Caçada (Parte II)
POV LILIAN MANSEN
As últimas semanas têm sido muito felizes para nós, desde que os Cullen (eu e William sabemos quem eles realmente são, mas fazemos questão de esquecer para não atrapalhar o disfarce) chegaram à nossa fazenda. Eles ganharam meu coração num piscar de olhos e me deram muitas lições de vida.
Como pode ser meu Deus? Como pode ser que haja tanta maldade nesse mundo? Eu fico pensando nesse jovem casal e pelo que Rose e Jazz me explicaram, os dois são herdeiros de alguns bilhões de dólares, estudavam em Harvard e eu mesma pude constatar que são lindos e muito apaixonados. Ou seja, tinham uma vida perfeita!
E aí, de repente a coisa desanda e de uma vez só eles perdem os pais de uma forma brutal e se tornam alvo de criminosos internacionais... Parece enredo de filme de 007, mas é a pura verdade! Somente pessoas tão boas poderiam, depois de tantos reveses, continuar sendo boas e somente um AMOR VERDADEIRO poderia resistir a tanta coisa ruim...
E os gêmeos? O que falar deles, então? Dois anjinhos tão lindos e fofos, com aquelas mãos gordinhas chamando a gente e com aquelas boquinhas quase sem dentes beijando a gente... Isso sempre derrete o meu coração! Eles são bebês muito lindos! Marie já me mostrou todas as fotos, desde o parto até agora e segundo ela, eles são a cara do pai quando era bebê!
Já era tarde da noite quando eu estava na cama, ainda acordada e pensando nessas coisas. Eu me sentia uma pessoa melhor depois que Tony, Marie e os bebês tinham vindo morar aqui. E por mais que eu deseje que esse pesadelo todo acabe logo, fico feliz por tê-los aqui. Não é só porque Rosalie e Jasper se tornaram seus amigos, não é só porque eles foram seus padrinhos de casamentos e serão os padrinhos dos gêmeos, mas é porque não tem como você conhecer esses dois e ficar imune ao amor que emana deles. É como se fosse uma coisa contagiosa mesmo e tenho certeza que Deus escolhe pessoas assim, pessoas para vir a terra e deixar sua marca por onde passam. Não importa o nome e sobrenome que já tenham usado Isabella e Edward são o tipo de gente que deixam sua marca nas outras pessoas.
Bocejei e sorri, adormeci pensando nisso.
“Eu estava caminhando pela fazenda, admirando a beleza de nossas mangueiras e seus frutos suculentos, quando percebi que Anthony e Thomas estavam um pouco mais à minha frente. Os dois estavam sentadinhos à sombra de uma árvore e brincavam com seus brinquedos coloridos. Apressei os passos para alcançá-los e quando cheguei diante deles, percebi que eram Rosalie e Jasper ainda bebês.
Como poder ser isso, se Rose é dois anos mais velha que Jasper? Perguntei para mim mesma e não tive tempo para pensar, porque meus filhos me chamavam com seus sorrisos e seus bracinhos gordinhos. Quando me estiquei para pegá-los, eu simplesmente não conseguia tocá-los, não conseguia envolvê-los em meus braços. Era como se eu fosse apenas uma imagem, um holograma... Desesperados e ansiosos, meus bebês choravam e chamavam por mim, mas eu não podia abraçá-los.”
- ROSE, JAZZ... – acordei gritando o nome de meus filhos e acabei assustando meu marido.
- O que foi, Lilian? – Will falou aturdido.
Pulei da cama e comecei a andar de um lado para o outro.
- Meus filhos... meus filhos... cadê eles?
Ele se levantou da cama e me fez parar, envolvendo meus ombros em suas mãos.
- Querida, nossos filhos estão bem, devem estar dormindo. A essa hora já deve ser quase de manhã na costa leste, venha cá. – ele me fez sentar na cama – Foi um pesadelo? – eu assenti com a cabeça – Quer me contar? – neguei – Venha, cá.
Ele me abraçou e me aninhou em seu peito, eu suspirei e parei de chorar.
- Devem ser seus instintos maternais aflorando. – ele sorriu um pouco – Sabemos que eles estão perto de concluir aquele trabalho e isso também me deixa apreensivo. – ele beijou o topo da minha cabeça – Mas também sabemos que eles são muito bons no que fazem e na verdade nem é tão perigoso assim...
Eu sabia que ele estava mentindo quando falou que na era tão perigoso assim, mas me deixei levar pelo seu desejo de me acalmar. Depois eu desci fiz um chá de camomila e fui para a sala de estar onde havia um pequeno oratório, acendi uma vela para Nossa Senhora e pedi a ela para guardar a vida de meus filhos. Quando deu três da manhã, liguei para Rosalie e pela sua voz, percebi que já tinha acordado a um bom tempo.
Conversamos um pouco, ele me garantiu que estava bem, trabalhando muito, mas estava bem. Falou mais uma vez da felicidade de viver com seu Emmett e pediu que eu não me preocupasse com nada.
Os dias se passaram, mas eu não esqueci o sonho, todos os dias eu rezava pelos meus filhos, nora e genro. Até que Jazz e Rose nos ligaram para dizer que estavam de malas prontas para viajar. Eles não nos disseram para onde iam e nem o que iriam fazer lá, mas deduzimos que tinha a ver com o Caso Volturi. Contamos a Marie e a Tony e eles ficaram felizes e apreensivos com a notícia.
Então meus pensamentos se voltaram para Jazz e Rose, eu sempre pedia a Deus para proteger meus filhos...
POV JASPER
Depois que eu e Alice voltamos de Albany e Rose e Emmett voltaram do Texas, marcamos um encontro com M num hotel barato do centro de Washington. Depois de receber todos os documentos que Martin W. Applegate entregou e depois de ouvir o relato de nossas atividades, M estava muito feliz e confiante.
- As provas que Applegate guardava são o suficiente para a justiça autorizar o pedido de quebra de sigilo fiscal e bancário. – ele sorria - Vou ao gabinete da Procuradoria Federal ainda hoje...
- Não, não! Dê-nos mais um tempo. – falei apressadamente.
- Por quê? – ele inquiriu.
- A caçada ainda não acabou. Renata Volturi nos disse onde e como capturar Alec Hartman e Giovanni Volturi, seu próprio pai.
