Ainda não acabou
Desde que a verdade foi revelada no castelo de Newell, a vida de Caius tinha se tornado miserável.
O Barão estava farto de fingir humildade ao Rei, mas sabia que estava vivendo um momento difícil. William ainda estava furioso pelo fato de que Caius e as outras pessoas tivessem acreditado em Jane, aquela cadela mentirosa. E quando Caius se atreveu a dizer que Aro tinha enganado e induzido Jane a mentir a respeito de Lady Isabella, o Rei o fez lembrar que Jane era sua sobrinha e que vivia sob seus cuidados, por isso Caius era responsável por suas ações. Além disso, William já tinha deixado vem claro seu aborrecimento com o Aro. O patife tinha perdido de seu título e de sua pequena propriedade e tinha sido trancado num calabouço onde pudesse meditar a respeito de seus delitos. E só para ter certeza de que Jane também aprendeu sua lição, o Rei pensou que seria apropriado que ela acompanhasse Aro. Talvez ambos pensariam melhor antes de conspirar contra os desejos do Rei, se fossem obrigados a permanecer todo o tempo juntos.
Caius sabia que era necessário obter logo o perdão de William. O Rei tinha um temperamento terrível e certamente culparia Caius por qualquer problema que pudesse surgir. Então o Barão fez tudo o que estava em seu alcance para agradar ao Rei. Caius seguia William aonde quer que este fosse e estava a sua inteira disposição dia e noite. Se o Rei tivesse pedido, Caius rodaria sobre si mesmo como um cão ensandecido. Como resultado desses exaustivos esforços, William estava suavizando sua atitude para com ele. Afinal, o Rei era um fanfarrão e gostava de ter um confidente a quem poder se gabar com histórias a respeito das esposas dos Barões com as quais se deitou.
Embora fosse muito humilhante rebaixar-se tão servilmente, a nova proximidade de Caius com o Rei, certamente tinha suas vantagens. Ele estava presente quando o mensageiro retornou para dar as boas notícias ao Rei. O rumor tinha sido confirmado: Lady Isabella tinha sido encontrada e acolhida pelo Clã Cullen e estava vivendo entre os Highlanders em sua fortaleza situada nas montanhas. William estava alegre. Agora podia dedicar-se a fazer as pazes com a dama e possivelmente aplacar um pouco da animosidade do Barão Charlie e os outros Barões.
Antes de enviar seu mensageiro à propriedade Cullen com um anúncio para Isabella, William convocou o homem para lhe dar instruções específicas. Caius estava ali escutando. O rei contou a Caius que tinha escolhido este arauto em particular porque ele tinha uma memória perfeita e podia repetir qualquer mensagem de forma exata, palavra por palavra. Depois de expressar sua admiração pelo bom julgamento do Rei, Caius lhe recordou que ele logo acabava de retornar dessa parte das Highlands. Possivelmente lhe pudesse oferecer algum conselho.
— O caminho para chegar ao Clã Cullen é perigoso. Os Highlanders às vezes são hostis com os estrangeiros. — disse Caius — Posso sugerir que seu arauto faça uma parada na Abadia de Arbane para conseguir uma escolta que o acompanhe pelo resto do caminho? Os monges se mostrarão serviçais se houver uma contribuição generosa para a Igreja.
Ele viu que o Rei se irritou por essa sugestão e, portanto acrescentou vacilante:
— E para mostrar minha boa vontade, estarei contente de prover o que Vossa Majestade considere necessário.
— Então você proverá com o dobro de seus impostos, Caius, e dessa forma eu ficarei satisfeito. — disse o rei. — Dê aos monges o que bem entender. Eles não me importam, mas sim quero que meu arauto tenha uma viagem segura.
Caius encheu a carroça com uma dúzia de barris do vinho mais fino que pôde comprar e o envio delas à Abadia precedendo ao mensageiro. Logo Caius pediu ao Rei que o permitisse retornar a seu lar para poder fazer a contabilidade do cultivo que acabava de ser colhido. O Rei lhe outorgou sua permissão.
