Insanidade
POV EDWARD
Entrei naquele pub disposto a esquecer meus problemas, mas tudo o que consegui foi intensificá-los. Assim que pus os pés no ambiente e dei uma vista geral sobre as mesas, percebi que o local não estava muito cheio ainda. Dispensei a mesa que um garçom gentilmente me ofereceu e fui até o balcão, sentei num daqueles bancos altos e pedi uma dose de uísque puro para a jovem mulher que estava do outro lado. Ela era magra, rostinho bonito, cabelos ruivos e cacheados, seus olhos verdes eram curiosos e havia algumas sardas em seu nariz. Ela me mediu de cima à baixo várias vezes e me serviu.
- Gato, pela sua cara, acho que você teve um dia de cão. – ela sorriu.
Tudo o que eu menos queria era conversa, mas fui educado, olhei para ela e assenti. Tomei o líquido que estava no copo, desceu queimando pela minha garganta. Queimando, como eu me sentia queimar... no inferno...
Baixei o olhar e contemplei o curioso e pitoresco balcão daquele pub, sua madeira escura, carvalho talvez, era protegida por um enorme vidro verde. Mas o grande detalhe é que entre a madeira e o vidro havia uma infinidade de fotos, bilhetes, cartas de amor, pensamentos, versos e citações escritos em pedacinhos de papel e até em guardanapos. Meus olhos pousaram no mais próximo a mim: “Porque os homens ofendem por medo ou por ódio” Maquiavel em O Príncipe.
Esperei que a bebida entrasse em meu cérebro e li de novo a frase, meu entendimento foi que eu realmente estava fudendo com a minha família, usando as palavras de Bella logo cedo. Mas não era por ódio e sim, por medo. Medo de enfrentar a verdade, medo de dizer a Bella a verdade, embora esta fosse muito simples e não me implicasse em crime nenhum. Tanya Denalli era uma vagabunda, era minha chefe e estava me assediando. Eu estava ciente disso, vivia em estado de alerta, não podia perder o emprego, mas nunca cedi nem tive vontade de ceder a suas investidas. Deus do céu... seria tudo tão diferente se eu tivesse dito isso a Bella...
- Outra dose, por favor?
Ergui o olhar e me deparei com outra mulher, esta era alta e corpulenta, mais velha, porém muito parecida com a mais jovem. Ela não sorriu quando me serviu e fez uma careta quando eu entornei a segunda dose de uma só vez. Com um gesto de mão, pedi mais uma dose, ela me serviu e me advertiu.
- Vá com calma, benzinho...
- Deixe a garrafa aqui, por favor... – sussurrei.
- Ok. – ela suspirou.
Eu já sentia uma área de alta pressão passeando de meu crânio até as têmporas. Aquilo era tudo o que eu queria: ficar bêbado de vez e me perder no eclipse de minha vida. Sim, eu me sentia na sombra de um maldito eclipse já que tapei o brilho de meu sol, minha Isabella, por uma porra de uma lua idiota, chamada teimosia. Olhei para outra mensagem, essa tava escrita num guardanapo: “Quem não dá assistência, abre concorrência”.
Bufei irritado para a frase estúpida e jocosa, mas fiquei olhando fixamente para ela enquanto pensava em Bella. Meu comportamento deveria lhe dar razão para checar a concorrência... Senti a garganta queimar, meu coração perdeu uma batida e eu quase tive um AVC só de imaginá-la saindo de minha vida.
“Sinta-se à vontade para sair do chiqueiro.”
Meu Deus... Por que eu fiz isso? Senti os olhos marejados e baixei a cabeça, perdi a noção de tudo mesmo... Não sei quanto tempo fiquei ali naquela mesma posição, até que uma mão tocou em meu ombro.
- Hei, benzinho. – a mulher falou – Sua situação vai piorar drasticamente se você chegar em casa sem isso...
Ela fechou suas mãos nas minhas e foi aí que eu percebi que havia tirado minha aliança de casamento e estava brincando com ela sobre o balcão.
Dei à mulher o meio sorriso mais melancólico da minha vida.
- Vamos lá, reaja... essa aliança é muito bonita e tenho certeza que a mulher que a colocou nesse dedo é mais bonita ainda...
- E eu a perdi... – murmurei.
- Duvido, benzinho... Você não é de se jogar fora...
- A senhora não sabe o que eu fiz hoje. – ela me olhou nos olhos, me incentivando a continuar – No meio de uma briga feia, eu... eu... disse ela que se sentisse à vontade para sair de casa.
Tomei outra dose do uísque.
- E ela saiu?
- Deus do céu! Não! Não saiu...
- Sorte sua. – ela sentenciou – E se não saiu, não sairá mais. As mulheres são passionais demais e sabem dosar o amor dia após dia, mas não conseguem dosar o ódio. Se ela não saiu, não praguejou e não te atacou, - ela riu sem humor – é porque ela ainda te ama.
Fitei o vazio e bebi outra dose, um cliente chegou e a atenção da mulher foi dada a ele. Li outra frase: “Aquele que se revela confuso nos objetivos não consegue responder ao inimigo” Sun Tzu em A Arte da Guerra.
A frase do famoso livro de estratégia militar, me fez sentir um fracasso total. Agora, eu já não era um porco chafurdando na merda da minha teimosia, eu era o mesmo porco se afogando no próprio orgulho e infelicidade. Tomei outra dose de uísque.
- Você quer comer alguma coisa? – a mulher perguntou a mim – Bebendo rápido desse jeito e sem comer nada, daqui a pouco você estará completamente bêbado...
- A intenção é essa...
- Ora, vamos, benzinho! – ela falou com firmeza – Pare de se comportar como um merda de homem! – ela empurrou o cardápio em minha direção.
Num primeiro momento eu fiquei irado com suas palavras, depois percebi que ela estava certa. Eu estava sendo um merda de marido e um merda de pai. Olhei o cardápio e pedi umas iscas de filé mignon e batatas fritas. Dez minutos depois eu estava tomando outra dose de uísque e comendo uns pedacinhos de carne.
- Ta gostando das frases? – a mulher me perguntou.
- São interessantes. De onde surgiu essa idéia?
- Ah! – ela sorriu enquanto servia cerveja a um cliente – Esse é o balcão 3-D: desesperados, desiludidos, desanimados. Todo mundo se lamenta aqui e alguns gostam de escrever suas lamentações. Percebi que havia vários pensamentos filosóficos e resolvi juntar tudo...
