Sorvete & Café
POV EDWARD
A viagem até a casa do xerife Rosas (como ele gostava se ser chamado) durou exatamente 15hs e 25min e durante esse longo percurso, paramos em três cidades. Algumas vezes eu fingia que descansava um pouco, só para não deixar Bella preocupada, mas quando eu via que ela estava cochilando junto com os meninos, eu voltava a conversar com o xerife.
- Richard, - ele sussurrou meu falso nome – já estamos dirigindo por quase três horas. – ele olhou para o céu onde havia um lindo crepúsculo violeta – Devemos passar por Sacramento em cerca de uma hora, lá deveremos parar, jantar, esticar as pernas por uns cinco minutinhos e voltar para a estrada. Tudo bem para vocês?
Quando eu ia responder, a voz rouca de uma Bella recém despertada ecoou em meus ouvidos.
- Vai ser ótimo parar, eu preciso trocar as fraldas dos meninos.
Chegamos a Sacramento por volta das sete da noite e paramos num posto de gasolina onde havia uma grande loja de conveniência. Embora ainda tivesse muita comida nas cestas, eu preferia comer alguma coisa quente, mesmo que essa coisa fosse macarrão instantâneo. Assim que a pick-up parou, os policiais que nos escoltavam entraram em ação. Um deles encheu o tanque da pick-up, o outro me escoltou até o banheiro e depois até a loja de conveniência, onde eu comprei fatias de pizza e refrigerante para mim e para Bella.
Nesse meio tempo, a Srta. Trevor (a policial que nos acompanhava) ajudou Bella a trocar as fraldas dos meninos e conseguiu (usando o poder de persuasão de seu distintivo) esquentar as mamadeiras de mingau deles no microondas da loja de conveniência. O detalhe é que eu já havia pedido este favor ao vendedor da loja, um gordão, mal humorado que se limitou a dizer:
- Não faço favores, eu vendo produtos.
Depois que as garotas visitaram o banheiro feminino, nós saímos de Sacramento, capital da Califórnia, uma linda cidade de influências indígenas e hispânicas. Num dado momento, cerca dez minutos depois que deixamos os limites da cidade, nosso pequeno comboio seguiu por uma estradinha de terra, paralela à I-5 S e por fim chegamos à rodovia interestadual CA-99-S.
- Richard, mudei o nosso percurso porque é mais aconselhável seguirmos por uma rodovia estadual. – o xerife sussurrou.
O medo, o cansaço, a desilusão e o meu preconceito quase me fizeram surtar. Preconceito, sim! Não posso enganar a mim mesmo. Cresci entendendo que policiais americanos, principalmente em cidades pequenas, são burros, corruptos e tendenciosos, mas se acham os bam-bam-bans.
- Isso não foi o que Jasper combinou conosco. – rosnei e na mesma hora senti uma das mãos de Bella apertando o meu ombro, aquele toque dela era restritivo, ela queria que eu me calasse.
- Desculpe, Richard. – ele sussurrou - Jasper é um agente federal, o distintivo dele é válido da Flórida ao Alasca. Mas o meu só é valido no condado onde eu moro. Seguindo por uma rodovia estadual, teremos chances de encontrar com patrulheiros de trânsito conhecidos. Conhecidos perguntam menos e sorriem mais.
- Nós entendemos perfeitamente, xerife Rosas, não se preocupe. – Bella falou por nós e sorriu.
- Tudo bem, xerife. – falei envergonhado – E obrigado por continuar ajudando minha família.
- Não há de quê. – ele sorriu e voltou sua atenção para a estrada.
Bella voltou a brincar com os meninos que sorriam muito, falavam seu próprio idioma e sacudiam seus bracinhos e pernas. Enquanto isso eu sentia o gosto amargo da vergonha por ter sido rude com o xerife e travava uma guerra psicológica dentro de mim. A parte menos nobre de mim ainda dizia que policiais de cidades pequenas eram um pelotão de ineficiência, despreparo e preguiça, sempre inventando problemas onde não existia e não solucionando casos reais. Nos filmes, era impressionante a capacidade que eles tinham em fabricar crimes e acabar com a vida de pessoas inocentes.
‘Por que Jasper mandou uma pessoa assim para nos escoltar?’
‘Mas o que é isso, Edward?’, me recriminei em pensamento. Não foi essa a imagem que Peter Graves e Benjamin Winslet deixaram para mim, os dois eram eficientes e honestos na condução da segurança pública de Forks.
Eu estava pirando, só podia ser isso! Em menos de trinta segundos, eu fiz um mau julgamento do xerife Rosas. Aquilo só poderia ser fruto de meu cansaço físico e mental.
De repente, senti uma inquietante falta de ar, como se meus pulmões tivessem desaparecido ou parado de funcionar. Minha mente e meu coração davam falta de alguma coisa muito importante. Sim, eu Havaí esquecido alguma coisa muito importante em Forks, só não sabia o que era... Senti uma pontada forte na cabeça, parecia o começo de uma enxaqueca.
E então eu me dei conta que mesmo Bella e os meninos estando no banco de trás do veículo, eu me sentia sozinho, cansado, triste, com o coração aos pulos, arrasado... Naquele momento, a pouca coragem que eu tinha permitiu que eu não chorasse. Ainda assim, as lágrimas deixaram meus olhos úmidos e por sorte, Bella não pode notar. Se eu chorasse, ela choraria também. Disfarcei o choro coçando os olhos várias vezes.
- Durma um pouco, Richard, quando chegarmos a Fresno, eu acordo você.
- Tony... você pode me chamar de Tony. – bocejei – Anthony é meu segundo nome... - sussurrei isso antes de cair na inconsciência.
Dormi um sono sem sonhos.
- Tony... Tony, acorda... – Bella sussurrava e acariciava meu rosto.
- Hum... - murmurei, mas despertei num salto, já que meu corpo vivia em estado de alerta.
- Chegamos a Fresno! – ela sorriu para mim e me deu um copo de café com leite e alguns pãezinhos de milho.
Comemos ali mesmo dentro do carro enquanto os policiais desceram dos veículos, para ir ao banheiro, eu acho, a policial Trevor se aproximou, fazendo nossa guarda junto com o xerife.
- A impressão que eu tenho é que o rosto de vocês não me é estranho. – ela sussurrou e mordeu um pedaço do cachorro quente que comia – Já vi vocês na televisão...
