Crime & Castigo
Quando eu fechava os olhos podia voltar ao passado...
‘Rose, minha pequena rosa... você vai tirar a família da lama’ minha mãe me dizia todas as tardes depois que escovava meticulosamente meu cabelo e me dava banho com sais especiais e espalhava hidratante no meu corpo. Eu só tinha oito anos, mas já usava a beleza ao meu favor... Eu amava me sentir admirada, invejada pelas outras garotas e gostava de saber que os garotos mais velhos me achavam linda. Meu cabelo era o mais loiro, o mais brilhante e o mais macio, minha pele era como o pêssego e meus olhos sempre foram safiras azuis iluminadas.
Desde pequenina, eu percebia que papai era o ‘mais pobre de todos’, era assim que eu entendia a vida quando fazia comparações dele com o tio Ernest e o tio Carlisle. Ouvindo os comentários dos meus pais, eu não podia entender como um pescador (tio Carlisle) e um dono de boteco (tio Ernest, antes de terminar a faculdade e virar delegado) podiam ganhar mais dinheiro que papai, que, segundo mamãe, era muito mais inteligente e instruído que eles dois.
‘Alguém lá em cima não gosta de mim’ papai reclamava e apontava para o céu sempre que seus negócios davam errado. E foram muitos! Ele foi sócio do Sr. Percy na marcenaria e não deu certo como gerente financeiro, depois tentou administrar o posto de gasolina da ilha e foi demitido, já trabalhou no setor administrativo do hospital e foi acusado de desviar verba pública. Quando fui crescendo, percebi que papai era um profissional desonesto e certa vez eu o confrontei a respeito das acusações que sofria.
- Rosalie Hale, ou você está com a família ou está contra ela!
Ele falou com uma voz tão endurecida que chorei, trancada no meu quarto, pelo resto do dia. Depois disso eu decidi nunca mais ficar contra as decisões da família. Sou filha única e amo demais a minha mãe e o meu pai e sei que, do jeito deles, fizeram tudo o que podiam por mim. Então de início, fiquei encantada quando conheci – através dos contatos que meus pais tinham em Portland - Royce King II, o filho do empresário mais bem sucedido do estado. Nossos namoro e noivado foram costurados junto com a promessa de Royce King I ser sócio de papai num negócio lucrativo qualquer.
- Ah, quando você se tornar a Sra. King, - mamãe sonhava acordada – vai morar no palácio que sempre mereceu... E vai nos levar conosco, não é querida?
Eu apenas acenava com a cabeça.
Royce, 5 anos mais velho que eu, era tudo o que mamãe e papai sonharam para mim: rico, jovem e lindo... Embarquei no sonho e me encantei por aquele moreno de olhos verdes, o príncipe do conto de fadas que tinha vindo para me resgatar da deprimente Paradise.
Mal completei 18 anos e as duas famílias já falavam em noivado...
A ocasião especial aconteceu seis meses depois que eu o conheci e em meu coração eu achava mais do que natural que ‘duas pessoas apaixonadas’ firmassem logo compromisso. Mas, sendo realista devo admitir: nós não passávamos muito tempo juntos. Royce sempre acompanhava o pai nas viagens de negócios e quando estávamos juntos... bem... era meio... estranho...
Nossos beijos e carícias eram mornos, nunca fizemos sexo! Embora eu já não fosse virgem quando o conheci, ele sempre me assegurou que queria ‘me respeitar’ até o casamento. No começo eu tentei dissuadi-lo dessa idéia absurda, mas depois desisti. Ele gostava de me encher de presentes caros, jóias, roupas e muitas festas lindas... Então fui me envolvendo mais e mais no noivado e me dedicando aos planos de um casamento pródigo. Imaginava minhas amigas morrendo de inveja de mim quando me vissem num apartamento cobertura em Portland e vissem nossos filhos lindos.
Então o sonho encantado se desfez três meses antes do casamento...
Um tablóide de fofocas que investigava um possível desvio de dinheiro do fundo de pensão das Indústrias King passou a investigar a família de perto e descobriu que Royce... meu Royce... era gay...
Meu mundo se acabou naquele dia.
Chorei, me desesperei e passei a maior vergonha... Finalmente as peças se encaixaram na minha cabeça! Então era por isso que todo contato físico entre mim e Royce era tão estranho.
Os meses se passaram e como uma fênix que renasce das cinzas, voltei a tocar a vida. Continuei a faculdade, comecei a estagiar e me afundei em estudo e trabalho. Tentei desviar meu ódio para outras coisas: Isabella passou a ser meu alvo preferido. Toda vez que eu me encontrava com os primos Edward e Emmett, fazia questão de irritá-los, falando mal de sua vagabunda. Confesso que fazia isso mais para deixá-los irados do que para expressar algum conceito moral!
