Por Acidente
POV EDWARD
Nascemos e crescemos em Paradise Island no extremo norte do estado do Maine, onde Judas perdeu as botas. Nosso pai era um pescador de camarões, ele era alto, forte, cabelos pretos cacheados, olhos azuis, muito azuis... Sua pele era bronzeada e crestada pelo sol, seu rosto era cheio de sardas e profundas rugas. Carlisle Cullen aparentava ter mais idade do que realmente tinha talvez porque o sol tivesse envelhecido demais a pele daquele corajoso pescador.
Corajoso porque ele criou dois filhos gêmeos. Sim, ele cuidou de nós sozinho, até os nossos quatro anos de idade. Ele era nossa mãe e nosso pai.
Esme era uma mulher muito bonita quando se casou com papai. Ela era a mais bonita da ilha, assim papai dizia e eu acredito nele porque as fotos não o deixam mentir. Seu rosto era perfeito, em formato de coração e ela tinha os olhos verdes mais bonitos do mundo... ‘Os olhos que podiam ver através de sua alma e te entender por completo’, assim papai dizia. Ele também dizia que os cabelos cor de bronze dela despencavam em suas costas em cachos macios, ela era pequena e esbelta, mas tinha longas pernas e carnes nos lugares certos.
O coração do velho pescador sempre bateu por ela e mesmo tendo vivido somente três anos de casados, foram os anos mais maravilhosos da vida dele.
Esme ficou grávida e o pescador chorou de emoção. Alguns meses depois, mamãe parecia doente e desmaiou na cozinha de casa. Papai levou-a ao hospital do condado e esperou ansiosamente no corredor por notícias dela. Por fim, um médico veio chamá-lo para uma conversa. Mesmo mamãe sendo jovem, a gravidez era de risco. Mesmo o pescador sendo humilde e rude, ele entendeu a gravidade da situação. O médico disse que ela estava num quadro de pré-eclampsia e precisaria ficar internada no hospital até que os gêmeos nascessem. O problema é que ela ainda estava no sexto mês de gestação...
Papai dizia que o amor supera todas as barreiras. Então, dia após dia ele vinha ao hospital para visitá-la, mesmo depois de um dia exaustivo de pesca, ele vinha vê-la. Esme sorria ao vê-lo entrando no quarto e, mesmo fedendo a camarão, ela não dispensava a companhia de seu pescador. Em meio a beijos cheios de saudade, ela o fazia prometer que cuidaria bem dos filhos e repetia para ele os nomes que havia escolhido se fossem meninos ou meninas.
Parecia que ela sabia que iria morrer.
Eu e Emmett não somos gêmeos idênticos. Nascemos no dia 13 de maio, um dia calmo de céu azul. O parto foi difícil, eram duas crianças enormes tentando nascer a todo custo...
Uma enfermeira bondosa contou a papai que mamãe chegou a nos ver. Ela disse:
- Este aqui se chamará Emmett. – e beijou a cabecinha de um bebê chorão bem cabeludinho.
O outro bebê era carequinha e não chorava muito, ela olhou para ele, beijou-o e falou embevecida.
- Este daqui se chamará Edward...
Pouco tempo depois, Esme sofreu uma forte convulsão e entrou em coma. Papai saiu do hospital viúvo, aos 22 anos de idade e carregando dois bebezinhos nos braços.
Quando éramos crianças, nas férias de verão, papai nos levava para pescar em alto mar. Uma vez, quando tínhamos nove anos de idade, ele teve uma conversa conosco que nunca saiu da minha cabeça. Ainda era madrugada e o mundo parecia adormecido, da cozinha do barco vinha um cheiro gostoso de café com leite e torradas com pasta de amendoim. Enquanto eu e Emm ajeitávamos as redes de pesca, papai segurava o leme do Cullen’s, nosso melhor barco, e nos guiava para o seu escritório, o mar...
- Bem crianças, aqui quem fala é o capitão... Capitão Carlisle Cullen! – ele sorria para nós e puxava seu boné – Estão prontos?! Prontos para pescar todos os camarões do mundo?!
- Sim papai! – fiquei de pé e prestei continência.
- Sim, capitão-papai! – Emm falou zombeteiro.
