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- Música Das Sombras - adaptação do livro homônimo. (Fic concluída)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Vem comigo, amor - Capítulo 52


Volterra


POV ALICE

- Vamos para Volterra. – TJ falou.
O silêncio se instalou na cozinha e tudo o que eu podia sentir era o ribombar de meu coração, batendo como um tambor de guerra.
Guerra.
A guerra começou. Senti minha garganta ficar seca, minhas pernas tremularam como bandeiras ao vento, me encostei na bancada da cozinha e tentei recompor minhas feições.
Volterra significa ir para a toca do lobo, o lugar onde os Volturi são considerados a realeza... A cidade era praticamente deles há mais de 300 anos e nós iríamos para lá, atacá-los em sua fortaleza medieval...
- Volterra? – guinchei.
- Sim, criança. – TJ respondeu e apontou para o mapa – Nós vamos tirar Renata Volturi de lá e a levaremos para um lugar seguro.
- Mas isso não faz sentido. – Jazz falou – Não seria mais fácil Renata se entregar em seu próprio país, solicitar proteção policial e entrar oficialmente para o serviço de proteção a testemunhas?
- Sim, não faz sentido mesmo viajarmos até a Itália só pra trazermos ela de volta pra cá. – Rose falou e cruzou os braços.
- Lá nós não somos agentes federais... O que vamos fazer então? – Emmett estava igualmente confuso.
- Sentem-se. – como criancinhas obedientes, nós quatro arrastamos as cadeiras e nos sentamos – Primeiro, nós não vamos prender Renata, vamos apenas fazer a segurança dela, garantindo sua fuga. Segundo, ela é uma cidadã ítalo-americana e vai se entregar à justiça italiana, submetendo-se às leis de seu país no momento certo. Terceiro, nós não confiamos no serviço de proteção a testemunhas, ele é falho e ineficiente. Quarto, Renata não vai voltar aos Estados Unidos imediatamente, ela ficará sobre nossa proteção até que o julgamento comece e ela possa vir aqui parta testemunhar e se colocar à disposição da justiça americana. Porém, o FBI precisa garantir o acordo de delação premiada dela e...
- Quinto, - Jazz falou exasperado e deu um pulo da cadeira – eu já to farto de seus enigmas. É melhor você abrir o jogo e contar de uma vez por todas que são esses NÓS a quem você se refere. E não pense que eu serei idiota a ponto de viajar para uma operação de resgate se eu nem sei quem está no comando disso tudo!
O velho e Jazz se encararam por uns segundos, os dois mediam forças e os olhares de ambos eram raivosos. Emmett levantou da cadeira, deu dois passos em direção ao meu namorado e tocou em seu ombro, afastando-o dali.
- Entenda nossa situação, TJ. – ele falou com calma – Jasper tem razão, nós não podemos embarcar nessa sem saber onde estamos pisando... Queremos muito que a operação tenha sucesso, mas você deveria confiar em nós do mesmo jeito que confiamos em você.
- Parece justo. – o velho se rendeu – Eu devo confessar que ocultei a verdade de vocês...
Puta que pariu!
Meu sangue gelou e foi bater nos pés, depois subiu com tudo e martelou bem forte na minha cabeça. Instintivamente pus a mão sobre minha arma e destravei o gatilho... Meus instintos de auto-proteção estavam a mil por hora!
- Calma, pequena Alice. – o velho se virou pra mim e sorriu – Eu vou explicar, por favor, trave o gatilho de sua Glock 40! Nós não queremos acidentes aqui.
- Como... como você sabe a marca de minha pistola? – perguntei boquiaberta, afinal, ela estava no coldre e por baixo de meu blazer.
- ‘Eu sei tudo...’ – Emmett imitou a voz de TJ e recebeu um olhar mortal do velho, pela minha visão periférica, vi Rose segurar o riso.
- Hoje em dia o FBI compra esse tipo de pistola para suas agentes, elas são mais leves e de fácil transporte. Para os homens, as Desert Eagle III tem tido bastante sucesso. – ele sorriu – O som da trava das Glock é um pouco mais alto e estridente, as Desert tem um barulhinho mais oco.
- Não fuja do assunto, TJ. – Jazz falou seco – Quem são esses NÓS?
- Quando eu decidi ‘morrer’, vocês devem se lembrar da história, não é? – todos nós assentimos e nos lembramos da primeira conversa com TJ, quando ele disse que estava em perigo de vida e simulou a própria morte – Naquela época eu contei com a ajuda de Remi L’amour, chefe da Divisão de Investigação Criminal da Interpol. Eu não tinha escolha, precisava confiar em alguém... Abri o jogo para ele e pedi proteção. Meses depois a Interpol iniciava uma pesada investigação contra os Volturi, mas os King, na época, não eram suspeitos para eles. A Interpol financiou todo o trabalho investigativo sobre os Volturi na Europa, África e no Oriente Médio, mas aqui nos Estados Unidos ela encontrou uma forte resistência do FBI principalmente na época em que Royce King II foi presidente. Nesse período de tempo, entre 2001 e 2009, enquanto aquele filho da puta dirigiu o país, nós não conseguíamos investigar nada por aqui. O nosso grande problema foi ter perdido Gerard de Valmont em 2008, quando ele foi assassinado nas ruas de Florença e entregou a Felix Cudmore as principais provas da nossa investigação, nós voltamos praticamente à estaca zero. Naquela época a gente não sabia onde estavam as provas.
- Como você chegou até nós. – Jazz inquiriu.
- O FBI trabalha num esquema de troca de informações com a Interpol. Isso sempre foi rotina, mas o que chamou a atenção de Remi foi que o próprio M passou a requisitar essas informações. Os dois tiveram alguns minutos de conversa em Lyon há alguns meses atrás...
- M não nos disse nada disso! – sussurrei – Ele não disse que viajou para a França... E nós pensávamos que ele não sabia nada sobre o caso até Bem Chenney lhe contar o que Charlie Swan e Carlisle Cullen tinham em mãos.