Até que um dia, papai apareceu com uma novidade para mim...
No jantar de ação de graças, há poucos anos atrás, cheguei à ilha disposta a passar o feriadão com a família e qual não foi a minha surpresa quando soube que teríamos um convidado.
- Adam Macabeus, minha filha... – papai falava o nome dele com reverência.
- Que nome esquisito! – falei com desdém.
- Mais respeito, Rosalie! – mamãe foi ríspida – Ele é amigo de seu pai e nosso convidado esta noite.
Não dei importância ao fato até subir para meu quarto e me deparar com um lindo arranjo de rosas, em cima da minha cama havia uma caixa branca enorme, arrematada por uma fita de cetim azul celeste.
- Papai... – murmurei encantada.
Mas quando abri a caixa e li o cartão, fiquei pasma.
‘Para Rosalie, cujos olhos azuis, mesmo em fotos, são os mais lindos que já vi.
Respeitosamente, Adam Macabeus’
WTF? Pensei comigo mesma... O cara nem me conhecia... De imediato senti um arrepio na nuca, seguido de um frio na barriga, mas meus anseios foram interrompidos por uma batida na porta.
- Rose? Querida? Posso entrar? – sua voz estava alterada.
- Oi mãe, pode sim... – murmurei.
- Oh! – ela arrulhou e se sentou ao meu lado, na cama – Estou vendo que você já viu o presente que o Adam mandou e naturalmente as rosas...
- POR QUÊ? – fui ríspida.
- Perdão? Por que o que, meu bem? – ela falou pausadamente.
Dei um pulo da cama e comecei a andar em círculos pelo quarto, agitando as mãos e falando descompassadamente.
- Por que vamos ter um convidado para o jantar? Quem é ele? O que ele quer comigo? Por que me deu presentes? - joguei tudo de uma vez – Ele... ele nem me conhece, mamãe... - apontei para as flores – Ele não poderia saber por si próprio que gosto de rosas.
- Querida, querida, - ela se levantou, envolveu meus ombros em seus braços e me trouxe de volta para a cama – você vai perceber que o Adam é uma boa pessoa... gentil, educado, bem nascido...
- Rico. – minha voz ainda estava ríspida – Já entendi os planos, mamãe.
- Rosalie Hale, - sua voz estava carinhosa, mas seus olhos eram duros – está na hora de você demonstrar o mínimo de gratidão por seus pais... E depois, não seja estúpida, garota, estamos apenas tentando arranjar um bom casamento para você.
Nos enfrentamos com o olhar por vários segundos. Eu não podia acreditar que meus pais estavam fazendo aquilo comigo novamente. Até que mamãe suspirou, afagou meu rosto e eu vi brotar lágrimas em seus olhos. Curvada pelo cansaço, talvez pela derrota, ela beijou minhas mãos e se levantou, já perto da porta, murmurou com a voz suplicante.
- O jantar será servido às oito horas, por favor, use os presentes que o Adam lhe deu e não se atrase, querida...
Bufei e deitei na cama, fechei os olhos por uns segundos e me senti sufocada, depois me lembrei que quando era criança e me sentia assim, corria para o sótão, meu esconderijo, meu ‘lugar de pensar’...
Sem ser notada, percorri o corredor, mas parei quando percebi vozes alteradas vindo do quarto dos meus pais.
- Você não foi tão persuasiva quando eu gostaria, Lilian! – meu pai vociferou.
- E o que, exatamente eu deveria ter dito? - ela retrucou.
- A verdade...
- A verdade? Que o pai dela, para se livrar da cadeia, arrematou a filha num casamento arranjado? – mamãe estava chorando.
- Adam Macabeus será o melhor para nossa família... Essa é a verdade... Coloque isso na cabeça de sua filha, Lilian, ou todos nós estaremos perdidos.
Depois daquela frase agourenta de papai, apressei os passos e subi ao sótão, chorei todas as minhas lágrimas até meus olhos ficaram secos e doloridos. Arranjei coragem, não sei de onde, e desci para tomar banho e me arrumar para aquele maldito jantar.
...
No natal daquele mesmo ano, eu já era a noiva de Adam, religioso, pastor e bisneto do fundador da Igreja Cristã Novo Paraíso, uma pequena comunidade bastante reclusa que habitava as colinas do noroeste de Utah. Adam, apesar de ter aquela cara sisuda e ser 10 anos mais velho que eu, me conquistou com seu charme e suas gentilezas. Não foi difícil me render aquele encanto... talvez porque eu estivesse apaixonada, talvez porque tivesse medo de ver nossa família destruída...
