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- Paradise

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- Música Das Sombras - adaptação do livro homônimo. (Fic concluída)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Paradise - Capítulo 10

Ataques


POV EMMETT

Nossa maluquinha havia nos convidado para conhecer o Lago Silver, tomar banho de cachoeira e etc. e tal. Mas no final das contas, eu mergulhei em seu lago... molhado, quente, doce, gostoso e apertado...
Puxa vida!
Agora que já não estou ao lado dela, agora que Edward já foi dormir e eu estou sozinho em meu quarto, meditando sobre o meu domingo legal, percebo que foi tudo MARAVILHOSO!
Na boa, esse negócio de sexo-a-três só passava na minha cabeça como uma fantasia bem pervertida: eu, meu pau e duas gatas gostosas! Ooopppsss, deixa eu contar de novo... sexo-a-quatro!
Mas hoje eu percebi que tudo foi perfeito. Bella é perfeita, gostosa, sensual, carinhosa e... ainda me ama! Eu me senti muito bem com ela, na verdade, mais que bem. E o lance de meu irmão estar na jogada ali com ela não me causou estranheza, na verdade, eu mal notei que Edward estava ali.
Enquanto me revirava na cama, feito um cachorro, procurando uma boa posição para dormir, eu sorria abobado, me lembrando das sensações que Bella me deu, me lembrando de sua bundinha gostosa e sua grutinha molhada, de sua boca no meu pau.
- Aaahhh... – gemi baixinho, quando me senti duro e o jeito que teve foi jogar os ‘cinco contra um’ pra ver se eu conseguia liberar aquela tensão e pegar no sono de vez.
No dia seguinte, eu acordei muito cedo e bem disposto, tomei um banho frio, troquei de roupa e encontrei Ed preparando o café, seu sorriso também ia de orelha a orelha. O silêncio era agradável, cada um envolto nos próprios pensamentos, até que ele falou.
- Emm, eu pensei muito ontem, antes de dormir e tomei uma decisão – ele estava com o cenho franzido, sinal de que estava tenso - Considerando que tudo ontem foi perfeito para mim, considerando meu amor por Bella e sabendo que ela também me ama, considerando que você também a ama, considerando...
- Porra, mano! Considerando que você está enrolando...
Ele bufou e fez uma careta.
- Eu quero viver com Bella pelo resto da minha vida. – ele despejou tudo de uma vez só – Será que eu to ficando louco? Já que só tenho 19 anos?
- Então somos dois. – murmurei – Con-si-de-ran-do que papai quando tinha a nossa idade já estava casado, - falei zoando meu irmão e enfatizando a palavra que ele repetiu – então somos um pouco menos doidos que ele.
- Ah! Emm, não dá pra falar sério com você! – meu irmão resmungou.
- Não, mano, to mesmo falando sério! – falei solenemente – Considerando que já peguei um monte de gatas gostosas e que nenhuma delas me fez sentir o que a Bella faz... Considerando que entre mim e ela rola o sentimento mais verdadeiro do mundo, quero a minha maluquinha para sempre. O dia de ontem só foi uma prévia de como será o resto de nossas vidas!
- Isso é meio inusitado... – ele pensou alto - A gente já concordou em sair com ela, em namorá-la, transamos com ela... Não há estranheza da minha parte, não há constrangimento ou ciúme. Tudo o que eu sei é que sem ela eu não consigo viver. E se ela diz que não pode viver sem a gente, eu realmente não me importo de ficarmos assim.
Notei que o cérebro de Edward estava prestes a se contorcer, de tantas voltas que ele dava, resolvi ajudá-lo, simplificando tudo.
- Eu e Bella. Bella e você. – falei enfaticamente – As coisas são simples assim, mano! – toquei em seu ombro – Simples como o amor deve ser...
Nosso café filosófico foi interrompido pelo toque de meu celular, todo animado, eu sorria feito um pateta, achando que ela Bella quem ligava, mas na verdade era Rose, minha prima.
- Posso saber por que você e seu irmão me deram o bolo no sábado? 
Ela rosnou e eu pensei por uns bons trinta segundos, tentando me lembrar o que tinha no sábado.
CARACA! O jantar de noivado dela...
- Ah! Rose, desculpe, não pudemos ir ao seu noivado. – falei evasivamente.
- POR QUÊ? – ela demandou exigente.
- Nossa garota teve um probleminha.
- E Edward? Por que não foi?
- Pelo mesmo motivo. – pela minha visão periférica, vi quando Ed fez uma careta de desgosto.
- Quem são as namoradas de vocês? Elas são da universidade? – minha prima de repente ficou curiosa.
- Sim, nossa garota é de lá. – enfatizei o nossa, mas acho que a loira não entendeu.
- Ok. A gente se vê na aula então. – ela desligou o telefone na minha cara.
- Porra, essa nossa priminha é muito tratante. – murmurei.
- Ela é uma chata, isso sim! – Ed levantou da cadeira – Vamos logo, se não a gente vai se atrasar.
- Sim, vamos. Quero ver se a gente encontra com Bella antes das aulas. – falei.
Forcei o motor de Lucille até o seu limite de 80Km/h (a pobrezinha era uma ‘senhora’ idosa), eu não via hora de chegar na universidade e encontrar minha Bella de novo!
Puta que pariu! Eu não pensava que pudesse sentir tanta saudade assim de uma pessoa...
Assim que estacionei numa vaga qualquer, peguei o celular e disquei o número de minha namorada, ele atendeu no primeiro toque.
- Oi Emm! – posso jurar que ela estava sorrindo quando falou.
- Oi bebê. – sussurrei – Onde você está? Queria te ver antes da aula.
- Caminhando para vocês... – ela disse e desligou.
Cinco segundos depois, senti sua mão roçando na minha enquanto via ela depositar um casto selinho em Ed. Ganhei meu selinho também e não pude deixar de notar que várias pessoas nos encaravam, alguns com olhares confusos, alguns com um riso sarcástico e umas garotas fizeram cara feia.
Nós três ignoramos as reações das pessoas e nos envolvemos numa pequena conversa. Eu tinha uma mão enroscada na de Bella, enquanto Ed afagava o seu rosto. Combinamos de nos encontrar no almoço e depois cada um seguiu seu caminho.
Meu coração ficou apertado assim que minha Bella desapareceu das minhas vistas. Não sei, mas algo me dizia que alguém poderia tentar alguma maldade contra ela. Suspirei frustrado. As pessoas em geral são muito preconceituosas e temem as coisas que lhe parecem estranhas.
Assim que cheguei ao laboratório, percebi que todos os lugares estavam ocupados, até que um par de mãos acenava freneticamente para mim. Reconheci Lauren King de imediato, a futura cunhada de minha prima Rose estava me chamando para sentar ao seu lado. Como não havia mais lugar nenhum vago, eu tive que ir pra lá.
- Oi Emmett. – ela sussurrou – Senti sua falta no noivado...
- É não deu pra ir. – me limitei a dizer isso e fui salvo pelo gongo quando o professor chegou na sala de aula.