Meu sangue gelou e vi o pânico nos castanhos olhos de minha esposa, minha mente foi até o passado, procurando por ocasiões em que os herdeiros bilionários Cullen e Swan tivessem aparecido em algum veículo de comunicação. E não achei nada, principalmente porque nossas famílias sempre foram muito reservadas. Eu quase pirei e quase confrontei a policial, mas por sorte o xerife interveio.
- Ora, ora, ora Srta. Trevor! – ele sorriu com desdém – Eles não são atores das novelas mexicanas que você costuma assistir.
A conversa morreu ali e alguns minutos depois pegamos a estrada novamente, dessa vez eu me ofereci para dirigir. A noite em Fresno estava fresca e o céu estava enfeitado por estrelas e poucas nuvens. Como lanternas, os faróis dos carros iluminavam o caminho, a estrada subiu uma ladeira, escalando aquela parte íngreme da Califórnia e de lá de cima, eu pude ver uma Fresno que já estava menor, à medida que subíamos. Agora os faróis dos carros deslizavam durante a noite, pouco tempo depois nós também deslizamos pela estrada, indo para uma parte mais plana. Olhei rapidamente para o banco de trás, Bella e os meninos cochilavam sossegados, ao meu lado, o xerife tinha seu rosto coberto pelo chapéu e também parecia dormir. Um uivo inquietante preencheu meus ouvidos, um uivo fino, cortante, solitário. Lobos. Lobos? Em plena cidade?
- Lobos? – pensei em voz alta.
- Coiotes. – o xerife sussurrou, sem tirar o chapéu de seu rosto – Aqui não temos lobos, as várias espécies de caninos são muito competitivas entre si. Se numa área existem coiotes, então não existem lobos.
- Mas os coiotes vivem em áreas urbanas? – sussurrei.
- Sim, eles são muito adaptáveis aos ambientes, mas não são uma grande ameaça.
O carro atravessava a rodovia, a cada poucos metros eu podia ouvir os barulhos da noite, grilos, sapos, coiotes. Concentrado na estrada, eu ainda achava ter esquecido algo muito importante me Forks...
Respirei fundo e comecei a prestar atenção na paisagem. Mesmo durante a noite, eu podia ver as belezas daquele lugar e podia sentir o cheiro das árvores frutíferas, já que a rodovia era ladeada por plantações de maçãs.
Era madrugada quando a paisagem foi mudando aos poucos. O verde das árvores frondosas foi desaparecendo até que chegamos a uma área de deserto. A estrada mudou de aspecto, assumindo a imagem daqueles filmes western que eu via quando era garoto. E agora eu me sentia como um cowboy!
Paramos em Palmdale às 2hs e 30min da manhã e eu precisei acordar Bella, para que pudesse ir ao banheiro e depois preparar os mingaus dos meninos. Pelas minhas contas, por volta das 4 horas, quando eles acordassem com fome, não teríamos um microondas para esquentar a comida! Ainda bem que nesse posto de gasolina, a policial não precisou ser rude com ninguém, a dona da loja de conveniência era sua prima. O ar estava quente e seco, o vento era forte em plena primavera e o xerife explicou que naquela área da Califórnia os fortes ventos eram responsáveis por gerar eletricidade nas turbinas eólicas.
O xerife fez a última parte do trajeto. Os meninos acordaram, comeram e dormiram de novo, mas Bella ficou totalmente desperta e se inclinou para frente, colocando sua mão sobre meu ombro, estiquei minha mão em direção à dela e ficamos conectados. Ela sussurrou.
- O dia já vai nascer... o céu está ficando claro, estamos perto, amor!
- Graças a Deus. – sussurrei de volta.
Eu e Bella olhávamos na mesma direção: o lugar onde o sol estava prestes a despontar. Uma fraca luz matinal iluminava as areias do deserto ao lado da estrada. Respirei fundo e senti um cheiro salgado invadir minhas narinas, ouvimos o bater de asas dos pássaros e o barulho de um trem. A vegetação ao nosso redor se reduzia a pequenos arbustos, meio verdes, meio secos e também havia alguns cactos que se erguiam heroicamente no deserto.
Quanta diferença de Forks! Aqui parecia um planeta alienígena!
O sol morno tornou-se abrasador, despi a camisa de flanela, Bella fez o mesmo, só usávamos agora as camisetas. Os meninos se mexeram inquietos em suas cadeirinhas e eu me virei para ver o que era.
- É o calor. – Bella murmurou – Vou tirar o casaquinho deles.
- Estamos em Coachella Desert. – o xerife explicava – Mais especificamente em Cathedral City, onde eu moro e sou o chefe de polícia.
Sim, agora eu me lembrava de tudo! Em meu sonho, nós atravessávamos um deserto. Naquele espelho, as imagens que eu via era de mim, Bella e os meninos atravessando um deserto quente e ensolarado como aquele. Outra coisa que lembrei é que num dos episódios do National Geographic, eu vi uma reportagem que aquele lugar tinha mais de 300 dias de sol por ano! Caraca...
Quando percebi, o comboio parou em frente a uma casa simples, numa rua simples da cidade. Senti meu coração perder uma batida. Estávamos começando tudo de novo...
POV BELLA
Enquanto eu olhava para o trailer, acho que meu queixo caiu... Que coisinha apertada era aquilo?!
- Desculpem, é que Jasper não nos deu muito tempo. – o xerife tentava se desculpar – Se ele tivesse nos dito antes que recebíamos amigos, nós teríamos tempo de alugar uma casa e tudo o mais...
- Não se preocupe com isso. – Ed soltou minha mão e tocou no ombro do xerife – O que você e sua esposa já estão fazendo por minha família não tem preço. Obrigado.
O xerife pareceu relaxar e sorriu um pouco. Meu coração também se encheu de gratidão e sorri, olhando para Selena.
- Obrigada por tudo, Selena. Tenho certeza que vamos nos acomodar bem.
- Sim, sim! – ela sorriu e falou com seu inglês cheio de sotaque, abrindo a porta do trailer para nós – Entrem, entrem... as aparências enganam, venham ver como é bonito aqui dentro!
Havia muito azul. Um tapete azul, cortinas azul claro, um sofá azul cujo tecido era meio brilhante, o estofado das cadeiras da mesa também eram azul... O decorador com certeza tinha um gosto duvidoso e uma grande queda por azul! Mas também havia madeira, toda a minúscula cozinha era de madeira. Confesso que achei a cozinha bem bonitinha, parecia ter saído de uma casa de bonecas!