- Mas isso é verdade, jovem Alice! M ficou sabendo disso tudo através de vocês, só que ele viajou até a França e falou pessoalmente com Remi L’amour e ISSO ele escondeu de vocês! – TJ falou calmamente.
- Ele não tinha o direito de no esconder isso. – Jazz rosnou e deu um soco na mesa – E também não podia se dar ao luxo de recusar a ajuda da Interpol.
- Nosso orgulho americano deixou a Interpol de fora. – TJ falou com sarcasmo – M recusou veementemente fazer uma operação conjunta, alegando que assuntos americanos deveriam ser tratados por americanos...
- Que besteira... – Emmett falou.
- Concordo! – TJ prosseguiu – Por ordens de Remi, eu passei a seguir os passos de M e não foi difícil chegar até vocês. Mas embora eu leve muita fé no trabalho de vocês quatro, M precisa ceder, ele precisa assinar uma porcariazinha de um papel e trabalhar junto com a Interpol. Vocês precisam ir à Volterra... Vocês precisam convencer M!
- Ha-ha-ha – Emmett sorriu com sarcasmo – Como se isso fosse fácil... Dizer ao chefe o que ele deve fazer...
- Nós precisamos, Emm! – Rose falou com a voz embargada – A vida de Bella, Edward e dos bebês depende disso!!!
- Controle suas emoções, menina Lilian. – TJ falou afetuosamente – E quando estiver em Volterra, esqueça sua afeição pelos Cullen.
- O que, exatamente, faríamos em Volterra? – Jazz puxou a conversa novamente para os assuntos práticos.
- Milhares de turistas visitam em Sainte Baume, no sul da França, la grotte de Sainte Marie-Madeleine, a gruta onde, supostamente, Maria Madalena teria vivido seus últimos dias. – o velho apontou para o mapa – Daqui a três dias, Gregorio e Renata embarcarão para Volterra na Itália. Mas eles não viajarão juntos, é importante que os seguranças de Renata nunca os vejam juntos. O trabalho de vocês consiste em tirar Renata de Volterra e fazê-la chegar a Sainte Baume onde ela ficará escondida na Fraternité Sainte Marie-Madeleine, um abrigo religioso mantido pelos devotos da santa. Gregório já preparou tudo, eles ficarão nesse lugar, que é uma espécie de retiro espiritual. Ele e uma agente da Interpol, ambos com disfarces de religiosos, farão a segurança pessoal de Renata Volturi dali por diante.
- Quantos seguranças Renata possui? – perguntei.
- Três, todos homens. Todos com ordens expressas de Aro Volturi para não desgrudarem da esposa. É aí onde vocês entram, - TJ voltou a apontar para o mapa – Volterra é uma cidade medieval fortificada, seus muros de pedra possuem quase seis metros de altura e apenas um único portão. Sair dali sem serem vistos parece impossível, - ele puxou outro mapa que estava embaixo dos demais – mas nós temos as rotas pelos esgotos...
- Eca! – Rose guinchou.
- A antiga rota usada pelos cristãos quando sua fé ainda era proibida nas cidadelas próximas a Roma. – ele mostrou várias linhas azuis pintadas no mapa – Essa daqui começa dentro do porão do palazzo Volturi e termina fora dos muros da cidade. Quando conseguirem eliminar os três seguranças de Renata, vocês devem sair do palácio dos Volturi o mais rápido possível usando essa rota de fuga.
- Eliminar? Nós vamos... matá-los? – guinchei.
- Matar ou não, isso é problema de vocês. – ele falou seco – Mas devem tirá-los de combate e não permitir que eles os sigam.
- E quando a gente chegar do outro lado do muro? – Rose apontou para o mapa.
- Gregorio estará com um carro esperando por vocês. De lá, o destino será Piombino, no litoral italiano onde vocês usarão um barco para chegar a La Ciotat, na França. De La Ciotat até Sainte Baume, vocês seguirão em outro carro. Durante o percurso, Renata estará sob a proteção de vocês.
- A pergunta que não quer calar é: como entraremos no palácio dos Volturi sem levantar suspeitas dos seguranças? – Emmett estreitou o olhar enquanto falava.
- Alice e Rosalie entrarão disfarçadas de freiras, Jasper e você, McCarty, serão turistas muito interessados em vinícolas. – ele sorriu – Como vocês sabem, os vinhedos Volturi são famosos em toda a Itália.
- TJ, nós não podemos passar por cima do FBI. – Jazz murmurou - Não temos tempo hábil para nos reunir com M antes dessa missão. Por que você só nos disse isso agora?
- Sinto muito, Jasper. Nós estamos em cima da hora mesmo, não tivemos tempo de lhes contar isso antes. Tudo dependia da vontade de Renata em se entregar. Ou vocês fazem isso sem autorização de M ou perdem a chance de pegar Renata.
Silêncio.
Cada um de nós pensava com seus botões...
Os minutos se passavam e tudo o que eu ouvia eram as nossas respirações. Ir ou não ir. A oportunidade era única, ter Renata Volturi testemunhando contra a própria família seria uma boa chance de ver aquela família macabra ruir de vez. O grande problema era passar por cima da hierarquia do FBI. Sim, teríamos que fazer isso já que não daria tempo de conversar com M sobre isso. Pensei em Bella, em Edward... nos bebês...
- Nós devemos ir. – sussurrei.
- Talvez. – foi a resposta vaga de Jasper.
- A oportunidade é boa. – Emmett ponderou.
- A Interpol sabe de nós? – Rose perguntou.
- Sim, eu precisei falar de vocês, mas não revelei suas identidades. Se vocês concordarem com a missão, Remi mandará um agente especial encontrá-los em Florença.
- Jazz, nós precisamos ir. – Rose falou ao irmão – Temos uma grande chance com Renata.
- Ok. Eu concordo com vocês. – Jasper falou e eu soltei o ar de meus pulmões, me espantei quando percebi que estava tão tensa – Mas eu quero conversar com M antes.
