Insensatez
POV EDWARD
“A soberba precede a queda...”
Essa frase martelando em minha cabeça por apenas alguns minutos, como um redemoinho teimoso. E embora ela esteja em alguma parte da Bíblia, eu não a qualifico como mágica ou poderosa, ela também não é um amuleto místico. Mas essa sábia frase ajudou a salvar meu casamento.
Eu também não sei se meu casamento estava prestes a acabar, mas a coisa ficou feia...
Vamos por partes.
O famigerado almoço da casa de Tanya teve um elevado preço para mim. Graças ao comportamento de minha excêntrica, e por que não dizer, oferecida chefe, minha esposa pirou por vários e vários dias.
E foi nessa piração de Bella que a ficha caiu para mim: eu realmente não a entendia tanto assim como julgava entender. Aliás, ela é mulher e todas as mulheres são meio complicadas mesmo!
A casa não caiu de vez. Março ainda foi um mês relativamente normal, nós tentamos, cada um a seu jeito, contornar a situação e esse foi o grande problema. Bella queria falar, eu queria calar e ocultar. Esse mês ainda deu lugar a um ou outro jantar romântico, noites de amor e o show de Aerosmith em Seattle. Mas já havia uma névoa entre nós, embaçando nosso amor.
Mesmo só querendo olhar para o próprio umbigo, não pude deixar de me encantar com mais um mês de vida de meus filhos. Talvez porque eu quisesse fugir de Bella, percebi bastante o lindo desenvolvimento de meus pequenos.
Aos sete meses, Anthony e Thomas quando estavam sentados, já colocavam as duas mãozinhas em frente ao corpo, apoiadas e assim eles sustentavam o peso do corpo. Mas às vezes eles se desequilibravam, por isso era bom deixá-los dentro do cercado e ficar por perto. Assim, se caíssem para frente, não se machucariam. Com o passar dos dias, as quedas foram ficando menos freqüentes, era como se o cérebro deles registrasse que não poderiam tirar as duas mãos ao mesmo tempo!
Como um pai que leu vários livros sobre bebês, constatei que a coordenação motora deles era normal (graças a Deus!) e me emocionei quando os vi batendo palmas (de um jeitinho bem desengonçado) pela primeira vez. Em pouco tempo a nossa casa se encheu de barulho, o barulhinho de meus pequenos, batendo com a colher no pratinho deles e rindo à toa com isso. Também descobri que eles aprenderam a pular, bem pouquinho, mas pulavam quando eu os colocava em pé no sofá e os segurava. Quando cansavam as perninhas, já sentavam sem apoio algum e mexiam no primeiro objeto que viam pela frente. Descobri que os controles remoto da TV, do DVD e do som possuíam uma certa aerodinâmica toda vez que meus bebês os jogavam ao chão.
Mas a dentição era uma coisa que mexia com o humor e o apetite deles, deixando-os babando muito e irritados. Assim eles despejavam suas inquietações em meia dúzia de mordedores de plástico, babando litros sobre eles!
As brincadeiras estavam ficando mais animadas e eu confesso que usava isso para me desviar de Bella... Os gêmeos adoravam brincar de esconde-esconde comigo, se eu escondesse o rosto nas mãos, me escondesse atrás do sofá, ou ainda escondesse um brinquedinho embaixo de uma fralda de pano e os deixasse procurá-lo, o nível de alegria e entretenimento de meus pequenos era enorme.
Eles sorriam, eu sorria, mas Bella não entrava na nossa brincadeira. Às vezes eu sentia seu olhar queimando minhas costas e procurava por ele, achando um par de chocolates cansados e ressentidos sobre mim.
Tudo parecia bem até chegar Abril.
Por dias e dias eu levei essa situação toda na valsa, achando que aos poucos eu iria ajudá-la a superar o ciúme bobo que se instalou naquela cabecinha teimosa. Fracassei. Com as provas da faculdade chegando e a perspectiva de fecharmos um bom negócio com importantes clientes do banco, a minha cabeça estava a mil por hora e faltava paciência para os assuntos domésticos.
Mas eu só estava colocando a sujeira embaixo do tapete.
Desisti de tentar entendê-la, essa obsessão estava acabando com os meus nervos, já que Bella passou a chorar por tudo. Então o abismo entre nós foi ficando maior e mais escuro, na verdade havia um Himalaia entre a gente e de repente, a cama parecia um deserto frio e espinhento. Quase todas as noites eu me mexia e remexia até encontrar uma posição para dormir, sentia falta dos carinhos e do corpo quente de minha esposa, parecia que eu estava deitado sobre gravetos secos de abetos. Mas toda vez que eu baixava a guarda, Bella queria conversar sobre ‘Tanya’, o assunto tabu entre nós, eu fechava a cara e deliberadamente me recusava a falar daquela mulher irritante.