- Interessante. – bebi e comi mais um pouco – Qual é o seu preferido?
Ela apontou para um pedacinho de papel escrito numa caligrafia horrível: “Assentar-se-á como derretedor e purificador de prata; purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e como prata”
- Não entendi. - falei aturdido - Quem é Levi?
- Eu não sei quem é Levi e essa frase ficou martelando na minha cabeça por quase três meses! – ela sorriu e leu a frase novamente – O cara que escreveu isso é um reverendo e isso aí ta na Bíblia, em algum livro chamado Malaquias. – ela sorriu constrangida – Não tenho o costume de ler a Bíblia. No dia que o Sr. Truman retornou à cidade, pedi-lhe que me falasse dessa frase. Ele contou uma metáfora mais ou menos assim:
“A prata é um metal precioso, assim como as nossas vidas, mas ela é retirada das entranhas da terra misturada a outros metais menos nobres e assim como nós, é cheia de sujeiras e imperfeições.
O purificador da prata é o cara que faz o metal ferver a uns 650ºC por vários e vários minutos. O processo de purificação exige disciplina e continuidade, pois uma vez que a prata ferve, a temperatura não pode ser diminuída, se não o trabalho é perdido. Nessa história, Deus é o purificador da prata, ou seja o purificador de nossas vidas. Ele age permitindo que a gente passe por um monte de problemas e ferva, de uma certa forma, até que fiquemos puros.”
- Interessante. – murmurei.
- Mai ainda tem mais. – ela sorriu – O final da história é surpreendente.
“O purificador sabe que a prata já está pura o suficiente, quando ele consegue ver o reflexo do seu rosto no líquido fervente. Deus também fica satisfeito quando consegue ver em nós o reflexo dele mesmo, afinal fomos feitos à sua imagem e semelhança.”
- To longe de parecer Deus... – falei com amargura.
- Oh! Eu também... Mas confesso que a cada dia eu me esforço para ser melhor... – ela fez uma pausa – Acho que a moral da história é: pegue os limões azedos que a vida lhe dá e faça deles uma limonada; perder tempo chupando os limões azedos e reclamando de seu gosto ruim não o levará a lugar nenhum.
Outro cliente chegou e conversou animadamente com a mulher. Bebi outra dose de uísque, belisquei mais uns pedacinhos de carne e batata e procurei outras frases pelo balcão. Uma coisa me chamou a atenção, era uma página de um calendário, nele havia uma foto de uma alta montanha com seu topo coberto de neve. O mês era Maio, achei estranho e o ano era 1992, achei mais estranho ainda. Junto aos créditos da imagem, havia uma inscrição: “A soberba precede a queda...”
- Essa foi a minha contribuição para o balcão. – ela apontou para o calendário – Maio de 1992 foi quando eu caí...
Olhei para ela sem entender nada, ela pegou um copo se serviu uma dose de tequila e começou a falar de sua vida.
- Sou de Chicago, mas meus pais eram escoceses e tinham o pub mais legal da cidade... Conheci o amor da minha vida aos 18 anos e aos 22 já estava casada. Liam ficou desempregado e eu passei quase um ano nos sustentando, quando ele finalmente começou a trabalhar, pediu que eu largasse o emprego. Eu não quis, adorava trabalhar no hotel, adorava tudo aquilo e gostava de ter meu próprio dinheiro. Meus horários de trabalho não coincidiam com os dele e aos poucos éramos dois estranhos na mesma casa. Ele sempre pedia que eu largasse o emprego. – ela sorriu com tristeza – Eu rebatia dizendo que ele era machista e controlador e nessa mesma época comecei a ser assediada pelo meu chefe. Escobar era um homem bem mais velho que eu, sorridente e galanteador.
Uma sombra de dor e arrependimento tomou conta do rosto da mulher, ela sorriu e apontou para a garota, a mesma garota que me serviu a primeira dose de uísque, que cantava no pequeno palco uma música da Amy Winehouse.
- Em Maio de 1992 eu me descobri grávida, minha Gwen já estava a caminho... – ela sorriu enquanto apontava novamente para a filha – Liam ficou possesso quando lhe disse que o filho que eu havia gerado não era dele. Escobar me demitiu do hotel e me ameaçou se eu espalhasse a história de que aquele ‘bastardinho’ era dele.
Caramba! A mulher estava mesmo me contando a história dela...
- Sabe quem me estendeu a mão, benzinho? – neguei com a cabeça – Liam me ajudou, vendemos a casa e dividimos todos os bens, nos divorciamos e ele me ajudou a conseguir um novo emprego. Ele dizia ter perdido o amor por mim, mas me estendeu a mão... – a voz dela estava embargada – Ele disse: quem sou eu pra não te perdoar?
Houve um minuto constrangedor de silêncio. Ela correu os olhos pelo pub e apontou para o homem alto que estava dando instruções a um garçom.
- Descobri que minha vaidade e teimosia, me levaram à maior queda de minha vida. – ela apontou para o calendário – Mas descobri que o amor nos faz voltar ao mesmo lugar... – ela sorriu – Certo dia eu vi Liam esperando por mim na frente da minha casa. Ele ainda me amava afinal e o tempo só fez o amor ficar mais vivo!
- Apesar de tudo, sua história teve um final feliz... – sussurrei.
Ela acenou e chamou seu marido, ele veio até nós em poucos minutos.
- Liam, eu estava contando nossa história de amor para este jovem aqui...
O homem estendeu a mão e me cumprimentou.
- Seja bem vindo ao Scotland Yard, eu sou Liam McGregor, esta é minha esposa Siobhan e aquela ali é nossa filha Gwen.
Percebi que o homem disse ‘nossa filha’ de uma forma carinhosa e fervorosa.
- Prazer em conhecê-los, eu sou Edward Fields! – sorri.
De repente me vi inquieto e doido pra sair dali, tudo o que eu queria era ver minha Bella, pedir perdão, dizer que a amo, dizer que aprendi um monte de coisas numas frases soltas de um balcão de bar, dizer que não sou nada sem ela e implorar por seu perdão.
- Obrigada por tudo Siobhan, seu pub é adorável e gostei muito de nossa conversa. – peguei a carteira – Você pode me dar a conta?!