POV EDWARD

Quando me despedi de Bella, percebi que estava quase atrasado. Apressei os passos e alcancei o corredor principal do prédio de Administração, Heidi começou a me acompanhar.
- Então é verdade mesmo que você e seu irmão dividem a mesma garota? – ela sorria enquanto falava com naturalidade.
Na hora, senti os músculos de meu corpo se retesarem, eu ainda não estava preparado para as reações das pessoas. Optei pela verdade.
- Sim, é.
- PUTA QUE PARIU! – ela deu um gritinho de surpresa, mas depois levou a mão à boca – Desculpe, Edward. – ela sorriu – Que legal!
- Legal?! – arqueei as sobrancelhas – Você está mesmo sendo sincera?
- Claro que sim! – ela assentiu enfaticamente – Aquela garota nasceu com o bumbum empinado pra lua, só pode! Pegar dois dos caras mais gatos e gostosos do campus não é pra qualquer uma e...
- Heidi, - sussurrei – eu gosto da Bella de verdade, não é só sexo!
- Melhor ainda! – ela me deu uma tapa no antebraço, parecendo um garoto.
Sorrimos com isso e eu tive a certeza que pelo menos Heidi não nos via com maus olhos. Sim, porque enquanto caminhávamos, recebi olhares mortais de várias pessoas.
Já na sala de aula, me concentrei nas aulas, preenchendo meu cérebro com as matérias, sabendo que dali a alguns anos eu voltaria à minha querida Paradise, formado em Administração de Empresas, pronto para dirigir nossa empresa de pescados e abrir uma pousada na ilha. Sim, eu sonhava alto, mas com Bella ao meu lado e tendo Emmett como irmão e sócio, eu conseguiria chegar lá.
No final das aulas, eu já estava morto de fome e morrendo de saudades de minha princesa. Eu seguia apressado para o refeitório quando fui interceptado pelo Mike-idiota e seu fiel escudeiro, o Tyler-babaca.
- Quer dizer então que você e seu irmão estão pegando a Swan?
Mike falou com sua voz irritante, arrancando uma risadinha gay de Tyler e eu contei até dez em pensamento, disposto a ignorar o idiota. Para ver se me livrava dos dois, entrei no banheiro, mas aquilo foi uma péssima idéia. O banheiro estava vazio e eu percebi que aquilo poderia ser uma armadilha, mas tive a certeza disso quando vi Tyler fechar a porta, trancando-a e quando Mike flexionou os músculos de seus braços, tentando me intimidar.
‘Covardes’, pensei.
- O que foi, Cullen? – Tyler zombou – O gato comeu sua língua?
- Eu sempre soube que a Swan era uma vadia! – Mike falou, me tirando do sério -  Agora, quero que a fila ande para chegar na minha vez.
- E eu! Quem sabe até a gente não pega ela de uma vez só! – Tyler falou e aquilo foi uma blasfêmia aos meus ouvidos.
Usando uma força que eu não sabia que tinha, dei dois passos em direção a Mike, fazendo-o se encostar na parede. Cego pelo ódio, eu usei um antigo golpe de Kung Fu (sim, eu aprendi essa arte marcial na adolescência), o chin na, apertando os bíceps do Newton com bastante força. Mas não estava tão cego a ponto de não ver que Tyler investia contra mim, usando uma lixeira de alumínio, me desviei de seu golpe, usando Mike como escudo, Tyler acertou parcialmente as costas do colega, mas acertou em cheio o espelho, fazendo com que pequenos estilhaços cortassem sua mão. Essa movimentação toda fez com que meu celular escorregasse do bolso e caísse no chão, sendo pisado por Tyler. O babaca começou a pular quando viu o sangue jorrando de sua mão, nesse meio tempo, o golpe em Mike estava surtindo efeitos.
A técnica milenar chinesa nada mais era do que saber exatamente onde apertar no oponente. Pressionando seus bíceps com bastante força, eu estava imobilizando seu corpo e causando muita dor, a dor estava paralisando seus nervos, reduzindo seus movimentos. Se eu continuasse, o Newton ficaria com falta de ar, eu poderia matá-lo, mas não sou um criminoso.
Tyler veio para cima de mim e justo nessa hora, joguei um Newton entorpecido pra cima dele, fazendo-o cair como um boneco sobre o colega. Atordoado pela minha atitude, já que eu nunca tinha sentido tanto ódio na minha vida, dei dois passos para trás, respirando pesadamente. O ódio era tanto que eu mordi a minha língua, só percebi isso quando senti o gosto do sangue.
- Cullen desgraçado! – Mike falou ofegante.
- Você tá fudido, cara! – Tyler choramingava – Vou acabar com você!
- Deixem Isabella Swan em paz. – rosnei – Este é o meu último aviso!
- Papai vai ficar sabendo disso... – Mike parecia um franguinho enquanto tentava se levantar – Você vai ser expulso daqui!
- Ah! Mas eu não vou deixar isso como está! – rosnei – Agora mesmo vou procurar a direção da Universidade.
- E você acha que a palavra de um Cullen vai ter algum valor se comparada à palavra de um Newton e de um Crowley? – Tyler falou presunçosamente – Nossos pais são mantenedores da Universidade, sabia, Cullenzinho de merda? Filho de pescador ignorante...
Quando eu ia partir pra cima do desgraçado, disposto a matá-lo, fomos interrompidos pela batida estridente de uma das cabines do banheiro.
- Ca-ca-calma, Edward! Não fa-faça uma... me-merda!
Alec Gray, meu tímido, gago e asmático colega de turma, estava escondido numa das cabines do banheiro.
- Alec? – Mike e Tyler falaram em coro.
- Eu po-po-posso teste-te-temunhar a se-se-seu favor! – ele falou depois de muito custo.
- Não se meta nisso seu ga-ga-gago de merda! – Mike rosnou.
As coisas poderiam sair do controle novamente, me abaixei, peguei o chip do celular e o guardei no bolso, abri a porta do banheiro e puxei Alec pela alça da mochila. Demos três passos pelo corredor, ignorando os olhares curiosos das pessoas que certamente escutaram muito barulho, mas Alec empacou.
- Cu-cu-cullen, só um mi-minuto... – ofegante, ele pegou uma bombinha que estava no seu bolso e aspirou profundamente, tentando afastar sua asma – Pron-pronto.
- Não tive chance de te agradecer, Alec. – falei com sinceridade – Obrigado.
- Por na-nada! – ele sorriu – Mi-mi-mike e Tyler sempre fo-fo-foram os fo-fo-fodões, eles são uns i-idiotas.
Na sala do coordenador do curso de Administração, eu contei rapidamente o caso a ele. O homem velho, barrigudo e careca me olhava com um ar superior e não deu importância ao caso, mas deixou bem claro que eu pagaria pela lixeira quebrada e o espelho do banheiro. Alec, sentado ao meu lado direito, tentou falar, mas foi interrompido pelo coordenador. Nesse meio tempo, eu ainda não sabia, mas um escarcéu estava sendo armado.
Quando dei por mim, entraram na sala do coordenador, o reitor, Mike Newton e Tyler Crowley. Este último lançou um olhar questionador e intimidador para mim.
- Sr. Cullen, o senhor tem um grande problema, sabia? – o reitor, um homem alto, magro e seco como uma espiga de milho mirrada, falava enquanto injustiça, preconceito e sarcasmo escorriam de sua boca – Como o senhor explica as atitudes de vandalismo e as agressões feitas a seus colegas?
- Se-senhor, eu po-po-posso lhe...
- O assunto não é com o senhor, Sr. Gray! - o reitor rosnou, fazendo Alec se encolher no sofá - O senhor sabe que poderá ser expulso, não sabe, Sr. Cullen?
- Sei. – falei seco.
- Mas como eu sou um homem justo, estou disposto a ouvir sua versão, embora eu ache que nada justifique uma atitude como esta, passível de expulsão. Nenhum aluno da Maine University deve ter este comportamento.
- Seja razoável, senhor. – falei – Não julgue antes de saber de tudo.
- Já sei o suficiente! - o homem elevou o tom de voz – E já tomei minha decisão, todos aqui são testemunhas. – ele falou olhando diretamente para mim – O aluno que provocou a briga e que destruiu patrimônio da universidade será punido com uma pena de advertência por escrito. Essa pena constará em sua ficha e este aluno terá que andar na linha daqui por diante, se não, da próxima vez que ele fizer qualquer infração, será considerado reincidente e será EXPULSO daqui! Alguma dúvida, Sr. Cullen?
- Somente uma, senhor. – falei num tom de voz baixo e contido – O senhor vai me deixar falar?
- Já ouvi o suficiente! Este assunto acaba aqui. Considere-se avisado, Sr. Cullen! – ele se levantou e já estava prestes a sair da sala.
- PUTA QUE PARIU! CARALHO! EU AINDA NÃO FALEI!!! – Alec gritou a plenos pulmões e eu me espantei porque ele não gaguejou nenhuma vez.
- Isso são modos, Sr. Gray? - o reitor girou em seus calcanhares.
- E-e-eu gra-gravei a briga to-toda no meu celular. – ele falou por fim.
- Foi? – eu falei surpreso e vi quando Mike e Tyler engoliram em seco.
Rapidamente, Alec tirou seu celular da mochila e exibiu as imagens e o áudio para nós. A qualidade do vídeo estava perfeita, não dando margem de dúvidas para ninguém. Via Bluetooth, Alec enviou o vídeo para o computador do coordenador, ele disse que precisaria daquilo.
- Bem... ééérrr... acho que já esclarecemos tudo. - o reitor falava com cara de puta arrependida – Sr. Newton, Sr. Crowley, a conta dos prejuízos será enviada para seus pais e vocês já sabem, não é? Mais um deslize e serão expulsos.
- Isso não é tudo, SENHOR. – eu rosnei o senhor – Suponho que o senhor me deva desculpas.
- Sim, claro. – o reitor sussurrou – Desculpe pelo mal entendido, Sr. Cullen.
- Desculpas aceitas. – respondi seco.
Fomos interrompidos por uma batida frenética na porta da sala do coordenador. A secretária do mesmo parecia constrangida por não conseguir impedir que Heidi MacKenna entrasse na sala.
- O que a Srta. MacKenna deseja? – o reitor perguntou.
- Gente, gente aquele vídeo é verdadeiro? – ela falou ofegante.
- Co-como você sabe do vídeo?- dessa vez quem gaguejou fui eu.
- Todo mundo recebeu um vídeo pelo Bluetooth do celular há poucos minutos!
- Ca-ca-caralho... mandei pra to-todo mundo...
- Srta. MacKenna, este assunto não lhe diz respeito. – o reitor rosnou.
- Mas é claro que me diz respeito! – ela olhou friamente para Tyler – Quero acrescentar que Tyler Crowley e eu éramos namorados no ensino médio, mas graças a Deus não somos mais. A inimizade dele com Edward começou na primeira semana de aula porque eu estava conversando com Edward e esse idiota ai, - ela apontou para Tyler – desse dia em diante ficou de marcação com Edward. Tenho certeza que ele faz de tudo para provocar Edward Cullen!
Heidi terminou seu discurso olhando para Tyler tentando conter um riso debochado diante da cara de patife-fudido que ele fazia.