Na minha cabeça de homem das cavernas pragmático e teimoso, eu achava que minha esposa iria esquecer o assunto, por isso o meu lema era negar fervorosamente. Entretanto, a estratégia que eu vi como a luz no fim do túnel se converteu no desfiladeiro íngreme e traiçoeiro que nos afastou e quase acabou conosco. Por ter fracassado, eu fiz questão de deixar claro para ela que a culpa era dela, mas na verdade eu estava mentindo porque quando parava para pensar em Bella, eu me culpava e me sentia fazendo uma coisa imperdoável.
Tanya era irrelevante para mim. Sim, ela não passava de uma mulher inteligente, audaciosa, bonita e convencida. O fato de ela ser minha chefe pesava muito em meu casamento e se eu fosse admitir para Bella que aquela mulher vivia me assediando, a paz em nosso relacionamento chegaria ao fim. Em minha mente eu pesava os prós e os contras. Bella queria e merecia a verdade, ela sabia que eu estava mentindo, ou na melhor das hipóteses, omitindo fatos. Por outro lado, de que adiantaria eu dizer a verdade? Eu não queria e nem poderia sair do banco. Onde, em Forks, eu conseguiria um emprego melhor que aquele? Além do mais, eu batalhei muito para chegar aonde cheguei, minha carreira como Gestor de Negócios estava em ascensão. Dizer a verdade serviria somente para que Bella passasse oito horas por dia se consumindo em ciúmes infundados.
Sim, os ciúmes eram infundados porque Tanya não exercia nenhum sex appeal sobre mim, porque o banco era meu ambiente de trabalho e eu não sou um cafajeste, porque eu amo os meus filhos e jamais daria um mau exemplo a eles e, principalmente, porque eu amo minha esposa. Quando eu enumerei para Bella todos esses pontos, ela não se contentou.
- Esse não é ponto principal, Edward! – ela já chorava – Aquela mulher está dando em cima de você descaradamente! – ela afundou um dedo em meu peito – E descaradamente ela desfila com você pra cima e pra baixo nessa cidade, exibindo você como... como se você um troféu...
Ela estava relembrando o incidente de alguns dias atrás quando eu liguei avisando que não viria almoçar em casa porque eu e Tanya iríamos nos encontrar com dois clientes no restaurante da Martha. Um casal de espanhóis estava abrindo uma boate em Port Angeles e contava com o apoio financeiro do banco para poder tocar o empreendimento pra frente. Quando eu Tanya estávamos saindo do restaurante, o carro de Bella dobrou a esquina. De longe vi minha esposa franzir a testa e juntar as sobrancelhas, ela parou o carro e cumprimentou Tanya com um ‘oi’ muito seco. Ela estava indo para La Push com os meninos e a babá, passariam a tarde lá na casa de Emily. Aquilo não foi um flagra, mas foi ruim e piorou a minha situação com ela.
- Não seja ridícula, Bella! Nós fomos nos encontrar com clientes! – falei exasperado e já farto daquela discussão - Além do mais, eu não sou um objeto. Sem contar que a relação entre nós é estritamente profissional e...
- Pois então alguém se esqueceu de avisar isso para aquela vadia! – o tom de voz de Bella estava me irritando.
- Bella, por favor! – eu implorava – Tanya namora o Dr. Molina, não ponha idéias malucas na cabeça.
- Idéias malucas? O fato de ela namorar fulano ou beltrano não a impede que querer dar pra você! – Bella cruzou os braços.
- Ok, Isabella, você venceu. Eu desisto.
Ficamos em silêncio e nos encarando, medindo forças por vários e vários minutos. Uma solidão mesquinha e sufocante me invadiu, mesmo encarando a mulher da minha vida, eu me sentia sozinho e vazio.
- Ah! Eu odeio isso... odeio tudo isso... – ela sussurrou.
Ela sentou no sofá, chorando silenciosamente. Aquilo era de partir o coração, mas ao mesmo tempo era bastante estressante. Aquela beligerância toda era nova para nós e parecia ácido corroendo minhas entranhas. As lágrimas de minha esposa brilhavam diante de mim, eram como pequenos e mesquinhos diamantes. Diamantes malditos, pequenas munições que enchiam o rio que nos dividia em dois campos de batalha distintos. Não agüentei a pressão, bati a porta atrás de mim e sai sem destino, era uma tarde sábado e eu fui parar no Triftway, comprei um monte de comida e voltei para casa perto da hora do jantar.