Terminamos de ajeitar as redes, tomamos o café da manhã e entramos mar adentro desbravando seus meandros e correndo atrás das melhores correntes de enormes e suculentos camarões.
Ao crepúsculo, quando o céu já estava alaranjado e a natureza parecia se recolher ao seu merecido descanso, o freezer de nosso barco estava repleto de camarões, algo em torno de 200 quilos. Papai sorria satisfeito e dizia:
- Estamos numa ótima fase, o preço do camarão está em alta. E o que faremos com esse dinheiro, meninos?
- Trinta por cento vai para a manutenção do barco e para os impostos e taxas. – falei – Quarenta por cento para o orçamento doméstico...
- Trinta por cento para a nossa poupança, aquela que vai pagar nossa universidade. – Emm completou – Quero fazer faculdade para ser pescador...
- Que é isso, menino!? – papai ralhou e ficou muito zangado – Não existe faculdade para ser pescador! Eu estou juntando cada centavo que posso para que vocês dois sejam alguém na vida. Ainda quero ver os diplomas de vocês pendurados na parede de nossa casa.
- Desculpe, papai... – Emm abaixou a cabeça envergonhado.
Nosso pai era nosso herói. Levar uma bronca dele era algo que nos deixava muito mal, doía de verdade. Na tentativa de mudar de assunto, falei a primeira coisa que me veio à cabeça.
- Não se preocupe, pai. Nós iremos para a universidade! – falei e coloquei um braço por sobre o ombro de Emm.
Papai sorriu e nos chamou para perto de si. Ele fez um sinal e pegamos no leme com ele. O barco seguia suavemente pelo mar calmo, parecia que estávamos andando sobre nuvens. Eu me estiquei um pouco e beijei a face de papai, no caminho de volta, toquei na aliança de casamento que ele sempre levava consigo pendurada numa corrente de ouro em seu pescoço. Dentro da aliança havia uma singela inscrição.
Carlisle e Esme
Aquela era a aliança de casamento de mamãe. Papai percebeu meu gesto e sorriu resignado.
- Quando vocês conhecerem a mulher certa, seus corações vão dizer isso... Nem se preocupem, enquanto ela não aparecer, vivam sua juventude. Mas quando ela surgir diante de vocês, não haverá escapatória... Somos como as baleias, só vivemos um único e verdadeiro amor na vida.
- Mas pai, e a Tanya? – Emmett perguntou.
- Tanya é uma boa mulher, Emm. – papai sorriu e afagou sua cabeça – Desde que a mãe de vocês se foi, ela tem sido muito boa para mim. Ela cuida de mim e de vocês, cuida da casa, enfim, põe um pouco de graça e beleza nas nossas vidas.
- Mas você não a ama, não é? – perguntei.
-Esse é o meu Edward! – papai sorriu orgulhoso – Sempre tão perceptivo... Sim, é verdade. Eu não a amo como amava a mãe de vocês. Mas Tanya é muito querida para mim, eu a respeito e quero passar o resto dos meus dias ao lado dela.
- E ela é bonita... – Emmett falou baixinho e corou logo em seguida.
- Esse é o meu Emmett! – papai lançou-lhe um sorriso cúmplice – Sempre falando o que vem à cabeça...
Aquele dia foi especial porque tivemos um contato muito íntimo com o capitão Carlisle Cullen. Um homem bondoso e amável, mas também um homem fechado, tímido e recluso em seus sentimentos. Conhecê-lo era uma dádiva para nós.
Hoje, anos depois, era outro dia especial.
Agora, eu e Emmett éramos calouros na Maine University. Era nosso primeiro dia de aula, meu coração estava a mil, eu sentia que algo bom iria acontecer...
E aconteceu. Assim que vi aquele lindo par de olhos cor de chocolate, meu coração se aqueceu, se inquietou e se aquietou ao mesmo tempo. Ela parecia assustada, mas bastou cinco segundos para eu entender tudo. Ela também me olhou nos olhos e sorriu para mim.
É ela, só pode ser.
POV EMMETT
- Caramba! Universidade! – eu quase quicava no banco da Chevy – Edward, estamos na u-ni-ver-si-da-de...
- Eu sei, Emm! Pare de gritar, seu leso...
Estacionei a pick-up e todos os olhares convergiram para nós.