POV BELLA

Eu só notei que todo mundo estava mesmo olhando para mim depois que me despedi de meus Cullen. Apressada e possivelmente corada, porém determinada a nos assumir publicamente, eu me empertiguei e caminhei de cabeça erguida até a sala de aula. Avistei Angela e sentei ao seu lado, ela me cumprimentou com um sorriso tímido.
- Oi, Ang! – sussurrei.
- Oi, Bella. – ela parecia hesitante – Então, você e os Cullen estão mesmo juntos?
Havia curiosidade na sua voz, mas não percebi nenhum traço de maldade.
- Sim! – sorri exultante.
- Juntos... juntos? – ela estava boquiaberta.
- Juntos, juntos, juntos... – suspirei.
Tivemos de interromper a nossa conversa porque a professora entrou na sala de aula, mas Ang escreveu uma pergunta na última página de seu caderno:
‘Você está feliz, Bella?’
‘Como nunca imaginei que pudesse ser feliz!’ – escrevi de volta.
‘Estou feliz por você’
A professora fez cara feia, então nós paramos de escrever e nos concentramos na aula. O resto da manhã foi do mesmo jeito, algumas garotas de cara feia para mim, eu ‘andando cagando pra cara feia delas’ e assistindo as aulas em companhia de Ang, minha única amiga naquele campus.
Na hora do almoço, me dirigi ao refeitório e de imediato avistei meu Emmett. Suspirei. Seus músculos definidos estavam ainda mais lindos sob aquela camiseta preta em decote V... Ui, ui, ui, papai... Percebi que estava com fome de outra coisa também!
Mas Edward não estava ali e eu achei estranho... Normalmente os meus dois anjinhos chegavam primeiro que eu ao refeitório. Bom, talvez a aula dele tenha terminado mais tarde. Assim que me aproximei da mesa, Emm arrastou a cadeira para mim, eu sentei e nos cumprimentamos com um selinho. Para não perder tempo, deixamos nossas mochilas sobre a mesa e fomo para a fila da comida.
- Amor, você viu Edward? – perguntei enquanto meus olhos percorriam o refeitório.
- Não. – ele falou enquanto depositava um beijo cálido no meu ombro – Liguei pro celular dele, mas caiu direto na caixa postal. A bateria deve ter acabado.
- Ele vai acabar comendo as sobras...
- É mesmo.
- Já sei! Vou fazer um prato pra ele também!
Emm equilibrou em sua bandeja o prato dele e o de Ed. Eu me empenhava em fazer um prato gostoso pro meu Ed, tentando me lembrar das coisas que ele costumava comer. De volta às nossas mesas, assim que eu e Emm demos a primeira grafada, sentimos, ao mesmo tempo, nossos celulares vibrarem dentro das mochilas.
- Deve ser Edward. – sussurrei despreocupara enquanto abria a mochila.
Pela minha visão periférica eu percebi que ‘meio mundo de gente’ também estava com seus celulares nas mãos. Não era Edward quem ligava, eu recebi uma mensagem em forma de vídeo. Descarreguei o conteúdo.
- Puta que pariu... – murmurei e mostrei a Emm o vídeo.
Mesmo atordoada, escutei quando ele disse.
- Caralho, recebi o mesmo vídeo...
Fiquei mais atordoada ainda quando percebi que as pessoas das mesas mais próximas começaram a comentar o vídeo, falando do golpe que Ed aplicou em Mike e de Tyler tentando acertar meu Ed com a lixeira de alumínio. Meu rosto deve ter se contorcido numa careta de dor e senti vários pares de olhos em mim. A situação estava super tensa principalmente porque nem eu nem Emmett tínhamos notícias de Ed, mas tudo piorou quando uma loira linda como uma modelo dessas que se vê nas capas da Vanity Fair apareceu na nossa mesa.
- Então essa é a garota dos Cullen? – ela me olhava de cima a baixo e tinha uma sobrancelha erguida, enquanto me avaliava.
- Você chegou numa péssima hora, Rose. – Emm mantinha a voz baixa e sob controle.
Ah! Então aquela era a tal da prima Rosalie?! Caraca, agora sei por que Edward não gosta dela nem um pouquinho!
- Não acredito que você e Edward puderam descer tão baixo... – a loira azeda continuava enquanto ainda me olhava com desdém – Aquele vídeo explica tudo! Agora dou graças a Deus que vocês não foram ao meu noivado.
Ela não se demorou mais na nossa mesa, porém seu veneno foi forte o suficiente para me fazer travar. Por cima da mesa, Emm entrelaçou as nossas mãos e sussurrou.
- Bebê, parece que o mundo todo está caindo sobre nossas cabeças. – ele apertava minha mão enquanto seu polegar fazia uma massagem suave nela – Eu sei que é difícil, mas tente não chorar. – ele olhou ao redor – Metade desse povo espera que você chore e a outra metade está doida para ver o circo pegar fogo.
Entendi o que ele quis dizer e engoli o choro, bebi um gole de refrigerante e para a minha alegria, vi quando meu Ed entrou no refeitório acompanhado de outro cara. Todos os olhares convergiram para ele, assim que chegou à nossa mesa, ele sorriu fraco para mim e uniu sua mão à minha.
- Desculpem pelo atraso.
- Mano, cadê seu celular? E que porra de vídeo foi aquele?
- O celular quebrou na hora da briga, mas eu recuperei o chip e o vídeo fala por si só, Emm. – ele fez uma careta – Agora quero lhes apresentar Alec Gray, o colega que gravou tudo e me ajudou a provar que eu não tinha começado a briga.
- Valeu, brother! – Emm cumprimentou o cara num high five.
- Obrigada! – sorri emocionada – Muito obrigada!
-D-de-de nada!
OMG... Ele é gago! E tímido! Porque corou violentamente!
- S-se minha ga-garota fosse t-tão l-linda assim, eu t-ta-também b-br-brigaria por ela!
OMG! De novo!
Soltei as mãos de meus amores e me levantei, cumprimentei Alec apertando suas duas mãos e sorrindo mais uma vez por ele ter salvado a pele de meu Edward.
O assédio de alguns alunos começou, alguns caras queriam saber como foi que Edward imobilizou Mike de uma forma tão eficaz, outros diziam que se um babaca qualquer ofendesse sua namorada, fariam picadinho do cara e etc. e tal. Convidamos Alec para sentar em nossa mesa, mas ele agradeceu e disse que já estava de saída porque tinha sessão de fonoaudiologia dali a meia hora. Em meio a muita conversa e garfadas, terminamos o almoço em paz. Mas eu não sou idiota. Muitos dos que nos aplaudiam hoje, amanhã jogariam pedras em nós e muitas das garotas que hoje me hostilizavam, amanhã encontrariam outro objeto de ódio e fofoca.
Porém um grupo de pessoas não me passou despercebido. Numa mesa no canto do refeitório, Jessica, Jane e Victoria sussurravam enquanto olhavam maldosamente para nossa mesa. Entretanto, senti um arrepio na nuca e me senti sendo ‘vuduzada’ por maus agouros vindos de outra direção. Quando me virei para olhar, percebi que Rosalie, a prima de meus Cullen, dirigia um olhar infeliz sobre mim.
Respirei fundo e me empertiguei. Numa atitude infantil, colei meus lábios nos de Emmett num beijo calmo, gostoso e cheio de amor. Suspirei de felicidade, me virei para Edward e sussurrei:
- Meu herói! – colei nossos lábios num beijo cheio de amor e gratidão por ele ter defendido nosso amor.
Nem bem tínhamos terminado de almoçar, meu celular tocou. Sorri de orelha a orelha quando vi que era da agência de emprego. Eles tinham uma vaga para trabalho de meio período, das 14 às 18 horas, de segunda a sábado, na sessão infantil de uma rede de livrarias. Mas tinham urgência em tudo e pediam que eu comparecesse à agência dali a no máximo uma hora.
Rede de livrarias. Bem, só podia ser a BlackBooks, a maior rede de livrarias do país! Empolgada, eu contei aos meus Cullen a novidade.
- Eu te levo, princesa. – Ed sorriu – É bom porque eu aproveito e compro um celular novo.
- Eu vou com vocês. – Emm sorriu – Pra dar sorte ao meu bebê...
OMG! Esses dois ainda vão me deixar mal acostumada...
- Mas e sua aula, amor? – sussurrei.
- Hoje é só para apresentar uma lista de exercícios e eu já entreguei desde sexta-feira. – ele suspirou – Além do mais, preciso ficar ao seu lado, Bella, para ter certeza que nada de mal vai nos acontecer.
- É mesmo... o dia foi foda. – Ed parecia envolto em pensamentos enquanto falava – É melhor a gente sair logo daqui.
Passei no meu quarto, escovei os dentes, troquei de roupa, fiz uma maquiagem bem leve, usando só gloss nos lábios e máscara para cílios incolor e me senti bonita. A viagem foi gostosa, cheia de carinhos e sussurros e em menos de meia hora chegamos na agência. De lá, eu fui encaminhada para o escritório administrativo da BlackBooks, onde seria entrevistada pela Srta. Leah Jones, gerente de RH da empresa. Meus Cullen me acompanharam até a porta, mas não entraram, disseram que iriam comprar o celular de Ed e dar uma volta até que eu ligasse para virem me buscar.
Nervosa, eu mexia o pé numa agonia danada enquanto aguardava na imponente recepção do prédio. Uma senhora de idade, a secretária da Srta. Jones, pediu que eu aguardasse um pouco porque gerente estava numa importante teleconferência com editores espanhóis.
‘Quem sou eu pra reclamar?’, pensei e peguei de dentro da bolsa o meu exemplar surrado do ‘ Morro dos ventos uivantes’ e comecei a ler. Passos indicaram a presença de alguém, mas eu estava tão concentrada nas falas de Heathcliff e Catherine, que nem me dei ao trabalho de olhar quem era. Mas a voz era de homem, uma voz muito rouca e sexy, e ele usava um perfume meio almiscarado, meio amadeirado.
- Oh! Jake, ela vai demorar um pouquinho... – a secretária falou.
- Tudo bem, eu sento e espero. – ouvi o cara responder e senti o sofá ao meu lado se afundando um pouco.
- Esse livro merece se aposentar... – ele falou zombeteiro.
Ergui meu olhar e me deparei com um cara muito jovem, bonito, vestido num terno elegante, dono de um sorriso sedutor e de uma pele cor de canela muito bonita. Seus olhos e cabelos negros combinavam perfeitamente com cada pedacinho de seu rosto.
- Eu gosto desse exemplar aqui. – falei por fim – Todas as minhas falas preferidas estão grifadas...
- Muito prazer, eu sou Jacob. – ele falou e estendeu a mão para mim.
- Prazer, eu sou Isabella Swan. – sorri de volta e apertei sua mão – Você está aqui por causa da entrevista também?
Falei e me xinguei em pensamento. É claro que não! Por que um cara tão elegantemente vestido estaria vendendo livros?
- Oh! Não, não...
O celular dele tocou, ele trocou meia dúzia de palavras com a outra pessoa e depois de levantou, se despediu da secretária e me desejou boa sorte na entrevista. A Srta. Jones era uma mulher poderosa, vestida num terninho Versacce, ela fez uma rápida entrevista comigo, gostou de meus conhecimentos a respeito de literatura infantil e disse que o emprego era meu.
Mas a vaga ‘era pra ontem’, então eu já começaria a trabalhar no dia seguinte! Feliz e contente, pisando nas nuvens, eu liguei para Emm e pedi que viessem me buscar. Olhei para o relógio e vi que ainda era cedo, decidi que passaria a tarde atacando os meus Cullen...
Lembrei de um motel de luxo que existia nos limites da cidade. Eu nunca tinha ido naquele lugar, mas sabia que era luxuoso, caro e muito lindo. Agora eu tinha um emprego, certo? Olhei em minha carteira e vi que meu cartão de crédito estava ali.
A tarde seria muito gostosa...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Vem comigo, amor - Capítulo 55