- Não dá tempo. – TJ protestou – As passagens de vocês estão marcadas para daqui a dois dias!
- Dá tempo sim! – Jazz rosnou – Eu não sou irresponsável a esse ponto, TJ! Eu conheço M e sei que ele vai concordar. Quando sairmos daqui, eu e Emmett iremos a Washington para conversar com M, enquanto isso, Alice e Rose voltarão a Annapolis e farão nossas malas.
- Concordo com Jasper. – Emmett falou enquanto eu e Rose apenas assentimos.
O velho não conseguiu nos convencer, mas parou de protestar e passou o resto da manhã nos dando todos os detalhes daquela operação de resgate. Por volta das duas da tarde, Jasper e Emmett deixaram eu e Rose em casa e pegaram a estrada em direção a Washington. Enquanto eu e Rose fazíamos nossas malas, eu orava, pedindo a Deus que tudo desse certo.
As orações deram certo, na madrugada do dia seguinte, eles voltaram para casa com o aval de M e nos encontraram de malas prontas e passaportes nas mãos.
Domingo, 17 de Abril, numa linda tarde de sol e calor, o nosso avião pousou em Florença. O vôo tinha sido tranqüilo, nós quatro nos sentamos em lugares separados e bem distantes, só nos reunimos quando estávamos no saguão do aeroporto. Eu e Rose pegamos nossas malas e entramos no banheiro feminino, saímos dali dez minutos depois absolutamente irreconhecíveis, usando hábito de freira e sem qualquer maquiagem.
Assim que os rapazes nos viram, fingiram nos ajudar com as pouquíssimas malas. E mesmo numa situação tão tensa, Emmett não conseguia ser diferente. Ele teve a cara de pau de pedir a benção a mim e a Rose!!!
- Irmã, a senhora quer brincar de noviça rebelde comigo? – ele sussurrou zombeteiro para Rose.
Nós duas seguramos o riso, mas pela minha visão periférica, vi Jazz revirar os olhos. Um homem alto, magro e moreno se aproximou de nós, o reconheci pela foto que TJ nos deu.
Meu coração estava aos pulos novamente, o tambor de guerra tinha voltado a bater. Fomos conduzidos por Guillermo Parlattori, agente da Interpol na Itália e de lá seguimos para Volterra de carro.
O sol começou a se despedir num céu alaranjado que logo depois ficou lilás. O silêncio era confortável no carro, o Sr. Parlattori não era um cara chato, apenas sisudo. Depois de quase uma hora e meia de viagem, quando a noite já estava sobre nós, ainda serpenteávamos por uma estrada sinuosa e estreita. O carro pegou outra estrada, dessa vez, uma subida bem íngreme e depois de uma curva, avistamos, no alto de uma grande rocha, uma cidadela fortificada e bastante iluminada.
- Ali. – disse o Sr. Parlattori num inglês cheio de sotaque, enquanto apontava para uma torre no topo de um castelo.
Eu olhei e senti um nó no estômago e o xixi quase descendo... Todos os minutos tinham sido de grande expectativa para mim. Além de ser uma missão super importante para o caso, eu me via toda a hora pensando nos Cullen, meus amigos.
“Pare com isso, Alice”, ordenei a mim mesma!
Quando olhei novamente para o topo daquela torre e para aqueles muros centenários, eu achei a cidade bonita e me enchi de esperança. “Sim, minha amiga”, eu pensei em Bella. “Um dia eu lhe prometi trazer sua vida de volta e vou cumprir minha promessa.”
- Ali. – o agente repetiu a palavra – Volterra.
O carro ainda subiu mais um pouco e por fim adentramos nos portões da cidade. Por ruas estreitas chegamos rapidamente a um pequeno hotel onde fomos recebidos por sua simpática dona. A mulher muito atenciosa reservou o melhor quarto para as irmãs franciscanas (eu e Rose), enquanto Jasper e Emmett usaram seus nomes do meio e se comportaram como americanos turistas. Tentamos ter uma boa noite de sono e dar tempo ao tempo. O encontro com Renata Volturi seria na terça-feira ainda.
No dia seguinte, enquanto eu e Rose nos dedicamos a rezar em nosso quarto (na verdade a gente estava estudando novamente os mapas da cidade). Jasper e Emmett, usando seus disfarces de turistas meio nerds, meio patetas, percorreram a cidade e fuçaram tudo sobre sua arquitetura, tiraram fotos, perguntaram muita coisa e fizeram muitas compras, como todo turista faz. Nos encontramos rapidamente na hora do jantar e trocamos meia dúzias de palavras.
- O nosso dia foi tranqüilo. – Emmett sussurrou.
- O nosso também. – Rose respondeu.
- A gente se vê amanhã então. – Jazz encerrou a conversa.
Já no nosso quarto, o silêncio era desconfortável e denunciava o meu nervosismo e o de Rose. O dia seguinte seria importante, seria o nosso dia D.
- Alice se... – Rose hesitou - ... se algo acontecer comigo... você promete que vai cuidar bem de meu irmão?
- Que é isso, Rose! – abracei-a com carinho – Não fale assim!
- Apenas prometa! – ela sussurrou suplicante – E diga a Emmett que ele é o amor da minha vida!
- Por favor, por favor! – supliquei também – Não diga uma coisa dessas!
- Apenas prometa, Alice. – seu sussurro era triste como uma manhã de chuva.
- Eu prometo. – desfiz nosso abraço e sacudi seus ombros levemente – Agora não pense em bobagens!
No dia seguinte, acordamos muito cedo e nos vestimos com o hábito, mas por baixo dele, vestíamos jeans e camiseta e tênis de corrida. Cada uma de nós tinha duas pistolas e bastante munição camufladas em nossas roupas. Tomamos o café da manhã no hotel e seguimos a pé pelas ruas estreitas de sombrias de Volterra.
