Rogai Por Nós
POV RENATA VOLTURI
Depois das minhas orações matinais, eu levantei da cama e me arrastei para o chuveiro. Mas um dia miserável se descortinava para mim. Miserável porque eu me sentia assim. Aro já havia saído para o seu gabinete no Congresso e eu me dei conta que havia dormido demais. Flora, minha personal assistant, adentrou em meu quarto, trazendo minha programação do dia.
- Bom dia, Sra. Volturi. – ela sorriu – Trouxe sua agenda. Hoje a senhora terá o almoço com suas irmãs.
Suspirei resignada. O almoço semanal que acontecias sempre às quintas-feiras, numa sala privativa da família Volturi, no Ritz-Carlton, no centro de Washington, quando eu tinha que aturar a presença de Jane e ouvir as lamúrias de Bree. Pobre Bree, minha querida irmã Bree...
Desde que minha doce e indefesa irmã percebeu os ‘benefícios’ dos calmantes e antidepressivos de tarja preta, ela nunca mais foi mesma. Bree se decepcionou muito com Marcus, seu marido e nosso tio, ele sempre vive cheio de amantes e nunca dá atenção à esposa. Sua vida se resume às empresas Volturi e aos quartos de hotéis onde ele transa, cada dia, com uma vagabunda diferente.
Suspirei. Eu e meu Aro temos alguns probleminhas (todo Volturi tem problema), mas nosso casamento é perfeito. Ele me ama e me respeita e nunca me deu motivos para desconfiar de sua fidelidade. E embora Jane viva dizendo que ele enche a minha cabeça com ‘enfeites’ e que nenhum Volturi do sexo masculino presta e ainda, que eu deveria chifrá-lo assim como ele me chifra, eu sei que tudo não passa de intrigas que surgem na mente pervertida de minha irmã mais velha.
Jane... Até onde, meu Deus? Até onde a maldade de minha irmã pode chegar?
Como eu fazia todas as manhãs, abri a Bíblia e fiz minha leitura matinal antes de tomar meu café da manhã. O texto bíblico não saiu da minha cabeça:
“Disse Jesus: vinde a mim todos aqueles que estão cansados e sobrecarregados e eu darei conforto a vocês”
Conforto... Onde, Senhor, haverá conforto para um Volturi na face da terra?
Nossas atividades peculiares, nossa lista de inimigos, nossa de executados... Não existe, segredos em nossa família e infelizmente eu sei de toda a verdade.
A verdade... A verdade é como um cobertor estreito e fino, ela sempre te expõe, ela sempre te envergonha, ela sempre te deixa com frio. E você não pode escapar dela! Porque, para onde você for, haverá esse cobertor maldito cobrindo seu corpo, mostrando as outras pessoas quem você é de verdade. E embora você disfarce o cobertor, usando roupas caras e brilhosas, mais dia, menos dia a casa cai e aí, todos verão seu sujo e remendado cobertor.
Esses pensamentos malucos e desconexos surgiam em minha mente enquanto eu tomava meu desjejum. Flora me interrompeu.
- Ligação para a Senhora, - ela me entregou o telefone – é a Sra. Jane Volturi.
Fiz uma careta e peguei o telefone.
- Alô.
- Venha para o Providence Hospital agora mesmo... Bree aprontou de novo.
- Bree?! Oh! Meu Deus?! O que foi que aconteceu?! Ela está bem?! – eu gritava perguntas freneticamente.
- CALE A BOCA!!! – o grito de Jane me fez paralisar – Ela tomou uns cinqüenta comprimidos de calmante e se trancou no banheiro de seu quarto. Hoje de manhã, o mordomo precisou arrombar a porta do quarto. – ela fez uma pausa – Venha logo e quando chegar à recepção dê seu nome discretamente para o segurança. Ele se encarregará de sua entrada pela porta dos fundos. A família precisa se preservar de um escândalo.
Eu praticamente voei para o quarto, troquei de roupa em tempo recorde e em vinte minutos cheguei ao hospital. Encontrei uma Jane frenética, andando pelo quarto de um lado para o outro, falando em dois celulares ao mesmo tempo.
Minha irmãzinha Bree estava pálida feito um papel e havia um monte de fios ligados a seu corpo. Ao seu lado, Todd o mordomo estava abatido e se encolhia a cada grito que Jane dava ao telefone.
Em meu íntimo eu sabia que a culpa era minha. Uma vez eu tive um probleminha emocional, um surto depressivo e Bree cuidou de mim. A pobrezinha ficou tão exausta, mental e fisicamente que, depois disso começou a fazer terapia e começou a tomar remédios controlados.
- Bree... Oh! Meu Deus, não... – chorei desesperada enquanto acariciava o frágil rosto de minha irmã – Fala comigo, mana...