Sorvete & Café

POV EDWARD

A viagem até a casa do xerife Rosas (como ele gostava se ser chamado) durou exatamente 15hs e 25min e durante esse longo percurso, paramos em três cidades. Algumas vezes eu fingia que descansava um pouco, só para não deixar Bella preocupada, mas quando eu via que ela estava cochilando junto com os meninos, eu voltava a conversar com o xerife.
- Richard, - ele sussurrou meu falso nome – já estamos dirigindo por quase três horas. – ele olhou para o céu onde havia um lindo crepúsculo violeta – Devemos passar por Sacramento em cerca de uma hora, lá deveremos parar, jantar, esticar as pernas por uns cinco minutinhos e voltar para a estrada. Tudo bem para vocês?
Quando eu ia responder, a voz rouca de uma Bella recém despertada ecoou em meus ouvidos.
- Vai ser ótimo parar, eu preciso trocar as fraldas dos meninos.
Chegamos a Sacramento por volta das sete da noite e paramos num posto de gasolina onde havia uma grande loja de conveniência. Embora ainda tivesse muita comida nas cestas, eu preferia comer alguma coisa quente, mesmo que essa coisa fosse macarrão instantâneo. Assim que a pick-up parou, os policiais que nos escoltavam entraram em ação. Um deles encheu o tanque da pick-up, o outro me escoltou até o banheiro e depois até a loja de conveniência, onde eu comprei fatias de pizza e refrigerante para mim e para Bella.
Nesse meio tempo, a Srta. Trevor (a policial que nos acompanhava) ajudou Bella a trocar as fraldas dos meninos e conseguiu (usando o poder de persuasão de seu distintivo) esquentar as mamadeiras de mingau deles no microondas da loja de conveniência. O detalhe é que eu já havia pedido este favor ao vendedor da loja, um gordão, mal humorado que se limitou a dizer:
- Não faço favores, eu vendo produtos.
Depois que as garotas visitaram o banheiro feminino, nós saímos de Sacramento, capital da Califórnia, uma linda cidade de influências indígenas e hispânicas. Num dado momento, cerca dez minutos depois que deixamos os limites da cidade, nosso pequeno comboio seguiu por uma estradinha de terra, paralela à I-5 S e por fim chegamos à rodovia interestadual CA-99-S.
- Richard, mudei o nosso percurso porque é mais aconselhável seguirmos por uma rodovia estadual. – o xerife sussurrou.
O medo, o cansaço, a desilusão e o meu preconceito quase me fizeram surtar. Preconceito, sim! Não posso enganar a mim mesmo. Cresci entendendo que policiais americanos, principalmente em cidades pequenas, são burros, corruptos e tendenciosos, mas se acham os bam-bam-bans.
- Isso não foi o que Jasper combinou conosco. – rosnei e na mesma hora senti uma das mãos de Bella apertando o meu ombro, aquele toque dela era restritivo, ela queria que eu me calasse.
- Desculpe, Richard. – ele sussurrou - Jasper é um agente federal, o distintivo dele é válido da Flórida ao Alasca. Mas o meu só é valido no condado onde eu moro. Seguindo por uma rodovia estadual, teremos chances de encontrar com patrulheiros de trânsito conhecidos. Conhecidos perguntam menos e sorriem mais.
- Nós entendemos perfeitamente, xerife Rosas, não se preocupe. – Bella falou por nós e sorriu.
- Tudo bem, xerife. – falei envergonhado – E obrigado por continuar ajudando minha família.
- Não há de quê. – ele sorriu e voltou sua atenção para a estrada.
Bella voltou a brincar com os meninos que sorriam muito, falavam seu próprio idioma e sacudiam seus bracinhos e pernas. Enquanto isso eu sentia o gosto amargo da vergonha por ter sido rude com o xerife e travava uma guerra psicológica dentro de mim. A parte menos nobre de mim ainda dizia que policiais de cidades pequenas eram um pelotão de ineficiência, despreparo e preguiça, sempre inventando problemas onde não existia e não solucionando casos reais. Nos filmes, era impressionante a capacidade que eles tinham em fabricar crimes e acabar com a vida de pessoas inocentes.
‘Por que Jasper mandou uma pessoa assim para nos escoltar?’
‘Mas o que é isso, Edward?’, me recriminei em pensamento. Não foi essa a imagem que Peter Graves e Benjamin Winslet deixaram para mim, os dois eram eficientes e honestos na condução da segurança pública de Forks.
Eu estava pirando, só podia ser isso! Em menos de trinta segundos, eu fiz um mau julgamento do xerife Rosas. Aquilo só poderia ser fruto de meu cansaço físico e mental.
De repente, senti uma inquietante falta de ar, como se meus pulmões tivessem desaparecido ou parado de funcionar. Minha mente e meu coração davam falta de alguma coisa muito importante. Sim, eu Havaí esquecido alguma coisa muito importante em Forks, só não sabia o que era... Senti uma pontada forte na cabeça, parecia o começo de uma enxaqueca.
E então eu me dei conta que mesmo Bella e os meninos estando no banco de trás do veículo, eu me sentia sozinho, cansado, triste, com o coração aos pulos, arrasado... Naquele momento, a pouca coragem que eu tinha permitiu que eu não chorasse. Ainda assim, as lágrimas deixaram meus olhos úmidos e por sorte, Bella não pode notar. Se eu chorasse, ela choraria também. Disfarcei o choro coçando os olhos várias vezes.
- Durma um pouco, Richard, quando chegarmos a Fresno, eu acordo você.
- Tony... você pode me chamar de Tony. – bocejei – Anthony é meu segundo nome... - sussurrei isso antes de cair na inconsciência.
Dormi um sono sem sonhos.
- Tony... Tony, acorda... – Bella sussurrava e acariciava meu rosto.
- Hum... - murmurei, mas despertei num salto, já que meu corpo vivia em estado de alerta.
- Chegamos a Fresno! – ela sorriu para mim e me deu um copo de café com leite e alguns pãezinhos de milho.
Comemos ali mesmo dentro do carro enquanto os policiais desceram dos veículos, para ir ao banheiro, eu acho, a policial Trevor se aproximou, fazendo nossa guarda junto com o xerife.
- A impressão que eu tenho é que o rosto de vocês não me é estranho. – ela sussurrou e mordeu um pedaço do cachorro quente que comia – Já vi vocês na televisão...
Meu sangue gelou e vi o pânico nos castanhos olhos de minha esposa, minha mente foi até o passado, procurando por ocasiões em que os herdeiros bilionários Cullen e Swan tivessem aparecido em algum veículo de comunicação. E não achei nada, principalmente porque nossas famílias sempre foram muito reservadas. Eu quase pirei e quase confrontei a policial, mas por sorte o xerife interveio.
- Ora, ora, ora Srta. Trevor! – ele sorriu com desdém – Eles não são atores das novelas mexicanas que você costuma assistir.
A conversa morreu ali e alguns minutos depois pegamos a estrada novamente, dessa vez eu me ofereci para dirigir. A noite em Fresno estava fresca e o céu estava enfeitado por estrelas e poucas nuvens. Como lanternas, os faróis dos carros iluminavam o caminho, a estrada subiu uma ladeira, escalando aquela parte íngreme da Califórnia e de lá de cima, eu pude ver uma Fresno que já estava menor, à medida que subíamos. Agora os faróis dos carros deslizavam durante a noite, pouco tempo depois nós também deslizamos pela estrada, indo para uma parte mais plana. Olhei rapidamente para o banco de trás, Bella e os meninos cochilavam sossegados, ao meu lado, o xerife tinha seu rosto coberto pelo chapéu e também parecia dormir. Um uivo inquietante preencheu meus ouvidos, um uivo fino, cortante, solitário. Lobos. Lobos? Em plena cidade?
- Lobos? – pensei em voz alta.
- Coiotes. – o xerife sussurrou, sem tirar o chapéu de seu rosto – Aqui não temos lobos, as várias espécies de caninos são muito competitivas entre si. Se numa área existem coiotes, então não existem lobos.
- Mas os coiotes vivem em áreas urbanas? – sussurrei.
- Sim, eles são muito adaptáveis aos ambientes, mas não são uma grande ameaça.
O carro atravessava a rodovia, a cada poucos metros eu podia ouvir os barulhos da noite, grilos, sapos, coiotes. Concentrado na estrada, eu ainda achava ter esquecido algo muito importante me Forks...
Respirei fundo e comecei a prestar atenção na paisagem. Mesmo durante a noite, eu podia ver as belezas daquele lugar e podia sentir o cheiro das árvores frutíferas, já que a rodovia era ladeada por plantações de maçãs.
Era madrugada quando a paisagem foi mudando aos poucos. O verde das árvores frondosas foi desaparecendo até que chegamos a uma área de deserto. A estrada mudou de aspecto, assumindo a imagem daqueles filmes western que eu via quando era garoto. E agora eu me sentia como um cowboy!
Paramos em Palmdale às 2hs e 30min da manhã e eu precisei acordar Bella, para que pudesse ir ao banheiro e depois preparar os mingaus dos meninos. Pelas minhas contas, por volta das 4 horas, quando eles acordassem com fome, não teríamos um microondas para esquentar a comida! Ainda bem que nesse posto de gasolina, a policial não precisou ser rude com ninguém, a dona da loja de conveniência era sua prima. O ar estava quente e seco, o vento era forte em plena primavera e o xerife explicou que naquela área da Califórnia os fortes ventos eram responsáveis por gerar eletricidade nas turbinas eólicas.
O xerife fez a última parte do trajeto. Os meninos acordaram, comeram e dormiram de novo, mas Bella ficou totalmente desperta e se inclinou para frente, colocando sua mão sobre meu ombro, estiquei minha mão em direção à dela e ficamos conectados. Ela sussurrou.
- O dia já vai nascer... o céu está ficando claro, estamos perto, amor!
- Graças a Deus. – sussurrei de volta.
Eu e Bella olhávamos na mesma direção: o lugar onde o sol estava prestes a despontar. Uma fraca luz matinal iluminava as areias do deserto ao lado da estrada. Respirei fundo e senti um cheiro salgado invadir minhas narinas, ouvimos o bater de asas dos pássaros e o barulho de um trem. A vegetação ao nosso redor se reduzia a pequenos arbustos, meio verdes, meio secos e também havia alguns cactos que se erguiam heroicamente no deserto.
Quanta diferença de Forks! Aqui parecia um planeta alienígena!
O sol morno tornou-se abrasador, despi a camisa de flanela, Bella fez o mesmo, só usávamos agora as camisetas. Os meninos se mexeram inquietos em suas cadeirinhas e eu me virei para ver o que era.
- É o calor. – Bella murmurou – Vou tirar o casaquinho deles.
- Estamos em Coachella Desert. – o xerife explicava – Mais especificamente em Cathedral City, onde eu moro e sou o chefe de polícia.
Sim, agora eu me lembrava de tudo! Em meu sonho, nós atravessávamos um deserto. Naquele espelho, as imagens que eu via era de mim, Bella e os meninos atravessando um deserto quente e ensolarado como aquele. Outra coisa que lembrei é que num dos episódios do National Geographic, eu vi uma reportagem que aquele lugar tinha mais de 300 dias de sol por ano! Caraca...
Quando percebi, o comboio parou em frente a uma casa simples, numa rua simples da cidade. Senti meu coração perder uma batida. Estávamos começando tudo de novo...


