinha’, mas não conseguia dar bronca na filha, na verdade, ela sorria enternecida para a criança à sua frente. Já em frente ao píer, a pequena corria em direção ao escritório, adentrava apressada e se jogava em mim...
- Papai! Papai Edward... que saudade de você!
Ela se agitava em meus braços, sujando minhas roupas com a areia da praia e me enchendo de beijinhos. Eu inspirava contra o perfume de seus cabelos e me deliciava com o cheirinho de morangos... Morangos como os cabelos da mãe! Mãos delicadas tocaram em meu braço, causando arrepios em mim, aquele era o toque de meu milagre pessoal. Desviei um pouco da atenção em nossa filha e lhe dei um beijinho cálido enquanto acariciava o outro bebê, protegido em seu ventre.
- Oi, princesa. – sorrimos - Como foi o dia de vocês? – eu olhava intensamente para seus olhos chocolates.
- Lerdo... sentimos falta de vocês! – ela sorriu.
E como se fosse para confirmar o ‘vocês’ que Bella tinha acabado de dizer, ouvimos o apito abafado do barco de Emmett e seguimos apressadamente para o cais. Nossa pequena acenava euforicamente para o barco e quando conseguiu distinguir a figura de Emmett dos demais homens na embarcação, gritou a plenos pulmões:
- PAPAIIIIII... PAPAI EMMETT!
Ainda no barco, Emmett acenou para nossa menina e acionou o apito mais uma vez, fazendo-a sorrir de alegria. Minutos depois, a garotinha cheia de energia migrava de meus braços para os braços de Emm, enlaçando o pescoço dele com seus bracinhos delicados e dizendo suas saudações infantis. Ela nem ao menos de importava com o cheiro de peixe em suas roupas!
- Pegou um peixe grandão pra mim, papai!?
- O maior de todos, meu bebezinho...
Ele a enchia de beijos, enquanto que com uma das mãos, chamava Bella para junto e si, depositava um beijo leve em seus lábios e acariciava um imenso volume em sua barriga.
A movimentação e o barulho dos empregados no pequeno cais de nossa praia nos pôs em marcha novamente... De mãos entrelaçadas, nós três seguimos o caminho de volta até a nossa casa, sendo guiados pela pequena princesa que seguia animada à nossa frente e que mostrava ao mundo com a sua graça e beleza, que Paradise não é apenas o lugar onde estamos, mas, principalmente, as pessoas a quem amamos.”
(...)
- Vamos acordar!? – aquela doce voz familiar me arrastava do mundo inconsistente dos sonhos – Ed! – ela me deu uns beijinhos no rosto e eu sorri ainda de olhos fechados.
- Cadê, esse mané já acordou?
Era a alegre e ruidosa voz de meu irmão e pelo cheiro da loção pós-barba, aposto que ele tinha acabado de tomar banho. Quando ele me chamou de mané, não segurei mais o riso e gargalhei de verdade, abri os olhos e orbes chocolates me fitaram, nossos rostos estavam a poucos centímetros, ela passou uma perna por cima de mim, segurei em suas coxas e nos beijamos. Naquele beijo eu queria dizer a Bella sobre o meu sonho lindo, dizer a ela tudo o que o futuro reservava para nós... Sei que não consegui, porque não sou telepata, mas o roçar do quadril dela no meu, conseguiu animar meu amigão! Ciente da ânsia de nossas línguas numa dança de paixão flamejante e dos impulsos de nossos sexos se tocando, ela interrompeu o beijo e inspirou profundamente. Sorrimos.
- Por que você sorria tanto enquanto dormia?
- Porque tive o sonho mais lindo do mundo... – minha voz me traiu, descarregando toda a minha emoção – Você é o meu sonho mais lindo.
Aquela conexão mágica que abate os apaixonados tomou conta de nós, foram cinco segundos eternos, por fim ela suspirou, se levantou e me puxou com ambas as mãos.
- Vem, amor, vamos tomar banho, temos aula em uma hora!
Emm se aproximou de nós, beijou o topo da cabeça de Bella, deu uma tapinha em sua bunda e socou meu braço de leve antes de soltar uma pérola.
- Vou fazer o café, tamo todos atrasados... – ele sorriu – Sei não... outra noite como essa e Bella acaba com a gente!
Nossa maluquinha corou até a raiz dos cabelos e nós três nos lembramos na maravilhosa noite. Mesmo com a intensa nevasca de começo de Dezembro que já caia sobre a cidade, em nossa cama tinha calor e amor suficientes para derreter qualquer iceberg.
- Engraçadinhos! – ela fez careta e mordeu o lábio inferior – Não fiz nada sozinha!