- Depende. Você vai para casa? – assenti – E está disposto a fazer a coisa certa? – assenti fervorosamente.
- Então deixe sua mensagem aqui. – ela me deu uma caneta e um pedaço de papel – Quem sabe se amanhã teremos um merda mais merda que você?! – ela arqueou a sobrancelha e gargalhou.
Eu ri. Ri como não ria há muito tempo, foi bom, foi verdadeiro.
Pensei, pensei, pensei e me decidi por uma frase de Shakespeare, uma das preferidas minha e de Bella. Tentei fazer uma bonita caligrafia:
“O verdadeiro nome do amor é cativeiro”
A mulher pegou o papelzinho, eu paguei a conta, ela ergueu o olhar e disse:
- Bondade traz bondade, Edward. – ela sorriu – Sua frase ajudará alguém! Boa sorte hoje! E se você puder, volte aqui qualquer noite dessas, mas traga a sua amada. Tenho uma das frases do balcão para mostrar a ela.
- Que frase? – perguntei curioso.
- “A principal diferença entre um homem e uma maçã, é que a maçã amadurece mais rápido.” – a mulher recitou a frase solenemente.
Eu fiz uma careta, mas depois sorri, assenti e sai do pub caminhando a passos rápidos. Já no carro, me concentrei na estrada e dirigi com cuidado, já que havia bebido, mas consegui fazer a viagem de Port Angeles até Forks em menos de uma hora. Ansioso, decidido e arrependido, eu só queria me jogar aos pés de minha mulher e implorar por seu perdão.
Estacionei a pick-up na frente de casa e meu sangue gelou, desceu todo para os pés e subiu à cabeça num único jato! “Mas cadê o carro dela?”, gritei em minha mente. “E, Deus do céu! A casa tava toda escura, somente a lâmpada da varanda estava acesa!”
- Meu Deus! Não! Bella saiu de casa?! – murmurei e me espantei com o tom mórbido de minha voz.
Peguei o celular no bolso e quando disquei seu número, a chamada nem foi completada porque a bateria descarregou completamente. Irado e aturdido, com o coração sangrando e completamente desorientado, peguei a porra do celular, jogando- contra a parede da varanda de casa. O aparelho se espatifou em mil pedaços, mas aquilo não foi capaz de me deter. Saltei do veículo e fui até os destroços do celular, peguei o chip que estava no chão e levei-o à boca, mastigando-o nervosamente, descontando no pequeno objeto toda a minha raiva, dor e frustração. Foi quando me lembrei do pequeno celular prateado que o FBI nos deu, aquele que a gente só deveria usar em caso de vida ou morte...
Vida ou morte! Deus, onde estava a minha família?! Será que... Será que...
Ofeguei... O pavor tomou conta de meu corpo e eu vomitei ali mesmo na varanda de casa! Botei tudo pra fora, a bebida, a comida e tudo o mais que havia de ruim em mim... O fedor me deixou nauseado e eu saí dali, cambaleante eu atravessei a rua e me sentei na calçada do outro lado. Fiquei ali por não sei quanto tempo, chorando silenciosamente e sem encontrar forças para mexer um músculo sequer.
- Bella... Ah! Bella! Cadê você, meu amor? Cadê nossos filhos?! – eu murmurava e rezava, prometendo a Deus que seria um novo Edward se ele mandasse minha família de volta pra mim.
Então o carro de Bella virou a esquina de nossa rua!
A emoção foi tão forte que eu não conseguia me mexer, fiquei estático tanta alegria e de gratidão a Deus... Fiquei tão extasiado que na hora nem notei que ela estava no banco de trás e alguém dirigia o carro.
Tudo foi muito rápido, intenso e revelador. Ela me viu, sentando do outro lado da calçada, com a minha cabeça encostada em um poste. Sua beleza me atraiu, seu olhar penetrante e cheio de amor me comoveu, e como sempre, sua infinita bondade, graça e ternura por mim (mesmo sem eu merecer) faziam meu coração bater mais forte e me enchiam de esperança outra vez. Quando nossos olhares se encontraram, lágrimas escorreram de minha face e eu engoli em seco. Era chegada a hora. Existem mil maneiras de se pedir perdão, eu viveria uma dessas maneiras agora.
Mas nosso encanto foi quebrado quando vi quem dirigia o carro.
‘Dr. Molina?! O que esse filho da puta tá fazendo com MINHA mulher?’, gritei em minha mente e saltei do chão como um maluco que acabou de levar um choque de 220W. Irado, puto da vida, revoltado e irracional, eu atravessei a rua num piscar de olhos e abri a porta do veículo com tudo. O Dr. Safadão nem teve tempo de estacionar o carro direito, abri a porta do veículo e puxei o miserável pela camisa.
Peguei todo mundo de surpresa, inclusive a mim mesmo! Eu que há instantes atrás havia jurado a Deus que queria bonzinho, etc. e tal, agi como o mesmo imbecil dos últimos dois meses, fazendo merda de novo. Dirigi meu olhar de fúria insana para Bella, a parte boa de mim respirou aliviado a ver que ela carregava nossos filhos no sling, mas a parte má prevaleceu e eu rosnei para ela.
- O que você estava fazendo com esse desgraçado, Isabella?!
Minha esposa ficou petrificada diante da minha animalesca atitude. Enquanto isso, eu ainda segurava a camisa do Dr. Safadão e já estava prestes a agredi-lo. Graças a Deus, ele foi mais rápido que eu.
- Escuta aqui, seu babaca, - ele se desvencilhou de mim – eu apenas servi de motorista para sua mulher e filhos. – sua ira era quase palpável – SE VOCÊ ESTIVESSE COM A SUA FAMÍLIA, EU NÃO ESTARIA AQUI!
O médico jogou na minha cara uma grande verdade, fazendo meu corpo inteiro receber outro choque de 220W. Aquilo foi pior que um soco no olho e um chute na cara...
- Sra. Fields, não esqueça a medicação de Thomas. – ele falou calmamente – E não hesite em levá-lo ao hospital e me telefonar se o quadro clínico dele piorar. Na segunda-feira alguém do hospital irá telefonar para marcar um consulta com um especialista.
- Thomas?! O que Thomas tem? – dei dois passos em direção a Bella, ela me ignorou e eu, muito aflito, acariciei os rostinhos de meus filhos adormecidos.