POV BELLA


Enquanto eu olhava para o trailer, acho que meu queixo caiu... Que coisinha apertada era aquilo?!


- Desculpem, é que Jasper não nos deu muito tempo. – o xerife tentava se desculpar – Se ele tivesse nos dito antes que recebíamos amigos, nós teríamos tempo de alugar uma casa e tudo o mais...
- Não se preocupe com isso. – Ed soltou minha mão e tocou no ombro do xerife – O que você e sua esposa já estão fazendo por minha família não tem preço. Obrigado.
O xerife pareceu relaxar e sorriu um pouco. Meu coração também se encheu de gratidão e sorri, olhando para Selena.
- Obrigada por tudo, Selena. Tenho certeza que vamos nos acomodar bem.
- Sim, sim! – ela sorriu e falou com seu inglês cheio de sotaque, abrindo a porta do trailer para nós – Entrem, entrem... as aparências enganam, venham ver como é bonito aqui dentro!


Havia muito azul. Um tapete azul, cortinas azul claro, um sofá azul cujo tecido era meio brilhante, o estofado das cadeiras da mesa também eram azul... O decorador com certeza tinha um gosto duvidoso e uma grande queda por azul! Mas também havia madeira, toda a minúscula cozinha era de madeira. Confesso que achei a cozinha bem bonitinha, parecia ter saído de uma casa de bonecas!
- É mesmo, Selena! – tentei ser gentil – Além do mais, eu adoro azul. – apontei para o sofá.
- Ah! Então você vai adorar saber, - ela falou enquanto desmontava o sofá – que ele é um sofá cama! Seus bebés poderão dormir nele, veja!
Ela não me deixou falar, ainda bem, porque eu não tinha palavras. Meu coração perdeu uma batida, eu não queria que meus filhinhos dormissem num sofá!
- Venham ver o quarto! – eu e Ed a seguimos ainda com nossos meninos nos braços – Nessa porta de cá é o banheiro, - ela apontou para o cubículo – e aqui, vejam, um pequeno guarda-roupa...


Enquanto ela falava, eu e Ed colocávamos os meninos no meio da cama. Cansados, nossos bebês dormiam profundamente e nem perceberam nada. A mulher saiu do quarto e nós a seguimos para a cozinha, ela abriu a geladeira embutida e nos deu várias instruções.
- Aqui, eu passei no mercado e comprei umas coisas para vocês. E aqui, - ela abriu a porta do armário – tem mais comida...
- Obrigada. – sussurrei.
- A cozinha está equipada com todos os utensílios, o fogão e o microondas funcionam perfeitamente.  


- Na sala ainda tem TV a cabo e o rádio funciona bem! – ela continuou, nos levando de volta à sala.
- Muito obrigado. – Ed assentiu fervorosamente.
- Agora vou deixá-los descansar um pouco. – ela sorriu – E não se preocupem com nada. Mañana las cosas mejoran...
‘Amanhã as coisas melhoram’, repeti sua frase em pensamento e pedi a Deus que aquilo pudesse realmente acontecer. Eu estava no meio da ‘sala’ (o quadradinho coberto com o tapete azul) e olhava para minha nova casa ainda com incredulidade quando senti as mãos macias e quentes de meu marido em minha cintura. Ele me abraçou por trás e sussurrou.
- Enfim sós... – sua voz rouca e cansada ecoou em meus ouvidos, ele fez meu corpo girar e segurou meu rosto em suas mãos. – Eu te amo, Sra. Cullen...
- Assim como eu te amo, Sr. Cullen.
Ele juntou mais os nossos corpos, colamos nossas testas e eu me perdi no mar de paz e amor de seus olhos verdes.


‘Não importa’, pensei e sorri, fazendo com que Ed respondesse com um pequeno sorriso. Sim, nada daquilo importava! Beijei meu marido com paixão, suas mãos enlaçaram minha cintura, puxando-me para si e minhas mãos se enroscaram em seus cabelos. Estávamos presos, presos um ao outro. Aquele vínculo indissolúvel chamado amor me impulsionava a seguir adiante com ele... meu Edward.
E com ele eu fugiria para qualquer lugar! Como poderia ser diferente? Se eu o amor mais do que a minha própria vida, se eu preciso dele do mesmo jeito que eu preciso do ar para respirar, do céu para me proteger e do chão para me amparar...
Nossos lábios se mexiam em sincronia e nossas línguas buscavam carinho e contato, enquanto eu pensava sobre essas coisas. Quando o ar nos faltou, cessamos o beijo.
- Sabe de uma coisa, meu amor? – sussurrei – Eu quero fazer desse trailer o lugar mais perfeito do mundo.
- Ele já é perfeito, amor. – uma de suas mãos afagava meu rosto – Eu tenho você e nossos filhos. Existe perfeição maior que isso?
Ele me abraçou com carinho, fazendo nossos corpos girarem pelo minúsculo trailer, enquanto dançávamos uma singela valsa, ele sussurrava.
- Temos um teto, uma cama fofinha, comida, temos saúde, amor...
- Temos tudo.
Ele parou a dança e me olhou nos olhos novamente.
- Tudo. – ele repetiu.
Nossos olhos se encontraram novamente e ficamos absortos um no outro por uns bons dez segundos. Depois bocejamos ao mesmo tempo e nos rendemos ao cansaço de nossos corpos.
- Ed, acho melhor a gente dormir um pouquinho e aproveitar enquanto os meninos dormem.
- Vou tomar um banho então...
- Só não vou com você porque o banheiro é apertado demais. – sorri e lhe rei um selinho.
Quando me vi sozinha na sala, abri a mala e separei roupas confortáveis pra gente vestir. Olhei ao meu redor e vi que havia almofadas em cima da mesa, peguei-as e arrumei melhor o sofá-cama.
- Agora tá menos feio... – murmurei para mim mesma.


Ed chamou por mim, sussurrou várias vezes para não acordar os meninos.
- Amor, esqueci da toalha de banho...
Toalha? Toalha? Toalha?
Pensei rápido e lembrei que não tinha posto jogos de cama e de banho nas malas. Num impulso, abri o pequeno guarda-roupa de duas portas e vi na prateleira superior dois jogos de banho e dois jogos de cama. Ufa... entreguei uma toalha a Edward, esperei que ele saísse do apertadinho (banheiro) e entrei logo em seguida. Cansada, me despi e olhei meu rosto no espelho.
- Uau... Isabella, você tá um lixo! – murmurei.
- Discordo veementemente! – Ed abriu a porta do banheiro e me fez sobressaltar – Ta aqui a toalha, - ele sorriu – e cuidado com o chuveiro, depois de três minutos, a água quente volta a ficar fria e depois esquenta de novo!
- Credo! – murmurei.
O banho foi revigorante, mas eu tive o cuidado de me livrar dos jatos frios. Enquanto a água levava consigo a poeira de nossa longa jornada, eu agradecia a Deus por termos chegado até ali numa boa. Enrolada na toalha, vi a cena mais linda do mundo: meu marido ressonando na cama e nossos filhos empoleirados nele.
OMG... Os meninos devem ter sentido o calor do pai e se aproximaram dele! Com cuidado, deitei na cama ao lado dos três e devagar, bem devagarzinho mesmo, beijei a face de meu Anthony, de meu Thomas e por fim, de meu Ed.
- Hum... Bella... – ele murmurou e sorriu.
Meus instintos maternais fizeram com que eu pegasse cada filho e os colocasse novamente sobre o colchão. Eu tinha medo de Ed derrubá-los sem querer! Assim que minha cabeça encostou no travesseiro, eu apaguei num sono sem sonhos e bastante profundo.
‘Ma-ma’
Eu ouvia uma das vozes mais lindas do mundo me chamando, mas eu a ignorei. Era meu Anthony.
‘Ma-ma-ma-ma’
Ignorei Thomas também, mas a minha mente ficou mais alerta. O problema é que meu corpo não queria responder. Duas mãozinhas pequenas e gordinhas tocaram o meu rosto, depois mais duas mãozinhas, estas últimas bateram delicadamente em minha face.
Abri um olho minimamente e vi Edward sentado na cama com os meninos. Ele sorria, encantado com os filhos, eu segurei o riso a muito custo, mas Ed percebeu que eu já havia acordado. E então uma coisa maravilhosa aconteceu: os dois meninos chamaram papai. Não foi exatamente desse jeito, deixa eu explicar.
Os meninos tentavam me acordar sem muito sucesso, deveriam estar com fome, e então os dois olharam para Edward ao mesmo tempo. Anthony disse ‘babai’ e depois olhou para mim, apontando para mim com seu bracinho gordinho. Thomas quase gritou um ‘papa’ e olhou para mim ao mesmo tempo em que dava suaves tapinhas em meu rosto. Rendida por meus filhos, abri os olhos e sorri, eles sorriram. Sentei na cama, desabotoei a blusa que usava e lhes ofereci meus seios. Os dois mamavam com vontade enquanto Edward beijava-os e sussurrava:
- Ouviu, Bella? Eles me chamaram de papai! E dessa vez não foi uma resposta à palavra que eu os fazia repetir. Eles disseram espontaneamente! Você ouviu isso?!
Sorri antes de responder e acariciei seus cabelos cor de cobre.
- Ouvi, sim, foi lindo!
Como se quisessem confirmar as palavras do pai, os dois pararam de mamar, olharam para ele e disseram: babai e papa. Depois sorriram e voltaram a comer sossegados. Depois de alimentados, os meninos ficaram na cama brincando com Edward enquanto eu fui à cozinha preparar algo para almoçarmos.
Frustrada, vi no relógio que não dormi nem três horas, por isso me sentia tão cansada ainda! Mas já era quase meio-dia, então tentei ser rápida. Enquanto olhava na geladeira e no armário o que havia de ingredientes, eu pensava numa receita rápida, fácil e gostosa para o almoço, foi quando me lembrei da omelete com queijo e tomate que a mamãe fazia. Receita que ela aprendeu nos tempos de corre-corre da faculdade de medicina. Em menos de meia hora fiz a omelete, preparei uma salada de batatas, azeitona, queijo e presunto e ainda peguei uma batata cozida, amassei-a bastante e misturei com um pouquinho de leite para servir aos meninos.
Naquela primeira tarde as horas foram muito longas para mim e para Edward. O principal motivo é que não tínhamos como deixar os meninos brincando num único lugar da casa (trailer) sem que houvesse um risco iminente de se machucarem. Quase tudo ali era pendurado nas paredes, ou era desmontável, ou era encaixado... O risco era grande para duas crianças traquinas, saudáveis e curiosas! Enquanto Ed lavava a louça, eu brincava com os meninos sentada no chão da sala. Eu até tentei colocá-los no carrinho, mas eles protestaram veementemente e fizeram tanta birra, que eu tive que ceder. No chão novamente, eles se apoiaram no banco de madeira, puxaram a cortina e descobriram que ali existia uma janela baixa!