Nosso destino era a Catedral de Sant Biaggio onde nos encontraríamos com Renata. As ruas estreitas e cobertas de pedras tinham a mesma cor das paredes das casas, uma coisa meio cor de canela, meio amarelo queimado. De dentro das casas a gente podia ouvir vozes alegres e sentir o cheiro de café fresco e de pão recém saído do forno. Eu me sentia no século passado, aquelas ruas medievais pareciam o cenário de Romeu e Julieta!
Durante o percurso de cerca de vinte minutos, nos afastamos da cidade em direção ao campo, já que a igreja ficava entre vinhedos e plantações. Religiosos nessa região da Itália costumam fazer muitas caminhadas e nós não queríamos estragar o disfarce. O lugar era muito bonito e ao longo do caminho, as pessoas que passavam em seus carros diminuíam a velocidade e acenavam para nós. Outros até paravam o veículo e diziam ‘bom giorno’, a gente apenas sorria e acenava. Minhas pernas começaram a fraquejar quando do alto de um morro, eu avistei a catedral, linda e imponente, construída com tijolos cor de canela e com uma linda abóbada marfim sobre a nave principal.
Senti a garganta seca quando avistei um carro sedã preto, com vidros escuros e um homem alto, usando terno preto e óculos escuros, parado ao lado do veículo. Rose deu um olhar sugestivo para mim e eu assenti minimamente. Aquele ali só poderia ser um dos seguranças de Renata, ela já deveria estar lá dentro. Assim que o homem nos viu, ele nos mediu de cima a baixo várias vezes, talvez decidindo se éramos ou não perigosas. Fingindo ignorá-lo, entramos na igreja e encontramos Renata sentada no primeiro banco, próxima ao altar, ela murmurava uma oração enquanto segurava um terço brilhante que deveria ser de ouro puro.
Eu e Rose nos sentamos ao lado de Renata e fizemos o sinal da cruz três vezes. Olhei de lado e vi que a mulher de longos cabelos negros e olhos tão negros quanto, estava chorando baixinho. Ela suspirou aliviada quando viu o broche símbolo da Catedral de Saint Matthew que estava na lapela do hábito de Rose. O broche era idêntico ao que Gregório sempre usava em sua batina e era uma espécie de logomarca da catedral que Renata freqüentava em Washington. Aquele era o sinal que Gregorio havia dado a ela, a freira amiga deveria usar o broche.
- ‘E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.’ – sussurrei o trecho do Evangelho que também serviria de sinal para ela.
Ouvimos passos atrás de nós, eu e Rose não nos mexemos, fingíamos rezar. Pela minha visão periférica, vi que o segurança parou ao nosso lado e sussurrou.
- A senhora precisa de algo?
- Apenas de tranqüilidade para fazer minhas orações. – ela falou gentilmente – Junte-se a nós Nigel...
- Obrigado, senhora. – ele olhava para mim e para Rose enquanto falava – Estarei lá fora.
Eu entendi que ele quis dizer que estava de olho na gente, mas deixei passar. Depois de trinta minutos que pareceram trinta horas, Renata se levantou e nós a acompanhamos. Do lado de fora da igreja, vi duas motos surgirem do nada e meu coração perdeu uma batida. Olhei rapidamente para Rose e vi pânico em seus olhos azuis também. Renata tinha o rosto impassível enquanto explicava a seu segurança que as irmãs franciscanas eram suas convidadas para visitar o palazzo Volturi. O cara não disse nada, apenas tirou seus óculos escuros e nos encarou. Senti um calafrio quando me vi refletida naqueles olhos negros, eu me senti dentro de uma sepultura. Entramos no carro e fizemos toda a viagem em silêncio, os dois seguranças que estavam nas motos eram nossos batedores e mesmo usando capacetes escuros, eu sabia que eles estavam nos observando. Cerca de dez minutos depois nós avistamos a propriedade dos Volturi e meu coração parecia querer saltar pela boca novamente.


Uma empregada veio receber a patroa e sorriu timidamente para mim e para Rose. Em italiano, Renata transmitiu-lhes algumas ordens e nos fez entrar na casa. Nos acomodamos numa luxuosa sala, sempre tendo o segurança Nigel em nosso encalço. A conversa entre nós três fluía sobre a religião e os santos católicos nascidos na Itália. Por sorte eu havia lido tudo o que podia e por sorte a mãe de Rose era uma católica praticante, então tínhamos assunto para falar, nosso disfarce estava bem. Houve o barulho de vozes do lado de fora da casa e saímos para ver o que era. Nigel andava a passos largos, curioso, eu e Rose íamos logo atrás, sem muita pressa. Afinal, tudo estava como planejado.
No pátio do casarão dos Volturi, Emmett e Jasper estavam sendo revistados pelos dois seguranças que gritavam em italiano algumas palavras que deveriam ser, no mínimo, palavrões.
- Mas o que está acontecendo aqui? – Renata quase gritou, fazendo os seguranças congelarem seus movimentos.
- Turistas americanos, signora. – o segurança mais alto e loiro falou – Estrangeiros mal educados e inconvenientes.
- Minha Nossa Senhora! – Emmett falou – Veja Bill, os famosos vinhedos de Volterra!
Jasper fingiu interesse enquanto Emmett lhe mostrou os pés de uva além dos muros da propriedade dos Volturi.
- Signora, bom giorno. – Jasper falou num italiano macarrônico – Eu me chamo William Smith e esse aqui é o meu amigo Bernard Thompson. Estamos fazendo uma espécie de turismo enólogo pela Itália e ficamos sabendo que os vinhedos Volturi são muito famosos por aqui.
- Sejam bem vindos, Bernard e William. – ela sorriu e assentiu minimamente – Entrem juntem-se a nós! Não é todo dia que turistas e freiras franciscanas aparecem por aqui. Venham, vou lhes mostrar uma visão privilegiada dos vinhedos!
Os seguranças fizeram cara feia e nos seguiram. Renata fingiu irritação e constrangimento.
- Sinto muito pela presença irritante desses brutamontes. – ela apontou para os três homens – Mas meu marido é um homem muito preocupado com o meu bem estar.
Nós quatro sorrimos e assentimos, ela nos guiou até um corredor onde havia uma íngreme escadaria.