A sopa devia estar gostosa, mas não senti gosto algum, abria e fechava a boca mecanicamente. Depois eu a ajudei a limpar a cozinha, brinquei um pouquinho com os meninos e fomos dormir.
No domingo eu acordei muito cedo e deixei um bilhetinho pra ela na cama dizendo que tinha ido correr na praça. Eu precisava de ar puro, meus pulmões pareciam que ia se fechar ali dentro de casa. No começo meu ritmo era normal, mas depois me forcei a correr como um maluco, suando e respirando aos arquejos. Corri, corri muito, corri até a exaustão completa de meu corpo e só parei quando senti minhas pernas tremerem. Parecia que aquela corrida era uma penitência, eu queria descontar em meu corpo a dor que corroia minha alma.
De volta e completamente suado, entrei em casa pela porta dos fundos e passei direto para o banheiro, tomei uma ducha revigorante e fui trocar de roupa. Entrei na ponta dos pés para não acordá-la, mas Bella estava deitada no meu lado da cama e segurava o bilhetinho que eu havia deixado. Ela não me encarou e já estava chorando àquela hora da manhã.
‘Puta que pariu’, praguejei em pensamento.
Receoso, fiquei num dilema entre me aproximar ou não dela. Mas o amor falou mais alto, sentei na pontinha da cama e afaguei seus cabelos, me curvei e beijei sua testa. Ela me fitou, nossos olhares se encontraram e tudo o que vi ali foi o reflexo de meu rosto. Sim, eu só conseguia ver a mim mesmo, estava cego, egocêntrico! Mas havia tristeza e desesperança ali também.
- Vamos tentar ter um dia mais calmo hoje, sim? – falei para minha esposa, tratando-a como se fosse uma filha de três anos de idade.
- Como se a culpa fosse minha... – ela sussurrou e fechou os olhos.
O domingo foi longo, assim como os outros dias.
Quando eu e Bella não estávamos brigando, cuidávamos dos meninos, fazíamos cara de paisagem para os vizinhos, a babá, o faxineiro... Eu não queria expor nossos problemas, mas Bella sufocava seus dilemas.
Ela não queria mais fazer amor comigo. Eu sabia que a culpa era minha, mas tinha medo de tentar e ser rejeitado...
Enquanto estava na copa do banco e me servia de uma xícara de café, pensava nela, no quanto a amava e no quanto a estava machucando.
- Porra! – praguejei baixinho quando bebi um gole de café fumegante e queimei a língua.
Irritado, deixei o café de lado e fiquei pensando em meus problemas, olhei para o relógio e me lembrei da reunião que Tanya havia marcado. Menos de cinco minutos depois, ela nos enchia de novidades e tarefas. Apoiada sobre sua mesa de escritório, Tanya me fazia lembrar um escorpião, alta e esguia, pronta para atacar. Entretanto, o trabalho vinha em primeiro lugar, eu estava cego e ambicioso, pois o empréstimo aos espanhóis iria nos render uma gorda comissão. Por isso, não me importei com seus olhares felinos e insaciados para cima de mim, não me importei com as manobras que ela sempre fazia para que ficássemos a sós. Eu agia errado e me confiava no fato de amar a minha esposa e saber que nunca iria traí-la, mas eu estava dando brechas para o inimigo... E Tanya sabia aproveitar essas oportunidades!
O plano agora era que Samuel, Donna e Mark iriam no dia seguinte visitar a empresa de celulose e papel e fazer uma palestra para seus diretores sobre os serviços do banco. Já eu e Tanya iríamos a Port Angeles no dia seguinte jantarmos com os espanhóis e tentar fechar de uma vez por todas o contrato de empréstimo.
O jantar seria numa quinta-feira e eu perderia aula.
Enfrentar Bella e ter de lhe explicar que o jantar tinha sido proposto pelos espanhóis foi mais fácil do que eu imaginei. Eu esperava encontrar uma grande discussão, mas tudo o que havia ali era cansaço e dor. Os olhos dela estavam insondáveis e impassíveis e sua estratégica indiferença mexeu comigo. De repente me vi reclamando que a camisa que eu havia escolhido usar estava amassada e comecei a praguejar baixinho enquanto escolhia outra peça de roupa. Bella pegou a camisa e saiu do quarto, voltou cinco minutos depois com a camisa passada e a estendeu para mim. Minha ira cresceu ao perceber que ela se retraiu para os limites de si mesma, me ignorando por completo. Eu podia sentir seus olhos castanhos sobre mim, me reprovando, me condenando, me fitando como se eu fosse um monstro horrível, um furacão que varreu sua vida. Calmo e cheio de mim, eu me sentia capaz de encará-la e subjugá-la como o perfeito imbecil que fui naqueles dias.