No natal daquele mesmo ano, eu e meus pais fomos para a fazenda da igreja, onde conhecemos os ‘irmãos e irmãs’ e meu futuro sogro, Caleb, chamado de ‘o Patriarca’. A mãe de Adam, Abigail, era falecida e isso foi tudo o que soubemos dela, pelo menos por enquanto.
A viagem foi cansativa, as pessoas ficavam tensas ao nosso redor... e mesmo eu e mamãe tentando nos enquadrar às normas da religião (não usar brincos, maquiagem e tantas outras coisas além de usar somente saia ou vestido), as pessoas olhavam para nós meio... desconfiadas... Percebi que as mulheres não falavam em público quando estavam na presença de seus maridos e nenhuma delas tinha permissão para trabalhar fora.
- Quando nos casarmos, querida Rose, - Adam falava com sua voz gentil – você não irá trabalhar fora. Nada vai faltar a você e aos filhos que teremos... muitos filhos... filhos são bênçãos de Javé...
Javé era o nome que eles davam a Deus...
Devo confessar que eu observava Adam nas mínimas coisas... Desde que nos conhecemos, naquele jantar de Ação de Graças, percebi no alto e charmoso loiro (bem mais loiro que eu), de olhos tão azuis quanto os meus, que ele tinha algo de... misterioso... Isso me instigava...
Depois daquela noite, do jantar de Ação de Graças, rosas e rosas chegavam para mim, todos os dias... Meu apartamento alugado em Orono, onde cursava faculdade, só cheirava a rosas... Nosso namoro a distância era através do MSN e aos sábados, ele me mandava uma caixinha de chocolate suíço. Três meses depois, Adam se mudou para Orono e ficamos noivos... apaixonada, eu não dava atenção ao seu fervor religioso e até passei a gostar das aulas bíblicas que ele me dava. Mas devo dizer que seus beijos e suas mãos, escalando e acariciando meu corpo, me agradavam mais que as lições...
Em dezembro do ano seguinte, no auge do inverno das colinas de Utah nos casamos. A cerimônia foi linda, pela manhã e eu usei um vestido branco muito singelo e elegante. A festa, com direito a churrasco e muita música gospel, só acabou no finalzinho da tarde.
Eu já estava no ‘quarto de núpcias’ da casa grande da fazenda quando a ‘irmã Agatha’ bateu na porta do quarto. Ela era uma linda ruiva de trinta e poucos anos, parecia ser muito simpática e era chamada de ‘a anfitriã do Paraíso’.
- Rosalie, vim prepará-la para a noite de núpcias. – ela sorriu e foi entrando, trazendo uma bolsa consigo.
- O quê? – falei meio sem entender, afinal, Adam sabia que eu não era mais virgem.
- Nós, ‘filhas do Paraíso’, devemos estar lindas e apresentáveis aos nossos maridos...
Ela sussurrou enquanto abriu a bolsa e tirou de lá um enorme estojo se maquiagem, uma linda camisola branca e curta (praticamente só cobria até o comecinho das coxas), toda em tule transparente, uma calcinha fio dental branca que me fez ficar constrangida e um par de sandálias altas, prateadas, cheias de pedrinhas de strass.
- Tudo o que nos é proibido lá fora, - ela apontou para a maquiagem – é permitido dentro do quarto, para satisfazer às fantasias de nossos maridos... Isso tudo foi escolhido pelo seu marido, então você já pode ter uma idéia do que ele vai gostar que você use.
Atônita, sem conseguir dizer um ‘a’, fui levada pela ‘irmã Agatha’ até a banheira. Depois do banho relaxante, ela escovou meus cabelos, fez uma maquiagem muito forte e bonita em mim, parecia mais que eu iria a uma festa... o batom vermelho se destacava... e pediu que eu vestisse as peças de lingerie e calçasse as sandálias prateadas altíssimas.
Depois que a irmã deixou o quarto, eu estava nervosa como se fosse uma virgem, mas nem tive tempo de entrar em pânico sozinha. Outra batida na porta me fez sobressaltar.
- Rosalie? Esposa? – a voz de Adam parecia ansiosa – Posso entrar?
- Cla-claro... – gaguejei.
O que se seguiu a isso me surpreendeu.
Adam usava um robe de seda preto, eu nunca o tinha visto em tão poucas roupas e meus olhos varreram seu corpo, senti luxúria. Ele me olhava de cima a baixo, de todos os ângulos, me fez girar em 360º... várias vezes...