Caius reuniu seus homens o mais rápido que pôde e se dirigiu à Abadia de Arbane. Tendo selecionado só soldados bem treinados para que o acompanhassem, estava rodeado de um exército pequeno, mas competente, ele não estava disposto a correr nenhum risco. Os homens desapareciam freqüentemente nas terras selvagens das Highlands e nunca mais lhes voltava a ver. Caius ainda estava esperando notícias dos homens que tinha enviado para que verificassem o paradeiro de Isabella. Suspeitava que tivessem roubado os baús e que em nenhum momento tinham ido à propriedade Cullen.
Os monges da Abadia de Arbane acabavam de acomodar-se para rezar suas preces noturnas quando um forte e estrepitoso ruído na porta dianteira os interrompeu. O Abade se apressou a atravessar o pátio, foi até à a porta, irritado pelo inconveniente.
Era muito cedo para que os monges que tinham viajado à propriedade Cullen tivessem retornado. Sua jornada de volta lhes levaria mais tempo que o habitual devido à presença do Bispo. Este tinha estado de visita na Abadia quando chegou o mensageiro da Inglaterra, e ao escutar sobre a mensagem que devia se entregue a Lady Isabella, o Bispo tinha insistido em acompanhar o grupo, explicando que raramente tinha a oportunidade de estar presente quando se recebiam boas notícias da parte do Rei inglês. A sua volta, os monges deveriam tomar uma rota alternativa para deixar o Bispo em sua residência, o que acrescentaria umas duas horas extras a sua viagem. Era impossível que tivessem viajado tão velozmente para que já estivessem de volta.
O Abade deslizou o ferrolho e abriu a porta que emitiu um estalo. Vendo quem era, abriu-a amplamente.
— O que lhes traz de volta à Abadia de Arbane? — perguntou surpreso.
O Barão Caius passou junto ao Abade e entrou no pátio, seguido por um de seus subordinados, Cyril. Voltou-se para ele e lhe deu ordens para que sua tropa montasse um acampamento fora dos muros do mosteiro. Só depois que terminou, Caius falou com o Abade:
— Venho em nome do Rei William. — anunciou.
— Com que propósito? — perguntou o Abade desconfiado.
Caius já tinha pronta uma explicação:
— O Rei enviou um de seus arautos como mensageiro para entregar uma mensagem na propriedade Cullen. Recebi notícias dos viajantes dizendo que há um grande tumulto nas Highlands. — mentiu — E temendo pela vida do mensageiro, sabendo quão importante é sua missão para o rei, comprometi-me a reunir um pequeno exército para assegurar uma viagem segura ao mensageiro.
Caius não se dava conta da veracidade de sua declaração a respeito dos tumultos, já que ainda não sabia que o Laird Mike Newton tinha morrido.
O Abade fez o Barão entrar no salão.
— Estou seguro de que o mensageiro retornará a salvo, Barão, mas é bem-vindo a ficar aqui para que possa vê-lo por si mesmo. Farei que o cozinheiro lhe traga comida e bebida. Se houver algo mais que possa fazer para que se sinta confortável, sou seu humilde servo.
O Abade apressou-se a ir fazer os acertos para acolher o hóspede inesperado.
Quando o grupo que retornava da fazenda Cullen, esgotado pela viagem, retornou à Abadia depois do anoitecer, Caius estava esperando-os para saudá-los.
O mensageiro se surpreendeu ao ver o Barão.
— O Rei o envio com mais ordens para mim? — perguntou.
— Não — respondeu Caius, afastando uma cadeira da mesa para oferecer ao mensageiro. — O Rei confia em você e eu igualmente sei o quão importante é seu dever aqui. Sua segurança é importante para ele … e como não há nada que eu valorize mais que a felicidade do Rei, sinto que é minha obrigação me encarregar de seu bem-estar.
Dedicando-lhe um obsequioso sorriso, assinalou-lhe a cadeira.
— Sente comigo, me conte sua aventura enquanto bebemos um pouco de vinho e comemos um pouco de queijo. Os Cullen são tão selvagens e mal-humorados como ouvi? E Lady Isabella? Continua tão bonita como me lembro?
O mensageiro se sentiu adulado pela atenção do Barão e ansioso de compartilhar sua experiência. Depois da segunda taça de vinho, estava completamente relaxado e as palavras fluíam livremente.
— Quer que lhe diga palavra por palavra tudo o que disse cada um deles?
— Não, não, não precisa. — disse Caius — Guarde seu relatório para o Rei. Só me interessa saber como é essa gente.