Minha boca se contorceu numa careta quando os meninos começaram a chorar e ela saiu da minha presença sem mais nem menos. Quando terminei de me vestir, fui ao quarto deles, beijei cada filho e beijei a testa de uma esposa distante, murmurei um ‘até daqui a pouco’ e sai pisando firme, me sentindo ‘o tal’, indo para um importante jantar de negócios.
Cerca de uma hora depois eu já estava em Port Angeles e sentado numa mesa do Bella Italia com o casal de espanhóis, mas Tanya ainda não havia chegado. Pedimos um coquetel de frutas e finalmente ela chegou usando um elegante vestido prata e uma coisa, um tipo de echarpe de pele que mais parecia um guaxinim morto sobre seus ombros.
Rapidamente ela manobrou a conversa para os negócios, fizemos os pedidos da comida e o casal de espanhóis foi dançar na pequena pista de dança. Uma tensão violenta assaltou nossa mesa, Tanya me olhava com olhares estranhos, talvez ela quisesse dançar, mas eu não seria o cara para isso. A tensão virou desespero para mim eu não via a hora de sair dali, mas ela percebeu minha aflição e seus lábios sorriram com deboche.
- Como vão Isabella e os meninos? – ela perguntou.
Uma saudade sem limites me fez estremecer com a simples menção de minha família. Mas a saudade também me feria porque eu sabia que estava ferindo minha esposa, minha vida, Bella. E eu pedia a Deus não perdê-la para sempre.
- Bem. – falei sem olhar em seus olhos.
- Bem mesmo? – ela tocou em minha mão que estava sobre a mesa, rapidamente me esquivei de seu toque – Você sabe que entre nós não pode haver barreiras, não é? Se você tiver passando por algum problema, não hesite em me procurar.
Eu apenas assenti e percebi que aquelas palavras ficavam totalmente deslocadas naquela boca astuta. Saímos de Port Angeles com o negócio fechado com os espanhóis e nos despedimos deles no estacionamento do restaurante. Uma rajada de vento fez Tanya estremecer, aquele bicho morto sobre ela não aquecia seus braços. Outro vento frio a fez bater os dentes, tirei meu casaco e lhe ofereci durante o curto trajeto até seu carro.
Meia hora depois eu dirigia tranquilamente para casa, feliz por já termos aquele contrato assegurado. Mas me lembrei de um importante detalhe e dei uma tapa na minha testa, já estava no meio do caminho para Forks quando percebi que o casaco tinha ido com Tanya.
- Caralho! – praguejei em alto e bom som, já imaginando o circo que Bella ia armar quando soubesse.
Por sorte ela já estava deitada quando cheguei e fingia dormir. Tomei um banho, vesti a calça de moletom e peguei no sono rapidamente. No outro dia quando voltei para casa na hora do almoço, trouxe o casaco de veludo preto que havia emprestado a Tanya e o coloquei no balde de roupas sujas na área de serviço (aproveitei a oportunidade de Sidclayton estar lavando roupa).
Almocei sozinho, Bella estava cuidando dos meninos e me dando um gelo enorme. Eu ainda estava na mesa quando ela passou por mim, foi até a área de serviço e voltou como um raio, soltando fogo pelo nariz. O casaco voou em mil pedacinhos pelo chão da cozinha e eu tomei um susto ao vê-la cortando a peça de roupa com uma tesoura.
- Isso é o que eu faço com todas as roupas que aquela vadia, puta, safada usar! – ela falava baixo – Não seja tão desaforado a este ponto, Edward!
- Do que você tá falando, Bella? – me levantei irritado.
- Disso aqui! – ela jogou uma coisa sobre a mesa, era um par de brincos – Esse caralho não é meu! Então me diga, Edward, o que os brincos de Tanya estão fazendo no bolso de seu casaco?! Hein?!
- Bella, isso não quer dizer que Tanya usou o casaco. – eu ainda estava naquela de negar.
- Não insulte minha inteligência, Edward! – ela elevou o tom de voz e mostrou a mim vários fios de cabelos loiros que tinham ficado enganchados no tecido do casaco.
Respirei fundo, fechei os olhos e segurei a ponte do nariz pra ver se tentava me acalmar.
- Algumas pessoas procuram preencher seus dias desocupados construindo castelos de areia, mas outras inventam problemas... – sussurrei – Você anda muito ociosa, Bella, talvez esteja assistindo muita novela mexicana e já está vendo problemas onde não existem.