- É mesmo, Selena! – tentei ser gentil – Além do mais, eu adoro azul. – apontei para o sofá.
- Ah! Então você vai adorar saber, - ela falou enquanto desmontava o sofá – que ele é um sofá cama! Seus bebés poderão dormir nele, veja!
Ela não me deixou falar, ainda bem, porque eu não tinha palavras. Meu coração perdeu uma batida, eu não queria que meus filhinhos dormissem num sofá!
- Venham ver o quarto! – eu e Ed a seguimos ainda com nossos meninos nos braços – Nessa porta de cá é o banheiro, - ela apontou para o cubículo – e aqui, vejam, um pequeno guarda-roupa...
Enquanto ela falava, eu e Ed colocávamos os meninos no meio da cama. Cansados, nossos bebês dormiam profundamente e nem perceberam nada. A mulher saiu do quarto e nós a seguimos para a cozinha, ela abriu a geladeira embutida e nos deu várias instruções.
- Aqui, eu passei no mercado e comprei umas coisas para vocês. E aqui, - ela abriu a porta do armário – tem mais comida...
- Obrigada. – sussurrei.
- A cozinha está equipada com todos os utensílios, o fogão e o microondas funcionam perfeitamente.
- Na sala ainda tem TV a cabo e o rádio funciona bem! – ela continuou, nos levando de volta à sala.
- Muito obrigado. – Ed assentiu fervorosamente.
- Agora vou deixá-los descansar um pouco. – ela sorriu – E não se preocupem com nada. Mañana las cosas mejoran...
‘Amanhã as coisas melhoram’, repeti sua frase em pensamento e pedi a Deus que aquilo pudesse realmente acontecer. Eu estava no meio da ‘sala’ (o quadradinho coberto com o tapete azul) e olhava para minha nova casa ainda com incredulidade quando senti as mãos macias e quentes de meu marido em minha cintura. Ele me abraçou por trás e sussurrou.
- Enfim sós... – sua voz rouca e cansada ecoou em meus ouvidos, ele fez meu corpo girar e segurou meu rosto em suas mãos. – Eu te amo, Sra. Cullen...
- Assim como eu te amo, Sr. Cullen.
Ele juntou mais os nossos corpos, colamos nossas testas e eu me perdi no mar de paz e amor de seus olhos verdes.
‘Não importa’, pensei e sorri, fazendo com que Ed respondesse com um pequeno sorriso. Sim, nada daquilo importava! Beijei meu marido com paixão, suas mãos enlaçaram minha cintura, puxando-me para si e minhas mãos se enroscaram em seus cabelos. Estávamos presos, presos um ao outro. Aquele vínculo indissolúvel chamado amor me impulsionava a seguir adiante com ele... meu Edward.
E com ele eu fugiria para qualquer lugar! Como poderia ser diferente? Se eu o amor mais do que a minha própria vida, se eu preciso dele do mesmo jeito que eu preciso do ar para respirar, do céu para me proteger e do chão para me amparar...
Nossos lábios se mexiam em sincronia e nossas línguas buscavam carinho e contato, enquanto eu pensava sobre essas coisas. Quando o ar nos faltou, cessamos o beijo.
- Sabe de uma coisa, meu amor? – sussurrei – Eu quero fazer desse trailer o lugar mais perfeito do mundo.
- Ele já é perfeito, amor. – uma de suas mãos afagava meu rosto – Eu tenho você e nossos filhos. Existe perfeição maior que isso?
Ele me abraçou com carinho, fazendo nossos corpos girarem pelo minúsculo trailer, enquanto dançávamos uma singela valsa, ele sussurrava.
- Temos um teto, uma cama fofinha, comida, temos saúde, amor...
- Temos tudo.
Ele parou a dança e me olhou nos olhos novamente.
- Tudo. – ele repetiu.
Nossos olhos se encontraram novamente e ficamos absortos um no outro por uns bons dez segundos. Depois bocejamos ao mesmo tempo e nos rendemos ao cansaço de nossos corpos.
- Ed, acho melhor a gente dormir um pouquinho e aproveitar enquanto os meninos dormem.
- Vou tomar um banho então...
- Só não vou com você porque o banheiro é apertado demais. – sorri e lhe rei um selinho.
Quando me vi sozinha na sala, abri a mala e separei roupas confortáveis pra gente vestir. Olhei ao meu redor e vi que havia almofadas em cima da mesa, peguei-as e arrumei melhor o sofá-cama.
- Agora tá menos feio... – murmurei para mim mesma.
Ed chamou por mim, sussurrou várias vezes para não acordar os meninos.
- Amor, esqueci da toalha de banho...
Toalha? Toalha? Toalha?
Pensei rápido e lembrei que não tinha posto jogos de cama e de banho nas malas. Num impulso, abri o pequeno guarda-roupa de duas portas e vi na prateleira superior dois jogos de banho e dois jogos de cama. Ufa... entreguei uma toalha a Edward, esperei que ele saísse do apertadinho (banheiro) e entrei logo em seguida. Cansada, me despi e olhei meu rosto no espelho.
- Uau... Isabella, você tá um lixo! – murmurei.
- Discordo veementemente! – Ed abriu a porta do banheiro e me fez sobressaltar – Ta aqui a toalha, - ele sorriu – e cuidado com o chuveiro, depois de três minutos, a água quente volta a ficar fria e depois esquenta de novo!
- Credo! – murmurei.
O banho foi revigorante, mas eu tive o cuidado de me livrar dos jatos frios. Enquanto a água levava consigo a poeira de nossa longa jornada, eu agradecia a Deus por termos chegado até ali numa boa. Enrolada na toalha, vi a cena mais linda do mundo: meu marido ressonando na cama e nossos filhos empoleirados nele.
OMG... Os meninos devem ter sentido o calor do pai e se aproximaram dele! Com cuidado, deitei na cama ao lado dos três e devagar, bem devagarzinho mesmo, beijei a face de meu Anthony, de meu Thomas e por fim, de meu Ed.
- Hum... Bella... – ele murmurou e sorriu.
Meus instintos maternais fizeram com que eu pegasse cada filho e os colocasse novamente sobre o colchão. Eu tinha medo de Ed derrubá-los sem querer! Assim que minha cabeça encostou no travesseiro, eu apaguei num sono sem sonhos e bastante profundo.