Pra ganhar tempo, não tomamos banho juntos e em cerca de 20 minutos nos sentávamos à mesa para um arrojado café da manhã preparado por Emm... Tinha pão, queijo, frutas, cereal, café, leite e tudo o mais que gostávamos e me arrisco a dizer que sempre vivíamos morrendo de fome!
- Hum... – Emm murmurou com a boca cheia de pão – Qual é a programação do dia hoje? Você vai precisar de alguma carona, bebê?
- Ah, hoje eu tenho aquela entrevista de emprego na escola. – ela falou despreocupadamente – Mas é no meio da tarde... Acho que vou ter que pegar um ônibus.
- NÃO! – eu e Emmett falamos em coro.
- Posso te emprestar o carro. – completei.
- Ou a Lucille, tanto faz. – Emm falou.
- Não gosto disso! – ela ficou séria de repente – Vocês são meus amores, não são meus motoristas e também não tem a obrigação de me emprestarem os carros sempre que eu precisar sair. Já protelei muito isso, tenho aquela grana guardada e hoje, se Deus quiser, vou conseguir a vaga de emprego. Preciso comprar um carro!
Ela falou num tom de voz decidido e ao mesmo tempo fofo e desafiador, parecia uma menina de cinco anos fazendo birra com os pais! Mesmo assim, falar naquele dinheiro me dava nos nervos.
- Não gosto daquele dinheiro! – meu irmão fechou a cara.
- Nem eu.
Falei bem menos que Emmett, mas minha voz saiu cortante com aço, Bella desviou o olhar de sua tigela de cereais e seus lábios se contorceram numa caretinha.
- Também odeio aquela grana. – ela empurrou a tigela para o lado e afastou a cadeira – Com licença, perdi a fome...
Ela nos deixou na mesa e foi até a pia, apoiou os braços sobre a bancada, abaixou a cabeça e respirou fundo antes de falar numa voz sufocada.
- Odeio, odeio aquele dinheiro maldito, ele é como um atestado. Um atestado, entendem? Tenho vergonha dele, ele reflete... reflete o que eu não sou, mas reflete o que as pessoas entendem de mim... Uma garota perdida, jogada e usável. Às vezes... às vezes eu me sinto menos gente...
Ela não se virou para olhar para nós, tampouco tivemos coragem de ir até ela, eu sei que ela estava ressentida.
- Durante a minha vida toda, pessoas quiseram se aproveitar de mim, da minha condição... do fato de eu ser a filha de um alcoólatra e de uma drogada... – a voz sufocada deu lugar a um soluço, sim, ela chorava – Aos 12, eu pedi ao meu professor de matemática que, por favor, me explicasse melhor um assunto de álgebra, ele disse que no final da aula, iria repassar a matéria comigo e quando fui até a sala dos professores, ele tentou me acariciar, recolhi os livros às pressas e quando ele percebeu que eu ia gritar, apertou meu braço com força e disse ‘ninguém vai acreditar em você, Bella Swan, vão logo dizer que você inventou isso porque é uma garota traumatizada, espancada e abusada pelo pai bêbado’.
Ela girou em seus calcanhares e seu rosto banhado em lágrimas nos tirou da letargia, num movimento sincronizado, eu e Emm pulamos e nos postamos ao seu lado, abraçando-a ao mesmo tempo. A dor de Bella me atingiu como um soco e sem saber direito o que fazer, apenas afaguei seu rostinho de porcelana, tentando afastar suas lágrimas.
- A vida toda foi assim... – ela continuou – Quase todo mundo queria tirar vantagem de mim... ‘O pai dela vive de bar em bar... não há ninguém por ela’... umas pessoas diziam com uma falsa pena. Elas pareciam querer acreditar apenas que o Charlie era um péssimo pai, a Rennè tinha me abandonado e que a vovó não podia cuidar de mim. Outras pessoas queriam apenas me... usar...
Esta última palavra foi pronunciada com bastante rancor, minha princesa estava sofrendo.
- Não chore, meu bebê. – Emm usou toda a calma que tinha para falar suavemente – Nós estamos aqui e estamos para cuidar de você... para sempre... enquanto você nos quiser em sua vida...
- Sempre. – ela sussurrou - Eu amo vocês.
Ela se encostou a mim, depositando o peso de seu corpo no meu. Instintivamente, envolvi meus braços em sua cintura, trazendo-a para mim, mas uma de suas mãos estava entrelaçada na de Emm.
- Você nos completa, princesa.
Sussurrei em seu ouvido e ela virou um pouco o rosto para poder me encarar, seus olhos continuavam lindos, mesmo eclipsados pelas lágrimas. Ela tentou falar, mas toquei em seus lábios.