- Pode deixar, Dr. Molina! – ela sussurrou com a voz embargada – Obrigada por tudo...
- Tudo?! Que tudo?! – murmurei e fui ignorado novamente.
- Sinto muito pela cena, - ela continuou – o senhor gostaria de pegar meu carro para ir para casa? – meu sangue ferveu e eu tentei me controlar – Por minha causa, o senhor terá que ir a pé para casa...
- Não precisa, Sra. Fields. – o médico sorriu – Vou voltar ao hospital, meu carro ficou no estacionamento. Boa noite.
- Boa noite. – ela sussurrou.
Quando o médico deu as costas e se afastou, Bella tocou em meu ombro, olhou em meu olhos por alguns segundos e eu tive certeza que havia muita raiva ali. Depois ela respirou fundo e simplesmente disse:
- Pegue a minha bolsa e a malinha dos meninos, por favor.
Fiz o que ela pediu e três segundos depois, ela já estava caminhando para a varanda, me ignorando completamente, corri para alcançá-la.
Ela fez uma caretinha e tapou o nariz assim que sentiu o cheiro do vômito e olhou assustada para os destroços de meu celular. Aproveitei a deixa para tentar puxar conversa.
-Desculpe pela bagunça, amor. – dei um sorriso amarelo – Eu não estava passando bem e...
Caraca! Eu jurava que ela iria perguntar o que eu tive, se eu estava me sentindo bem, ou ainda esperava que ela colocasse a mão na minha testa para verificar a temperatura. Ela apenas assentiu com a cabeça e eu dei um longo suspiro em sinal de frustração.
Peguei minhas chaves e abri a porta para ela entrar, muda como uma porta, sem nem me olhar direito, ela passou por mim e foi direto para o nosso quarto. Eu a segui como um cachorrinho obediente e amedrontado, morrendo de medo de ser enxotado de casa.
Eu estava em total estado de alerta, observando todos os movimentos dela, mas ao mesmo tempo alheio àquilo tudo, me comportando como um expectador frio e distante.
Ela sentou na cama e desamarrou o sling, eu a ajudei a colocar os dois meninos sobre a cama, ela não me rechaçou, mas também não agradeceu ou me permitiu tocá-la mais que o necessário.
- O que Thomas teve Bella? Ele ta doente? – sussurrei num fiozinho de voz.
- Otite. – ela falou seca – Foi uma otite leve, o médico apenas passou um remédio em gotas. Ele já está melhor.
Tentei tocar na mão dela, ela se levantou rapidamente e não permitiu meu toque.
- Olhe os meninos, por favor, preciso de um banho.
- Ok. – minha resposta veio tarde demais, ela já havia saído do quarto.
Derrotado, eu me ajoelhei ao lado da cama e comecei a acariciar os bracinhos de meus filhos, tentando sentir o calor de seus corpinhos e buscando forças neles para desfazer aquela grande bagunça. Menos de 10 minutos depois, Bella saiu do banho enrolada numa toalha, seu rosto estava emoldurado pelo cansaço e pela indiferença. Ela entrou no closet e começou a se trocar, quando percebeu que eu olhava seu corpo, fechou a porta atrás de si.
‘To fudido’, pensei e abaixei a cabeça, mirando meus próprios pés. Ela sai vestindo moletons velhinhos e folgados, eu resolvi tirar a bunda da cadeira.
- Vou tomar banho agora.
Ela não respondeu, apenas olhou para mim e encolheu os ombros em sinal de indiferença. ‘Um merda de marido, um merda de pai...’, era assim que eu me sentia e posso dizer que essa era a sensação mais broxante que um homem poderia experimentar. Quando sai do banho, já vestia a calça do pijama, voltei ao quarto e me deparei com Bella trocando os pijaminhas que os meninos usavam por outros mais limpos. Ajudei-a com a tarefa, depois peguei Anthony no colo enquanto ela pegava Thomas. No caminho até o quarto deles, puxei conversa novamente.
- Anthony está bem, não é?
- Sim, está.
- Durante esse tempo todo ele esteve dormindo?
- Sim.
‘Puta que pariu!’, gritei na minha mente, ‘ela não quer mesmo conversar’.
- Nosso Anthony é bom de cama, amor! – tentei ser engraçado, mas ela não achou graça nenhuma.
Deixamos os meninos no quarto, Bella saiu apressada pelo corredor, me deixando para trás e foi para a cozinha. Fui também, ela bebeu água, eu bebi também. Ela voltou para o quarto, eu também. Não agüentei a pressão. Assim que chegamos ao quarto, eu toquei em seu braço gentilmente, ainda bem que ela não se desvencilhou do toque.
- Por Deus, Bella! – sussurrei, implorando – Vamos conversar, meu amor?! Eu... eu preciso, eu tenho tanta coisa pra te falar!
Eu olhei em seus olhos, mas ela se desviou e baixou a cabeça, com cuidado e medo de ser rechaçado, toquei em seu rosto, erguendo-o levemente.
- Por favor, Bella... – implorei de novo – Não faça eu me sentir como se estivesse conversando com uma porta... – toquei em seu peito, buscando as batidas de seu coração, ele galopava desenfreado – Eu sei que você está sentindo o mesmo que eu. – peguei sua mão e a levei ao meu coração, deixando-a presa entre meu tórax e minha mão – Veja, eu estou do mesmo jeito que você, com medo, com raiva, frustrado, magoado, sangrando... – ela olhou em meus olhos com mais firmeza – Mas a grande diferença entre nós dois, é que o grande culpado por estarmos os dois nesse estado sou eu. Eu fui o idiota, o imbecil, o mentiroso, o egoísta, o prepotente... Mas se você me der uma chance de me explicar e dizer as razões para eu ter feito tanta burrada... Eu... eu vou lutar, Bella! Vou lutar dia após dia para desfazer essa grande merda.
- Edward, eu não tenho condições físicas e psicológicas de conversar com você agora... – seu sussurro era baixo e contido – Eu estou tão cansada que não quero correr o risco de piorar as coisas. E não, eu não estou sendo uma porta. Acho que estou sendo sábia. Por fora eu pareço indiferente, mas na verdade eu estou tentando me curar através do silêncio. Quero que meu espírito e minha alma ajudem a cicatrizar as feridas de meu coração. Quero buscar dentro de mim tudo o que há de mais belo e terno de nosso relacionamento, assim eu não serei tomada pela raiva. Quero que o amor prevaleça, refazendo as pontes que foram queimadas. Quero que o respeito volte a nos guiar, percorrendo os caminhos infindáveis de nossa história, nos ajudando a não perder a medida das coisas... Além do mais, calados agente não corre o risco de se ferir e poderemos nos preparar melhor para essa conversa.