‘Ma-ma’
Eu ouvia uma das vozes mais lindas do mundo me chamando, mas eu a ignorei. Era meu Anthony.
‘Ma-ma-ma-ma’
Ignorei Thomas também, mas a minha mente ficou mais alerta. O problema é que meu corpo não queria responder. Duas mãozinhas pequenas e gordinhas tocaram o meu rosto, depois mais duas mãozinhas, estas últimas bateram delicadamente em minha face.
Abri um olho minimamente e vi Edward sentado na cama com os meninos. Ele sorria, encantado com os filhos, eu segurei o riso a muito custo, mas Ed percebeu que eu já havia acordado. E então uma coisa maravilhosa aconteceu: os dois meninos chamaram papai. Não foi exatamente desse jeito, deixa eu explicar.
Os meninos tentavam me acordar sem muito sucesso, deveriam estar com fome, e então os dois olharam para Edward ao mesmo tempo. Anthony disse ‘babai’ e depois olhou para mim, apontando para mim com seu bracinho gordinho. Thomas quase gritou um ‘papa’ e olhou para mim ao mesmo tempo em que dava suaves tapinhas em meu rosto. Rendida por meus filhos, abri os olhos e sorri, eles sorriram. Sentei na cama, desabotoei a blusa que usava e lhes ofereci meus seios. Os dois mamavam com vontade enquanto Edward beijava-os e sussurrava:
- Ouviu, Bella? Eles me chamaram de papai! E dessa vez não foi uma resposta à palavra que eu os fazia repetir. Eles disseram espontaneamente! Você ouviu isso?!
Sorri antes de responder e acariciei seus cabelos cor de cobre.
- Ouvi, sim, foi lindo!
Como se quisessem confirmar as palavras do pai, os dois pararam de mamar, olharam para ele e disseram: babai e papa. Depois sorriram e voltaram a comer sossegados. Depois de alimentados, os meninos ficaram na cama brincando com Edward enquanto eu fui à cozinha preparar algo para almoçarmos.
Frustrada, vi no relógio que não dormi nem três horas, por isso me sentia tão cansada ainda! Mas já era quase meio-dia, então tentei ser rápida. Enquanto olhava na geladeira e no armário o que havia de ingredientes, eu pensava numa receita rápida, fácil e gostosa para o almoço, foi quando me lembrei da omelete com queijo e tomate que a mamãe fazia. Receita que ela aprendeu nos tempos de corre-corre da faculdade de medicina. Em menos de meia hora fiz a omelete, preparei uma salada de batatas, azeitona, queijo e presunto e ainda peguei uma batata cozida, amassei-a bastante e misturei com um pouquinho de leite para servir aos meninos.
Naquela primeira tarde as horas foram muito longas para mim e para Edward. O principal motivo é que não tínhamos como deixar os meninos brincando num único lugar da casa (trailer) sem que houvesse um risco iminente de se machucarem. Quase tudo ali era pendurado nas paredes, ou era desmontável, ou era encaixado... O risco era grande para duas crianças traquinas, saudáveis e curiosas! Enquanto Ed lavava a louça, eu brincava com os meninos sentada no chão da sala. Eu até tentei colocá-los no carrinho, mas eles protestaram veementemente e fizeram tanta birra, que eu tive que ceder. No chão novamente, eles se apoiaram no banco de madeira, puxaram a cortina e descobriram que ali existia uma janela baixa!
Maravilhados, meu anjinhos olhavam alguns pássaros pousando no chão e sorriam para a sombra dos galhos de árvores que balançavam ao vento. Preocupada, eu vi que havia um espelho ali no chão, bem pertinho deles, tirei o objeto dali, colocando-o em cima da mesa.
No final do dia, eu me sentia como um cachorro hidrofóbico! Eram cinco da tarde, o ar entrava morno nos meus pulmões, os meninos passaram o dia somente de fraldas e sem mais nenhuma peça de roupa, Edward parecia um leão enjaulado... Mas a gente tinha medo de botar a cabeça pra fora daquele trailer. Mesmo com dois ventiladores ligados e mesmo sentanda no chão da sala, eu ainda abanava os meninos com a tampa de uma vasilha plástica, enquanto eles assistiam desenho animado na TV.
Nossos celulares prateados tocaram, fazendo meu marido se sobressaltar e fazendo com que todo o meu corpo travasse. Era Jasper, ele queria saber como estávamos e nos dar algumas instruções. No geral, as orientações eram as mesmas, a gente não podia usar cartões de crédito e débito e fazer compras somente em dinheiro, mas poderíamos sair de casa desde que fôssemos discretos. Ed confirmou com Jasper que estávamos sendo chamados apenas de Tony e Marie e perguntou quanto tempo ficaríamos ali e Jasper explicou que seus pais estavam viajando, mas, mesmo por telefone, já estavam providenciando nossa estadia na fazenda deles. Eu nem sabia que iríamos para uma fazenda! Parece ironia, mas toda vez que o cerco dos Volturi aperta e a gente tem que fugir, vamos parar numa fazenda!
O ruim disso tudo é que ainda ficaríamos naquele trailer sufocante por mais seis dias. ‘Meu Deus, me ajude a não reclamar’, eu pensei. Jasper ainda disse que Benicio Rosas nos entregaria celulares pré-pagos naquele mesmo dia. Ele ressaltou que o xerife era de confiança e que só não fazia mais por nós porque não podia. Nosso amigo nos disse que Alice estava em Washington, Rose e Emmett estavam no Texas, todos ‘trabalhando muito’ e satisfeitos com seus ‘salários’. Pelo que eu e Ed pudemos entender, ele quis dizer que as coisas estavam indo muito bem. ‘Tomara’, pensei.
Alguém bateu na porta e meu coração perdeu uma batida, instintivamente, abracei meus filhos e os coloquei atrás de mim. Aquilo era mais forte que eu, eu ainda me sentia uma fugitiva.
- Marie, sou eu, Selena! - a voz alegre de nossa anfitriã me fez relaxar.
Ed abriu a porta e Selena entrou carregando uma banheira de bebê e um cercado desmontado.
- Trouxe isso aqui para seus filhos usarem enquanto ficam conosco. – ela montava o cercado enquanto falava - Mis hijos não usam mais porque já estão crescidos e acho que seus bebés vão precisar!