Então eu e Emmett nos dispusemos a falar tudo o que Renata disse sobre as operações dos Volturi na Colômbia, inclusive relembrando ao próprio M que um destacamento do exército americano já esteve em solo colombiano liderado por Alistair Collins, o general suspeito de assassinar Tyler Crowley quando Ben Chenney lhe falou do Dossiê Volturi há quase dois anos atrás. O que Renata falou fazia todo sentido. Alistair Collins deve ter conhecido líderes das Farc quando esteve em missão na Colômbia e deve ter sido fácil vender armas e munição para o grupo guerrilheiro ‘via exército americano’. Mas agora que as ações americanas na selva colombiana diminuíram, o próprio Alec Hartman tinha sido incumbido por Caius Volturi para ir à Colômbia e negociar com Pancho Villa, o relações públicas da facção guerrilheira, uma grande remessa de armas e munição.
- Vocês têm certeza que Alec vai mesmo para a Colômbia? – M perguntou.
- Pelo que Renata nos disse, essa viagem está programada há certa de quatro meses. – Emmett respondeu – Será uma grande venda, mas acontecerá quase dentro da selva, não teremos chances lá.
- E não é só isso. – Rose completou – Da Colômbia, ele irá para a Tríplice Fronteira. Pelo que Renata descreveu, o Hezbollah e o Hamas têm muitos simpatizantes nas mesquitas espalhadas pela Tríplice Fronteira. Eles querem comprar especificamente 18 mísseis Hellfire...
- Mas esses mísseis são guiados por satélite. Como os terroristas vão...
- Esse subtipo de míssil é guiado por laser e pode ser operado facilmente. – Alice falou e M olhou para ela espantado – Isso foi Renata quem disse... – ela completou.
- Esses mísseis deveriam ser transportados de navio, atravessando o Atlântico, passando pelo Estreito de Gibraltar, cortando o Mar Mediterrâneo, até chegar à costa leste da Síria, onde SERIA desembarcado num porto clandestino da cidade de Salib-al-Turkman. – Rose olhou para o relógio antes de continuar – Isso deveria acontecer daqui a 15 dias, mas NÓS não vamos deixar.
- Como vocês vão agir na América do Sul? – M perguntou.
- Eu e Rose vamos para lá. – Emmett respondeu.
- Sim porque da ultima vez que nos encontramos com Alec Hartman, - Alice interrompeu - eu e Jasper estávamos disfarçados de funcionários do cassino dos Volturi em Las Vegas, no Réveillon 2009-2010 e não queremos correr o risco de ele nos reconhecer.
- COMO EU IA DIZENDO... – Emmett fuzilou Alice com um olhar - Eu e Rose vamos para a América do Sul, mas não vamos para a Colômbia, infelizmente não temos como impedir a venda das armas às Farc. Nosso destino é Foz do Iguaçu no Brasil, estaremos disfarçados de turistas e vamos seguir os passos dele, e se possível queremos que a Interpol brasileira siga a pista Said Al-mashier. Pelo que Renata falou, ele virá pelo Brasil, desembarcará no aeroporto Internacional de Guarulhos, na cidade de São Paulo e seguirá para Foz de Iguaçu de carro, atravessando a Tríplice Fronteira como qualquer cidadão comum.
- Al-mashier... esse nome não me é estranho... – M falou aturdido.
- Você deve estar se referindo a Moussa Al-mashier, irmão mais velho de Said, procurado pelo FBI na década de 80. – expliquei – Moussa foi acusado pelo nosso governo de tráfico de drogas e de financiar o Hezbollah com dinheiro e documentos falsos. Ele foi preso pelo FBI em 1992 na Ciudad del Leste e extraditado de volta pra cá.
- Said Al-mashier é um comerciante libanês ‘acima de qualquer suspeita’, ele é o... bem... um tipo de representante comercial dos líderes do Hamas e do Hezbollah, além disso, ele tem importantes contatos comerciais em Ciudad del Leste, no Paraguai. – Rose respondeu – O que descobrimos, pesquisando nos próprios arquivos do FBI, é que o Al-mashier já morou aqui nos Estados Unidos na década de 90, quando ele foi considerado suspeito por um seqüestro mal sucedido de um ônibus escolar em New Jersey. Em 1999 ele foi deportado para o Líbano... Já temos até umas fotos dele... – Rose pensou alto – Sabemos que Alec vai entrar em contado com Al-mashier... Renata nos disse que os dois negociam armas há mais de cinco anos.
- E vocês pretendem prendê-lo na Tríplice Fronteira? – M perguntou.
- Sim, mas para isso precisamos de cooperação da Interpol no Paraguai, na Argentina e no Brasil. – Emmett respondeu – Na Ciudad del Leste, no Paraguai Alec deve se sentir fora do alcance da lei e fechará negócio com os suposto comerciante islâmico sem se importar muito com a discrição.
- Isso é apenas suposição McCarty...
- Renata nos disse que ele está acostumado a lidar com os grupos islâmicos. – Rose respondeu – Essa será a quinta vez que ele irá ao Paraguai e todas as vezes ele se hospeda no mesmo hotel, almoça nos mesmos restaurantes e fecha negócio sempre num lugar público.
- É aí que vamos pegá-lo! – Emmett socou a própria mão.
M suspirou e revirou os olhos, como se estivesse achando nosso plano muito maluco, depois ele olhou de mim para Alice e apontou:
- E vocês dois? O que vão fazer em Ceuta?
- Prender Giovanni Volturi e, de quebra, fechar seu cassino clandestino! – Alice falou toda saltitante, como se estivesse contando uma história fabulosa.
- E vão agir sozinhos? – M arqueou uma sobrancelha.
- Gregorio nos disse que basta um telefonema seu e a Interpol espanhola nos porá dentro do país e ainda fará com que a polícia local em Ceuta trabalhe conosco. – Alice respondeu – Pelo que ele disse, jogos de azar são um pecado descrito no Alcorão...
- Vocês entendem os riscos de trabalhem com policiais desconhecidos? – nós quatro assentimos para ele – Agora me expliquem uma coisa: por que eu tenho que esperar por vocês para poder apresentar as denúncias de crime eleitoral e caixa dois?