Eu tive a noite de sexo mais prazerosa e delicada que já tinha tido na vida. Adam me deu muitos orgasmos, de várias formas... e me fez fazer nele o que ele gostaria... fiz de bom grado, cada vez que ele gozava, me deixava feliz.
- Sabe, Rose... – ele sussurrou quando já estava perto de amanhecer e nossos corpos já estavam exaustos de tanto prazer – o sexo é uma coisa divina...
Ele me deixou sem palavras e quando finalmente pensei em dizer algo coerente, devo ter caído na inconsciência do sono mais doce que já poderia ter tido.
Talvez aquela tenha sido a única noite, depois do nosso casamento, que pude dormir em paz.
...
O dia seguinte foi bastante movimento e cheio de despedidas. Meus pais fizeram as malas e voltaram para a ilha e me deixaram naquele vale de montanhas com o meu marido e minha nova ‘família’.
- Você deve ficar, - mamãe afagava meu rosto enquanto sussurrava – e aprender tudo sobre a igreja e os costumes. Afinal, você será a matriarca em Paradise... Estude e aprenda o que você puder e tente sempre agradar seu marido.
Eu não iria ficar muito tempo, somente aquele primeiro mês de casamento seria na fazenda, depois iríamos voltar para Orono, já que eu estava de férias e iria terminar a faculdade naquele semestre.
- Não se esqueça, Rosalie, - papai nos interrompeu - a sobrevivência dos Hale está em suas mãos.
Com um beijo na testa, ele se despediu de mim e entrou no carro enquanto mamãe voltava a me abraçar.
- Você está feliz, querida?
- Bem... eu...
- Ah, não se preocupe, o tempo trará coisas boas. – então ela também me beijou e entrou no carro.
O irmão Baruch, o ‘servo de confiança’ (era assim que Adam se referia a ele) foi incumbido de levar meus pais ao aeroporto. Eu e Adam passamos o resto do dia passeando pela fazenda, ora andávamos a cavalo, ora a pé...
Fizemos sexo dentro de uma lagoa, eu não queria fazer isso, primeiro porque ela estava fria, segundo porque eu tinha medo que alguém pudesse no ver. Meu marido me assegurou que ninguém iria nos espionar e me dissuadiu a entrar na água, que realmente estava fria, mas estar nos braços dele de novo e sentir todo aquele prazer foi muito, muito... tudo...
Coisas estranhas aconteceram nos dias seguintes.
Uma das mulheres, Corine, muito linda, jovem (ela tinha a minha idade), cabelos negros e olhos violeta, era a irmã que mais conversava comigo, ela era casada com Baruch, o homem de confiança de Adam. Certo dia, Corine foi até a casa grande disposta a me ensinar a fazer pão de milho, alegando que eu iria agradar meu marido se soubesse fazer o pão. Dispostas a conversar e cozinhar, fomos interrompidas por meu sogro Caleb, que abriu o livro de hinos na cozinha e passou a tarde louvando a Javé enquanto amassávamos o pão. Eu e Corine ficamos mudas e apenas seguimos a receita, conversando automaticamente sobre culinária. No dia seguinte, ela esperou meu sogro e meu marido saírem para tosquiar as ovelhas do rebanho da fazenda e chegou com uma cesta de bordados para me ensinar a fazer ‘ponto cruz’. Nos acomodamos na cozinha e começamos a conversar sobre casamento, quantos bebês que queria ter, se eu estava feliz e etc. Mas quando ela tirou de sua cesta um tecido de algodão, enrolado nele havia uma carta. Ela fez um sinal com dedo indicador, mandando eu fazer silêncio enquanto lia a carta e ela soltava a voz, cantando um hino em alto e bom som.
‘Ajude-nos.
A maioria de nós, mulheres, não é feliz no casamento, na verdade somos reféns. Nossos maridos não nos respeitam, não nos amam e só pensam no maldito dinheiro, eles ameaçam tomar nossos filhos de nós, muitas até já foram ameaçadas de morte. Algumas das que tentaram fugir não tiveram um final feliz. Temo por mim e por minhas três meninas.
Adam e Caleb são dois hipócritas e criminosos, sangue inocente mancha as mãos de pai e filho. Até hoje a polícia do Oregon nunca conseguiu explicar o desaparecimento de Sarah, a primeira esposa de Adam. Ele recebeu um seguro de vida milionário.