- Vamos conhecer a torre do relógio, a vista de lá é muito bonita para as fotos.
Ela sorria e era muito gentil conosco, percebi que sua calma estava sendo um ponto positivo para nós. Até agora, ela tinha seguido à risca as ordens que Gregorio teria lhe passado. Como toda construção medieval, aquelas escadarias eram bem estreitas então subimos em fila indiana, um segurança ia na frente, outro estava colado em Renata e o outro ia atrás de nós, numa clara atitude de intimidação. Lá em cima havia uma ampla sala com uma vista de 360 graus para toda a propriedade. Por poucos minutos a gente fingiu contemplar a beleza do lugar e eu pude perceber que os seguranças quase baixaram a guarda quando a empregada subiu levando uma bandeja com vinho tinto e vários tipos de queijos fatiados.
Enquanto todos comiam e bebiam animadamente (inclusive a empregada), Emmett fingiu fotografar umas esculturas de mármore que estavam bem atrás do sofá onde dois dos seguranças estavam sentados. Jasper fingiu ler alguma coisa num livro velho e se postou atrás do outro segurança que estava falando ao celular com alguém. Rose se aproximou da empregada e eu fiquei junto de Renata.


Os tambores voltaram a substituir as batidas de meu coração.
Toda a ação não durou nem dois minutos. Emmett pegou as duas cabeças dos seguranças e chocou uma contra a outra, como se fossem dois ovos. Jasper deu um golpe de caratê no outro segurança, deixando-o inconsciente, Rose deu uma coronhada na empregada, fazendo-a desmaiar. Enquanto isso, eu fechava todas as portas e janelas da torre e Renata me mostrava o imenso e nada complicado painel de segurança eletrônica da propriedade. Em menos de trinta segundos, eu desativei todo o sistema, enquanto Rose aplicada sedativos nos brutamontes e na empregada. Emmett amarrava todos eles nas cadeiras, vendava seus olhos e colocava fita adesiva em suas bocas. Jasper pegou o telefone e deveria estar ligando para Gregório.
O plano estava dando certo.
Emmett levou consigo as armas que os seguranças usavam, Rose e Jazz ‘limparam’ toda a cena, eu segurei na mão de Renata e senti seu corpo estremecer, ela estava em pânico e iria surtar a qualquer momento.
- Calma, Renata, falta pouco. – sussurrei e ela assentiu – Vamos, você tem que nos mostrar como chegar aos túneis de esgoto.
Rapidamente a mulher saiu do estado de letargia e descemos as escadas em tempo recorde. Atravessamos uma sala de jantar, passamos pela cozinha, entramos na despensa e descemos umas escadas até a adega. O lugar era escuro e úmido, Renata mostrou um enorme barril e por trás dele havia uma porta de alçapão. Descemos as escadas, descemos mais ainda e chegamos a um porão fedendo a mofo e queijo podre.
- Já estamos nos túneis. – ela sussurrou – Vamos!
Seguimos a mulher por um corredor escuro e fedido, por sorte, a água preta de esgoto não tinha nem dois centímetros de profundidade. Apesar de a luminosidade ser precária, os raios de sol passavam por uma fresta bem discreta. Enquanto andávamos, eu e Rose tirávamos nossos hábitos e entregávamos as armas e as munições para Emmett e Jasper. A luz apareceu por um segundo apenas, mas foi tempo suficiente para eu trocar um breve sorriso com meu Jazz.
O caminho ficou mais claustrofóbico e fétido e sobre nós o túnel foi ficando mais arqueado, seu teto baixo fez com que todos, menos eu, tivessem de se curvar para poder caminhar. Nós apressamos o passo, o tempo deveria ser nosso aliado.
No piso as pedras não eram uniformes, por isso Renata tropeçou e quase se estatelou no chão se não fosse por Emmett que a segurou no último segundo. Passamos por uma grade de ferro e o som do metal se chocando contra as paredes fez Renata se sobressaltar. A luz fraca foi ficando mais intensa e mais brilhante, por fim chegamos ao lado de fora. Tivemos de nos abaixar e engatinhar, nossas mãos tocaram naquela água imunda, mas era único jeito de sair dali.
Luz do sol. Meio dia.
O fim do túnel nos levou à parte antiga da cidade, onde só havia as ruínas do que em outros séculos deveria ter sido um anfiteatro.


Do outro lado do campo, Gregorio esperava por nós numa SUV preta e com vidros escuros, o motor estava ligado, ele acenou para nós, nos apressando. Praticamente corremos, como se fôssemos maratonistas, atravessamos o terreno acidentando em menos de dois minutos! Jasper e Emmett foram no banco da frente com ele, eu e Rose escoltávamos Renata no banco de trás.
- O que vocês fizeram com o segurança? – Gregorio perguntou.
- A gente deu um ‘sossega leão’ neles. – Emmett falou.
- Quanto de sedativo vocês usaram? – Gregorio sussurrou.
- O suficiente para deixá-los dormindo por umas seis horas. – Rose respondeu.
- Quanto tempo daqui até Piombino? – Jasper perguntou.
- Pouco mais de uma hora. – o padre respondeu – Mas eu quero fazer em menos tempo que isso!
Então ele acelerou o carro.
Renata se encolheu entre mim e Rose, puxou um terço que estava em seu bolso e começou a rezar enquanto choramingava.
Aquela mulher parecia uma frágil criança, sozinha e assustada e por um momento eu tive um pouco de pena dela. Coitada... Talvez ela não fosse uma criminosa. Talvez ela só tivesse nascido na família errada, talvez não tivesse tido outras oportunidades na vida. Mesmo sendo bilionária, talvez ela nunca tivesse tido a chance de ser uma pessoa comum, sem nenhum passado criminoso, sem ter que se casar com o tio bem mais velho que ela, sem ter que carregar a culpa por assassinatos.
Meus olhos estavam marejados, senti um aperto no peito e uma grande afeição pela pobre mulher.