- Porque queremos caçar todos os ratos de uma vez só! – Alice respondeu e eu cutuquei suas costelas, hoje ela estava impossível!
- Se a justiça acatar as denúncias que o FBI fizer agora, pegaremos somente os coadjuvantes e serão apenas indiciados pro crimes eleitorais e fiscais. Mas isso fará com que os braços poderosos dos King e dos Volturi se encolham até a poeira baixar. – fiz uma pausa e M assentiu – Assim que Rose e Emmett prenderem Alec Hartman e eu e Alice prendermos Giovanni Volturi, vamos telefonar para você. Daí você vai até o Procurador Geral da República e o Secretário de Defesa, apresenta a eles todas as provas, inclusive os vídeos de Viktor Kasalavich e os áudios de Renata Volturi com os ‘depoimentos’ deles.
- Trabalhando dessa forma, os King e os Volturi sofrerão um duro golpe por todos os lados. – Rose acrescentou – O tempo de reação deles será lento...
- O país vai parar com tantos mandatos de prisão... – pensei alto.
- Bella e Edward poderão voltar para casa! – Alice cantarolou e bateu palminhas como uma criança serelepe.
Depois de tomarmos todas as providências necessárias e nos certificarmos que M, TJ e Gregorio fizeram os contatos necessários com agentes da Interpol na América do Sul e no norte da África, arrumamos as malas e relembramos todo o plano.
Nada poderia dar errado...
Falamos com nossas famílias e lhes contamos da viagem e para não matar nossas mães do coração, não lhes dissemos nossos destinos. Foi melhor assim.
No avião, de NY a Madri, eu repassava os planos na minha cabeça enquanto Alice ressonava tranqüila ao meu lado. Quando chegássemos a Madri, Alfonso Quiroga, agente da Interpol espanhola nos recebeu no aeroporto e nos despachou para um vôo doméstico com destino a Algeciras, cidade ao sul da Espanha, na província de Cádiz.
Assim que descemos do avião e pegamos nossas bagagens, sentimos o calor do meio-dia no verão às margens do Mediterrâneo. O ar ali era salgado, marinho e tudo ao nosso redor destacava a linda fusão das culturas árabe-hispânica, desde os traços nos rostos das pessoas até a arquitetura local. Alice estava inquieta com seus cabelos agora longos, mas devidamente presos e escondidos numa peruca que imitava perfeitamente seus antigos cabelos curtinhos e espetadinhos para todas as direções. Segundo ela, aquela peruca fazia um calor danado! Mas eu também estava sofrendo com o calor, já que usava um colete com enchimento para me deixar mais gordo, bem mais gordo. E aquela barba postiça tava me tirando do sério... Sem contar que os óculos de grossas lentes me fazia parecer um virgem de 40 anos...
Nosso disfarce era de turistas australianos, Sr. e Sra. McGregor, professores de história, então carregamos no sotaque britânico para poder disfarçar bem. Um taxista falante pegou nossa bagagem e nos levou até o porto, de onde embarcaríamos dali a duas horas para Ceuta.
O pior é que o taxista parecia uma versão espanhola-masculina de Alice e graças a ele e a seu inglês impecável, eu fiquei sabendo que o nome ‘Algeciras’ vem do árabe e quer dizer al-jazeera e isso, no meu idioma quer dizer ‘a ilha’. Mesmo sem saber como fazer uso da informação, ele me disse que o porto de Algeciras era o 5º mais movimentado da Europa e o 1º da Espanha...
Quem...? Quem perguntou...
Mas a versão espanhola de Alice não parou por aí e conseguiu cansar a beleza da Alice original, esta enxugava o suor da testa com as costas da mão e balançava nervosamente seu pezinho esquerdo.
- Como é que se desliga esse cara? – ela sussurrou.
- Não se. – sussurrei de volta – Estou com você há mais tempo e ainda não aprendi a te desligar...
Ela me lançou um olhar mortal e eu percebi que tinha dito merda.
- Hoje vocês farão uma travessia tranqüila pelo Mediterrâneo, - o taxista soltava o verbo – os ventos estão constantes e o mar está calmo... Ah! – ele se virou um pouco para nós – Estamos na terra do nosso ilustre famoso guitarrista, Paco de Lucía...
Alice olhou para mim e por uma fração de segundos eu pude ler sua mente: Paco de quem?
Assim que nos livramos no taxista, almoçamos num restaurante do porto, numa ala apinhada de turistas, a maioria eram portugueses, um cara-de-pau, sentado na mesa à nossa frente começou a flertar com a minha mulher e eu quase joguei a faca de mesa que estava em minha mão na sua cara de rapariga!
Até que a viagem de barco foi agradável, o assento era confortável e eu cochilei durante o trajeto. Alice ficou meio enjoava e chupou um pedacinho de limão pra não colocar o almoço para fora...
POV ALICE
Deus do céu! Esse barco não para de balançar, não?
Cruz-credo... vou... Argh! Chupei um pedacinho de limão e o enjôo passou... Depois de termos pago a fortuna de 50 euros para travessar o Estreito de Gibraltar eu esperava um barco um pouquinho melhor. Tipo, eu queria um barco que não balançasse!
‘Agüenta firme, Alice, esse suplício só dura uma hora...’, disse para mim mesma e comecei ler sobre Ceuta no guia turístico que eu havia comprado no porto em Algeciras.
Estávamos indo para uma cidade autônoma, um pedacinho da Espanha em plena África e isso me cheira a resquícios do colonialismo europeu do mesmo jeito que Gibraltar é um território britânico ultramarino encravado do finalzinho da Espanha, no extremo sul da Península Ibérica. Reza a lenda que Ceuta pertence à Espanha há mais de 500 anos!
Bom, deixando as questões territoriais de lado, Ceuta faz fronteira com o Marrocos e com o Mar Mediterrâneo e sua população de pouco mais de 75 mil habitantes é na maioria islâmica e de origem marroquina. O que me leva a crer que será muito conveniente para mim e Jasper comprarmos algumas roupas que muçulmano usa. Afinal precisaremos escapar de Ceuta num piscar de olhos e sem levantar suspeitas quando ‘a casa’ de Giovanni cair! Mas não deve ser tão difícil de escapar de um lugarzinho de apenas 23 km²...