- Oh! Meu Deus! – falei surpresa – Muito obrigada, Selena!
Coloquei os meninos dentro do cercado enquanto Ed jogava os brinquedinhos deles ali. Acostumados a brincar em cercados, meus filhotes não choraram e eu só tive o cuidado de direcionar um ventilador para eles.
- Não há de que, Marie! Eu também vim aqui para convidá-los para o jantar, - ela sorriu nervosa – minha casa é simples, mas terei prazer em recebê-los!
- Ah! Mas nós não temos cerimônias, Selena! – toquei em seu braço – A que horas devemos chegar?
- Lá pelas seis e meia, tudo bem?
- Tudo!
- Obrigado por tudo, Sra. Rosas. – Ed falou cheio de gratidão.
Com o cercado, as coisas ficaram mais fáceis para nós. Os meninos estavam seguros e entretidos e eu pude fazer uma coisa que qualquer mãe faria no meu lugar. A banheira não era nova e doenças de pele poderiam ser transmitidas pelo uso dela por vários bebês. Então eu tive o cuidado de lavá-la com uma solução de alvejante, detergente líquido e água quente. Peguei minha uma escova de dente nova, tirei-a da embalagem e comecei a esfregar cada cantinho da banheira. Não que eu achasse que os filhos de Selena fossem doentes, mas... seguro morreu de velho!
Naquela noite, a família Rosas nos recebeu de portas abertas! Conhecemos as três crianças: Miguel, de seis anos, Joaquim, com quatro anos e Pablo de dois anos de idade. Todos eram meninos adoráveis e educados. O pequeno Pablo logo fez amizade com os meus filhotes! Selena serviu uma salada mexicana, regada a um delicioso molho de pimenta e como prato principal, tortillas de carne moída e queijo. O cardápio das cinco crianças foi menos temperado: sopinha de carne e legumes.
Depois daquele encontro com os Rosas, eu e Ed conseguimos relaxar mais. Percebemos que eles eram pessoas maravilhosas, nos sentimos mais seguros e à vontade naquela cidade. E por falar em relaxar, por volta das dez da noite, os meninos adormeceram de vez e eu os coloquei no cercado. Graças a Deus os meus filhos não precisariam dormir naquele sofá! Depois de um banho relaxante, percebi que a temperatura no deserto costumava cair à noite, o vento era bem agradável.
Um chameguinho aqui, um beijinho ali, uma mordidinha acolá... Quando percebi, eu e Ed estávamos num maior amasso na cama, nossos corpos já despidos ansiavam por um contato maior e nossas bocas se moviam em sincronia. Cedo demais a festa acabou. Um chorinho baixo nos interrompeu, Ed vestiu a cueca (pelo avesso) e saiu apressado para a sala, trazendo nosso Anthony. Minutos depois ele adormeceu em meus braços, levei-o para o cercado e voltei para o quarto disposta a voltar a brincar com meu marido. Não deu certo. Quando já estávamos pegando fogo de novo e as carícias eram mais e mais ousadas, quando a boca de meu marido quase me fazia chegar lá... Thomas chorou a plenos pulmões fazendo com que Anthony acordasse chorando também!
Fim de festa.
Entendi que nossos filhos estavam estranhando a casa nova e por isso choravam. O jeito foi esconder o tesão embaixo da cama e deixar que nossos pequenos dormissem conosco...
Nos dias que se seguiram, nós fomos ao supermercado, a uma pizzaria, fomos à farmácia, enfim, começamos a andar pela cidade. Antes de sair, nós sempre avisávamos ao xerife, mas ele já havia espalhado pela cidade que éramos seus primos distantes que moravam na Flórida.
Cathedral City não era uma cidade ruim e as pessoas eram muito simpáticas. Na tarde de sábado, 7 de maio, nós recebemos uma ligação de Jasper, nos dizendo que iríamos para a fazenda de seus pais na manhã do dia seguinte. Para comemorar, Ed nos levou a uma sorveteria que havia no final da rua. As pessoas ali já nos conheciam, pois era a segunda vez que visitávamos o local. A Sra. Arribas, dona da sorveteria, veio nos atender com um sorriso nos lábios. Depois que tomamos sorvete e assistirmos nossos meninos se deliciarem com um pouquinho de calda de chocolate, ela se aproximou de nós com uma bandeja nas mãos.
- Gostariam de provar uma xícara do legítimo café turco? – ela sorria.
- Café turco? – perguntei.
- Sou meio turca, meio mexicana! – ela gargalhou – Mamãe era turca, Ayla Khalil era o seu nome, então ela casou com um autêntico mexicano e vieram morar aqui na Califórnia, onde eu nasci. Casei com um mexicano também... e aprendi a ler a borra do café com a minha mãe. Desde os quinze anos eu descobri que tenho o dom. Aos sábados ofereço uma xícara de café por conta da casa e às vezes, leio a sorte na borra do café.
Pela minha visão periférica, vi a sutil careta de incredulidade na face de meu marido, mas ignorei aquilo, pois fiquei muito curiosa.
- Nós nunca tomamos café turco! – sorri e estendi a mão para pegar a xícara – Depois você poderia ler a borra para mim?
- Eu estava esperando que vocês pedissem isso!
Ela sorriu satisfeita e ofereceu uma xícara a Ed, mas ele não se mexeu. Por baixo da mesa, chutei levemente a sua canela, recebendo um olhar mortal dele. Relutante, meu marido pegou uma xícara do café fumegante.
- Não bebam o líquido de vez, por causa do pó, esperem um pouco para não se engasgarem e quando terminarem, me avisem. – ela falou gentilmente.
- Eu não sei se quero... – Ed ia falar, mas foi interrompido por ela.
- Eu não cobro nada para ler a borra de café, Sr. Carmichel. – ela ficou um pouco séria – Desde o primeiro dia que os vi, meu coração se inclinou a lhes servir o café e ler a borra, mas se o senhor não quiser...
- Nós queremos sim! – chutei a canela dele de novo.
- Então quando terminarem de tomar o café, me chamem.
A sós, Ed fez careta para mim e sussurrou.
- Marie, eu não acredito nessa baboseira de pó de café!
- Mas não custa nada a gente experimentar, amor. – ronronei e rocei minha perna na dele, fazendo-o sorrir torto.
- Você sempre sabe como me convencer. – ele murmurou e bebeu um gole do café.