Maravilhados, meu anjinhos olhavam alguns pássaros pousando no chão e sorriam para a sombra dos galhos de árvores que balançavam ao vento. Preocupada, eu vi que havia um espelho ali no chão, bem pertinho deles, tirei o objeto dali, colocando-o em cima da mesa.
No final do dia, eu me sentia como um cachorro hidrofóbico! Eram cinco da tarde, o ar entrava morno nos meus pulmões, os meninos passaram o dia somente de fraldas e sem mais nenhuma peça de roupa, Edward parecia um leão enjaulado... Mas a gente tinha medo de botar a cabeça pra fora daquele trailer. Mesmo com dois ventiladores ligados e mesmo sentanda no chão da sala, eu ainda abanava os meninos com a tampa de uma vasilha plástica, enquanto eles assistiam desenho animado na TV.
Nossos celulares prateados tocaram, fazendo meu marido se sobressaltar e fazendo com que todo o meu corpo travasse. Era Jasper, ele queria saber como estávamos e nos dar algumas instruções. No geral, as orientações eram as mesmas, a gente não podia usar cartões de crédito e débito e fazer compras somente em dinheiro, mas poderíamos sair de casa desde que fôssemos discretos. Ed confirmou com Jasper que estávamos sendo chamados apenas de Tony e Marie e perguntou quanto tempo ficaríamos ali e Jasper explicou que seus pais estavam viajando, mas, mesmo por telefone, já estavam providenciando nossa estadia na fazenda deles. Eu nem sabia que iríamos para uma fazenda! Parece ironia, mas toda vez que o cerco dos Volturi aperta e a gente tem que fugir, vamos parar numa fazenda!
O ruim disso tudo é que ainda ficaríamos naquele trailer sufocante por mais seis dias. ‘Meu Deus, me ajude a não reclamar’, eu pensei. Jasper ainda disse que Benicio Rosas nos entregaria celulares pré-pagos naquele mesmo dia. Ele ressaltou que o xerife era de confiança e que só não fazia mais por nós porque não podia. Nosso amigo nos disse que Alice estava em Washington, Rose e Emmett estavam no Texas, todos ‘trabalhando muito’ e satisfeitos com seus ‘salários’. Pelo que eu e Ed pudemos entender, ele quis dizer que as coisas estavam indo muito bem. ‘Tomara’, pensei.
Alguém bateu na porta e meu coração perdeu uma batida, instintivamente, abracei meus filhos e os coloquei atrás de mim. Aquilo era mais forte que eu, eu ainda me sentia uma fugitiva.
- Marie, sou eu, Selena! - a voz alegre de nossa anfitriã me fez relaxar.
Ed abriu a porta e Selena entrou carregando uma banheira de bebê e um cercado desmontado.
- Trouxe isso aqui para seus filhos usarem enquanto ficam conosco. – ela montava o cercado enquanto falava - Mis hijos não usam mais porque já estão crescidos e acho que seus bebés vão precisar!