- Uau... já tem um monte de gatinhas de olho na gente... – assoviei.
- Olhando para essa lata velha e barulhenta, você quer dizer. – Ed falou sarcasticamente.
- Humpf! Não fale assim de Lucille – afaguei o volante – Ela é uma senhora de idade, merece respeito...
Edward sorriu torto e revirou os olhos do mesmo jeito que papai fazia. Eu gosto muito quando ele faz isso, me faz lembrar de nosso Carlisle, mas eu sempre fico com um nó na garganta, a saudade vem com tudo nessas horas.
Papai morreu há quatro meses, vítima de um enfarto fulminante. Gostamos de pensar que ele foi para um lugar lindo, uma bela ilha onde ele se encontraria com mamãe e Tanya. Sim, Tanya morreu primeiro que papai, vítima de um câncer, deixando-o viúvo pela segunda vez. Nessa ilha todos seriam anjos, então não haveria problema dele viver ao lado de mamãe e de Tanya.
Depois da morte de nosso velho, arrendamos a pequena empresa de pescados ao Sr. Aro Volturi. Alugamos a nossa casa e os outros imóveis da ilha, arrumamos todas as nossas tralhas, cuidamos de terminar o ensino médio e viemos para a universidade, o grande sonho de papai para nós.
- Só você mesmo para colocar um nome nessa coisa. – Ed me tirou das tristes recordações e falou enquanto a gente caminhava pelo estacionamento, recebendo olhares de todo mundo.
- Edward, será que a gente tá fedendo a camarão? – cheirei minhas roupas – Ou será que tem uma rede de pesca amarrada na nossa cabeça?
- Por quê? – ele falou indiferente.
- Esse povo todo tá olhando meio atravessado para nós...
- São um bando de riquinhos mimados. – ele sussurrou – Não ligue pra eles.
Ainda estávamos no estacionamento quando houve uma movimentação maior, um monte de gente começou a gritar e nos viramos para ver o que era. Uma garota dirigia um Cadilac conversível caindo aos pedaços, o carro tinha uns vinte remendos. A garota gritava ‘sai da frente’ e ‘tá sem freio’, ela simplesmente não conseguia guiar o veículo. Fiquei em pânico quando vi o que estava prestes a acontecer. Aquela doida levava sua lata velha desgovernada de encontro a minha Lucille.
- LUCILLE!!!
Gritei apavorado e corri em direção a pick-up, mas Edward foi mais rápido que eu e me segurou a tempo de não ser atropelado pela maluca. O barulho foi ensurdecedor. O Cadilac se chocou com a lateral da minha Lucille e a garota foi jogada para frente, ela bateu com a cabeça no volante e levou um corte no supercílio. Apavorado, eu não sabia se acudia a garota ou a minha Lucille...
- Você está bem? – Edward já estava perto da garota, ela não falou logo, ele fez um sinal para mim, fui ajudá-lo.
- Não... – ela colocou uma mão na testa – Oh! Sangue...
A garota tinha lindos olhos cor de chocolate, eles se fecharam e ela caiu na inconsciência. Peguei-a nos braços e um funcionário da universidade nos guiou até a enfermaria.
- Edward - sussurrei – Será que Lucille tá muito machucada?
O funcionário olhou para nós e sorriu.
- Duvido. – meu irmão respondeu – Ela é forte.
- Se ela tiver muito machucada, não vamos ter grana pra consertar. – falei preocupado.
- Ela vai ficar bem. – ele tentava me tranqüilizar.
Chegamos à enfermaria e uma mulher gorda, vestida de branco nos atendeu, ela indicou o caminho enquanto falava com o funcionário.
- Quem é esta garota, José?
- O nome dela é Lucille... – ele falou vagamente – Esses garotos estão com ela. – ele apontou para nós.
Colocamos a garota numa maca e a mulher começou a limpar seu ferimento.
- O que vocês são dela? Me digam seu sobrenome para que eu preencha a ficha. – a mulher falou.
- Nós não sabemos quem ela é. – Edward respondeu.
- Mas vocês a chamaram de Lucille. – o homem franziu a testa e coçou a cabeça.
- Lucille é o caralho... – a garota balbuciou meio grogue.