Quando terminamos, a Sra. Arribas se aproximou, puxou uma cadeira e se sentou ao nosso lado.
- Agora, cada um de vocês deve retirar o pires de debaixo da xícara e colocá-lo sobre a xícara. – fizemos isso – Devem segurar a xícara e fazer alguns pequenos círculos, movimentando a borra. E por fim, devem virar a xícara de cabeça para baixo, para que o conteúdo da borra se espalhe.
- E agora? – perguntei ansiosa.
- Agora devemos esperar a borra secar. – ela olhou no relógio – Estamos a uma quadra da Town Square, por que vocês não vão dar uma volta com seus bebés? Daqui a meia hora a borra estará pronta para ser lida.
Olhei sugestivamente para Edward, esperando que ele decidisse.
- Ok. – ele se levantou, empurrando o carrinho dos meninos – Vamos, Marie?
Assim que saímos da sorveteria, Ed pegou o celular e discou para a delegacia, o xerife atendeu no primeiro toque. Ele disse que poderíamos passear pela praça sem problemas uma vez que a polícia fazia a segurança permanente do local. A praça era linda, cheia de palmeiras imperiais, os meninos se divertiam a cada revoada de pássaros e sorriam para todo mundo que passava.
- Ta na hora, vamos? – apressei Ed – Quero ver o que a borra de café diz de nosso destino...
- Isso é besteira, Marie. – meu marido deu um muxoxo.
De volta à sorveteria, a xícara estava exatamente onde a deixamos. Conforme as orientações da Sra. Arribas, ela mesma destampou nossas xícaras.
- Primeiro as damas... – ela sorriu enquanto olhava para a minha xícara, ansiosa, eu entrelacei minha mão na de Edward – Marie, o fundo da xícara representa seu coração. Tem pouca borra acumulada no fundo, e vemos aqui que seu coração está vazio de maus sentimentos! – ela sorriu mais e falou para Edward – O senhor tem sorte, Sr. Carmichel, sua noiva é uma mulher com um coração muito inclinado a perdoar...
Edward assentiu milimetricamente e sorriu torto, aprovando o que a mulher dizia. Na certa, ele se lembrava do episódio ‘Tanya Denalli’, assim como eu me lembrei.
- Bem, temos algumas figuras desenhadas aqui nas paredes da xícara... Hum... Sim... – a mulher falava para si mesma e eu quase quicava na cadeira de tanta ansiedade – Aqui, Marie, - ela apontou para uma figura estanha – temo um arco. Você vê?
Estreitei o olhar, procurando pelo tal arco, até que achei um semicírculo e assenti para a mulher.
- O arco representa a passagem. Você está atravessando um caminho, está mudando, você está deixando uma vida e embarcando em outra. – ela sorriu mais ainda quando me mostrou a figura seguinte – Veja isso aqui, é uma borboleta! – assenti, a borboleta estava mais nítida – Isso significa alegria causada pelas pequenas mudanças! – ela sorriu e bateu palmas – Que bom! A borboleta também quer dizer alegria nos relacionamentos! – ela olhou para Edward e ele sorriu.
Os meninos sorriram no carrinho, como se pudessem entender o que ela dizia.
- Sim, bebés lindos... A alegria da mamãe é para vocês também! – ela brincou com meus filhos e voltou sua atenção para a xícara, me mostrando a figura seguinte – Esse cachorro aqui representa fidelidade. – ela olhou para Ed – Fidelidade nos relacionamentos! – ela ressaltou e senti meu marido apertar minha mão com mais força – Mas esse aqui... – ela fez uma pausa e meu coração bateu acelerado – isso aqui parece um cachorro, mas na verdade é uma raposa, veja como a cauda dela é bem peluda! A raposa é um sinal para você, Marie. – assenti fervorosamente – É sinal de que você está ou estará sendo vigiada nos próximos dias...
Deus do céu! Meu coração perdeu uma batida, percorri meus olhos pelo ambiente, procurando por alguma ameaça e, instintivamente, puxei mais o carrinho de meus filhos, colocando-as mais perto de mim.
- Você deve ter cautela e se lembrar que nem todas as pessoas possuem um coração tão puro quanto o seu. – ela fez uma pausa – Mas a raposa também pode significar que você deve ser cuidadosa, deve ser inteligente e perceber quem se aproxima de você. Cuidado com a falsidade...
Depois que ela acabou de ler a xícara, pegou o pires para ler a borra dele também.
- Aqui, temo um martelo. – me inclinei um pouco para ver o pires – Ele significa perseverança e força, porque a conclusão de um assunto muito importante está muito próxima!
- Que bom! - não me contive e pensei alto.
- E aqui, - ela continuou – a figura dessa ponte está entrelaçada ao martelo. A ponte quer dizer mudança de estágio! E o melhor de tudo, Marie, é que quando tudo mudar e você atravessar a ponte, você vai deixar para trás todas as dores do passado...
- Deus te ouça... – sussurrei emocionada.
Fiquei tão feliz com as palavras dela! Puxa vida, aquilo me deu muita esperança, coisa que eu não sentia há muito tempo. Não que eu vivesse totalmente desprovida de esperança, eu tinha esperança no meu marido, nos meus filhos, nos nossos amigos... Mas essa mulher era uma desconhecida, ela não sabia de nosso passado, não sabia de nada, mas conseguiu acertar em cheio, falando coisas que tocaram o meu coração.
Quando ela pegou a xícara de Edward, deu-lhe um aviso.
- Sr. Carmichel, eu não vou lhe forçar a nada e só tirarei esta xícara do lugar se o senhor realmente quiser que a leia. – ela olhou em seus olhos – O que tem aqui pertence ao senhor e eu entenderei se...
- Não, não, por favor, leia! – ele pediu com sinceridade.
Ela sorriu e assentiu enquanto destampava sua xícara. Para minha alegria, havia pouca borra presa no fundo da xícara!
- Seu coração é muito bom também! – ela sorriu – Mas o senhor anda bastante preocupado e... sim... agora entendi. Aqui, - ela apontou para a xícara – consegue ver esse contorno aqui? – Ed estreitou o olhar – É o contorno de canguru e ele está bem próximo do fundo da xícara, tocando a borra que está aqui. O senhor tem vivido uma situação de muito estresse e angústia por sua família. – meu marido assentiu – O canguru representa o amor e a dedicação à família. – ela fez uma pausa – Mas tente relaxar um pouco, Sr. Carmichel. O senhor pode ver aqui, o desenho de uma árvore? – Ed assentiu e eu também, árvore era enorme como um imenso carvalho – As árvores representam que realizações estão a caminho... Também simbolizam segurança, paz e novos amigos! – ela sorriu e nos fez sorrir também, depois ela olhou fixamente para um ponto da xícara – Um morcego... uma máscara... – ela sussurrou – Um morcego e uma máscara...