Pelo menos eles falam espanhol e não teremos problemas de comunicação. Se bem que Ibrahim García, chefe da polícia local com quem vamos trabalhar para pegar Giovanni Volturi, fala inglês fluentemente.
Quando dei por mim, estávamos chegando e eu acordei Jasper, ele ficou mal humorado, mas depois se orientou.
Desembarcamos em Ceuta no calor de uma tarde de verão e nos deparamos com uma linda, estranha e pequena cidade deslumbrante, cheia de cores e contrastes, cheia de mistérios... Os rostos morenos dos árabes com suas túnicas e turbantes se misturavam com europeus, muitos deles turistas. Ceuta e seu mar azul, suas palmeiras e seu sol parecia um paraíso exótico!
Depois que pegamos nossas poucas bagagens, fomos orientados pelos funcionários do porto para termos cuidado com nossos pertences e somente pegar taxis credenciados. Mas fazia parte de nosso plano descumprir essas regras, por isso, atravessamos a movimentada avenida, cada um arrastando uma mala com rodinhas e levando uma mochila nas costas e paramos para comprar água mineral num bar de aparência duvidosa.
O disfarce consistia em sermos vistos em lugares duvidosos mesmo... Assim, foi fácil pegar um taxi clandestino (a tarifa era mais barata) e seguirmos para o hotel onde Ibrahim García nos encontraria logo mais a noite.
Tudo foi muito bem articulado com a Interpol espanhola e esta, por sua vez, acionou a polícia de Ceuta que acolheu a denúncia. O cassino, além de ser clandestino, era ponto de venda e consumo de êxtase e cocaína e um lugar onde garotas de programa, muitas delas ainda adolescentes, atendiam seus clientes.
- Bom dia, eu sou Carlo, seu criado. - o taxista falou num inglês cheio de sotaque – Para onde vamos?
Jasper lhe passou o endereço do hotel e enquanto o homem percorria avenidas, becos e vielas, aumentando descaradamente o percurso até o hotel, ele se pôs a falar sobre as belezas naturais do lugar. Meu cérebro captava suas palavras, mas meus olhos observavam cada pequeno detalhe das esquinas das ruas, fingindo muito calor, eu abri ao vidro do carro. Vi mulheres usando xador, captei seu jeito de andar, seus trejeitos com as mãos, vi os minaretes das mesquitas, senti o cheiro dos temperos quando passamos na frente de um mercado público. O carro dobrou uma rua e seguimos pela avenida principal onde das sacadas dos hotéis de luxo os turistas apareciam. O taxista falou sobre o Monte Hacho, que segundo a mitologia, seria um dos pilares de Hércules, e depois ele falou que devíamos visitar as Muralhas Reais. Jasper lhe fez uma proposta e lhe estendeu uma nota de 20 euros.
- Na verdade, queremos outro tipo de diversão... Viemos da Austrália somente para conhecer o que tem de melhor em Ceuta...
Ele se virou e olhou para nós meio desconfiado, depois sorriu, pegou o dinheiro e disse:
- Vou ver o que posso fazer por vocês...
Sorri para ele e o homem piscou os olhos várias vezes. Sim, até agora tudo estava dando certo, de acordo com Renata os taxistas clandestinos eram as pessoas certas para nos levar ao cassino. Assim que chegamos ao hotel, Jazz pagou ao taxista e este se esticou para falar próximo ao seu ouvido.
- Tire um tempo para conhecer a cidade com a sua senhora. Daqui a dois dias, nessa mesma hora, eu virei aqui para lhes dizer se consegui um roteiro turístico adequado...
- Tenho certeza que você vai conseguir... – Jazz lhe deu outra nota de 20.
Naquela primeira noite, conforme o combinado com a Interpol, pedimos o jantar no quarto do hotel e por volta das oito da noite, Ibrahim García entrou pela porta dos fundos do hotel e veio até nosso quarto. Na conversa sussurrada com o chefe da polícia local, ele nos mostrou vários mapas da cidade e várias rotas de fuga. Nós lhe dissemos que Renata Volturi não sabia a localização exata do cassino do pai, mas que dali a dois dias estaríamos lá dentro. Ele saberia como nos achar graças a um moderno e minúsculo aparelho de GPS colocado em nossas roupas. O meu se confundia com um broche de strass em formato de coração e eu o colocaria no fecho frontal de meu sutiã (acima de qualquer suspeita). Jasper usaria o seu nas abotoaduras de seu paletó, mas quando eu lhe disse que abotoaduras era coisa de velho gagá, ele fez cara feia para mim! Bem, o importante é que o GPS de tecnologia israelense, usado pelos agentes secretos do Mossad, funciona bem!
Fizemos o que o taxista falou, em parte porque tínhamos que manter o disfarce de turistas, em parte porque começamos a notar que um homem alto, forte e sisudo estava nos seguindo. Com certeza era um capanga de Giovanni Volturi...
Essa foi mais uma das dicas que Renata nos deu: qualquer cliente em potencial do cassino de seu pai era discretamente vigiado por alguém antes de freqüentar o local. Eu me espantei com a rapidez deles e tive certeza que o taxista já tinha falado de nós para eles.
Visitamos o Parque Marítimo do Mediterrâneo, no centro da cidade, um lugar lindo com lagos de água salgada, quedas de água, fontes muitas palmeiras. Fizemos compras em lojas de artesanato e como parte de nosso plano, compramos roupas árabes e algumas bugigangas da cultura local. Comemos em restaurantes onde a mistura cultural nos oferecia deliciosos frutos do mar e bacalhau português, tapas espanholas e a marcante cozinha árabe.
Em nosso quarto de hotel, o ambiente era lindo e isso me fazia esquecer um pouco do mundo lá fora. A cama de dossel era enorme e toda envolta num fluido e transparente tecido marfim, marfim como o teto, os lençóis eram de seda e as almofadas multicoloridas contrastavam com as paredes azul turquesa. Na segunda noite, depois que chegamos do charmoso restaurante La Paloma e depois de um passeio refrescante pela orla, enquanto Jazz tomava uma chuveirada, eu enchi a banheira com sais de banho de hortelã e gengibre e me esqueci de tudo o mais ao meu redor.