Nossa esperança está em você, por favor, quando sair daqui, consiga um jeito de falar com o Detetive Foster, no condado de Jastha, diga para ele procurar dentro das antigas minas de ouro, em Promontory.’
- Adam já foi casado!? – minha voz subiu umas oitavas.
Corine fez um sinal, pedindo meu silêncio, depois pegou a carta, rasgou-a em muitos pedacinhos e a queimou na boca do fogão, tendo o cuidado de recolher as cinzas e as misturar com os restos de comida da lixeira. Depois ela me abraçou e sussurrou.
- Sinto muito, Rose...
Nosso abraço foi interrompido com o bater da porta, nos sobressaltamos quando a figura de Caleb entrou e falou asperamente.
- Outra vez aqui, Corine?
- Oh, meu sogro... – falei de improviso – fui eu quem convidou a Corine, ela estava me ensinando a bordar...
- E eu posso ver o que a minha nora bordou?
Tremi nas bases, mas parece que Corine havia pensado em tudo, ela apontou tirou da cestinha dois pedacinhos de pano e falou despreocupadamente.
- Rose é uma aluna esforçada, veja, Patriarca, - ela lhe estendeu os bordados – em uma única tarde ela conseguiu fazer um bordado quase tão bom quanto o meu...
Com as mãos enrugadas e meio trêmulas, ele pegou os dois pedaços de pano e só então eu me dei conta que Corine havia trazido o mesmo bordado em dois tecidos. Num, a figura estava perfeita e no outro estava meio torta e faltando uns pedaços.
- Minha nora precisa treinar mais. – ele falou seco e nos devolveu o pano, girou em seus calcanhares e falou de costas para nós – Corine vá para casa, cuidar de suas filhas. Somente Javé poderia imaginar o mal que seria na vida daquelas meninas se a mãe lhes faltasse...
Assombrada, ela olhou para mim e assentiu minimamente, nos despedimos com um abraço. Aquela foi a última vez que vi Corine.
No dia seguinte, eu e as outras mulheres da fazenda estávamos fazendo as orações matinais debaixo da sombra do grande pé de carvalho quando o irmão Jordan chegou na sua bicicletinha trazendo a notícia de que Corine, esposa de Baruch, havia sido vítima de um infarto naquela madrugada. O marido alegou que não deu tempo de levá-la ao hospital, ela morreu em seus braços... não houve autópsia, o enterro foi naquela mesma tarde. Genna, Brianne e Calista, as filhas de Corine, com idades entre 11 e 8 anos, estavam abraçadas ao pai durante todo o tempo. Ninguém chorava, nem mesmo as meninas. Embora eu sentisse uma grande vontade de chorar, reprimi as emoções, imaginei chorar que fosse pecado...
- Adam, por que ninguém chorou no enterro?
Era tarde da noite, tínhamos acabado de fazer sexo, como sempre fazíamos todas as noites. Quando eu digo TODAS AS NOITES, é ‘TODAS AS NOITES’ mesmo... mesmo quando estou cansada e com sono... Os únicos dias que escapei foram os dias da menstruação, mesmo assim fizemos outras coisas...
- Porque chorar quando um ‘servo’ morre seria um tipo de blasfêmia. O servo foi ao encontro do Criador e isso é motivo de alegria.
Ele falava enquanto beijava meu rosto e por fim, capturava meus lábios noutro beijo lascivo. A noite estava longe de acabar...
O luto por Corine foi sufocante. Parecia que todas as outras mulheres queriam me contar algo, mas ninguém tinha coragem. Percebi que depois disso Adam quase nunca me deixava sozinha e eu, tentando ganhar a confiança dele, o incentivava no sexo (confesso que adorava esses momentos) e me aplicava nos estudos da religião e dos costumes da igreja.
Se eu tinha alguma chance de sair viva daquele casamento, primeiro eu precisava ganhar a confiança dele e voltar a Paradise...
Mas meu coração se dividia... embora eu pressentisse o perigo, minhas neuras se desmanchavam quando aquelas mãos hábeis tocavam meu corpo. E devo admitir, até aquele momento Adam nunca tinha feito nada que pudesse me machucar, ele sempre era atencioso e carinhoso comigo.
...
Já em Orono, eu me concentrava em terminar a faculdade e cuidar do meu marido. Graças a Deus que aquele semestre passou logo e finalmente pudemos voltar para Paradise. Nunca, na minha vida, eu ansiei tanto por voltar àquela ilha...
A nossa casa era grande, recém construída e bastante arejada, mas embora fosse ao lado da casa dos meus pais, eles só nos visitavam quando pediam ‘licença’ ao meu marido. Tentei relevar esse fato.