— Não direi ao Rei cada palavra que escutei. Ele só quer saber se Lady Isabella aceitou sua desculpa e seu oferecimento de Finney’s Flat.
O mensageiro tomou um gole de vinho enquanto Caius esperava impaciente.
— Agora para responder a sua pergunta, Lady Cullen é uma beleza. — disse — Também parecia contente. Seu novo Clã estava feliz de escutar que agora Finney’s Flat pertence a seu Laird. Eles…
Caius o interrompeu:
— Lady Cullen? Quer dizer Lady Isabella?
— Agora é Lady Cullen, já que se casou com o Laird Cullen. Devo lhe dizer, que quando ele me olhava me fazia tremer dentro de minhas botas. É um guerreiro feroz.
O mensageiro aceitou mais vinho e continuou falando a respeito da impressão que lhe tinha causado o Laird Cullen. Ele não notou a angústia de Caius, os lábios do Barão tremiam de tanto nervosismo.
Enquanto conversava amigavelmente a respeito do casal, Caius mantinha o olhar à frente, apertando tanto sua taça que o bordo começou a dobrar-se pela pressão. A bílis que subia do estômago lhe queimava a garganta, ele teve que empregar toda sua força de vontade para não gritar de fúria.
Muito tarde.
Era muito tarde.
Isabella o tinha enganado mais uma vez.
Será que ele teria perdido também o tesouro?
Cada vez que o mensageiro fazia uma pausa, Caius assentia para encorajá-lo e voltava a encher sua taça. Depois de tanto vinho, o mensageiro começou a balbuciar, e começou a sentir as pálpebras pesadas.
— Tenho sono. — disse começando a levantar-se.
Caius se apressou a lhe oferecer mais queijo e pão.
— Dormirá melhor com o estômago cheio. — disse, sorrindo amplamente quando o mensageiro estendeu a mão para alcançar a comida.
— Que outras notícias você escutou? — perguntou Caius — Os Cullen são um grupo muito peculiar, eu os acho fascinantes. — acrescentou para que o mensageiro não percebesse um motivo mais profundo. Duvidava de que no dia seguinte o bêbado fosse se recordar de algo do que houvesse dito.
— Enquanto esperava que Lady Cullen voltasse a sair, provei uma variedade de comidas muito interessante. Havia umas carnes que desfrutei muito…
Caius o deixou divagar, com a esperança de ouvir algo interessante.
— Estavam celebrando.
Disse o mensageiro, bocejando, ele tinha um pedaço de queijo preso entre os dentes e Caius apartou a vista. A conduta do bêbado estava se tornando cada vez mais desagradável.
— Celebrando o que? — perguntou, incapaz de ocultar a irritação em sua voz.
— Finney’s… — pareceu ter perdido o fio.
— Estavam celebrando as notícias de que agora Finney’s Flat lhes pertencia? — aguilhoou Caius.
— Sim, sim. Agora é deles.
— Foi mencionado que seu Laird fosse receber algo mais?
O mensageiro piscou várias vezes, tratando de concentrar-se:
— O que?
— Ouro. — murmurou Caius. — Alguém mencionou ouro?
O mensageiro coçou o queixo.
— Não, ouro não.
Caius estava se afogando em seu desespero, afundou-se na cadeira e enterrou a cabeça entre suas mãos.
— Perdido. — murmurou.
Pensou que o mensageiro estava dormido, mas estava equivocado.
— Tesouro.
— O que foi que você disse? — perguntou Caius asperamente.
— Falaram num tesouro.
— O Clã sabe do tesouro? — demandou e sacudiu ao mensageiro para despertá-lo o suficiente.
— O Padre … “Nosso Laird também possui o tesouro de St. Noah”, essas foram suas palavras exatas. — resmungou.
Caius se inclinou mais perto do homem para poder ouvir cada palavra.
— Alguém disse onde está esse tesouro?
— Não… Lady Cullen… Lady Cullen disse…
Caius agarrou ao homem pelos ombros.
— O que Lady Cullen disse sobre o tesouro?
A cabeça do homem rodou para um lado.
— Disse que o Laird obteria Finney’s Flat … mas que não obteria o tesouro, porque este não existia.
Caius soltou os ombros do homem e se afastou. Possivelmente não era tarde demais, ele passaria por cima de tudo e todos para ter o seu tesouro.
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NOTAS FINAIS DO CAPÍTULO
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Até a próxima!