A noite quente fez meu namorado entreabrir a janela, fazendo com que as cortinas brancas balançassem com a brisa do mar. O quarto estava à meia luz e quando eu apareci em seu campo de visão somente usando uma transparente camisola cor de rosa, ele sorriu e se aproximou de mim como um caçador.
- Hum... – ele inspirou contra meu pescoço – Cheirosa...
Gemi de prazer ao sentir seus lábios em minha pele e por constatar que seu corpo já estava excitado por mim. Os lençóis de seda receberam dois corpos apaixonados, as cortinas da cama testemunharam o amor e ouviram nossos arquejos e suspiros entrecortados de prazer. O suor grudou nossos corpos e nos embates de nossas carnes, o lençol escorregou no chão, o prazer nos invadiu e nos acalmou, por fim dormimos...
Como prometido, na tarde do dia seguinte o taxista veio nos procurar e nos disse que naquela noite nos levaria a um lugar especial com diversão garantida. Jazz lhe perguntou o que teria lá e ele disse:
- Não estamos em Las Vegas, mas sabemos como nos divertir...
Eu lhe dei um daqueles meus sorrisos, ele ficou bobo e Jazz lhe deu outra nota de vinte euros. Às oito da noite eu usava uma linda kafta lilás de seda, longa o suficiente para se transformar num xador quando eu colocasse o véu de mesmo tecido lilás. O GPS já estava ligado e preso no meu sutiã. Fiz uma maquiagem carregada no rosto, marcando bem os olhos, mas na minha bolsa eu levava lenços umedecidos, a idéia era retirar a maquiagem na hora certa. Jazz usava paletó, calça social e uma túnica por baixo do paletó, seu GPS estava na demodê abotoadura do tempo de Abraham Lincoln...
Saímos de mãos dadas, como um perfeito casal apaixonado e fomos para o saguão do hotel esperar o taxista. Ele só faltou me comer com os olhos, aquele asqueroso... mesmo assim, eu sorri para ele. O carro seguiu pelo que parecia ser a periferia da cidade, circulamos uma enorme praça, passamos pelos fundos do mercado, eu olhava tudo com atenção... Por fim, chegamos até uma mansão no meio de um bairro humilde, seu portão eletrônico estava fechado. O taxista interfonou e falou alguma coisa em árabe, isso me deixou preocupada. Chegamos a uma espécie de portaria, na parte lateral da luxuosa mansão cujo terraço era coberto de mármore branco. Um host veio nos receber e ainda bem que ele falava inglês.
Fomos levados a um requintado restaurante no andar inferior da mansão, jantamos, dançamos de rostinho colado... fizemos nosso disfarce com perfeição. Depois da sobremesa, o host veio nos cumprimentar e perguntar se a noite havia sido agradável. Jazz foi muito cortês e lhe disse que a comida era deliciosa, mas que esperávamos mais daquela noite...
Ele sorriu para nós e pediu que esperássemos, foi até o balcão do bar, pegou o telefone e fez uma ligação, voltou sorrindo mais ainda e nos pediu que o acompanhasse até o andar superior. Meu coração batia acelerado, à medida que subíamos, percebi pelo menos uma dúzia de seguranças, fora os que estavam do lado de fora casa, todos capangas de Giovanni Volturi.
Ali eram só eu, Jasper e Deus... a gente não tinha arma alguma, apenas os aparelhos de GPS para dizer à policia onde estávamos.
Paramos diante de uma enorme porta de carvalho, onde dois brutamontes estavam plantados. O host recitou meia dúzia de palavra em árabe e ele poderia falar da minha mãe que eu não saberia... A porta foi aberta e entramos, de cara percebi que se tudo desse errado, aquele seria o nosso fim. A porta era blindada e acho que as paredes também eram, olhei disfarçadamente e contei uma dúzia de micro câmeras espalhadas pelo salão. Deveria ter umas cem pessoas, todos bem vestidos e elegantes, esbanjando estilo, ouvi palavras em francês, espanhol, alemão, português e inglês.
Uma sorridente hostess nos recebeu, nos serviu um drink e nos apresentou a um grupo cinco de turistas e com eles jogamos blackjack por cerca de meia hora. Depois eu sinalizei a minha saída e fiquei somente acompanhado Jazz perder de propósito e ganhar pouquíssimas vezes. Mais meia hora e eu fui ao toalete, não nasci ontem e percebi que aquele era um falso espelho, de algum lugar da casa, alguém podia me ver ali também. Fingi olhar minha aparência e entrei numa cabine, ajeitei o fecho do sutiã e desliguei e religuei o GPS, aquele era o sinal. A polícia estaria aqui em meia hora...
Voltei para a mesa e dei um apaixonado beijo em Jasper, esse era o nosso sinal...
O tempo pareceu se arrastar e meu coração saltou pela boca quando a porta dos fundos foi aberta e o próprio Giovanni Volturi entrou no cassino, segurando um charuto cubano numa mão, um copo de uísque em outra e ladeado por duas asiáticas belíssimas.
Eu e Jasper contamos vinte minutos...
Ele sinalizou sua saída do jogo, abandonamos a mesa e fomos para o bar, bebemos um pouco, só para fazer nosso disfarce. Mas uma olhadela no relógio e eu pensei: ‘É agora, que Deus nos ajude.’
Eu fui ao banheiro e Jazz fingiu me acompanhar, se plantando na porta. Eu entrei numa cabine e rapidamente comecei a tirar minha maquiagem, quando tive certeza que já estava de cara lavada, tirei a peruca e coloquei o lenço em minha cabeça, me disfarçando de mulher muçulmana. Nesse meio tempo, Jazz deveria estar no banheiro masculino também, tirando a barba falsa e os óculos, bagunçando um pouco o seu cabelo e se despindo do colete com enchimento e do paletó.
Agora deveríamos aguardar dentro do banheiro...
Quando os trinta minutos chegaram ao fim, a música suave do ambiente fechado e as conversas em vários idiomas não foram capazes de denunciar a rápida ação da polícia local. Por volta das duas da manhã, os policiais montaram cerco, invadiram a casa, escalando seus altos muros, renderam os seguranças e destravaram o sistema de alarme. O restaurante do andar inferior já estava fechado e como num filme de Hollywood, a imensa porta de carvalho veio a baixo num baque seco de explosivo plástico.