Papai e Adam começaram uma modesta plantação de blueberry e uma criação de ovelhas nas nossas terras. Os negócios pareciam prosperar, mas não sei por que eles queriam tanto comprar as terras dos Cullen. Rapidamente meu marido intensificou a u animosidade contra os meus primos e Isabella, eram freqüentes as conversas dele e de papai, falando mal dos ‘três sodomitas’ como meu marido gostava de dizer. Os Cullen rechaçaram as propostas de venda da terra e durante os dois anos seguintes ainda continuariam no continente aprimorando os estudos.
Eu tentava não pensar muito nisso, afinal já estava grávida de meu primeiro filho e por incrível que pareça, ainda feliz no meu casamento. Até que um dia, um grupo de irmãos chegaram de Utah, sim eles passariam a morar nas nossas terras dali por diante para nos ajudar nos negócios e na ‘evangelização’ da ilha. A Sociedade Cristã de Paradise foi fundada, um grande templo seria construído, Adam seria aclamado o Patriarca da ilha e eu, sua Matriarca...
O mundo parecia girar ao meu redor e meus instintos tentavam me falar da ‘tempestade’ que viria, mas eu não conseguia pensar em muita coisa que não fosse o meu bebê. Durante o dia eu preparava seu enxoval, cuidava da casa com a ajuda da ‘irmã Celeste’ e descansava, cochilando várias vezes. Porque à noite, mesmo grávida, Adam não deixou de querer fazer sexo... eu também não queria parar... ele era cuidadoso e carinhoso, mesmo com a barriga cada vez maior, ele arranjava um jeitinho de não me machucar e me dar prazer.
Quando Jeremy nasceu, lindo e forte, eu me derreti em tanto amor por aquela pessoinha tão maravilhosa que tinha saído de dentro de mim. Ele era a cara do Adam... Passei dois dias e meio na maternidade, nesse meio tempo meu marido não saia de perto de nós.
Em casa, cuidando do bebê e sendo ‘feliz’ no meu mundinho cor-de-rosa, flagrei uma conversa acalorada de meu marido e meu pai. Eles quase gritavam dentro escritório, resolvi escutar atrás da porta. De tudo o que entendi, papai esbravejava que se eles não conseguissem as terras dos Cullen antes de vencer a hipoteca, perderiam tudo para o banco.
- VOCÊ DISSE QUE TINHA TUDO SOBRE CONTROLE! – papai vociferou.
- Não levante a voz para mim. – Adam tinha a voz controlada, mas feroz.
- Mentiroso, você disse que era rico.
- Eu disse apenas que estava numa situação mais confortável que a sua...
- Você só fez isso para poder ter minha Rose... – papai já choramingava.
Um bater de palmas ecoou de dentro do escritório.
- Muito bem, Tim, você é um velhote inteligente... Eu já lhe disse uma vez, eu consigo tudo o que quero e passo por cima de quem está em meu caminho.
Um arrepio convulsionou meu corpo e meu coração ficou apertado... Do outro lado da casa Jeremy começou a chorar alto e eu me lembrei que já estava na hora do mamar dele.
Enquanto meu bebê se alimentava eu refletia sobre uma série de coisas.
Adam continuava sendo um bom marido para mim e se empenhava em ser um pai carinhoso. Então, por que o meu subconsciente me mandava tantas mensagens de alerta? Fechei os olhos por um instante e imagens de Corine vieram na minha mente, lembrei de suas filhas, lembrei da carta... Detetive Foster... procurar nas antigas minas de ouro em Promontory... Caleb, meu sogro... aquela figura me dava medo.
...
Os negócios foram se expandindo e a nossa comunidade cristã, embora fosse formada exclusivamente da nossa família e dos irmãos que tinham vindo de Utah, era um lugar agradável. Apesar do fervor religioso de nossos maridos e da avidez pelos negócios, eu e as outras mulheres tínhamos algo em comum: o respeito por eles e o amor incondicional pelos filhos.
Agora eu já tinha a pequena Naomi, nossa segunda filha e estava grávida do terceiro filho, outra menina, que se chamaria Abigail, em homenagem a avó. A maternidade havia transformado minha vida. Nunca, jamais eu poderia imaginar que pudesse amar tanto... Jeremy era meu pequeno príncipe, Naomi, minha bonequinha rosada e Abby (com já a chamávamos) viria para ser a cerejinha no topo do sorvete. Meus bebês era adoráveis, muito apegados a mim e eram, antes de tudo, a minha fonte de esperança, amor e força.