Os poucos segundos de silêncio fizeram meu coração bater feito uma escola de samba, por último, a voz da mulher ficou mais baixa e contida.
- Devo lhe avisar para ser discreto, Sr. Carmichel e tente guardar seus pensamentos e sentimentos mais íntimos para compartilhar com seus verdadeiros amigos e com a sua amada, principalmente com ela. – a mulher fez uma pausa e respirou fundo – Use sua intuição, o morcego quer dizer intuição.
Edward assentiu para a mulher e depois beijou minha mão que estava entrelaçada a dele. A Sra. Arribas pegou o pires dele e exclamou:
- Minha Nossa Senhora de Guadalupe! – ela sorriu – Vocês dois tem o caminho mais entrelaçado que eu já vi na vida! Veja, Sr. Carmichel, aqui também temos um martelo e uma ponte! – me inclinei para ver o pires – O que quer que seja que estiver para ser concluído também está relacionado ao senhor e a ponte que Marie atravessar também é a mesma ponte que o senhor vai atravessar! – ela sorriu um tipo de sorriso exultante – Nunca vi uma coisa dessas em toda a minha vida! Que coisa linda, meu Deus... Um casal com praticamente a mesma leitura de borra de café! Não, não, vocês não são dois! – ela colocou uma mão sobre as nossas mãos entrelaças - Vocês são um só, a metade de um todo! O amor de vocês é algo que não tem começo, meio e fim, ele simplesmente existe e é poderoso, independente de qualquer circunstância!
Emocionada, eu abracei aquela bondosa mulher e beijei sua bochecha, ela retribuiu o meu abraço e sussurrou ao meu ouvido:
- Eu estou feliz por vocês! Nunca senti tanto amor emanar das pessoas como senti de vocês. Parabéns, querida!
O curto trajeto até o nosso trailer foi feito num silêncio muito gostoso. Enquanto empurrávamos o carrinho dos meninos, nossas mãos permaneceram entrelaçadas. Eu me sentia feliz, orgulhosa e completa ao lado de meu amor.
- Sabe de uma coisa, Tony? – sussurrei – Esse foi o melhor sorvete que eu já tomei na minha vida! Obrigada por ter me levado lá!
Ele sorriu antes de responder.
- Pensei que você tivesse ficado empolgada com o café!
- Sim, mas uma coisa leva à outra. – sorri – Se você não tivesse me levado para tomar sorvete, a gente não tinha tomado o melhor café turco da Califórnia!
O dia seguinte começou lindo! Quente e úmido! Acordamos super cedo e ligamos o rádio para nos distrair enquanto arrumamos nossa bagagem. Mas de repente, o semblante de meu marido ficou sombrio como uma tarde de tempestade. Edward guardava os brinquedos dos meninos quando estacou de repente e murmurou:
- Não...
- O que foi, amor? – sussurrei.
- Lembrei o que esqueci em Forks. – ele mexeu no cabelo nervosamente – Droga! Me perdoa, amor. Eu, eu... esqueci o violão! O violão que você me deu de presente de aniversário!
OMG... Meu marido tinha um olhar tão triste... Envolvi seu rosto em minhas mãos e fiquei na ponta dos pés, depositando um selinho em seus lábios.
- Ta tudo bem, amor! – sussurrei e tentei sorrir – Não tem problema, eu sei que você não queria fazer isso.
- Ele era especial, Bella.
- Eu sei, Ed. – toquei em seu peito, sentindo as batidas de seu coração – Mas as músicas que você canta para mim nascem aqui e não nas cordas do violão!
Ele me beijou com carinho e paixão e só interrompemos o beijo quando os meninos acordaram esfomeados. Com cada bebê agarrado a uma mamadeira de mingau, nós terminamos de arrumar tudo, nos despedimos de Selena e seus filhos e partimos com destino à fazenda dos pais de Jasper e Rose.
O xerife dirigia nossa pick-up e nos explicava que estávamos indo para a cidade de Julian, onde ficava a Fazenda Natividad, propriedade da família Mansen há três gerações. Atualmente a fazenda desenvolvia o cultivo de frutas e verduras orgânicas e hidropônicas.
- Esse negócio de plantar frutas e verduras sem nenhum agrotóxico tem agradado as estrelas de Hollywood. – o xerife explicava – 70% da produção deles vais para as mesas das celebridades!
- A cidade fica perto daqui? – perguntei.
- Quase duas horas de viagem. – ele respondeu – Estamos saindo do deserto para uma área mais próxima do mar. A cidade faz parte do Condado de San Diego e é uma coisinha com uns 2 mil habitantes. – ele sorriu – Lá é menos quente, já que a cidade está incrustada entre duas reservas florestais, cheias de pinheiros e carvalhos centenários.
A paisagem foi mudando, ficando mais verde, não era o verde de minha querida e chuvosa Forks, mas era mais verde que o deserto da última semana. Alcançamos os limites da cidade e vimos a placa: ‘Bem vindos à Julian, a cidade das uvas’.
Nossa pick-up deslizou pela rua principal da cidade e de repente, passamos a ser seguidos por uma Land Rover. Meu coração bateu acelerado, instintivamente, eu me inclinei um pouco sobre os meus filhos, protegendo-os do desconhecido e eu vi quando Ed ficou surtado também.
- Não se preocupem, aqueles são o tio Willian, usando o chapéu de cowboy e o cara que está dirigindo é Juan Carlos, o administrador da fazenda.
Respirei aliviada e voltei a contemplar as paisagens verdes da beira da estrada. No céu o sol ficava mais firme, quente e amarelo, refletindo seu brilho nas copas das árvores. Abri um pouco a janela da pick-up e inspirei o cheiro de maças e flores de laranjeira... Para mim, aquilo era o próprio cheiro de felicidade!
Sorri ansiosa, eu não via a hora de chegar na fazenda! O xerife entrou numa estradinha de terra e em menos de dês minutos, avistamos um gigantesco pomar de maçãs do nosso lado esquerdo e um imenso parreiral no nosso lado direito.