Meu choro se tornou mais intenso, meu corpo todo tremia, eu estava descontrolada... Mãos pesadas viraram meu corpo e me sacudiram com força. Era Jane.
- CALE A BOCA! – ela rosnou – CALE A BOCA!
Calei. Aqueles olhos coléricos e enfurecidos trouxeram outra onda de tremores sobre meu corpo, engoli o choro e me deixei escorregar num sofá.
- Sua inútil! – ela praguejou – Eu preciso dar uns telefonemas agora, cale a boca!
Muda e desorientada, eu chorava baixinho enquanto ouvia Jane falando em italiano com alguém. Ela estava se informando sobre um ‘serviço’, ou seja, uma execução. Meu cérebro estava embaralhado, eu só pegava as palavras, Quebec, chalé, estação de esqui, fazer parecer acidente... Jean Louis... O novo amante dela?
- Jane, você é louca? – sussurrei quando ela terminou a ligação – Por que você fez isso?
- Saia, preciso conversar a sós com a minha irmã. – ela ordenou ao mordomo de Bree.
O mordomo murmurou um ‘com licença’ e saiu de bom grado, tenho certeza que ele queria manter distância de Jane.
- Ele estava infiltrado entre nós. – ela rosnou e se sentou ao meu lado – Tenho certeza disso! Ele foi mandado por alguém, talvez o FBI ou a Interpol. Tive que me livrar dele.
- Mas ele não era um fotógrafo canadense?!
- Um disfarce, Renata, um disfarce...
- Mas Jane, você não tem medo de ter mandado executar um inocente?
- Não existem inocentes, sua idiota! – ela rosnou – O que me lembra que seu querido...
Fomos interrompidas por uma leve batida na porta. Um médico alto, vestido num jaleco branco, pediu licença e entrou para falar conosco.
- Sou o Dr. Knox Mills, eu prestei os primeiros cuidados a Sra. Bree Volturi.
- Ela vai ficar bem, não é? – perguntei aflita.
- A alta dosagem de calmantes provocou uma parada cardiorrespiratória nela. – ele fez uma pausa – Seu cérebro passou muitos minutos sem oxigênio... Nós tivemos que ressuscitá-la e agora só podemos esperar para ver como seu organismo vai reagir.
- Ela está em coma? – sussurrei.
-Sim. – foi a resposta dele.
O médico ainda esclareceu algumas dúvidas de Jane e saiu do quarto. Tudo ficou silencioso por um bom tempo.
-Pobre Bree... – sussurrei – Ela não queria essa vida...
- Ah! Pare de se lamentar! – Jane falou exasperada.
- Por que Jane?! – falei em meio a soluços – Por que você é tão má, fria e distante? Você não tem sentimentos?! Você nem ao menos chorou quando a mamãe morreu e...
-Sentimentos?! Vou lhe dizer o que é ter sentimentos! – ela rosnou e fez uma pausa – Senti uma dor miserável quando eu tinha 13 anos e Caius, o nosso titio Caius, me estuprou e acabou com a minha vida quando me forçou a casar com ele... O que me faz lembrar de seu querido Aro!
Ela abriu a bolsa e jogou em meu colo um envelope. Com as mãos trêmulas, vi o que tinha ali dentro: três fotos de Aro aos beijos e abraços com Margareth, sua secretária. Ofeguei.
- Ta vendo?! Eu não disse... Seu Aro é tão sujo e miserável quanto qualquer outro Volturi...
-Mentira! Mentirosa...
Sai dali num rompante, meu segurança, que aguardava por mim, do lado de fora do quarto, se assustou ao ver meu estado e quando já estava na porta do elevador, fui interceptada pelo mordomo de Bree.
- Sra. Volturi! Sra. Volturi. – ele atropelava as palavras – Sua irmã deixou isso para a senhora.
Ele me entregou um envelope e deu as costas. Ainda no elevador, abri o pequeno envelope e reconheci a caligrafia de Bree:
“Disse Jesus: vinde a mim todos aqueles que estão cansados e sobrecarregados e eu darei conforto a vocês”
Isso é da Bíblia, não é?
Renata, perdoe sua irmã covarde, mas eu estou procurando meu descanso. Procure o seu também, minha irmã... Essa vida está nos destruindo!
Reze por minha alma.
Eu te amo.
Bree Volturi
Uma coincidência?! Bree me deu o mesmo texto da Bíblia que eu havia lido! Não, não era coincidência, era um sinal de Deus...
Já no carro, eu estava atônita, não sabia o que fazer.
- Para onde vamos, senhora? – Geoffrey, meu motorista me perguntou.
- Não sei, apenas dirija pela cidade.