- Edward Cullen, - ela sussurrou e rosnou – fique você sabendo que meus dias não são ociosos. Somente hoje eu troquei três fraldas sujas de merda fedida de cada filho seu, sim, eles estão com diarréia porque os dentinhos estão nascendo e cortei as quarenta unhas deles. Sem contar que eles acordaram com fastio e enjoados, não quiseram saber de outra pessoa que não fosse eu. Não venha você me dizer que eu procuro problemas, eu simplesmente não me escondo deles, porque eu sei que isso está fudendo com a gente... Agora eu só fico me perguntando quando o todo poderoso aqui – ela afundou o dedo em meu peito – vai acordar e ver a merda que ele mesmo tá fazendo e se chafurdando nela como um porco. – ela já chorava - O pior, é que a merda é sua, mas você me leva também...
Irado, falei o que me veio à cabeça e foi uma grande besteira, talvez a pior de todas.
- Sinta-se à vontade para sair do chiqueiro.
A mistura da minha voz fria e cortante como o poder afiado das palavras a fez recuar e dar um passo para trás. O rosto dela ficou pálido e quando ela se inclinou mais, escorou o corpo na parede. Ela tremia.
- Você... – ela soluçou – Você... – ela fechou os olhos e puxou o ar – Você sabe que eu não posso fazer isso...
- Bella... amor... – falei aflito – Eu... eu lamento, Bella... – falei angustiado e tentei tocar em seu braço.
Ela se desvencilhou de meu toque e se encolheu mais contra a parede.
- Não lamente... – seu sussurro me fez gelar – Por Deus, não lamente...
Rapidamente Bella correu até o quarto, eu me apressei em segui-la, mas ela foi mais rápida e trancou a porta. Estressado, eu esmurrei a porta.
- Abra essa porta, Bella!
- NÃO! – ela gritou.
- ABRA! – gritei de volta.
- NÃO!
- Bella, eu...
Eu queria me desculpar, queria dizer que sentia muito por ter dito aquilo e por estar fazendo tanta coisa ruim para nós. Há muito tempo eu me sentia péssimo, horrível. Ela estava certa, aquela prepotência toda estava me deformando, o pior é que fui idiota, achando que aquela estratégia nada habilidosa cessaria seus ataques. Mas por não conseguir entendê-la, eu encarava todas as suas ações como premeditadas, frutos de uma mulher insegura e birrenta. Por não compreender seu amor feroz e incondicional sobre mim, não fui capaz de enxergar seu medo de me perder. Seu amor suave e verdadeiro tinha sido tudo o que nos sustentou naqueles dias terríveis.
- Por favor, Edward vá... – ela choramingou – Eu não agüento...
Irado, arrependido e rejeitado, sai dali a passos largos, na minha boca havia um gosto de derrota e auto-piedade. Sim! Eu ainda tive a coragem (ou a falta dela) de me fazer de vítima. O orgulho estava deixando marcas profundas em mim, com ousadia e altivez disquei o número de casa, o faxineiro atendeu ao primeiro toque.
- Sidclayton, por favor, diga à minha esposa que mais tarde eu irei a uma comemoração de aniversário de um colega daqui do banco em Port Angeles.
- Sim, senhor.
Desliguei e segui para o banco, tive uma tarde infernal, mas por sorte eu não vi Tanya na minha frente já que ela passou a tarde numa reunião com Harry. Com os nervos em frangalhos, se eu visse aquela Barbie dos infernos sorrindo e se insinuando para mim, eu torceria seu pescoço com prazer. Quando o expediente acabou, eu peguei a estrada, dirigindo sem direção alguma. Fui parar em Port Angeles mesmo, na orla marítima, entrei num pub chamado Scotland Yard, tudo o que eu queria era encher a cara.
...............................................................
POV BELLA
- Admita, Edward, sua chefe está dando em cima de você.
Estávamos jantando no domingo, um dia após o almoço na casa da piriguete. Aquela era a segunda vez que eu abordava o assunto, ele fechou a cara na mesma hora.
- Não pense bobagens, Bella. – ele se levantou, beijou minha testa e tirou o prato da mesa.
Argh! Eu odiava o fato de ele se esquivar do assunto, pois tinha certeza que aquilo não era bobagem. Coloquei a louça na máquina, ele me ajudou a arrumar a cozinha e beijou minha testa de novo, me abraçando logo em seguida.
- Eu te amo, minha princesa. – ele me deu um selinho – Preciso subir agora, amanhã terei um trabalho de Marketing para entregar.
- Ok. Mas você vai descer cedo, não é? – de repente me senti uma esposa carente e insegura, odiei.
- Vou, me espere acordada. – ele falou sugestivamente e sorriu torto.