Respirei fundo e na intenção de mudar o curso de meus pensamentos, ergui meu olhar e contemplei Volterra.


POV ROSALIE

Conseguimos!!!
Bem, nós conseguimos sair de Volterra, mas ainda faltava chegar a Piombino...
Meu coração parecia uma escola de samba!
Enquanto Renata rezava, eu e Alice estávamos de armas em punho e como se diz por aí: um olho no padre e outra na missa! Eu não tirava os olhos da estrada e fazia contagem regressiva pra chegar logo ao nosso destino. Como prometido, Gregorio conseguiu fazer a viagem em menos de uma hora, até porque ele fez o veículo quase voar sobre o asfalto.
Entretanto, durante a viagem ele sussurrou uma conversa com Jasper e Emmett, meus ouvidos apurados captaram boa parte de conversa. Guillermo Parlattori e mais alguns agentes da Interpol haviam entrado no palazzo Volturi assim que saímos de lá. Segundo Gregorio falou, os seguranças de Renata eram foragidos da justiça italiana e já havia mandados de prisão contra eles. Se isso era verdade... eu não sei. Talvez aqueles homens fossem apenas empregados de criminosos, mas sem nenhuma ligação com os crimes de seus patrões. Ficamos sabendo também que a polícia italiana não iria tratar o ‘sumiço’ de Renata como um seqüestro e sim, como um simples problema conjugal, já que Renata deixava uma carta endereçada ao marido, acusando-lhe de adultério e dizendo que o estava abandonando.
Fiquei feliz com essas notícias!
Isso era sinal de que nem todo mundo na Itália estava nas mãos dos Volturi!
Piombino era uma cidadezinha litorânea muito bonita e apinhada de turistas naquela época do ano. Mesmo dentro do carro eu me encantei com a beleza e simplicidade do local. Tudo ali era doce e harmônico, desde as ruas estreitas com chão de pedras e casas simples com flores coloridas em suas jardineiras, até as crianças jogando futebol nas praças. Aquelas paisagens conferiam ao local um ar bucólico, a cena parecia um quadro pintado por um artista local.
Gregório parou o carro à beira mar e saiu dizendo que iria providenciar nossa partida. Aquela praia me deixou de queixo caído, sem dúvida era uma das praias mais bonitas que já vi. Mesmo de dentro do carro, eu vi o mar azul turquesa, vi os moradores locais passarem por nós, eles eram pessoas sorridentes e alegres.
Cerca de cinco minutos depois, Gregorio voltou e deu partida no carro, nos levando até uma parte menos movimentada da cidade. Chegamos a um porto natural, numa praia quase deserta, escondida por um gigantesco paredão de pedras. Ali percebi que havia luxuosas mansões em tons pasteis e o mar lhes dava uma visão privilegiada. Descemos do veículo e andamos a passos largos por sobre um píer estreito, lá havia um homem de meia idade, gorducho e careca, também havia uma lancha. Gregorio trocou meia dúzia de palavras com o homem e deu a ela uma vultosa quantia em Euros, o homem contou o dinheiro duas vezes e lhe entregou a chave da lancha.
Entramos na embarcação e aos poucos, fomos nos afastando daquelas paisagens inesquecíveis. Um dia eu ainda voltaria naquele lugar e traria Emmett comigo, é claro! Por alguns segundos eu vislumbrei toda a cena, eu e meu amor numa lancha, percorrendo cada lugarzinho gostoso da Itália, descobrindo pequenas e charmosas ilhas... Quem sabe? Na nossa lua-de-mel? Quem sabe até a gente não encomendava nosso bebê?
‘Foco, Rosalie’, pensei e balancei a cabeça várias vezes, tentando me concentrar no aqui e agora, na nossa missão. O mar tranqüilo e as aves marítimas eram nossa companhia, além disso, o sol brilhava forte sobre nós. Emmett se aproximou de mim e mesmo de arma em punho (nós quatro estávamos em alerta máximo), sussurrou.
- Esse lugar é lindo, não é, ursinha?
Nossos olhares se encontraram e eu não pude deixar de sorrir.
- Muito lindo...
- Eu tive pensando... – ele suspirou – Estamos próximos de terminar com isso tudo. – ele ergueu o queixo e apontou para Renata, se referindo ao caso Volturi – E aí é só correr até seus pais, te pedir em casamento e marcar LOGO data. Daí, - ele se inclinou um pouco e beijou minha testa – a gente pode passar a lua de mel num lugar como esse aqui.
Sorri para meu amor e assenti, ele me deu um selinho rápido e voltou ao seu estado de vigilância. Mesmo numa situação tensa, eu me senti feliz, era como se Emmett pudesse ler meus pensamentos... Ele me dava coisas, por mais simples que fossem, que eu precisava. Desde uma singela flor até as mais sábias palavras, meu Emm supria minhas necessidades.
Gregorio conduzia a lancha e Renata estava sentada numa cadeira, rezando e de olhos fechados. Eu, Alice, Jasper e Emmett esperávamos o tempo passar e olhávamos tudo ao nosso redor. Mas por incrível que pareça, nós éramos os únicos a navegar por ali. Cerca de seis horas depois, quando a noite já havia chegado, não havia estrelas no céu e uma lua nova definitivamente não iluminava nosso caminho, passamos por um pequeno porto em La Ciotat, na França.
A lancha foi conduzida pelo litoral barulhento e apinhado de outros tantos turistas, assim como na Itália, mas Gregorio passou longe. Ele serpenteou o litoral até chegarmos a uma pequena baía que dava acesso a uma praia deserta e mal iluminada. Não havia píer nenhum e tivemos que sair da lancha e ir nadando. Por um momento eu entrei em pânico!
- Nossos passaportes! – sussurrei.
- Não se preocupem, a embaixada americana já está protocolando uma segunda via de seus documentos. – Gregorio respondeu - Quando chegarem a Paris, tudo estará pronto!