Eu estava mais calmo ao ouvir essas palavras dela, tudo era muito verdadeiro e sincero e o melhor de tudo é que permanecemos nos tocando, sentindo as batidas de nossos corações, enquanto ela dizia isso.
- Amanhã será um dia bom... amanhã, Edward.
Ela fechou os olhos um pouco e eu aproveitei a oportunidade, abracei minha esposa levemente, sem grudar muito os nossos corpos. Para não abusar da sorte, desfiz nosso abraço e rocei meus lábios levemente em sua testa.
- Eu te amo. – sussurrei e senti sua respiração acelerar contra meu pescoço.
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POV BELLA
- O que você estava fazendo com esse desgraçado, Isabella?!
Meu marido praguejou e suas palavras açoitaram meu coração. ‘Ah! Miserável’, foi a primeira coisa que pensei e controlei rapidamente a vontade de estapeá-lo graças ao fato de estar segurando nossos filhos nos braços.
A tensão era palpável entre Edward e o Dr. Molina, mas ainda bem que o médico deu um chega pra lá no meu marido. As palavras que ele usou foram tão duras que fizeram Edward congelar. Com as coisas mais controladas, eu agradeci ao médico e o despedi rapidamente antes que os dois rolassem na grama num espetáculo deplorável, tendo como protagonista um Edward bêbado e ciumento.
Sim, antes mesmo de meu marido abrir a boca eu já sabia que ele havia bebido, seu jeito de andar, seu gestos, o tom de sua voz e o olhar o denunciaram. Assim que o médico saiu, eu olhei nos olhos de Edward. Sim, eu estava com muita raiva! E se ele estava com raiva também, então estávamos empatados! Foi tudo muito rápido, mas aquela troca de olhares nos prendeu num abraço apertado cheio de hostilidade. Meu corpo tremia dos pés à cabeça, mas ainda bem que eu segurava firme os meus filhos, assim consegui disfarçar os tremores. Depois da raiva, uma enorme tristeza varreu meu coração como um tsunami, arrastando cada linda flor que um dia já foi plantada ali. Eu ardia em desespero e me sentia uma deserdada, parecia que alguma coisa em mim estava morrendo, mas não havia nada que eu pudesse fazer quanto a isso. ‘Hoje não, Isabella’, eu coloquei uma máscara de frieza no rosto e pedi a Edward que carregasse as bolsas.
Naquela noite eu decidi que ignorá-lo seria nossa única salvação.
Na varanda, me deparei com um cheiro de azedo insuportável muito pior do que todas as golfadas que meus dois filhos já deram! Outra coisa quem me chamou a atenção foi o celular de Edward espatifado no chão.
-Desculpe pela bagunça, amor. – ele deu um sorriso tenso – Eu não estava passando bem e...
‘Ah! Você está querendo que eu fique solidária a seu porre?’, pensei com sarcasmo. Para evitar falar demais, apenas assenti com a cabeça. Ele abriu a porta, eu passei direto, sem olhar para trás e fui para o quarto. Eu já estava sentada na cama, desamarrando o sling quando Edward veio me ajudar, deitando os meninos no meio da cama. Nossas mãos se tocaram e eu não fiquei alheia à magia que nasce do contato de nossas peles.
- O que Thomas teve Bella? Ele ta doente? – seu sussurro era tenso.
- Otite. – falei entredentes – Foi uma otite leve, o médico apenas passou um remédio em gotas. Ele já está melhor.
Ele tentou segurar minha mão, eu dei um pulo da cama e fugi de seu encanto. Eu queria puni-lo, queria brigar, xingar, bater, machucar... Mas eu sabia que se fizesse isso com Edward, tudo voltaria para mim em dobro. Eu não suportaria a idéia de machucá-lo dolosamente, afinal, eu o amava.
- Olhe os meninos, por favor, preciso de um banho. – falei sem olhar para ele.
- Ok. – sua resposta veio alguns segundos depois.
Como uma morta-viva, deixei que a água quente revigorasse minhas forças e levasse consigo toda a amargura e desilusão daquele dia fatídico. A água também levou muitas lágrimas minhas, algumas de agradecimento a Deus por meu filho não ter nenhuma doença grave, algumas de súplicas, pedindo a ele mais amor e mais sabedoria para levar meu casamento adiante. Já no quarto, enquanto trocava de roupa dentro do closet, percebi os olhares compridos de meu marido para cima de mim. ‘Não é hora para isso, Bella’, falei comigo mesma e fechei a porta do closet.
Quando sai dali, Edward olhava para o chão, sua postura era de alguém terrivelmente arrependido. Sim, eu já sabia que ele estava arrependido e sabia que estava sofrendo. Mas eu tinha que ser forte e não podia interromper a pedagogia da dor. Sim, existe uma sabedoria digna que adquirimos através do sofrimento, acredito que nada entre o céu e a terra acontece sem nenhum propósito. Aquelas brigas todas deveriam servir para nos ensinar algo e eu não fecharia meus olhos para o aprendizado.
- Vou tomar banho agora. – ele disse naquela voz rouca de quem está prestes a chorar.
Eu me fiz de forte e quase amarrei minhas mãos, contendo-me em não abraçá-lo e me limitei a encolher os ombros. Quando me vi só, fiquei mais confiante e decidida em levar o plano adiante, fui ao quarto dos meninos e peguei pijamas limpos. Quando comecei a trocá-los, Ed voltou e só vestia a calça de seu pijama, mirei meus olhos nos meus filhos e terminei de executar a tarefa, mas recebi a ajuda de meu marido. Juntos, levamos os meninos para o quarto, deixando cada um em seu berço. Ele tentou puxar conversa de novo, mas eu respondi em monossílabos, fazendo-o se calar.
Tentando fugir de meu marido, sai do quarto dos meninos apressada e fui direto para a cozinha. Infelizmente ele me seguiu. Tomei um pouco de água e quando me vi sem saída, voltei para o quarto, até porque, meu corpo estava moído e eu precisava dormir. Mas Edward foi mais rápido, ele fechou a porta e tocou gentilmente em meu braço.