Então ele me deu as costas e seguiu graciosamente, subindo as escadas até o sótão. Suspirei resignada e ainda fiquei alguns minutos ali na cozinha, mas por sorte consegui não entrar em pânico, embora já estivesse com falta de ar. Eu tinha que aprender a lidar com isso, eu me cobrava, mas ao mesmo tempo cobrava de Edward a verdade.
As barricadas que começamos a erguer naqueles dias só eram esquecidas quando estávamos na cama nos amando. Ali éramos apenas um casal buscando prazer e tentando esquecer os problemas, mas quando o pior Abril de minha vida chegou, esquecemos também de nos amar, foi horrível.
Enquanto ainda era Março, fizemos o que pudemos para escapar do pior. Edward não descuidou um só minuto de seu papel de bom pai e chefe de família responsável, eu nunca deixava nada bagunçado e me comportava como uma dona de casa exemplar. Entretanto a neblina tomou conta de meus dias, me fazendo chorar pelos cantos da casa, confusa e reprimida. Quem olhasse de fora diria que eu não lutei contra a neblina, mas eu fiz o possível para sair dela.
Edward não me ajudou.
Num final de manhã, ele me ligou dizendo que não iria almoçar em casa porque ele e sua chefe almoçariam com um casal de clientes no restaurante da Marta. Resignada, almocei em companhia de Jenny, dei a papinha dos meninos e resolvi visitar minha amiga Emily em La Push. Já era Abril e o sol brilhava firme no céu. Enchi a mala do carro com as bolsas dos meninos e o carrinho e seguimos para a reserva indígena, mas ao dobrar a esquina, meu coração parou, perdeu várias batidas e voltou a bater com tudo.
Meu marido abria a porta do restaurante, segurando-a para Tanya Denalli passar, ela sorriu, se derretendo para ele. Meu sangue ferveu na hora e eu tive vontade de buzinar estridentemente para eles, mas aquilo iria assustar os meus filhos que ressonavam tranquilamente em suas cadeirinhas. Tentando me controlar, parei o carro e cumprimentei a vadia rapidamente enquanto meu marido se inclinava um pouco e beijava levemente os meus lábios. Disse-lhe que estava indo para La Push e que voltaria no fim da tarde.
Aquela cena estava errada, não a cena, mas a protagonista. Ele deveria abrir a porta para mim e eu deveria sorrir para ele! Sim, aquilo estava muito errado! Eu tentei me controlar e ser razoável. No centro da cidade o sinal de trânsito nos fez parar, inspirei profundamente e fechei os olhos por alguns segundos, mas foi tempo suficiente para a minha mente ser assaltada pelos olhos da medusa de meu pesadelo.
‘Isso seria a pior coisa a me acontecer’, meu corpo tremeu da cabeça aos pés. O sinal de trânsito abriu, eu nos tirei dali e estacionei o carro em frente à farmácia. Jenny percebeu me estado e saiu do carro, foi até a farmácia e trouxe com ela o Sr. Ross, o farmacêutico. Ele abriu a porta do carro, se ajoelhou diante de mim e checou meus pulsos, depois verificou minha pressão. Perguntou se eu havia me alimentado bem, se estava tonta, se havia a possibilidade de estar grávida...
Eu balançava a cabeça, negando ou assentindo, mas não dizia nada. Ele disse que aquilo poderia ser estresse e dessa vez quem assentiu fervorosamente foi Jenny. Eu tomei um copo com água e molhei meu rosto, Jenny assumiu a direção e seguimos para La Push.
Ainda tonta, eu me sentia numa corda bamba, tropeçando numa frágil ponte sobre o precipício mais alto de minha vida. Eu não queria pensar nisso, eu queria desabafar, conversar com Alice, com Rose... Peguei o celular prateado e fiquei olhando pra ele... Quanta saudade das minhas amigas! Mas sabia que só poderia ligar para elas num caso de extrema urgência.
A tarde na praia passou lerda, embora o céu estivesse lindo e nos convidasse para um lindo passeio. Fiz de tudo para interagir com Emily e devo ter fingido bem, brincamos de nossos bebês, tiramos fotos deles e sorrimos com eles.
Claire sujou a fralda, então Emily precisou voltar para casa por alguns minutos, deixei os meninos no carrinho com a babá, tirei o tênis e me pus a caminhar pela beira da praia, deixando que a água fria do Pacífico molhasse meus pés.
Eu precisava ficar sozinha com a minha dor e me assustei com a sua intensidade quando me vi com falta de ar. Parei de andar e fiquei contemplando as ondas do mar. Havia um buraco assustador em meu peito, eu me sentia oca, sem coração, sem pulmões, eu estava em trapos, sangrando por dentro. Minha cabeça rodava sempre me mostrando a imagem de Edward abrindo a porta do restaurante para Tanya e ela sorrindo para ele.