- Já estamos nas terras dos Mansen.
O xerife declarou no mesmo instante em que paramos diante de uma porteira de madeira, onde estava escrito: Natividad Farm. Cinco minutos depois, aparamos em frente a uma linda mansão.
Em sincronia, duas mulheres saíram da casa ao mesmo tempo que os dois homens desciam da Land Rover. O pai de Jasper veio nos receber.
- Sejam bem-vindos, meus filhos! – subitamente, ele abraçou Edward como se realmente abraçasse a um filho e, timidamente, me deu um rápido abraço - Eu sou William Mansen e é uma honra recebê-los em minha casa!
Com certeza o pai de Jasper e Rose estava a par de TODA a nossa situação.
- Oh! Graças a Deus vocês chegaram! – uma mulher loira e tão linda quanto Rosalie, só que um pouquinho mais velha, me deu um abraço apertado e depois abarcou meu marido – Ah! Que bebezinhos lindos! – ela acariciou meus meninos e sorriu afetuosamente para eles.
Nesse meio tempo, enquanto éramos muito bem recebidos pelos Mansen e sussurrávamos palavras de gratidão, eu podia sentir um par de olhos me espionando. Com o máximo de discrição possível, olhei para trás vi o homem que dirigia a Land Rover. Juan alguma coisa, era o seu nome. Ele olhou para mim e sorriu, seu sorriso era lindo, ele era lindo. Devo ter corado porque seu sorriso se intensificou e me invadiu como... como se eu fosse algo de comer?!
Elevei meus olhos, fugindo dele e contemplei a paisagem dos inúmeros pés de uvas. Eu nunca tinha visto um vinhedo tão bonito como aquele. Fomos apresentados à governanta da casa, Mirna, uma senhora de meia-idade muito sorridente e fofinha. E para minha completa inquietação, o Sr. Mansen chamou o administrador e nos apresentou formalmente a ele.
- Juan Carlos, estes são Tony e Marie, meus sobrinhos queridos! – ele sorriu e apontou para os meninos – Os bebezinhos são seus filhos, Thomas e Anthony, mas por enquanto eu não sei quem é quem!
Todos sorrimos, Juan Carlos cumprimentou Edward com um aperto de mão, mas a mim, ele beijou minha mão como um perfeito cavalheiro. Pela minha visão periférica, vi que Ed estreitou o olhar para a cena.
A Sra. Mansen nos convidou a entrar, seguimos para a sala de estar onde Mirna nos serviu suco de uva e biscoitinhos amanteigados. Os meninos agarraram, cada um, um biscoitinho e o roeram até que ele derreteu na boca. Depois olharam para a governanta e disseram em coro:
- Dááá... – os Mansen riram muito, achando graça nos meus meninos.
Felizes com a atenção que receberam, meus bebês começaram a fazer cena, mexendo perninhas e braços, soltando beijinhos estalados e fazendo besourinhos. Nem preciso dizer que conquistaram a afeição dos Mansen num piscar de olhos!
Um empregado da fazenda apareceu e descarregou nossas malas, levando-as para cima, a conversa entre nós e os Mansen era muito agradável e eu consegui me sentir em casa. A sensação de paz e segurança era muito boa.
- Você vai adorar o sobrado. – a Sra. Mansen falou – Preparamos uma parte do pavimento superior para vocês. É como um pequeno apartamento, Rose me disse que vocês apreciam a privacidade.
- Oh! Nós não queremos incomodar, Sra. Mansen. – sussurrei.
- Isso mesmo, qualquer cantinho serve. – Ed falou.
- Não é incômodo, filha e por favor, me chamem de Lilian!
- Venham, vamos conhecer o resto da casa! – o Sr. Mansen falou.
Atravessamos a sala e chegamos a um jardim interno. Aquele lugar era lindo, um verdadeiro oásis no meio do deserto!
Eu e Edward estávamos muito felizes com o nosso novo lar e o desânimo de dias atrás havia acabado. Os pais de Jasper e Rose haviam nos recebido como se fôssemos seus filhos, sem contar que Anthony e Thomas pareciam seus netos... Eles achavam graça em tudo o que os meninos faziam!
Só havia uma coisa, melhor dizendo, uma pessoa que inquietava meu coração: Juan Carlos.
Aquele homem de pele dourada, cabelos e olhos pretos e (não dá para negar) dono de um corpo escultural, era o administrador da fazenda dos pais de Jasper e Rose. Para onde eu me virava, ele estava... me olhando com aqueles olhos sagazes, me olhando até demais.
Edward percebeu a situação num piscar de olhos!
Eu também percebi, mas deixei quieto por dois motivos: primeiro, o mexicano-gostosão nunca me faltou com respeito, ele apenas olhava e, o segundo e mais importante motivo é que eu amava meu marido e JAMAIS iria traí-lo.
Mas o meu lado menos nobre se manifestou. Será que eu devia fazer Edward sofrer só um pouquinho do mesmo modo que eu sofri por causa de Tanya Denalli?
Ainda inspirando o perfume do jardim, segurando meu Thomas nos braços, senti o rosto de Edward pousar sobre o meu ombro. Sorri ao sentir o seu toque.
- É lindo, não é? – sussurrei olhando para o jardim.
- Não tanto quanto nosso amor, princesa! – ele beijou meu pescoço delicadamente e suspirou.
- O que foi? – me virei um pouco e o vi carregando Anthony, mas no rosto de meu marido havia uma pequena ruguinha de preocupação.
Ele se inclinou de novo e voltou a sussurrar.
- Este fazendeiro não tirou os olhos de você. Você notou?
Pensei um pouco. As metades de mim duelavam: admitir ou fazer um joguinho, fingindo que não tinha percebido nada.
‘Ser ou não ser, eis a questão.’
Admitir ou ignorar?
- Sim, amor, eu percebi. – soltei de uma vez e me senti feliz por meu melhor lado ter prevalecido.
Edward beijou calidamente a minha testa e sorriu torto.
- Obrigado, princesa. – ele beijou meus lábios levemente – Obrigado por me dar a verdade. Obrigado por você não se espelhar nos meus atos do passado.
- Eu te amo, Ed. – sussurrei em seu ouvido.
- Assim como eu te amo.
Meu marido me beijou levemente nos lábios e por uma questão de segundos, mergulhamos em nossa bolha de amor.