Eu queria me libertar de seu toque, mas eu também queria desesperadamente ser consolada, amada e aquecida por ele. Meu coração começou a bater descompassado.
- Por Deus, Bella! Vamos conversar, meu amor?! Eu... eu preciso, eu tenho tanta coisa pra te falar! – ele quase chorava.
Nossos olhares se encontraram por alguns segundos, me aprisionando ali. Não havia mais raiva em seus orbes verdes, eles estavam suaves e macios como a relva que cresce na primavera. Percebi então que estávamos abandonando o campo de batalha, estávamos nos rendendo e encerrando uma guerra onde só teve derrotados. Nosso ego estava em frangalhos... nosso amor estava ferido.
Mas constatei exultante que esse amor nos dava uma nova e rápida disposição para recuar sem nos infligir nenhuma outra mágoa, não havia mais nenhuma arma em punho. Havia conforto, ternura, integridade... Feridos, mas ainda vivos, selamos o acordo de paz para que pudéssemos salvar o que havia de mais essencial em nossas vidas. A competição de vontades, os gritos de meias verdades e a perigosa queda de braço já haviam cessado.
Aturdida e consciente de todas essas coisas, quebrei nosso contato visual e olhei para meus pés. Edward arriscou toda a sua diplomacia ao tocar em meu braço com carinho e falar de novo comigo.
- Por favor, Bella... Não faça eu me sentir como se estivesse conversando com uma porta... – ele tocou em meu peito e sentiu as batidas fortes de meu coração – Eu sei que você está sentindo o mesmo que eu. – ele pegou minha mão, levando-a até seu próprio coração – Veja, eu estou do mesmo jeito que você, com medo, com raiva, frustrado, magoado, sangrando... – olhei em seus olhos – Mas a grande diferença entre nós dois, é que o grande culpado por estarmos os dois nesse estado sou eu. Eu fui o idiota, o imbecil, o mentiroso, o egoísta, o prepotente... Mas se você me der uma chance de me explicar e dizer as razões para eu ter feito tanta burrada... Eu... eu vou lutar, Bella! Vou lutar dia após dia para desfazer essa grande merda.
Com sabedoria, ele disse as palavras certas e conquistou uma vitória, pequena, mas importante para nós. Finalmente ele reconhecia seus erros e eu fiquei muito feliz. Minha parte menos nobre teve vontade de dizer: ‘É isso mesmo, Edward Cullen, você foi tudo isso e muito mais! E eu estou feliz por você estar sofrendo tanto quanto eu!’
‘Calma, Bella! Isso não é verdade Não deixe seu gênio guiar suas ações’ pensei e respirei fundo. Quando resolvi falar, medi bem as minhas palavras.
- Edward, eu não tenho condições físicas e psicológicas de conversar com você agora... Eu estou tão cansada que não quero correr o risco de piorar as coisas. E não, eu não estou sendo uma porta. Acho que estou sendo sábia. Por fora eu pareço indiferente, mas na verdade eu estou tentando me curar através do silêncio. Quero que meu espírito e minha alma ajudem a cicatrizar as feridas de meu coração. Quero buscar dentro de mim tudo o que há de mais belo e terno de nosso relacionamento, assim eu não serei tomada pela raiva. Quero que o amor prevaleça, refazendo as pontes que foram queimadas. Quero que o respeito volte a nos guiar, percorrendo os caminhos infindáveis de nossa história, nos ajudando a não perder a medida das coisas... Além do mais, calados agente não corre o risco de se ferir e poderemos nos preparar melhor para essa conversa.
Enquanto eu falava, sentia nas mãos de meu marido e via em seu rosto um tipo de dor que eu nunca tinha visto antes. Aquela era, penso eu, a forma mais primitiva da dor, era tão intensa que doía também em mim. Seu rosto glorioso e perfeito, seus traços esculpidos com o que há de mais lindo, contrastavam com seus olhos suaves, assustados e tristes.
- Amanhã será um dia bom... amanhã, Edward. - sussurrei.
Ele me abraçou bem de leve e seus lábios tocaram minha testa num beijo fugaz e eterno ao mesmo tempo. O singelo toque evoluiu para o entrelaçar de nossas mãos. Nossos dedos unidos e a troca de calor dos nossos pulsos me levaram a outra dimensão. De repente o buraco que havia em meu peito desapareceu, ele não foi tampado, ele simplesmente deixou de existir. Esqueci toda a dor e o sofrimento, esqueci a humilhação... A janela do quarto estava fechada, mas senti uma brisa suave, fresca e perfumada. Ouvi o barulho do mar, ouvi as folhas das árvores dançando ao vento. Senti a maciez de uma pluma acariciando meu corpo. Vi o brilho da lua e das estrelas... Nosso pequeno mundo voltava a girar nos eixos certos novamente. Todas aquelas sensações eram tão tênues que poderiam passar despercebidas por todos, mas não por nós. Nada era tão forte e tão poderoso que o entrelaçar de nossas mãos. Nada era tão urgente, tão quente e tão precioso quanto nossas mãos juntas, era como se uma corrente elétrica subisse pelos meus braços, se espalhando pelo meu corpo numa onda de amor.
- Eu te amo. – ele sussurrou.
Dormimos abraçadinhos naquela noite.
O amanhecer trouxe suas dúvidas e medos, mas também trouxe luz e esperança. Meus instintos maternos me fizeram pular da cama às cinco da manhã. Edward já não estava na cama quando acordei, mas na hora eu nem tive tempo de pensar nisso. Apressada, fui até o quarto dos meninos, coloquei três gotinhas do remédio no ouvido de Thomas, verifiquei sua temperatura e por via das dúvidas chequei a temperatura de Anthony também. Olhei pela janela e o céu ainda estava cinza escuro. Bocejei.
- Bom dia, amor!
Edward sussurrou e eu girei em meus calcanhares, ele carregava um balde, uma vassoura e alguns matérias de limpeza.
- Durma de novo, Bella. – ele falou bem baixinho e bocejou também.
- Agora não. Vou tomar um banho. Aonde você foi? – perguntei.
- Fui limpar a sujeira da varanda...