Muito mais do que a porta de um restaurante, Edward havia aberto a porta de nossas vidas para ela.
Avistei o tronco de uma imensa árvore e me sentei ali, abraçando meus joelhos, tentando me refazer e recolhendo os pedacinhos de mim que deixei pelo caminho. Eu procurei em minha mente e em meu coração pelas certezas de Edward em minha vida, certezas de seu bom caráter, sua fidelidade, seu compromisso, seu amor... Varri minha mente me lembrando do dia de nosso casamento, os votos que fizemos diante do pastor, o dia em que ele me pediu em casamento, o anel de compromisso Toi Et Moi, o dia em que fizemos amor pela primeira vez, o dia que ele me pediu em namoro...
Lágrimas silenciosas me acompanhavam, ao longe (não muito longe) eu escutei o riso harmonioso de meus bebês. Aquele som maravilhoso me acordou. E mesmo entorpecida, eu sabia que iria sobreviver, eu sentia dor, mas o instinto maternal me deixava em alerta, me dando forças suficientes para não morrer.
Emily voltou, engoli o choro e assim a tarde passou. Já de volta a Forks, eu estacionava o carro na frente de casa e pela primeira vez, depois da morte de nossos pais, eu não sabia o que seria de mim e de Edward.
Dois estranhos.
Por dias e dias a rotina era a mesma. Quando Edward estava assistindo suas aulas, eu ligava a TV, me sentava no sofá, flexionava as pernas e me abraçava, pousando o queixo nos joelhos. Eu via tudo, mas não processava nada do telejornal, do filme ou qualquer outra coisa. Uma certa vez, uma mão fria me tocou.
- Não sabia que você gostava de assistir corridas de cavalos. – ele falou.
Eu me levantei e senti minhas pernas formigarem, também percebi que fiquei com torcicolo devido à má postura de meu corpo. Fui direto para o banheiro, ele já estava lá escovando os dentes, tomei duas aspirinas, bebi um pouco de água, vesti um pijama e deitei na cama, querendo esquecer tudo.
Senti o colchão afundar um pouco, Edward deitou, aproximou seu corpo do meu e eu fingi já estar dormindo, mas ele sabia que era mentira. Senti seus lábios em minha bochecha e sua mão percorrer delicadamente a lateral de meu corpo, parando sobre minha coxa. Ele me queria, eu também o queria, mas tava difícil... Por mais que eu o amasse e o desejasse, por mais que eu quisesse deixá-lo possuir, amar e gozar no corpo que sempre foi dele, eu não conseguia me entregar...
A conseqüência disso é que eu me deparei com um Edward mal humorado quase todos os dias. Sua rotina era sentar-se à mesa para comer, conversar com os filhos, murmurar um ‘até logo’ e sair de minha presença. Numa das vezes, depois do almoço, ele se despediu e saiu. Eu corri até a varanda, queria me jogar em seus braços, abraçá-lo e pedir que me beijasse, mas eu cheguei tarde demais. Ele já havia arrancado com a pick-up e eu me vi sozinha no jardim, vendo-o se afastando. Fiquei ali em pé e sem me mexer, começou a chover, mas eu não notei logo, eu estava esperando que meu Edward voltasse e só quando os pingos da chuva começaram a se misturar com minhas lágrimas, eu entrei.
Mais que droga! Eu me debatia em pensamentos enquanto enxugava os cabelos e trocava de roupa. Por que meu Deus, por que tudo isso? Revoltada, peguei um frasco de perfume e quando já me preparava para jogá-lo contra o imenso espelho do banheiro, tremi ao ver a imagem do espelho.
Aquela não era eu. Aquela não era Isabella Marie Swan Cullen. Eu olhava para uma jovem pálida e descabelada, cansada e sem esperanças. Aproximei meu corpo do espelho e olhei em meus olhos, procurei e achei uma luzinha fraca, era um fiozinho de esperança.
Decidi que naquela noite, quando Edward chegasse, ele encontraria uma Isabella diferente. Preparei uma comidinha gostosa para nós e desejei que tivéssemos um jantar agradável.
Para meu total desespero, ele chegou dizendo que iria jantar fora com sua chefe e um casal de clientes. Senti meu sangue chegar aos pés. Não disse nada, não reclamei, eu estava exausta. Ele parecia irritado, reclamou que uma camisa estava amassada e para não brigar com ele, peguei a peça de roupa, fui à área de serviço e passei ferro nela. Preso em seu mundo, Edward nem notou quando sai do quarto e fui amamentar os meninos. Depois ele entrou lá e se despediu de nós.