O casamento ainda era bom, Adam cumpriu sua promessa, nada faltava a mim e às crianças, ele era um chefe de família responsável e um pai dedicado. O sexo ainda era bom, meu marido pareciam não cansar de mim e ainda não tinha feito nada que Corine descrevera na carta, ele nunca me destratou e nunca me ameaçou. Depois que aprendi as pequenas normas de conduta da religião, nunca tivemos atritos, desde que eu fosse submissa, ele era carinhoso.
Era uma agradável tarde de abril, eu e mamãe estávamos passeando com as crianças quando resolvemos ir até o celeiro para fazer uma surpresa ao ‘papai Adam’. Ele não nos viu, estava de costas para nós e o que eu vi a seguir me deixou chocada. O irmão Dean estava deitado no chão, suas mãos estavam amarradas nas costas e de sua boca escorria sangue. Meu marido apontava uma arma para ele, um tipo de pistola prateada com um cano longo.
Antes que Jeremy ou Naomi pudessem visualizar a cena, mamãe os afastou da entrada do celeiro e com um aceno de mãos me chamou para sair dali.
E quem disse que eu conseguia me mexer?
Dona Lilian então correu para longe, arrastando o pequeno Jeremy e a Naomi em seus braços. Adam ainda não tinha me visto, eu estava atrás de um arbusto, espantada.
- Tra-i-dor... – ele sibilava – Maldito traidor... O que foi que você andou dizendo aos pescadores da ilha?
- Eu, eu não disse nada, eu juro... tudo o que eu queria era que você ficasse longe de minhas filhas... Por Deus, Adam, elas só tem 13 e 14 anos, são crianças... e se alguma delas ficar grávida? Você vai reconhecer a paternidade?
Filho? Grávida?
Deus do céu!
Eu segurava firme nos galhos dos arbustos para não desmaiar, meu coração batia acelerado e a criança dentro de mim me dava vários chutes.
- Claro que vou... – Adam falou e esboçou um sorriso.
- Mentiroso, você vai fazer o que fez com os outros, espalhá-los em orfanatos... E quanto às outras adolescentes que você seduziu e estuprou? Você vai prostituir minhas filhas assim como fez com aquelas meninas, jogando-as nas boates de Los Angeles e Las Vegas, viciando-as em drogas!
- CALE-SE!
- Adam Macabeus, eu tenho um dossiê sobre você e se você não me deixar em paz, entregarei tudo à polícia... Narcotráfico, lavagem de dinheiro, crime fiscal, assassinato de Sarah Goldman...
Meu marido então puxou o gatilho e o que se ouviu a seguir não foi o estampido da arma, mas o meu grito de terror. Abalada, me segurei no arbusto, me escorei na parede do celeiro e revelei meu esconderijo. Adam veio até mim com a expressão transtornada, ele ainda segurava a arma quando me puxou para si e me abraçou, nossos corações batiam acelerado.
- Rose, querida Rose... – ele sussurrava – eu não queria que você visse uma cena tão brutal.
Ele desfez nosso abraço e começou a me olhar com intensidade.
- Eu e o irmão Dean estávamos conversando sobre a Palavra de Javé enquanto ele limpava a arma e ela disparou por acidente.
- Eu... eu... Adam... você, você... matou...
Então depois disso tudo aconteceu muito rápido, num minuto eu estava amparada nos braços do meu marido, noutro minuto eu já estava no chão. O tapa que ele me deu foi tão intenso que me fez girar, tropecei nos meus próprios pés e senti o gosto de sangue na minha boca (eu havia mordido a língua). Ao mesmo tempo, para proteger meu bebê, eu envolvia minhas mãos na barriga, desprotegendo meu rosto.
Cai de lado e machuquei o quadril (antes o quadril do que a barriga) e a lateral do rosto, provocando de imediato, um inchaço na minha bochecha. Ainda no chão, presenciei a entrada dos irmãos Abner e Trent, Adam conversou com eles rapidamente, repassado a história de acidente que eles teriam de contar para todos. Um buraco no meio do celeiro estava sendo cavado, aquela seria a cova do irmão Dean.
- E quanto a ela? – Abner apontou para mim.
- Não será problema. – meu marido falava com rispidez.
- Tem certeza, Adam? – Trent insistiu – Seu amor por belas mulheres quase nos arruinou uma vez.
- CALEM-SE OS DOIS! – Adam berrou, fazendo com que eu me encolhesse no chão.
Depois ele rasgou a bainha da minha saia e começou a limpar o sangue de meu rosto enquanto sussurrava palavras carinhosas.