A enfermeira estreitou o olhar e fez cara feia, eu segurei o riso e pela minha visão periférica, vi quando Edward ficou ruborizado.
- Lucille é o nome de nossa pick-up. – falei com naturalidade.
- Bem, parece que a mocinha aqui já está melhor. Já está até dizendo grosserias! – a mulher olhou feio para ela e colocou um algodão embebido num líquido amarelo sobre seu ferimento.
A garota fez uma careta de dor.
- Porra! Isso dói, sabia? – ela encarou a enfermeira.
- Exijo modos, mocinha... – a enfermeira sustentou o olhar dela – Continue aí deitada que eu volto já.
Assim que a enfermeira gorda deu as costas, a garota se sentou na cama e ergueu o dedo médio em direção à gorda. Segurei o riso mais uma vez e vi Edward ficar ruborizado de novo. Pigarreei alto para chamar a atenção dela.
- Como é que você dirige daquele jeito? É terrorista, por acaso? – perguntei zombeteiro.
- Ah! Vá à merda! – a garota olhava para um arranhão em seu braço, mas depois ela me olhou nos olhos – Você acha que eu queria... me... machucar...
Magia...
Senti borboletas em meu estômago...
Era como se algo novo nascesse em mim...
Quando nossos olhares se encontraram, eu me senti um novo Emmett. Aquele par de chocolate era a coisa mais linda do mundo. Eu queria me perder ali dentro para sempre e ainda assim, seria o homem mais feliz do mundo...
- Vo-você está bem? – gaguejei feito um pateta.
- Si-sim... – ela também gaguejou e sorriu fracamente – Eu sou Isabella Swan e vocês?
- Edward Cullen. – ele deu dois passos em direção à maca.
Meu irmão falou e sua voz parecia estar sufocada, mas eu não pude olhar em seu rosto para ver o que se passava ali. Eu só conseguia olhar para ela, Isabella. Ela também olhava para ele e parecia hipnotizada, pigarreei alto novamente para ganhar a atenção dela. Ela piscou os olhos e me encarou novamente.
- Eu sou Emmett Cullen... – sorri e ela devolveu o sorriso.
POV BELLA
- Sua desgraçada! Me tira daqui, sua puta!
Eu tentei ser rápida, mas não consegui, ela me agarrou pelos cabelos e eu gritei de dor.
- ME SOLTA! ME SOLTA!
Fiz um esforço hercúleo para não estapeá-la, afinal aquela louca era minha mãe. Tirando forças não sei de onde, ela me jogou no chão e cuspiu em mim. Não revidei, graças a Deus eu não revidei, ela sentou ao meu lado e me abraçou chorando convulsivamente.
Nasci num lar 100% americano. Onde casamentos de dissolvem por motivo nenhum, onde casais brigam, brigam por tudo e filhos crescem em meio a esse inferno.
Charlie e Rennè passaram um ano casados, apenas um ano, mas foi tempo suficiente para eu ser concebida.
Puta que pariu! Por que eu nasci?
Mamãe era uma viciada em cocaína, papai não agüentou o vício e a largou. Quando ele soube que ela estava grávida, voltou para casa, eu nasci prematura, eles tentaram viver juntos novamente. Ela voltou para o pó, ele me tirou dela e se casou de novo.
Charlie e Sue, minha madrasta eram alcoólatras, então, eu deixei uma viciada e ganhei dois viciados...
Mamãe largou o pó porque a grana acabou, então ela se agarrou às pedrinhas de crack... Ironicamente, Rennè conseguiu viver mais que papai. Ele morreu vítima de cirrose hepática aos 47 anos de idade.
Mas mamãe não está tão bem de saúde, ela agora mora numa clínica para dependentes químicos. Depois de muito lutar por ela, consegui vaga numa clínica custeada pelo serviço público de saúde. Ela está magra, muito magra, pesa apenas 40 quilos, seus pulmões estão condenados, ela perdeu o olfato de tanto que cheirou pó...
- Bella... docinho da mamãe... – ela afagou meu rosto e sentou em meu colo – Nem acredito benzinho que você já vai para a universidade...
Naquela hora, ela parecia a filha e eu a mãe. Sorri para ela e beijei sua face.