- Oh! Meu Deus! – falei surpresa – Muito obrigada, Selena!
Coloquei os meninos dentro do cercado enquanto Ed jogava os brinquedinhos deles ali. Acostumados a brincar em cercados, meus filhotes não choraram e eu só tive o cuidado de direcionar um ventilador para eles.
- Não há de que, Marie! Eu também vim aqui para convidá-los para o jantar, - ela sorriu nervosa – minha casa é simples, mas terei prazer em recebê-los!
- Ah! Mas nós não temos cerimônias, Selena! – toquei em seu braço – A que horas devemos chegar?
- Lá pelas seis e meia, tudo bem?
- Tudo!
- Obrigado por tudo, Sra. Rosas. – Ed falou cheio de gratidão.
Com o cercado, as coisas ficaram mais fáceis para nós. Os meninos estavam seguros e entretidos e eu pude fazer uma coisa que qualquer mãe faria no meu lugar. A banheira não era nova e doenças de pele poderiam ser transmitidas pelo uso dela por vários bebês. Então eu tive o cuidado de lavá-la com uma solução de alvejante, detergente líquido e água quente. Peguei minha uma escova de dente nova, tirei-a da embalagem e comecei a esfregar cada cantinho da banheira. Não que eu achasse que os filhos de Selena fossem doentes, mas... seguro morreu de velho!
Naquela noite, a família Rosas nos recebeu de portas abertas! Conhecemos as três crianças: Miguel, de seis anos, Joaquim, com quatro anos e Pablo de dois anos de idade. Todos eram meninos adoráveis e educados. O pequeno Pablo logo fez amizade com os meus filhotes! Selena serviu uma salada mexicana, regada a um delicioso molho de pimenta e como prato principal, tortillas de carne moída e queijo. O cardápio das cinco crianças foi menos temperado: sopinha de carne e legumes.
Depois daquele encontro com os Rosas, eu e Ed conseguimos relaxar mais. Percebemos que eles eram pessoas maravilhosas, nos sentimos mais seguros e à vontade naquela cidade. E por falar em relaxar, por volta das dez da noite, os meninos adormeceram de vez e eu os coloquei no cercado. Graças a Deus os meus filhos não precisariam dormir naquele sofá! Depois de um banho relaxante, percebi que a temperatura no deserto costumava cair à noite, o vento era bem agradável.
Um chameguinho aqui, um beijinho ali, uma mordidinha acolá... Quando percebi, eu e Ed estávamos num maior amasso na cama, nossos corpos já despidos ansiavam por um contato maior e nossas bocas se moviam em sincronia. Cedo demais a festa acabou. Um chorinho baixo nos interrompeu, Ed vestiu a cueca (pelo avesso) e saiu apressado para a sala, trazendo nosso Anthony. Minutos depois ele adormeceu em meus braços, levei-o para o cercado e voltei para o quarto disposta a voltar a brincar com meu marido. Não deu certo. Quando já estávamos pegando fogo de novo e as carícias eram mais e mais ousadas, quando a boca de meu marido quase me fazia chegar lá... Thomas chorou a plenos pulmões fazendo com que Anthony acordasse chorando também!
Fim de festa.
Entendi que nossos filhos estavam estranhando a casa nova e por isso choravam. O jeito foi esconder o tesão embaixo da cama e deixar que nossos pequenos dormissem conosco...
Nos dias que se seguiram, nós fomos ao supermercado, a uma pizzaria, fomos à farmácia, enfim, começamos a andar pela cidade. Antes de sair, nós sempre avisávamos ao xerife, mas ele já havia espalhado pela cidade que éramos seus primos distantes que moravam na Flórida.
Cathedral City não era uma cidade ruim e as pessoas eram muito simpáticas. Na tarde de sábado, 7 de maio, nós recebemos uma ligação de Jasper, nos dizendo que iríamos para a fazenda de seus pais na manhã do dia seguinte. Para comemorar, Ed nos levou a uma sorveteria que havia no final da rua. As pessoas ali já nos conheciam, pois era a segunda vez que visitávamos o local. A Sra. Arribas, dona da sorveteria, veio nos atender com um sorriso nos lábios. Depois que tomamos sorvete e assistirmos nossos meninos se deliciarem com um pouquinho de calda de chocolate, ela se aproximou de nós com uma bandeja nas mãos.
- Gostariam de provar uma xícara do legítimo café turco? – ela sorria.
- Café turco? – perguntei.
- Sou meio turca, meio mexicana! – ela gargalhou – Mamãe era turca, Ayla Khalil era o seu nome, então ela casou com um autêntico mexicano e vieram morar aqui na Califórnia, onde eu nasci. Casei com um mexicano também... e aprendi a ler a borra do café com a minha mãe. Desde os quinze anos eu descobri que tenho o dom. Aos sábados ofereço uma xícara de café por conta da casa e às vezes, leio a sorte na borra do café.
Pela minha visão periférica, vi a sutil careta de incredulidade na face de meu marido, mas ignorei aquilo, pois fiquei muito curiosa.
- Nós nunca tomamos café turco! – sorri e estendi a mão para pegar a xícara – Depois você poderia ler a borra para mim?
- Eu estava esperando que vocês pedissem isso!
Ela sorriu satisfeita e ofereceu uma xícara a Ed, mas ele não se mexeu. Por baixo da mesa, chutei levemente a sua canela, recebendo um olhar mortal dele. Relutante, meu marido pegou uma xícara do café fumegante.
- Não bebam o líquido de vez, por causa do pó, esperem um pouco para não se engasgarem e quando terminarem, me avisem. – ela falou gentilmente.
- Eu não sei se quero... – Ed ia falar, mas foi interrompido por ela.
- Eu não cobro nada para ler a borra de café, Sr. Carmichel. – ela ficou um pouco séria – Desde o primeiro dia que os vi, meu coração se inclinou a lhes servir o café e ler a borra, mas se o senhor não quiser...
- Nós queremos sim! – chutei a canela dele de novo.
- Então quando terminarem de tomar o café, me chamem.
A sós, Ed fez careta para mim e sussurrou.
- Marie, eu não acredito nessa baboseira de pó de café!
- Mas não custa nada a gente experimentar, amor. – ronronei e rocei minha perna na dele, fazendo-o sorrir torto.
- Você sempre sabe como me convencer. – ele murmurou e bebeu um gole do café.
Quando terminamos, a Sra. Arribas se aproximou, puxou uma cadeira e se sentou ao nosso lado.
- Agora, cada um de vocês deve retirar o pires de debaixo da xícara e colocá-lo sobre a xícara. – fizemos isso – Devem segurar a xícara e fazer alguns pequenos círculos, movimentando a borra. E por fim, devem virar a xícara de cabeça para baixo, para que o conteúdo da borra se espalhe.
- E agora? – perguntei ansiosa.
- Agora devemos esperar a borra secar. – ela olhou no relógio – Estamos a uma quadra da Town Square, por que vocês não vão dar uma volta com seus bebés? Daqui a meia hora a borra estará pronta para ser lida.
Olhei sugestivamente para Edward, esperando que ele decidisse.
- Ok. – ele se levantou, empurrando o carrinho dos meninos – Vamos, Marie?
Assim que saímos da sorveteria, Ed pegou o celular e discou para a delegacia, o xerife atendeu no primeiro toque. Ele disse que poderíamos passear pela praça sem problemas uma vez que a polícia fazia a segurança permanente do local. A praça era linda, cheia de palmeiras imperiais, os meninos se divertiam a cada revoada de pássaros e sorriam para todo mundo que passava.
- Ta na hora, vamos? – apressei Ed – Quero ver o que a borra de café diz de nosso destino...
- Isso é besteira, Marie. – meu marido deu um muxoxo.
De volta à sorveteria, a xícara estava exatamente onde a deixamos.  Conforme as orientações da Sra. Arribas, ela mesma destampou nossas xícaras.
- Primeiro as damas... – ela sorriu enquanto olhava para a minha xícara, ansiosa, eu entrelacei minha mão na de Edward – Marie, o fundo da xícara representa seu coração. Tem pouca borra acumulada no fundo, e vemos aqui que seu coração está vazio de maus sentimentos! – ela sorriu mais e falou para Edward – O senhor tem sorte, Sr. Carmichel, sua noiva é uma mulher com um coração muito inclinado a perdoar...
Edward assentiu milimetricamente e sorriu torto, aprovando o que a mulher dizia. Na certa, ele se lembrava do episódio ‘Tanya Denalli’, assim como eu me lembrei.  
- Bem, temos algumas figuras desenhadas aqui nas paredes da xícara... Hum... Sim... – a mulher falava para si mesma e eu quase quicava na cadeira de tanta ansiedade – Aqui, Marie, - ela apontou para uma figura estanha – temo um arco. Você vê?
Estreitei o olhar, procurando pelo tal arco, até que achei um semicírculo e assenti para a mulher.
- O arco representa a passagem. Você está atravessando um caminho, está mudando, você está deixando uma vida e embarcando em outra. – ela sorriu mais ainda quando me mostrou a figura seguinte – Veja isso aqui, é uma borboleta! – assenti, a borboleta estava mais nítida – Isso significa alegria causada pelas pequenas mudanças! – ela sorriu e bateu palmas – Que bom! A borboleta também quer dizer alegria nos relacionamentos! – ela olhou para Edward e ele sorriu.
Os meninos sorriram no carrinho, como se pudessem entender o que ela dizia.
- Sim, bebés lindos... A alegria da mamãe é para vocês também! – ela brincou com meus filhos e voltou sua atenção para a xícara, me mostrando a figura seguinte – Esse cachorro aqui representa fidelidade. – ela olhou para Ed – Fidelidade nos relacionamentos! – ela ressaltou e senti meu marido apertar minha mão com mais força – Mas esse aqui... – ela fez uma pausa e meu coração bateu acelerado – isso aqui parece um cachorro, mas na verdade é uma raposa, veja como a cauda dela é bem peluda! A raposa é um sinal para você, Marie. – assenti fervorosamente – É sinal de que você está ou estará sendo vigiada nos próximos dias...
Deus do céu! Meu coração perdeu uma batida, percorri meus olhos pelo ambiente, procurando por alguma ameaça e, instintivamente, puxei mais o carrinho de meus filhos, colocando-as mais perto de mim.
- Você deve ter cautela e se lembrar que nem todas as pessoas possuem um coração tão puro quanto o seu. – ela fez uma pausa – Mas a raposa também pode significar que você deve ser cuidadosa, deve ser inteligente e perceber quem se aproxima de você. Cuidado com a falsidade...
Depois que ela acabou de ler a xícara, pegou o pires para ler a borra dele também.
- Aqui, temo um martelo. – me inclinei um pouco para ver o pires – Ele significa perseverança e força, porque a conclusão de um assunto muito importante está muito próxima!
- Que bom! - não me contive e pensei alto.
- E aqui, - ela continuou – a figura dessa ponte está entrelaçada ao martelo. A ponte quer dizer mudança de estágio! E o melhor de tudo, Marie, é que quando tudo mudar e você atravessar a ponte, você vai deixar para trás todas as dores do passado...
- Deus te ouça... – sussurrei emocionada.
Fiquei tão feliz com as palavras dela! Puxa vida, aquilo me deu muita esperança, coisa que eu não sentia há muito tempo. Não que eu vivesse totalmente desprovida de esperança, eu tinha esperança no meu marido, nos meus filhos, nos nossos amigos... Mas essa mulher era uma desconhecida, ela não sabia de nosso passado, não sabia de nada, mas conseguiu acertar em cheio, falando coisas que tocaram o meu coração.
Quando ela pegou a xícara de Edward, deu-lhe um aviso.
- Sr. Carmichel, eu não vou lhe forçar a nada e só tirarei esta xícara do lugar se o senhor realmente quiser que a leia. – ela olhou em seus olhos – O que tem aqui pertence ao senhor e eu entenderei se...
- Não, não, por favor, leia! – ele pediu com sinceridade.
Ela sorriu e assentiu enquanto destampava sua xícara. Para minha alegria, havia pouca borra presa no fundo da xícara!
- Seu coração é muito bom também! – ela sorriu – Mas o senhor anda bastante preocupado e... sim... agora entendi. Aqui, - ela apontou para a xícara – consegue ver esse contorno aqui? – Ed estreitou o olhar – É o contorno de canguru e ele está bem próximo do fundo da xícara, tocando a borra que está aqui. O senhor tem vivido uma situação de muito estresse e angústia por sua família. – meu marido assentiu – O canguru representa o amor e a dedicação à família. – ela fez uma pausa – Mas tente relaxar um pouco, Sr. Carmichel. O senhor pode ver aqui, o desenho de uma árvore? – Ed assentiu e eu também,  árvore era enorme como um imenso carvalho – As árvores representam que realizações estão a caminho... Também simbolizam segurança, paz e novos amigos! – ela sorriu e nos fez sorrir também, depois ela olhou fixamente para um ponto da xícara – Um morcego... uma máscara... – ela sussurrou – Um morcego e uma máscara...
Os poucos segundos de silêncio fizeram meu coração bater feito uma escola de samba, por último, a voz da mulher ficou mais baixa e contida.
- Devo lhe avisar para ser discreto, Sr. Carmichel e tente guardar seus pensamentos e sentimentos mais íntimos para compartilhar com seus verdadeiros amigos e com a sua amada, principalmente com ela. – a mulher fez uma pausa e respirou fundo – Use sua intuição, o morcego quer dizer intuição.
Edward assentiu para a mulher e depois beijou minha mão que estava entrelaçada a dele. A Sra. Arribas pegou o pires dele e exclamou:
- Minha Nossa Senhora de Guadalupe! – ela sorriu – Vocês dois tem o caminho mais entrelaçado que eu já vi na vida! Veja, Sr. Carmichel, aqui também temos um martelo e uma ponte! – me inclinei para ver o pires – O que quer que seja que estiver para ser concluído também está relacionado ao senhor e a ponte que Marie atravessar também é a mesma ponte que o senhor vai atravessar! – ela sorriu um tipo de sorriso exultante – Nunca vi uma coisa dessas em toda a minha vida! Que coisa linda, meu Deus... Um casal com praticamente a mesma leitura de borra de café! Não, não, vocês não são dois! – ela colocou uma mão sobre as nossas mãos entrelaças - Vocês são um só, a metade de um todo! O amor de vocês é algo que não tem começo, meio e fim, ele simplesmente existe e é poderoso, independente de qualquer circunstância! 
Emocionada, eu abracei aquela bondosa mulher e beijei sua bochecha, ela retribuiu o meu abraço e sussurrou ao meu ouvido:
- Eu estou feliz por vocês! Nunca senti tanto amor emanar das pessoas como senti de vocês. Parabéns, querida!
O curto trajeto até o nosso trailer foi feito num silêncio muito gostoso. Enquanto empurrávamos o carrinho dos meninos, nossas mãos permaneceram entrelaçadas. Eu me sentia feliz, orgulhosa e completa ao lado de meu amor.
- Sabe de uma coisa, Tony? – sussurrei – Esse foi o melhor sorvete que eu já tomei na minha vida! Obrigada por ter me levado lá!
Ele sorriu antes de responder.
- Pensei que você tivesse ficado empolgada com o café!
- Sim, mas uma coisa leva à outra. – sorri – Se você não tivesse me levado para tomar sorvete, a gente não tinha tomado o melhor café turco da Califórnia!
O dia seguinte começou lindo! Quente e úmido! Acordamos super cedo e ligamos o rádio para nos distrair enquanto arrumamos nossa bagagem. Mas de repente, o semblante de meu marido ficou sombrio como uma tarde de tempestade. Edward guardava os brinquedos dos meninos quando estacou de repente e murmurou:
- Não...
- O que foi, amor? – sussurrei.
- Lembrei o que esqueci em Forks. – ele mexeu no cabelo nervosamente – Droga! Me perdoa, amor. Eu, eu... esqueci o violão! O violão que você me deu de presente de aniversário!
OMG... Meu marido tinha um olhar tão triste... Envolvi seu rosto em minhas mãos e fiquei na ponta dos pés, depositando um selinho em seus lábios.
- Ta tudo bem, amor! – sussurrei e tentei sorrir – Não tem problema, eu sei que você não queria fazer isso.
- Ele era especial, Bella.
- Eu sei, Ed. – toquei em seu peito, sentindo as batidas de seu coração – Mas as músicas que você canta para mim nascem aqui e não nas cordas do violão!
Ele me beijou com carinho e paixão e só interrompemos o beijo quando os meninos acordaram esfomeados. Com cada bebê agarrado a uma mamadeira de mingau, nós terminamos de arrumar tudo, nos despedimos de Selena e seus filhos e partimos com destino à fazenda dos pais de Jasper e Rose.
O xerife dirigia nossa pick-up e nos explicava que estávamos indo para a cidade de Julian, onde ficava a Fazenda Natividad, propriedade da família Mansen há três gerações. Atualmente a fazenda desenvolvia o cultivo de frutas e verduras orgânicas e hidropônicas.
- Esse negócio de plantar frutas e verduras sem nenhum agrotóxico tem agradado as estrelas de Hollywood. – o xerife explicava – 70% da produção deles vais para as mesas das celebridades!
- A cidade fica perto daqui? – perguntei.
- Quase duas horas de viagem. – ele respondeu – Estamos saindo do deserto para uma área mais próxima do mar. A cidade faz parte do Condado de San Diego e é uma coisinha com uns 2 mil habitantes. – ele sorriu – Lá é menos quente, já que a cidade está incrustada entre duas reservas florestais, cheias de pinheiros e carvalhos centenários.
A paisagem foi mudando, ficando mais verde, não era o verde de minha querida e chuvosa Forks, mas era mais verde que o deserto da última semana. Alcançamos os limites da cidade e vimos a placa: ‘Bem vindos à Julian, a cidade das uvas’.
Nossa pick-up deslizou pela rua principal da cidade e de repente, passamos a ser seguidos por uma Land Rover. Meu coração bateu acelerado, instintivamente, eu me inclinei um pouco sobre os meus filhos, protegendo-os do desconhecido e eu vi quando Ed ficou surtado também.
- Não se preocupem, aqueles são o tio Willian, usando o chapéu de cowboy e o cara que está dirigindo é Juan Carlos, o administrador da fazenda.
Respirei aliviada e voltei a contemplar as paisagens verdes da beira da estrada. No céu o sol ficava mais firme, quente e amarelo, refletindo seu brilho nas copas das árvores. Abri um pouco a janela da pick-up e inspirei o cheiro de maças e flores de laranjeira... Para mim, aquilo era o próprio cheiro de felicidade!
Sorri ansiosa, eu não via a hora de chegar na fazenda! O xerife entrou numa estradinha de terra e em menos de dês minutos, avistamos um gigantesco pomar de maçãs do nosso lado esquerdo e um imenso parreiral no nosso lado direito.
- Já estamos nas terras dos Mansen.
O xerife declarou no mesmo instante em que paramos diante de uma porteira de madeira, onde estava escrito: Natividad Farm. Cinco minutos depois, aparamos em frente a uma linda mansão.