Assim que sai do banho, preparei o café da manhã. Eu precisava de café preto bem forte e precisava também comer alguma coisa. Quando preparava omeletes, Ed entrou na cozinha já de banho tomado e com os cabelos molhados. Ele também deveria estar faminto. Comemos num silêncio tenso, ambos sabíamos que teríamos de conversar. Mas os meninos acordaram e tivemos de alimentá-los e trocar fraldas. Percebi que Ed não saiu de meu lado, eu estava sentada na cadeira de amamentação e ele simplesmente sentou no chão e acariciou os filhos durante todo o tempo. Os meninos estavam com saudades dele e se jogaram pra ele assim que se saciaram em meus seios. Quando eu ia saindo do quarto, meus dois filhos me chamaram ao mesmo tempo:
- Mmmammmammmammma – eles disseram e como sempre, eu me emocionei.
Eu girei em meus calcanhares e fiquei diante deles. Anthony se jogou para mim e depois Thomas, mas os dois também se jogavam para o pai. Ficamos naquele vai e vem até que percebemos que os dois queriam reunir a família. Fomos para o quarto e nos espalhamos sobre a cama, nós quatro e alguns brinquedinhos dos bebês. Os dois sorriam, gritavam e mordiam seus brinquedinhos.
Mas Anthony ainda mordeu meu queixo e Thomas mordeu o polegar o pai. O tempo passou rápido, Jenny chegou e por volta das 9 da manhã e os meninos pegaram no sono de novo.
- Precisamos comprar o remédio de Thomas. – falei – A amostra grátis que o médico deu só vai dar pra mais uma vez.
- Precisamos conversar também. – Edward falou – Vamos juntos à farmácia e quando a gente voltar, podemos conversar, não vejo a hora de...
- Ok. – interrompi sua fala pois já estava nervosa.
Deixamos os meninos dormindo e fomos à farmácia, quando voltamos Jenny estava preparando a papinha de frutas deles.
- Jenny, eu e Bella vamos dar uma volta pelo jardim. Vou levar meu celular... Não, quer dizer, Bella vai levar o celular dela. Se os meninos acordarem, você nos chama. Ok?
- Sim, senhor.
Saímos pela porta dos fundos, percorremos nosso pequeno jardim, entramos no bosque que havia atrás de casa e seguimos uma conhecida trilha. Nossas mãos estavam entrelaçadas, mas não estávamos falando ainda. Depois de alguns minutos de caminhada, a floresta ficava para trás, mas também se estendia à nossa frente. Mas não nos sentíamos perdidos naquele labirinto de árvores centenárias onde o verde jade contrastava com o verde oliva.
O sol já brilhava firme no céu e sua luz atravessava a copa das árvores, caminhamos mais alguns minutos pela trilha e eu pude notar uma claridade maior atrás das próximas árvores. Sim, o brilho já era amarelo e não verde. Ansiosos, apertamos o passo e após percorremos o último corredor de gigantes samambaias, alcançamos juntos o lugar mais encantador que eu já vi na vida.
Havia uma clareira pequena e perfeitamente redonda, cheia de flores meio azuis, meio violetas, também havia algumas florzinhas brancas e outras amarelas. Não muito longe dali deveria haver um riacho, pois eu ouvia o borbulhar de águas. O sol estava sobre nós, enchendo o lugar com um ar gostoso, morno, perfumado e convidativo.
Nos olhamos e sorrimos, extasiados pela singeleza do lugar, caminhamos pela grama macia e giramos, compartilhando o momento, a cena e a beleza dela.
Nos sentamos sobre a grama e nos abraçamos. Não houve palavras, apenas lágrimas, estávamos chorando um nos braços do outro. Entregando nossas lágrimas e nossa dor, buscando consolo. Edward me aninhou em seu peito e me sentou em seu colo, me ninando. Quando nossas respirações estavam mais controladas, ele afastou uma mecha de cabelo de meu rosto e beijou minha testa.
- Preciso falar umas coisas, amor. – ele sussurrou – Posso?
Eu apenas assenti e ergui um pouco o meu corpo para poder olhar melhor em seus olhos.
No começo foi difícil para ele e eu me dei conta que a tristeza do dia anterior foi embora. O que havia ali era a agonia de um homem em brasas, um homem que agora se via disposto a pagar por sua arrogância, seu egoísmo e sua tirania. Ele era um déspota pronto para prestar contas pelo seu império de injustiça.
Contrito, Edward narrou a mim tudo que aconteceu desde o primeiro dia que ele viu Tanya Denalli em Seattle. Agonizante, ele me contou em detalhes todas as investidas daquela vil mulher contra ele. Firme e sincero, ele me disse como se desvencilhou dos assédios. Envergonhado, ele me disse por que mentiu e fingiu que não estava acontecendo nada. Chorando baixinho de novo, ele me pediu perdão e renovou seus votos de amor por mim.
- O que mais me machuca foi ter dito que você poderia sair da minha vida... – ele soluçou e buscou o ar, seu choro mudo retornou com tudo e durou o tempo suficiente para me fazer chorar também.
- Não haveria lágrimas suficientes para chorar. – ele continuou e fungou enquanto eu enxugava seu rosto com minhas mãos – Por favor, Bella, diga que me perdoa.
Sai de seu colo e sentei de frente pra ele.
- Eu sei que você falou aquilo num momento de raiva, Edward. – senti dor só em me lembrar das palavras – Eu sei disso porque eu conheço você. – toquei em seu rosto – Conheço o homem com quem eu me casei... Eu sei que você não foi pra cama com Tanya. – sussurrei enquanto olhava em seus olhos – Mas você me traiu. – ele arregalou os olhos assustado – Você traiu minha confiança e traiu minha capacidade de julgamento. Você foi cruel ao me fazer sentir a pior das criaturas, eu parecia uma esposa maluca, insatisfeita, egoísta e paranóica. Você foi prepotente ao decidir levar seu plano estúpido até o fim, mesmo sabendo que não estava dando certo. Você esqueceu nossos votos matrimoniais ao tentar levar sozinho todo o peso de uma importante decisão. Você percebe agora o que a sua teimosia nos trouxe? – ele assentiu com a cabeça – Você entende que a sua teimosia e o seu orgulho quase acabaram conosco? – ele assentiu de novo.
Respirei fundo e toquei em seu rosto.