- Bella Swan... – inspirei profundamente – Você é a minha vida, agora... agora e sempre. Você foi feita da mesma fibra que nós, – apontei de mim para Emmett – você é forte, é corajosa, é honesta. E tem uma coisa, minha princesa, que eu observei em você. – ela se concentrou mais no que eu dizia – Você conhece tanto da dor, que é capaz de valorizar o AMOR da forma que ele merece ser honrado. Você é todo o amor que precisamos, Bella... é como, é como se fosse nosso milagre pessoal.
- Você foi feita para nós, bebê. – Emm completou – E nunca mais vamos permitir que as pessoas te machuquem. Desculpe pelo que eu falei, não vou mais tocar no assunto daquele dinheiro.
- Nem eu. – prometi.
- Eu também não. – ela sussurrou – Vou pensar no que fazer com a grana... – ela tentou sorrir, ficou na pontinha dos pés e me deu um selinho – Desculpem pelo meu chilique, - ela se desvencilhou dos meus braços e abraçou o Emm, beijando-o levemente – deve ser a TPM...
- Então, assunto resolvido. – aproveitei que ela estava mais relaxada – Você fica com o carro, me leva no albergue, depois vai para a entrevista de emprego e volta para me buscar quando puder.
- É melhor assim, hoje à tarde preciso visitar um laboratório de inseminação artificial de peixes, não sei a que horas volto. – Emmett completou.
Crise superada, partimos para a faculdade. E a manhã que havia começado feliz e tranqüila, com as lembranças do sonho doce povoando minha mente, acabou sendo maculada pela dor de minha Bella.
Jurei em meu coração cuidar de minha maluquinha por todos os dias da minha vida, ela nunca mais sentiria o desprezo das pessoas.
POV BELLA
Depois do meu momento ‘vergonha alheia’ no café-da-manhã, me senti bem melhor. Ta certo, reconheço que eu fiz um estardalhaço danado, mas já não conseguia segurar tanta coisa ruim em meu coração. Eu precisava desabafar... E quem melhor do que os homens da minha vida para suportarem aquela tristeza comigo? Edward e Emmett são meus melhores amigos agora, eu não poderia tentar levar aquilo tudo sozinha.
A dor e a vergonha eram como pedras imensas amarradas em meu pescoço, aquelas pedras faziam eu me sentir menos gente... Eu precisava que eles me ajudassem a carregá-las. Funcionou, joguei as pedras no abismo do passado, estão esquecidas agora.
Mal cheguei à sala de aula, minha amiga Angela sentou ao meu lado e disparou uma pergunta.
- Hum... Bella, vou entender se você não quiser falar, mas, ta tudo bem? Parece que você chorou... E eu fiquei preocupada. – ela franziu a testa - Os Cullen, eles não...
- Ah, não, ta tudo bem. – sussurrei e tentei sorrir – Obrigada por se preocupar Ang, eu tive um momentinho de tensão hoje de manhã, mas já passou. E quanto aos Cullen, MEUS CULLEN, - minha voz subiu umas oitavas e sorrimos – ah, eu não sei o que seria de mim sem eles...
Suspirei e acho que fiz um sorriso bobo porque a Ang riu um pouco mais alto e a professora, fez cara feia para nós.
Graças a Deus as aulas passaram voando, porque eu estava praticamente quicando de ansiedade para a entrevista de emprego e quicando de saudade dos meus amores. Almoçávamos juntos quase todos os dias, eram poucos os minutos, mas eram de puro prazer. Nada, nadinha mesmo se comparava a alegria, ao meu estado de êxtase quando estava perto do meu Edward e de meu Emmett.
Às vezes eu me pegava boba, pensando com os meus botões, agradecendo a Deus por um amor tão puro e perfeito como o nosso. Meus Cullen eram tudo o que eu mais amava na vida e em meu coração estavam gravados... Eu já não viveria sem um deles.
Enquanto me dirigia até o refeitório, percebi que quase corria pelos corredores, as pessoas até já olhavam meio espantadas para mim! Segurei o riso e me obriguei a andar num ritmo humano! Quase sempre eu era a primeira a chegar, mas quando fui em direção à mesa habitual onde sentávamos, Emm já estava lá. Meu amor lia um livro bastante grosso, mas como se houvesse um feitiço, uma química especial entre nós, assim que me aproximei, ele levantou o olhar e sorriu. Seus orbes azuis me varriam com paixão, escalando meu corpo com luxúria (me senti úmida na mesma hora), mas quando nossos olhares se encontraram, percebi também ali a ternura do seu amor por mim. Levitando na direção de meu Emmett, só me dei conta que Ed se aproximava quando ele me abraçou por trás e segurou meus livros. Emm afastou a cadeira para que eu me sentasse e nós três trocamos um sorriso cúmplice.
- Oi. – dissemos em coro e rimos. – Tava com saudades! – em coro outra vez e gargalhamos.