Completamente encharcados, pisamos na areia da praia e menos de um minuto depois, os faróis de dois veículos nos deixaram cegos. Aturdidos e vulneráveis, Emmett e Jasper se colocaram na minha frente e na de Alice, nos protegendo do desconhecido. Gregorio estava colado à Renata, mas ele não parecia preocupado. Os veículos pararam, dois homens saíram deles e vieram em nossa direção.
- Vamos? – um deles falou.
- Olivier, Albert, esses são os agentes do FBI, - ele sussurrou e apontou para nós quatro – e essa daqui é Renata.
O homem mais alto e calvo acenou para nós e sorriu, o outro, gordinho e completamente careca, apenas assentiu. Nos dividimos, eu Emmett e Renata fomos num carro com o homem mais alto. Alice, Jasper e Gregorio foram no outro veículo. Percebi que os carros eram duas Land Rovers e também vi que não estávamos usando estradas. Nosso caminho era por meio da floresta nativa, passando por estradas de terra e lama, me senti num rally!
A viagem curta e silenciosa não melhorou os níveis de minha adrenalina, tudo o que eu queria era entregar Renata nas mãos de Gregorio de uma vez! Por fim paramos numa propriedade rural, onde fomos recebidos por freiras de verdade. Essa era a tal fraternidade, um abrigo mantido pela paróquia de Santa Maria Madalena, para cuidar de mulheres e crianças em situação de risco. A irmã administradora da casa sabia de toda a verdade e estava muito disposta a ajudar. A outra agente da Interpol, Lucia, estava disfarçada de freira e a partir daquele momento, Renata estava sob sua proteção.
UFA! Que alegria... ‘Vai, Renata’, pensei.
Como na casa o único homem deveria ser apenas um padre, Emmett e Jasper foram convidados a dormir num chalé, dentro dos limites da casa grande, mas separado fisicamente dela, onde havia dois catres, água e comida. Naquela noite, dormi feito uma pedra. No dia seguinte, fazia parte de nosso disfarce, ‘ganhar’ algumas roupas, uma Bíblia e ouvir uma palestra sobre prostituição. Sim! Quase todas as freiras naquela casa achavam que eu, Renata e Alice éramos estrangeiras vítimas de exploração sexual no litoral francês!
Fazer o quê? Virei puta por um dia!
Fomos a uma missa na Capela de Santa Maria Madalena. Na verdade, aquilo era uma gruta, esculpida pela natureza por milhões de anos. Reza a lenda que Maria Madalena passou seus últimos dias morando naquele buraco. O discurso do padre prendeu minha atenção.


Desde o início da Idade Média, Santa Maria Madalena era muito querida na Europa, principalmente os pobres, as prostitutas e todos os outros pecadores que sofriam de alguma perversão sexual, recorriam à santa em busca de um verdadeiro arrependimento. Daí, em 1978, a Ordem das Irmãs Piedosas criaram em Sainte Baume, que quer dizer ‘bálsamo santo’, uma casa para cuidar de mulheres e crianças vítimas de exploração sexual.
Depois do almoço, eu me situei no tempo e no espaço e percebi que era quarta-feira, 20 de Abril. Um dos agentes que nos pegou na noite passada na praia veio com sua Land Rover para nos levar a Paris. A viagem de quase oito horas poderia ter se reduzido a menos de três, se tivéssemos ido de trem bala, mas nossos documentos e passaportes molhados pela água do mar poderiam levantar especulações. Encostei minha cabeça no ombro de Emmett e descansei nele por um tempo que pareceu uma eternidade, devo ter dormido. Chegamos a Paris por volta das onze da noite e contrariando todos os protocolos, fomos levados direto para a embaixada americana.
Para a nossa surpresa, M estava lá a nossa espera! Nenhum de nós entendeu nada, mas gostamos de ver seu sorriso. Ao lado dele estava um homem alto e nos foi apresentado como um funcionário da embaixada.
- Uau... quanta pompa! – Emm sussurrou ao meu ouvido.
Recebemos nossos passaportes novos, fizemos um lanche rápido oferecido pela embaixada, ainda tomamos banho e por sorte, M havia pedido para uma funcionária da embaixada para conseguir roupas limpas para nós. Enquanto escovava os dentes, Alice murmurava alguma coisa dentro da cabine do banheiro.
- O que foi Alice? – sussurrei.
- Parece que alguém comprou essas roupas numa liquidação barata qualquer!
Sorri. Era a primeira vez em dias que eu sorria com tanta descontração.
- Pelo menos estão limpas!!!
Por volta da uma hora da manhã, estávamos no Charles de Gaulle, o principal aeroporto de Paris, aguardando ansiosamente pelo vôo que nos levaria a New York.
Para casa! Sorri com esse pensamento e me abracei ao meu Emm.


POV DE UM DESCONHECIDO


Sábado, 30 de Abril de 2011.
Parecia que eu ia para o matadouro, em meus ouvidos, uma marcha fúnebre imaginária ecoava. Aquela era a trilha sonora da minha vida naquele momento.
Aos quinze anos de idade, eu era um nerd, vivia fuçando páginas de hackers na Internet até que virei um e passei a desenvolver técnicas para invadir computadores. Não existe nenhum ferrolho digital capaz de me deter, posso acessar qualquer sistema de qualquer empresa ou governo, além de bancos e instituições financeiras...
Foi por causa disso que o FBI passou a me caçar como um condenado. Aqueles filhos da puta destruíram minha reputação e acabaram com a minha empresa. Em menos de dez dias eu fui acusado de invadir o sistema do FMI, o Fundo Monetário Internacional e também de invadir o sistema do Banco Central.
Tudo mentira. Eu não sou um criminoso, minha empresa, a Safe&Safe, foi criada para prestar serviços a diversas empresas, achando os pontos fracos em seus sistemas de computador e promovendo melhorias neles.
Minha vida virou um inferno há apenas uma semana quando um cara, um tal de Alec Hartman, se dizendo Diretor Executivo de ‘sei lá o quê’ do FBI, invadiu minha empresa, me jogou num carro, leu meus direitos e fez falsas acusações contra mim. A principal acusação é que minha empresa invadia os computadores de outras empresas e roubava informações.