Em sincronia, duas mulheres saíram da casa ao mesmo tempo que os dois homens desciam da Land Rover. O pai de Jasper veio nos receber.
- Sejam bem-vindos, meus filhos! – subitamente, ele abraçou Edward como se realmente abraçasse a um filho e, timidamente, me deu um rápido abraço -  Eu sou William Mansen e é uma honra recebê-los em minha casa!
Com certeza o pai de Jasper e Rose estava a par de TODA a nossa situação.
- Oh! Graças a Deus vocês chegaram! – uma mulher loira e tão linda quanto Rosalie, só que um pouquinho mais velha, me deu um abraço apertado e depois abarcou meu marido – Ah! Que bebezinhos lindos! – ela acariciou meus meninos e sorriu afetuosamente para eles.
Nesse meio tempo, enquanto éramos muito bem recebidos pelos Mansen e sussurrávamos palavras de gratidão, eu podia sentir um par de olhos me espionando. Com o máximo de discrição possível, olhei para trás vi o homem que dirigia a Land Rover. Juan alguma coisa, era o seu nome. Ele olhou para mim e sorriu, seu sorriso era lindo, ele era lindo. Devo ter corado porque seu sorriso se intensificou e me invadiu como... como se eu fosse algo de comer?!
Elevei meus olhos, fugindo dele e contemplei a paisagem dos inúmeros pés de uvas. Eu nunca tinha visto um vinhedo tão bonito como aquele. Fomos apresentados à governanta da casa, Mirna, uma senhora de meia-idade muito sorridente e fofinha. E para minha completa inquietação, o Sr. Mansen chamou o administrador e nos apresentou formalmente a ele.
- Juan Carlos, estes são Tony e Marie, meus sobrinhos queridos! – ele sorriu e apontou para os meninos – Os bebezinhos são seus filhos, Thomas e Anthony, mas por enquanto eu não sei quem é quem!
Todos sorrimos, Juan Carlos cumprimentou Edward com um aperto de mão, mas a mim, ele beijou minha mão como um perfeito cavalheiro. Pela minha visão periférica, vi que Ed estreitou o olhar para a cena.
A Sra. Mansen nos convidou a entrar, seguimos para a sala de estar onde Mirna nos serviu suco de uva e biscoitinhos amanteigados. Os meninos agarraram, cada um, um biscoitinho e o roeram até que ele derreteu na boca. Depois olharam para a governanta e disseram em coro:
- Dááá... – os Mansen riram muito, achando graça nos meus meninos.
Felizes com a atenção que receberam, meus bebês começaram a fazer cena, mexendo perninhas e braços, soltando beijinhos estalados e fazendo besourinhos. Nem preciso dizer que conquistaram a afeição dos Mansen num piscar de olhos!
Um empregado da fazenda apareceu e descarregou nossas malas, levando-as para cima, a conversa entre nós e os Mansen era muito agradável e eu consegui me sentir em casa. A sensação de paz e segurança era muito boa.
- Você vai adorar o sobrado. – a Sra. Mansen falou – Preparamos uma parte do pavimento superior para vocês. É como um pequeno apartamento, Rose me disse que vocês apreciam a privacidade.
- Oh! Nós não queremos incomodar, Sra. Mansen. – sussurrei.
- Isso mesmo, qualquer cantinho serve. – Ed falou.
- Não é incômodo, filha e por favor, me chamem de Lilian!
- Venham, vamos conhecer o resto da casa! – o Sr. Mansen falou.
Atravessamos a sala e chegamos a um jardim interno. Aquele lugar era lindo, um verdadeiro oásis no meio do deserto!
Eu e Edward estávamos muito felizes com o nosso novo lar e o desânimo de dias atrás havia acabado. Os pais de Jasper e Rose haviam nos recebido como se fôssemos seus filhos, sem contar que Anthony e Thomas pareciam seus netos... Eles achavam graça em tudo o que os meninos faziam!
Só havia uma coisa, melhor dizendo, uma pessoa que inquietava meu coração: Juan Carlos.
Aquele homem de pele dourada, cabelos e olhos pretos e (não dá para negar) dono de um corpo escultural, era o administrador da fazenda dos pais de Jasper e Rose. Para onde eu me virava, ele estava... me olhando com aqueles olhos sagazes, me olhando até demais.
Edward percebeu a situação num piscar de olhos!
Eu também percebi, mas deixei quieto por dois motivos: primeiro, o mexicano-gostosão nunca me faltou com respeito, ele apenas olhava e, o segundo e mais importante motivo é que eu amava meu marido e JAMAIS iria traí-lo.
Mas o meu lado menos nobre se manifestou. Será que eu devia fazer Edward sofrer só um pouquinho do mesmo modo que eu sofri por causa de Tanya Denalli?
 Ainda inspirando o perfume do jardim, segurando meu Thomas nos braços, senti o rosto de Edward pousar sobre o meu ombro. Sorri ao sentir o seu toque.
- É lindo, não é? – sussurrei olhando para o jardim.
- Não tanto quanto nosso amor, princesa! – ele beijou meu pescoço delicadamente e suspirou.
- O que foi? – me virei um pouco e o vi carregando Anthony, mas no rosto de meu marido havia uma pequena ruguinha de preocupação.
Ele se inclinou de novo e voltou a sussurrar.
- Este fazendeiro não tirou os olhos de você. Você notou?
Pensei um pouco. As metades de mim duelavam: admitir ou fazer um joguinho, fingindo que não tinha percebido nada.
‘Ser ou não ser, eis a questão.’
Admitir ou ignorar?
- Sim, amor, eu percebi. – soltei de uma vez e me senti feliz por meu melhor lado ter prevalecido.
Edward beijou calidamente a minha testa e sorriu torto.
- Obrigado, princesa. – ele beijou meus lábios levemente – Obrigado por me dar a verdade. Obrigado por você não se espelhar nos meus atos do passado.
- Eu te amo, Ed. – sussurrei em seu ouvido.
- Assim como eu te amo.
Meu marido me beijou levemente nos lábios e por uma questão de segundos, mergulhamos em nossa bolha de amor.