Aquele texto da Bíblia não saia da minha mente... Dez minutos depois, eu já sabia para onde iria. Respirei fundo e rezei. Chorei de felicidade e me lembrei de outro versículo da Bíblia:
“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
- Geoffrey, siga para a Cathedral of Saint Matthew the Apostle.
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POV DE GREGORIO D’ALESSANDRO
- “Cordeiro de Deus que tirai o pecado do mundo, tende piedade de nós.” – repeti durante a missa – “Cordeiro de Deus que tirai o pecado do mundo, dai-nos a paz”
Mas uma manhã, mais uma missa... Ser o braço direito do Arcebispo não é fácil. Além do mais, essa catedral é muito movimentada! Mas esse é preço que eu pago para poder ser informante de TJ, afinal é aqui onde os católicos poderosos de Washington se congregam, poderosos como os Volturi e os King.
Depois da missa, eu estava na sacristia descansando um pouco quando o zelador da Igreja me interrompeu.
- Senhor... – ele falou humildemente – Está lá fora uma jovem que deseja se confessar.
- Ah! Diga a ela que a hora das confissões é de seis às sete da manhã. – resmunguei mal humorado.
O homem se aproximou de mim e sussurrou.
- É Renata Volturi...
Dei um pulo da cadeira e falei exasperado.
- Então a faça entrar, homem! Vamos! Rápido! E não interrompa nossa conversa!
A cara de Renata não era das melhores. Abatida, ela se jogou em meus braços e chorou como uma criança. Paciente, eu a fiz sentar num sofá e esperei que se acalmasse, isso demorou quase dez minutos.
- Oh! Desculpe, padre. – ela beijou minha mão – É que...
Ela falou sobre a overdose de Bree, a discussão que teve com Jane e a traição de seu marido. Tudo isso não era novidade para mim, mas meu copo todo ficou tenso quando ela falou que Jane mandou matar Jean Louis! Com muito custo, tentei disfarçar a dor de perder meu amigo.
- Oh! Padre, será que há salvação para mim?!
- Vamos rezar, irmã...
Pus a mulher para rezar um Pai Nosso, uma Ave Maria, um Credo... a Oração de São Francisco e mais um monte de coisas que veio à minha mente. Enquanto ela rezava, eu pensava...
Seu frágil estado emocional me deu a oportunidade necessária. ‘É agora, ou nunca!’, pensei. Preciso abordar novamente aquele assunto com ela. Peguei uma Bíblia e li um trecho do Evangelho de João, capítulo três. Nessa passagem, Jesus está conversando com um sacerdote chamado Nicodemos e oferece a este a oportunidade de nascer de novo.
- Nascer de novo, Renata! – sorri e falei com a minha voz consoladora e anasalada – Isso é o que Jesus nos oferece...
- Nascer de novo... – ela balbuciou, seus olhos, antes desfocados, se fixaram aos meus – Padre, qualquer pessoa pode nascer de novo?!
- Sim, certamente! Jesus dá essa oportunidade para todos...
- Até para um Volturi?!
- Até mesmo um Volturi, SE ele estiver disposto a pagar o preço...
- Qual é o preço, padre?! – ele me olhou atônita.
- Jesus disse: todo aquele que quiser me seguir, deve deixar TUDO para trás...
- Deixar tudo para trás... – ela repetiu.
Bingo! Isso, Renata, diga as palavras mágicas!
Houve um tenso minuto de silêncio. Meu coração estava aos pulos.
- Padre... – seu tom de voz ficou mais firme – Eu quero nascer de novo! O senhor ainda pode me ajudar?!
Disfarçando meu nervosismo e minha alegria, a fiz rezar outro Pai Nosso e outra Ave Maria. Depois pus uma mão sobre a cabeça dela e, num gesto sincero, abençoei aquela vida, rogando a Deus por sua segurança.
- Filha, posso ouvir os anjos cantando glórias lá nos céus... – uni nossas mãos – Vou lhe ajudar sim! – ela sorriu emocionada – Mas antes, preciso de um tempo.
- Quando tempo, padre?!
- Um mês. E ate lá, viva sua vida normalmente. Manteremos contato quando você vier se confessar, não se preocupe, não vou lhe abandonar.
- Obrigada, padre! – ela beijou minhas mãos com devoção – Obrigada!
Meia hora depois, Renata Volturi havia saído da igreja. Eu caminhei apressado para meu quarto, tranquei a porta, abri o cofre que estava dentro de meu guarda-roupa e tirei de lá um pequeno celular prateado. Disquei o número e ele atendeu no primeiro toque.
- Alô.
- TJ, sou eu, Gregorio... - sussurrei
- Novidades? – ele sussurrou.
- Já temos Renata Volturi. – sussurrei, mas minha voz denunciava toda a minha alegria e entusiasmo.
Missão quase cumprida.