- Diz de novo, filhinha, qual é o curso que você vai fazer?
- Pedagogia, mãe...
- Sim, pedagogia... – ela sorriu e fechou os olhos, adormecendo em meus braços.
Chorei silenciosamente ao vê-la tão indefesa, tão esquelética, tão... acabada.
Rennè já não era a linda mulher loira e de olhos azuis por quem papai se apaixonou. Ela parecia um cadáver.
Um enfermeiro apareceu e me ajudou a colocá-la na cama, saí dali me derramando em lágrimas. A cada visita eu morria aos poucos.
Liguei o carro e fui para casa.
Ha-ha-ha
Sorri sem humor algum, aquele Cadilac velho não poderia ser chamado de carro. E aquelas quatro paredes odiosas não podiam mais ser chamadas de minha casa... Desde que Sue se casou de novo, eu venho contando os minutos para sair de casa.
Phil, o novo marido de minha madrasta estava me criando problemas. Aquele pervertido vivia me secando com os olhos e eu vivia me esquivando de suas investidas. Ela era 15 anos mais velha que ele, um gigolô bêbado e vagabundo que vivia chifrando ela por aí. No começo, eu tentei alertá-la, mas levei um fora.
- Não se meta na minha vida, Bella. – ela falou seca – E, por falar em vida, você já arranjou um lugar para ir?
- Não se preocupe, Sue, quando eu for para a Universidade, daqui a alguns meses, você se verá livre de mim...
- Não, querida! – ela arregalou os olhos, parecia culpada – Não foi isso o que eu quis dizer... Eu, eu...
- Ta tudo bem, Sue. Vou subir para meu quarto.
- Não vai jantar?
- Já comi na rua. – falei por sobre o ombro.
Desde que ela se casou, eu deixei meu antigo quarto e me mudei para o sótão. Ele era grande, espaçoso, tinha um banheiro dentro e era seguro. A grossa porta de carvalho antigo era madeira maciça e à prova de um bêbado-tarado-pevertido. Ali eu me sentia segura e sabia que Phil não conseguiria subir dois lances de escada. Eu me esqueci de dizer, mas Phil é ex-jogador de futebol, ele sofreu um acidente num jogo e fraturou uma perna, desde então, ele tem parafusos no joelho e não consegue subir escadas. Por isso, o sótão era o meu refúgio...
Sou uma garota comum, nem alta, nem baixa, cabelos e olhos castanhos, pele branca e pálida. No momento estou solteira e estou indo, finalmente, para a universidade.
Chegou o dia!
Charlie foi um bom pai, apesar de tudo... Seu seguro de vida não me deixou desamparada, além disso, ele custeou, antecipadamente, as despesas de meu curso de graduação. Enquanto arrumava minhas malas com as poucas roupas que eu tinha, refletia sobre a vida.
Agora, começaria uma nova fase dela e eu pedia a Deus, de todo o meu coração, que eu pudesse enfim, encontrar um lugarzinho para mim nessa coisa chamada existência.
Eu pedia a ele que as coisas começassem a dar certo para mim, que eu finalmente encontrasse a minha razão de viver... talvez até eu encontrasse um amor...
Amor...
Será que isso existe?
Coloquei as duas malas no carro, me despedi de Sue e peguei a estrada. Nós morávamos em Lincoln, há apenas 50 minutos de Orono onde ficava a Maine University. Durante o curto trajeto, eu torcia para que a lata velha agüentasse a viagem... Eu me daria por satisfeita em chegar lá naquele carro, mesmo que depois eu o deixasse morrer aos poucos num canto qualquer do estacionamento do campus! De qualquer jeito eu poderia me virar sem um carro por uns tempos já que eu moraria no alojamento da universidade. Eu só não queria gastar grana com um carro novo, não até arranjar um emprego.
O dia estava lindo, o sol brilhava meio preguiçoso ainda, mas o tempo estava firme. Eu dirigia com cuidado, a 60 por hora, de olho na estrada, liguei o rádio numa estação antiga e segui caminho ao som dos Beatles.
Próximo ao campus, eu percebi uma gostosa agitação! Sim, aquilo já cheirava a primeiro dia de aula, eu me sentia super feliz por ser uma caloura... E então inesperado aconteceu! Eu perdi o controle do carro!