- Rose, amor... fiquei tão assustado com essa sua queda. – ele tocou na minha barriga, a criança chutou, ele se inclinou e beijou a filha – Pequena Abby... o papai te ama...
Assustada eu mal respirava, até que Adam me ajudou a levantar e me levou para casa. Mamãe viu meu estado e não ousou me fazer perguntas, eu, por algum motivo que até hoje desconheço, não quis contar a ela nada do que aconteceu. Naquela noite eu e Adam não fizemos sexo, ele cuidou dos meus ferimentos, serviu meu jantar na cama e pediu que eu dormisse para esquecer aquele dia difícil.
Os dias seguintes foram atordoados, eu me sentia ardendo no inferno. Todos na congregação lamentavam a morte acidental do irmão Dean e concordavam que suas filhas de 13 e 14 anos deveriam voltar para Utah, onde seriam criadas pela tia-avó na fazenda da igreja. Ninguém parecia desconfiar da versão contada por Adam... aquilo me dava nos nervos.
O assunto foi rapidamente superado porque havia outra coisa que deixava a nossa comunidade alvoroçada: Edward, Emmett e Isabella estavam para voltar para ilha.
‘Pecadores’... era o que todos diziam... ‘devemos varrer o pecado de nossa ilha’ papai e mamãe diziam com fervor. Eu apenas concordava com um aceno de cabeça e quando confrontada por alguém, dizia apenas que devíamos orar pelos pecadores e conquistá-los com o amor de Javé...
- Isso, irmãos, ouçam as sábias palavras de sua Matriarca! – Adam se gabava quando se referia a mim.
Cada vez mais me lembrava de Corine e do fim trágico que ela teve, imaginava quantas coisas horrendas Adam devia ter feito e tremia de medo. Em casa nós tínhamos computador com acesso à internet, eu poderia pesquisar sobre Sarah Goldman, mas não tinha a senha do provedor. Adam dizia que internet demais era pecado, eu só podia ‘navegar’ quando ele estava por perto e quase sempre ele via no histórico por onde eu tinha andado. Geralmente eu só entrava em sites de culinária e sobre bebês... eu havia me tornado uma refém na minha própria casa.
- Deus, me ajuda a criar meus filhos. – essa era a oração que eu fazia todos os dias.
- Filhos são bênçãos! – Adam dizia nos sermões dominicais – Eu e Rose seremos abençoados com muitos filhos ainda... quem sabe doze? Assim como as doze tribos de Israel, na época dos grandes patriarcas...
Esse assunto era recorrente: muitos filhos, muitos filhos... Eu entendia qual era a estratégia de Adam: quanto mais filhos eu tivesse, mais e mais eu estaria presa a ele!
Depois que ele me bateu naquela tarde, freqüentemente eu sentia seus olhos em mim de um jeito diferente. Ele olhava como se quisesse... se desculpar, suas atitudes diziam assim, ele ficou mais carinhoso, mais paciente e um amante cada vez mais ávido em me agradar. Mas meu coração não sossegava, esperei a poeira baixar para poder ter a certeza de que Adam Macabeus seria a desgraça da minha vida.
Muitas coisas começavam a fazer sentido... Sarah Goldman deveria ser a primeira esposa dele, pela conversa que escutei, ele a amou e deveria me amar como amou essa outra mulher. Mas ela estava morta, talvez tivesse sido assassinada. Por quem? Adam? Eram muitas perguntas na minha mente e uma única preocupação: meus filhos.
Eu precisava de ajuda. Em quem confiar? As irmãs? Não, todas elas viviam numa situação igual ou pior que a minha. Mamãe e papai? Também não! Deus do céu...
Então a figura dele começou a preencher meus pensamentos com bastante freqüência. Ele era a única pessoa em quem eu podia confiar. Mas, como chegar até ele sem levantar suspeitas?
Pior... eu ficava pensando... E se ele não acreditar em mim e der com a língua nos dentes? O que será de mim e dos meus filhos!?
Aproveitando que a confiança que Adam tinha em mim parecia inabalável... mesmo depois daquele tapa eu tentava ser a mesma com ele... Deixei as crianças com a irmã Celeste e disse que iria à cidade encomendar umas coisas para o enxoval da Abby. Enquanto dirigia, me certificava de não estar sendo seguida e desaparecia na estradinha à direita que dava acesso ao lugar onde ele gostava de ficar. Nervosa, eu orava a Javé para encontrá-lo lá.
Fui pela porta dos fundos, bati na porta praticamente dando socos e quando ele abriu, não esperei ser convidada. Entrei, fechei a porta atrás de nós e supliquei.
- Você precisa me ajudar...