Três tiros foram disparados, este era o nosso sinal.
Os policiais entraram com tudo e sabiam exatamente o que fazer. Giovanni Volturi estava tão bêbado, que a japinha sentada em seu colo nem teve como se levantar, o susto fez os dois caírem no chão.
Houve correria, os policiais convidaram todos os ‘clientes’ a deixarem o local, Giovanni, seus empregados e as asiáticas foram detidas. Eu e Jasper nos misturamos aos outros clientes e saímos atordoados como os demais...
Por que nos disfarçamos?
Porque se o taxista nos visse saindo dali, as coisas poderiam se complicar se ele associasse a invasão do cassino à nossa chegada, sem contar que o capanga de Giovanni Volturi que nos seguiu por dois dias também poderia nos reconhecer.
Assim que nos vimos fora dos muros da mansão, percebemos que muitos turistas tinham vindo em veículos particulares, talvez alugados, rapidamente a rua ficou vazia. Passava das quatro e meia da manhã quando ganhamos as ruas desertas e silenciosas de Ceuta e tínhamos que chegar ao hotel e entrar pela porta dos fundos antes das cinco da manhã, quando terminava o plantão do porteiro, um homem de confiança do chefe de polícia.
Ao costume dos islâmicos, Jasper começou a caminhar um pouco à minha frente, eu ajeitei meu xador, de modo que somente meus olhos e mãos ficassem à mostra. Eu tentava me lembrar do percurso descrito por Ibrahim García e sei que Jasper fazia o mesmo.
Não havia ninguém na rua, somente Jasper, eu e o brilho da lua, saímos andando devagar, quase colados às paredes, quando chegou a uma esquina, Jazz parou, eu parei também. Ele parecia estudar o cenário, se certificando que estávamos no caminho certo, meu coração perdeu uma batida. Talvez estivéssemos perdidos...
Ele avançou, eu o segui e suspirei de alívio quando dobramos numa rua e eu a vi: a imponente Estrela de Davi, o lindo símbolo de seis pontas pintado de azul sobre a parede branca de um casarão. Aquela era a mesma sinagoga que tínhamos visto no dia anterior. Estávamos no caminho do hotel. A nossa volta só havia o ruído baixo de nossos passos. Ninguém atravessou nosso caminho, nem mendigo, nem ladrão, nem cachorro ou gato de rua e foi melhor assim.
Minhas pernas pararam de tremer quando avistei o Hospital de la Cruz Hoja e me lembrei que o restaurante da noite anterior ficava por trás do hospital. Jasper seguia adiante sem titubear, ele também percebeu que o caminho estava certo. Olhei para o céu, estava amanhecendo, meus pés estavam latejando. Duas ruas depois e finalmente alcançamos o quarteirão onde ficava nosso hotel na Avenida de San Amaro.
Todo o percurso foi feito em 18 minutos, mas pareceu uma eternidade, e chegamos ao hotel faltando seis minutos para as cinco. O porteiro respirou aliviado, nós também.
Assim que chegamos ao quarto, enquanto eu fazia nossas malas, Jasper pegava seu celular e ligava para M para dizer que nossa missão tinha sido concluída com sucesso, seu semblante ficou preocupado de repente.
- Algum problema Jazz? – ele ficou calado – Vamos, diga, o que foi que ele disse?
- Foi o que ele não disse, Alice... Mas ele disse que Rose e Emmett também cumpriram com sucesso a sua parte da missão.
A preocupação de Jasper refletiu em mim. De malas prontas, fechamos a conta do hotel, pedimos um táxi credenciado e seguimos para o porto. O próximo barco para Algeciras partiria às seis e meia da manhã.
POV EMMETT
Nós fomos de NY até Houston e de lá para São Paulo, no Brasil num vôo tranqüilo e longo, enquanto Rose cochilava ao meu lado, eu pensava com os meus botões e relembrava tudo o que sabia sobre terrorismo na América do Sul.
Recordar é viver... então vamos lá...
A Tríplice Fronteira na América Latina, delimitada pelas cidades de Porto Iguazu na Argentina, Ciudad del Leste no Paraguai e Foz do Iguaçu no Brasil é considerada pela Inteligência Americana um lugar ideal para o surgimento de grupos terroristas.
Os governos latino-americanos não possuem infra-estrutura em segurança pública adequada para combater o terrorismo internacional. Isso é um fato, até porque esses países, em sua maioria não são alvos de terroristas islâmicos. Além disso, a interdependência econômica entre as nações da tríplice fronteira é grande, estima-se que 30 mil pessoas atravessam diariamente a Ponte Internacional da Amizade entre Brasil e Paraguai.
Então medidas de segurança mais ostensivas ou uma melhor fiscalização das atividades comerciais espantaria turistas, consumidores e comerciantes e iria de encontro aos objetivos do MERCOSUL que são justamente integrar a economia local. Dentre os principais acordos firmados pelas nações que fazem parte do bloco econômico há um que permite que contêineres comerciais não sejam inspecionados. Outra coisa que contribui para a ilicitude de boa parte do comercio local é que as fronteiras desses países são muito abertas e são um convite para os criminosos sejam eles terroristas os não.
Resumindo: a Babilônia é ali!
A comunidade árabe e muçulmana lá é enorme, cerca de 20 mil pessoas e eles estão na região há mais de 50 anos, a maioria deles vive do comércio na Ciudad Del Leste, mas reside em Foz do Iguaçu na margem brasileira do Rio Iguaçu. O problema não são os 20 mil cidadãos e sim uma minoria deles que não esconde sua simpatia e apoio financeiro para o Hezbollah e o Hamas e são essas pessoas que exercem uma intensa atividade comercial destinada a financiar a ação desses grupos no Oriente Médio.
Por causa disso, muitos terroristas usam o comercio lícito e ilícito local para financiar seus grupos paramilitares. O governo americano não considera essa área como o centro nervoso das atividades terroristas islâmicas, mas sabe que o lugar é muito estratégico para eles.
O FBI e a CIA têm detectado a crescente presença de indivíduos suspeitos de fazerem parte do Hezbollah, do Hamas e de tantos outros grupos paramilitares nessa região repleta de muçulmanos e aparentemente fora do mapa de terrorismo.