Fui acusado de espionagem industrial e comercial.
Esse tal de Alec Hartman me fez uma proposta muito simples: o FBI estava disposto a esquecer as acusações que tinha contra mim, se eu mostrasse boa vontade e cooperasse com uma investigação que eles estavam fazendo.
Pensei, pensei e admiti que não tinha outra alternativa.

FLASH BACK DO DESCONHECIDO
- Tá bom, tá bom. – gaguejei nervoso – Qual é o sistema que eu vou ter que invadir?
- O sistema do Marshall Service, o serviço de proteção a testemunhas dos Estados Unidos. – o tal Alec falou.
- Mas... mas... isso é quase impossível. – sussurrei aturdido.
- Não para você, meu jovem. – o cara falou gentilmente.
- Eu precisaria de semanas para fazer isso e...
- Você tem 8 dias, a contar de hoje. – olhei para ele alarmado – Temos um encontro marcado no dia 30, às 8hs da noite, no Lower Senate Park, próximo ao Capitol Hill.
- E se eu não for? – perguntei com altivez.
- Ah! Mas você não ousaria... – ele sorriu com sarcasmo – Pelo que eu fiquei sabendo, Ludmila Nikol, sua namorada, é imigrante ilegal e está grávida de seis meses, não é?
Assenti feito um idiota, meu coração acelerou quando o ouvi falar da minha garota e de nosso bebê.
- Num estalar de dedos, eu consigo a deportação dela para a Bósnia e faço questão de levantar a ficha criminal dela. – ele sorriu de novo, mostrando todos os dentes e me enchendo de pavor – Tenho certeza que aquela puta deve ter algum podre. Agora, imagine só: sua putinha grávida, de volta à Bósnia, presa numa cela, parindo o filho de vocês no meio de criminosas... Que cena linda, hein?
Me segurei pra não socar aquele desgraçado... Eu não tinha nenhuma escolha...
- O sistema de criptografia usado nos arquivos governamentais é o AES 256 bits, um dos mais sofisticados do mundo. Por favor, me dê mais tempo. – supliquei.
- Isso não é problema meu. – ele rosnou – Agora saia do carro e não se esqueça de nosso encontro.
Quando eu abri a porta do carro e me preparava para sair, ouvi um último aviso.
- Eu estou na cola de vocês, Ludmila está uma grávida muito linda e o berço que vocês compraram ontem para o pequeno Connor é muito bonito.
Meu sangue gelou. Aquele homem realmente estava me seguindo, ele sabia tudo de nós! Sabia que teríamos um menino, sabia seu nome, viu quando compramos o berço...
To fudido... pensei enquanto caminhava pelas ruas escuras de um subúrbio de Washington.

FIM DO FLASH BACK

E agora estou eu aqui, sentado num banco do parque, são 19hs e 50min e eu to me cagando de medo...
‘O que será que vai acontecer, meu Deus?’
Perguntei isso várias vezes, mas Deus não respondeu...
Para quê esse homem quer os arquivos do serviço de proteção a testemunhas?
O mesmo sedã preto e de vidros escuros de dias atrás parou junto de mim. Minhas pernas pareciam travadas, mas eu consegui me levantar e entrei no veículo.
- Conseguiu? – ele perguntou.
- Sim, - abri o envelope que estava em minhas mãos e tirei de lá dois discos rígidos – Tudo está aqui, são 4,1 TB de informação, basta agora colocar esses discos rígidos num computador e acessar o banco de dados deles sem nenhuma restrição.
- Bom, muito bom.
Eu precisava abrir o jogo com ele, meu medo era tanto que eu nem sonhava em ocultar os fatos.
- Eu usei um programa emulador, que oculta a presença de invasores nos sistemas de segurança. – ele estava atento às minhas palavras – Quando você conectar esses discos rígidos a qualquer computador, e entrar no site do Marshall Service para fazer a leitura dos dados, vai provocar uma pane geral no sistema deles. Se um dos servidores deles cai, o fluxo de dados vai trafegar por outro servidor, enquanto os técnicos vão quebrar a cabeça até descobrir onde está a falha. O único problema é que vocês só irão dispor de 60 minutos para fazer isso antes que o sistema de segurança do Marshall Service detecte a presença de invasores. A partir do 61º minuto, o sistema entrará em estado de alerta e derrubará a rede.
- Isso não é bom... – ele me lançou um olhar ameaçador.
- Vo-você pode colocar cinco ou seis computadores em rede. – gaguejei enquanto pensava numa solução – Várias pessoas juntas poderão encontrar mais rápido o que você está procurando.
- Muito inteligente! – ele bateu palmas – Daqui a uma semana as acusações contra você e sua empresa serão oficialmente arquivadas. Mas lembre-se, esse nosso segredinho fica entre nós. Ok? – assenti fervorosamente – O pequeno Connor não gostaria de nascer num país fudido como a Bósnia...
Ele abriu a porta do carro e fez sinal para que eu saísse. Trôpego e mal me agüentando sobre as pernas, sai cambaleando em direção ao mesmo banco onde estava sentado. Mas não consegui chegar lá. Uma fraqueza desconhecida, pânico, talvez, se apoderou de meu corpo. Cai no chão e fiquei ali por não sei quanto tempo. Meu corpo simplesmente não reagia a nenhum estímulo. Em parte eu estava esgotado porque há sete noites eu não dormia direito, melhor dizendo, eu só dormia 2 horas por dia! Em parte, eu deveria estar em estado de choque!
Apaguei.
- Senhor? Senhor? – uma voz desconhecida me despertou – O senhor está bem?
Um funcionário da prefeitura, desses que varrem as calçadas, estava parado junto a mim com uma vassoura nas mãos. Num átimo, eu me levantei do chão e sai correndo para casa, desesperado...
Eu só pensava em rever minha namorada, abraçá-la, dizer que a amo... e sentir nosso bebê chutando dentro de sua barriga.