Puta que pariu! Não!
Entrei com tudo no estacionamento, gritando para que todo mundo saísse da frente. A gritaria começou, ganhei alguns palavrões e buzinadas, mas por sorte eu não matei ninguém. Fui de encontro a uma pick-up vermelha, velha e desbotada, bati com tudo na lateral dela. Mas também bati com a cabeça no volante do carro, a dor foi infernal.
Na hora a minha cabeça girou, girou e girou... Mas espere aí, eu morri? Só posso ter morrido e ter chegado ao céu num piscar de olhos! Mas o que foi que eu fiz de bom para merecer o céu?
Só sei que um anjo vinha em minha direção, um anjo lindo... Ele tinha o andar mais lindo do mundo, charmoso como um felino. Seus cabelos tinham uma cor de bronze esquisita, linda, mas esquisita. Seus olhos eram de um tom de verde muito intenso e brilhante, pareciam duas pedras preciosas. Nos olhamos nos olhos e eu senti meu corpo estremecer. Ele sorriu, eu sorri. E a voz?! Oh! My gosh! Que voz linda, doce, rouca e aveludada...
- Você está bem?
Ele perguntou, mas eu não encontrei minha voz. Na verdade, eu esqueci como é que se falava. Respirei fundo e finalmente me reencontrei.
- Não... – balbuciei e imediatamente senti uma coisa escorrendo em minha face, passei a mão na testa e fiquei grogue de vez – Oh! Sangue...
Quando recobrei a consciência, me senti sendo carregada por alguém. Não! Eu parecia flutuar nos braços de outro ser divino... Outro anjo, pensei. Ele era forte e musculoso porque eu podia sentir seu peito e seus braços fortes me envolvendo. Inspirei contra sua pele e me deliciei, ele tinha cheiro de madeira, mar e loção pós barba...
Havia vozes, reconheci a voz de meu anjo lindo e a voz de sedutora do outro anjo musculoso que me carregava nos braços. Eles falavam sobre uma tal de Lucille, minha cabeça doía e eu não entendia nada.
Já na enfermaria, uma enfermeira gorda e antipática, com um permanente mal feito no cabelo, achou que eu era a tal da Lucille. Num surto de falta de modos, deixei escapar.
- Lucille é o caralho...
Pela minha grosseria, ganhei um chumaço de algodão e remédio fedorento sobre o ferimento. Praguejei de dor.
- Porra! Isso dói, sabia?
Levei um fora da enfermeira, mas quando ela nos deixou a sós, meu coração perdeu uma batida e voltou a bater freneticamente. Meus anjos estavam ali! Eu não sabia para quem olhar primeiro, optei pelo que estava mais perto de mim, o de olhos verdes. Ele sustentou meu olhar e eu me senti mole feito gelatina...
- Como é que você dirige daquele jeito? É terrorista, por acaso? – o outro anjo falou e eu fiquei chateada por ele interromper a minha ‘conexão’.
- Ah! Vá à merda!
Retruquei enquanto olhava para um arranhão em meu braço, mas depois eu me dei conta de que fui grosseira com o anjo. Olhei em seus olhos tentando me desculpar, mas todo o meu corpo travou de repente. Ele era lindo, perfeito, maravilhoso... Seus olhinhos azuis, muito azuis, eram vivos e brilhantes. Ele tinha um lindo, sincero e meigo sorriso nos lábios e ainda tinha duas covinhas lindas nas bochechas... Perdi o fio dos pensamentos.
– Você acha que eu queria... me... machucar...
- Vo-você está bem? – ele gaguejou.
- Si-sim... – eu também gaguejei – Eu sou Isabella Swan e vocês?
- Edward Cullen. – o meu outro anjo deu dois passos em direção à maca e me olhou com intensidade.
Mais uma vez eu me senti no céu. Aquele lindo par de olhos verdes me fazia entrar numa nova dimensão. Eu não conseguia para de olhá-lo, ele me prendia completamente.
O outro anjo roubou minha atenção. Ele pigarreou alto e eu olhei para seu rosto glorioso, encontrei seus olhos azuis, azuis como um dia claro de verão.
- Eu sou Emmett Cullen...
Ele sorriu e eu não pude deixar de sorrir.