Esses radicais se aproveitam do fato de que no Brasil, principalmente, a comunidade islâmica como um todo é respeitada e pacífica, por isso eles se misturam entre pessoas de bem para praticarem seus atos escusos acima de qualquer suspeita.
Ciudad del Leste tem mais ou menos 55 bancos e casas de câmbio diferentes e cerca de $6 bilhões de dólares por ano são lavados ali, isso é 50% do PIB do Paraguai! O que mais acontece nas casas de câmbio são remessas de dólares, milhões e milhões que são repassadas para o Oriente Médio. Muitos desses milhões financiam o terror de radicais islâmicos.
Devo ter cochilado e quando percebi estávamos sobrevoando São Paulo, acordei Rose e quando olhei pela janelinha do avião, meu queixo caiu... Porra, que cidade grande!
- Isso sim é uma metrópole... – murmurei.
Assim que pegamos nossas bagagens, fomos recebidos por José Roberto Ferreira, delegado da Polícia Federal Brasileira e membro da Interpol em seu país. Comunicando-se conosco com seu inglês fluente, ele se apresentou e de cara gostei do sujeito. Uma hora depois pegamos outro avião com destino a Curitiba no estado do Paraná, chegando lá, alugamos um carro, seguindo para Foz do Iguaçu.
Chegamos ao nosso destino por volta das dez da noite, assim que caímos na cama, eu e Rose apagamos de tão cansados que estávamos. No dia seguinte a nossa caçada recomeçava...
Fomos apresentados a outros membros da equipe, mais três brasileiros, e quatro argentinos. O Paraguai não tinha representantes em nossa equipe, mas ele faz parte da lista dos 188 países da Interpol, facilitando as investigações entre os policiais internacionais.
Não nos hospedamos em Foz do Iguaçu, para nos esconder, alugamos dois chalés em Porto Iguazu na Argentina e passamos a nos misturar com os demais turistas da Tríplice Fronteira. De acordo com Renata Volturi, dali a dois dias haveria um festival de bolero na Plaza de la República, no centro de Ciudad del Leste. Muitos restaurantes espalhariam suas mesas ao redor da praça, enquanto os turistas jantavam, apreciariam a boa música latina. Alec Hartman e Said Al-mashier fariam sua negociação ali.
Nosso tempo livre foi usado para conhecer o local e repassar exaustivamente os planos. No dia D, eu estava apreensivo, Rose também, na verdade todos nós estávamos. Alec tinha vindo ao Paraguai com dois capangas Volturi mas a gente não sabia ao certo se haveria mais deles.
Vestidos como turistas, passamos despercebidos por todos, exceto Rose, ela chamava muita atenção por ser a mulher mais linda do mundo e por estar usando uma blusa vermelha e um jeans justo que só faziam intensificar a beleza de seu corpo, cabelos e rosto. Juro que fiquei mortinho de ciúmes...
Éramos cinco casais muito bem disfarçados, chegando à Plaza de la República em carros alugados e se misturando com todo mundo. Escolhemos mesas ao redor da praça, nossos fones de ouvido nos deixavam conectados, nossas armas estavam escondidas. O festival começou, vários grupos de bolero se apresentaram, um casal de dançarinos subiu ao palco e dançou tango... Eu e Rose pedimos o jantar, Alec apareceu em nosso campo de visão ladeado por dois homens, meu corpo ficou em alerta, a adrenalina foi a mil. Espalhei a notícia para nossa equipe, depois de uns cinco minutos Said Al-mashier chegou e se juntou a eles. Os cinco casais caíram na pista de dança...
Entrelacei minha mão com a de Rose e envolvi sua cintura com a outra mão, discretamente bailamos para perto da mesa deles e nos beijamos.
- Hum... Emm, eu não sabia que você dançava bolero... – ela sussurrou ao meu ouvido – Atenção, - ela mudou o tom de voz – eles pararam de conversar quando nos viram se aproximando...
- Dispersar. – ordenei e bailamos para longe da mesa.
Voltamos discretamente para mais perto deles e vi quando Al-mashier entregou a Alec uma maleta preta e este lhe entregou outra maleta preta.
- Rose, eles trocaram maletas, mas e se não tiver nada lá dentro que possa comprometê-los?
- Tem que ter Emmett... – ela sussurrou e beijou minha bochecha enquanto girávamos em nossa dança.
Mais algumas piruetas nossas e muita conversa fiada dos homens na mesa, eles fizeram um movimento, indicando que se levantariam. Tudo aconteceu muito rápido, nós cinco recuamos para as margens da praça e voltamos para os carros rapidamente. Vimos quando Alec Hartman, seus dois capangas e Said Al-mashier entraram num carro preto com vidros escuros e os seguimos de longe.
O porto clandestino ficava numa área pouco navegável do rio, por isso mesmo era pouco movimentada e escura. Deixamos os carros a uma boa distância do local e seguimos a pé, chegamos a tempo de ver o barco a vapor ainda escuro. Escondidos atrás de contêineres, nós vimos que uma luz foi acesa dentro barco e os quatro foram para o convés, enquanto os capangas de Alec vigiavam a área, ele e Said conversavam animadamente e pareciam olhar a mercadoria.
Dois dos agentes brasileiros contornaram um trecho muito escuro do porto e entraram na água, nós ficamos mais recuados para lhes dar cobertura. E no melhor estilo de filmes de ação, nossos colegas de operação saltaram para o convés ao mesmo tempo em que disparamos tiros contra a embarcação. Eles foram pegos de surpresa quando avançamos para o barco dando-lhes voz de prisão em inglês, espanhol e árabe.
- Alec Hartman, - falei, enquanto apontava a arma para ele – você está preso por traição contra os Estados Unidos da América, - nesse meio tempo, Rose continuou com a arma em punho e eu o algemei – por levantar armas contra seu país e se coligar com seus inimigos, prestando-lhe auxílio e apoio.
Pela minha visão periférica, percebi que os outros oito agentes renderam os três homens.
- O QUÊ? – ele guinchou - Quem são vocês? – ele tentou resistir, mas não foi páreo para mim.
- Rosalie Hale e Emmett McCarty, agentes do FBI. – Rose respondeu - O senhor também é acusado de se favorecer de seu cargo público para negociar com inimigos dos Estados Unidos da América, vendendo armas de uso exclusivo do exército americano.