- Tanya Denalli é a criatura mais demoníaca que eu já vi na vida, Edward. – falei com convicção – Ela é a medusa de meu pesadelo. – ele arregalou os olhos de novo – No dia do almoço na casa dela, não foi só ciúme que eu senti, senti medo também e meus instintos me alertaram que aquela mulher era perigosa e letal. – fiz uma pausa – Eu queria te dizer tudo isso, mas você não deixava...
Minha voz morreu e eu derramei grossas lágrimas.
- Mas eu também tenho minha parcela de culpa. – funguei – Eu agi sob o manto da ira e não conseguia fazer com que você me levasse a sério. Não posso ser tão boazinha com você, Edward Cullen! – ele sorriu torto – Você nunca mais vai escapar de nenhuma conversa importante, isso eu juro. Mesmo eu sabendo que os homens odeia discutir a relação, você nunca mais vai escapar de uma coisa dessas.
- Por favor, Bella... me perdoa.
- Eu não posso me negar a isso. – sussurrei – Eu não posso me negar a anistiar você, meu amor. – falei com sinceridade e juntei nossas mãos – Vamos, juntos, esquecer a dor, mas não vamos deixar as lições para trás.
- Juntos... – ele repetiu – Toi et moi.
Nossos lábios se encontraram num beijo calmo e cheio de ternura. O movimento sincronizado de nossas bocas foi acompanhado pela explosão em meu coração.
Quando o ar nos faltou, colamos nossas testas e sorrimos. Ainda ficamos um pouquinho ali na clareira, abraçadinhos e olhando as flores.
- Amor, esse lugar é muito lindo!
- É mesmo. – ele sorriu contra a pele de meu pescoço – Acho que deveríamos reivindicá-lo para nós.
- Nosso refúgio feliz... – sussurrei.
O tempo passou depressa e tivemos que voltar para casa por causa da medicação de Thomas. Encontramos os dois brincando sorridentes no cercado... Eles grudaram em nós durante o resto do fim de semana.
Na segunda feira à tarde, Edward saiu mais cedo do banco para levarmos os meninos ao otorrino. O consultório ficava lá mesmo no hospital e gostamos muito do médico, ele nos explicou que Thomas teve mesmo uma leve otite e que aquilo era até comum em bebês. O antibiótico só deveria ser usado por mais cinco dias.
- Você volta para o banco ainda? – perguntei pois nem eram 5hs da tarde.
- Não, pedi o resto do dia de folga, usei o banco de horas. – ele disse enquanto dirigia.
- Que bom! – encostei a cabeça em seu ombro.
- ‘Você-sabe-quem’ não gostou nada disso! – ele falou com sarcasmo – Ela disse que isso não era profissional de minha parte. – ele sussurrou.
- Sério? Ela disse isso? – já estávamos em casa.
Levamos os meninos para o quarto, Jenny ficou com eles um pouquinho. Já na sala, Edward me contou com riqueza de detalhes o confronto com sua ‘chefa-diaba’
FLASH BACK DE EDWARD
- Edward. Não há necessidade de você faltar ao trabalho para levar seus filhos ao médico. – ela falou exasperada e teve a cara de pau de dizer isso sorrindo.
- Eu não vou faltar ao trabalho, só vou usar o banco de horas. Eu faça questão de acompanhar minha família e não estou deixando trabalho pendente para amanhã. – falei seco.
Ela deu um sorriso maléfico antes de responder.
- Oh! Meu querido, não sabia que você era tão conservador! Tão... tão família...
- Por favor, Tanya, me chame apenas de Edward. Conservador, não! Sou amado pela mulher que amo e respeito. Os meus deveres e meus desejos convergem para uma só pessoa: Isabella.
- Não fale assim, Edward! – ela parecia chocada – Eu só queria estreitar nossos laços! Queria que você me conhece melhor e...
- Nossos laços são profissionais, Tanya. – continuei firme – Apenas isso e nunca se esqueça DISSO. Sou feliz com a minha família, Tanya. E tenho obrigação de ser, já que Bella me completa plenamente. Se existem prazeres mais vivos, eu não os desejo sentir. Não existe nada mais doce que estar com a pessoa amada, Tanya. E acredito que o que algumas pessoas chamam de amor, não passa de uma ilusão, uma febre, uma confusão de sentidos.
- Não diga isso! – ela fingia chorar – Eu tenho sentimentos verdadeiros por você!
- Eu não aceito seus sentimentos, Tanya. – falei com calma – E peço que você respeite minha família. Eu não permitirei que ninguém esteja entre nós. – falei olhando em seus olhos – Ninguém tem o direito de perturbar a paz em meu casamento.
- Oh! Deus! Quanta humilhação... – ela choramingou – Para calcular a extensão de meu amor por você, Edward, você deveria ver a que ponto eu cheguei. Veja como você está me humilhando! Veja como é grande o meu amor por você!
A mulher estava meio descontrolada, ela respirou fundo e suspirou.
- Mas eu entendo suas razões. – ela sorriu fracamente – Sem dúvidas eu lamento o mal estar que lhe causei. Eu peço desculpas. – ela tentou tocar em meu braço, mas eu me esquivei – Existe alguma forma de eu compensar minhas ações e ao mesmo tempo provar meu amor por você?
Tive vontade de voar no pescoço dela, a mulher só podia estar zuando com a minha cara.
- Não quero provas de seu amor, Tanya. – respondi sério – Mas exijo seu respeito por mim e por minha família.
FIM DO FLASH BACK DE EDWARD
- Não acredito que aquela cara de pau teve coragem de dizer isso! – falei exasperada.
- Calma, amor, não fique assim. – Edward me aninhou em seu peito estávamos sentadinhos e abraçadinhos no sofá e a TV estava ligada – A mim só interessa ser amado por você! – ele beijou a pontinha de meu nariz.
Sorri, feliz por estarmos de bem novamente. Ele me beijou com doçura e carinho, o beijo não foi profundo, mas foi molhado e romântico. Quando o ar nos faltou, ele sussurrou:
- Se o amor precisasse de provas, eu provaria de mil vezes e de mil maneiras diferentes que você é e sempre será a única soberana em meu coração.
Um clipe da MTV chamou nossa atenção, era uma música muito romântica e que se encaixava perfeitamente em nosso momento ‘Beward’. Alheia a tudo ao meu redor, só me dei conta da presença de meu Edward e da linda canção que ouvia.