Enquanto o arrastávamos, o homem dizia um jorro de blasfêmias contra nós, dizendo que aquilo era uma brincadeira de mau gosto e que não tínhamos nenhuma prova contra ele. José Roberto levantou a lona que cobria a mercadoria e vimos ali 18 mísseis Agm-114 Hellfire AGM-114 Hellfire, cada um medindo 4,5 m e pesando 45kg.
O reforço policial chegou trazendo agentes da polícia federal brasileira em barcos a vapor e nosso barco foi rebocado para o porto brasileiro do outro lado do rio. Nesse meio tempo, a intensa movimentação em nosso barco foi aproveitava por Alec Hartman, mesmo algemado (eu confesso que foi um erro gravíssimo meu algemá-lo com as mãos para frente) ele sacou a arma de um policial brasileiro, apontando-a para Rose.
‘DEUS DO CÉU, NÃO!!!’ eu gritei em minha mente quando o vi apontando a arma para a cabeça dela. Pensei rápido e me joguei contra ela ao mesmo tempo que ouvi o disparo. Nossos corpos caíram sobre o assoalho de madeira do barco, mas ela estava envolvida em mim e embora seu grito assustado ainda estivesse ecoando em meu ouvido, meu coração perdeu uma batida e voltou a bater com tudo quando, com alívio, eu percebi que o calor cortante da bala estava rasgando a minha pele e não a dela.
Alec Hartman foi novamente imobilizado e eu fiz Rose sentar no chão, ela permaneceu calma e não chorou, mas seus olhos assustados varreram meu corpo, procurando pelo ferimento que ainda estava oculto.
- Você está bem? – olhei bem dentro dos olhos azuis dela, ela assentiu assustada e me abraçou.
Desfiz nosso abraço e parti pra cima de Alec Hartman.
- SEU FILHO DA PUTA! – dei um soco na cara dele, fazendo o sangue jorrar – Você apontou uma arma para a minha mulher, seu porra!
Quando ia dar outro soco nele, José Roberto me segurou, dizendo aquilo não valia a pena e que eu me acalmasse. Na mesma hora, vi tudo girar na minha frente e cai meio desacordado no chão, só me embro de estar meio grogue e com a cabeça no colo de Rose. Foi nessa hora que a minha namorado começou a chorar baixinho e a acariciar meu rosto. Lembro também que um policial apertava meu ombro, tentando estancar o sangue.
- Emm... seu bobo, porque você se jogou na frente? Não morre, meu amor...
- Eu me joguei... – falei ofegante – e me jogaria de novo se... – tava difícil falar – eu fosse um gato e tivesse sete vidas...
Acho que isso foi a última leseira que antes de apagar geral.
POV ROSE
Fiquei em pânico quando vi que Emmett tinha se jogado na minha frente e levado o tiro no meu lugar. Comecei a chorar, uma coisa que nunca faço em meu ambiente de trabalho, mas perdi a noção de tudo e dei graças a Deus que meu chilique não prejudicou nossa missão. Uma policial argentina se sentou ao meu lado e sussurrou em espanhol:
- O tiro foi de raspão, ele ficará bem...
Com a cabeça dele em meu colo, olhei eu seus olhos e o azul de nossos orbes se encontrou.
- Emm... seu bobo, porque você se jogou na frente? – sussurrei - Não morre, meu amor...
- Eu me joguei e me jogaria de novo se... – ele falava com dificuldade – eu fosse um gato e tivesse sete vidas...
E então ele desmaiou.
Vi quando José Roberto falou com alguém ao celular e depois me disse que uma equipe de médicos brasileiros estaria esperando por nós para atender Emmett assim que desembarcássemos. Isso me lembrou que eu precisaria falar com M, peguei meu celular e disquei seu número, ele atendeu no primeiro toque e lhe contei tudo o que aconteceu. Ele ficou feliz pelo sucesso da missão, mas lamentou pelo tiro de Emm, embora ele tivesse certeza absoluta que um tiro de raspão num homem daquele tamanho não era nada grave. Mas ele não falou de Jasper e Alice, ou seja, eles ainda não tinham telefonado e isso era sinal de que as coisas em Ceuta não estavam concluídas.
Encerrei a ligação e rezei, pedindo a Deus que meu irmão e cunhada estivessem bem.
Em terra firme, Emm foi rapidamente atendido e no dia seguinte teve alta hospitalar. Mais dois dias e já estávamos reunidos em Washington com Jasper, Alice e M, mas dessa vez estávamos na sede do FBI, reunidos com o Secretário de Defesa e o Procurador Geral da República. A qualquer momento a imprensa do país inteiro, de leste a oeste e de norte a sul divulgaria todas as prisões feitas dentro e fora do país.
Encerrada a reunião onde eu e meu amor, meu irmão e cunhada fomos tratados como os heróis do momento, eu estava ansiosa para telefonar para uma pessoa especial. Na verdade, a ansiedade era de nós quatro, peguei o telefone e disquei o número, ela atendeu no primeiro toque.
-MAMÃE?! Ah! Mamãe que saudade...
- Rose, meu amor! Você e seu irmão estão bem? – ela gritou frenética.
Depois de alguns minutos quando consegui tranqüilizá-la, finalmente disse o que tanto queria.
- Mãezinha, nós vamos tirar duas semanas de férias e iremos para a fazenda ver vocês! – ela gritou de alegria do outro lado – Por favor, mãe, fale com o Padre Alberto, queremos que tudo esteja pronto quando chegarmos, nós não podemos mais adiar isso...
Enquanto eu falava, vi quando Alice abraçou e beijou Jasper, enquanto Emm beijava calidamente minha mão. Mamãe prometeu falar com o padre e disse que tudo estaria pronto para nossa chegada.
- Ah! Mamãe, nada de fazer uma festa muito grande, será apenas uma comemoração íntima.
Vi que Alice fez cara feia e estirou a língua para mim, mas mamãe prometeu acatar nosso pedido (eu, Emm e Jazz vencemos Alice na votação por uma festa de recepção simples).
- AH! MAMÃE! – guinchei de novo – Assistam a CNN hoje... todos vocês, principalmente Marie e Tony vão gostar da programação da TV.