Aquela foi uma longa noite.
Depois que os meninos dormiram, fiquei na sala vendo TV e devo ter cochilado. Acordei com o barulho do carro e uma luzinha fraca do farol, levantei, vi que passava das onze horas, abri um pouco a cortina e vi Edward estacionando o carro. Marchei para o quarto, me deitei e puxei as cobertas, eu não queria brigar, por isso fingi estar dormindo.
Na sexta-feira quando acordei ele já não estava na cama, quando cheguei à cozinha, ele comia cereais numa tigela. Murmuramos um ‘bom dia’, ele se explicou dizendo que chegaria ao banco mais cedo para formalizar um contrato e se despediu de mim. Disposta a cuidar das flores do jardim, decido não cozinhar o almoço, a gente iria comer S.O. (sobras de ontem) mesmo. Mas não tive tempo de cuidar dos canteiros, porque os meninos acordaram sem apetite e com diarréia. O pediatra já havia me alertado para esse tipo de problema quando os dentinhos começassem a nascer.
Paciente, fiquei cuidando de meus filhotes e só não fiquei muito aflita porque eles mamaram bem por volta das onze horas. Vendo uma melhora no humor deles, eu os levei para a varanda dos fundos e fiquei mostrando a eles as árvores de nosso jardim e da pequena floresta que havia logo atrás.
Edward chegou para o almoço e, quebrando os próprios protocolos, entrou em casa pela porta cozinha. Ele travou quando me viu ali e tentou esconder (sem muito sucesso) seu casaco de veludo preto. Na hora, eu não dei importância ao fato, levei os meninos para o quarto e os deixei com a babá. Fiz o caminho de volta, servi o almoço de Edward e me escorei na bancada da cozinha, olhando para ele. O silêncio era medonho, eu já ia dizer alguma coisa quando os meninos choraram e eu me lembrei que eles estavam super manhosos naquela manhã.
Enquanto ninava meus filhos, lembrei que Edward não havia saída naquela manhã com o casaco preto, ofeguei quando me dei conta que ele o havia usado na noite anterior. Com cuidado, Jenny me ajudou a colocar os bebês no berço e eu pedi que ela ficasse lá com eles. Fui ao meu quarto e peguei uma tesoura, fora de mim, eu passei voando pela casa, atravessei a sala de jantar, cheguei à área de serviço onde Sid passava roupas e peguei o maldito casaco.
Cheirei a peça de roupa, aquele perfume doce e feminino não era o de Edward, corri meus olhos e vi vários frios de cabelos loiros presos à trama do tecido. Sacudi o casaco e caíram dele dois parem de brincos que não eram meus. Quando Sid viu minha cara e viu a tesoura em minhas mãos, arregalou os olhos e se apavorou.
- Pelo amor de Deus, Sra. Fields... – ele sussurrou.
Fiz sinal para ele, pedindo-o que não se metesse, ele apenas assentiu. Entrei na sala de jantar pisando duro no chão.
- Isso é o que eu faço com todas as roupas que aquela vadia, puta, safada usar! – sussurrei pois não queria platéia para nós – Não seja tão desaforado a este ponto, Edward!
- Isso é o que eu faço com todas as roupas que aquela vadia, puta, safada usar! – sussurrei pois não queria platéia para nós – Não seja tão desaforado a este ponto, Edward!
- Do que você tá falando, Bella? – ele parecia irritado.
- Disso aqui! – joguei o par de brincos sobre a mesa – Esse caralho não é meu! Então me diga, Edward, o que os brincos de Tanya estão fazendo no bolso de seu casaco?! Hein?!
- Bella, isso não quer dizer que Tanya usou o casaco...
‘Puta que pariu! Ele ainda pretende negar?’ Pensei irritada.
- Não insulte minha inteligência, Edward! – falei mais alto e lhe mostrei os fios de cabelos loiros que achei no tecido do casaco.
Ele demorou para responder.
- Algumas pessoas procuram preencher seus dias desocupados construindo castelos de areia, mas outras inventam problemas! Você anda muito ociosa, Bella, talvez esteja assistindo muita novela mexicana e já está vendo problemas onde não existem.
Vi tudo vermelho na minha frente! Como... como ele ousa dizer uma coisa dessas?!
- Edward Cullen, - no calor do momento deixei escapar o sobrenome – fique você sabendo que meus dias não são ociosos. Somente hoje eu troquei três fraldas sujas de merda fedida de cada filho seu, sim, eles estão com diarréia porque os dentinhos estão nascendo e cortei as quarenta unhas deles. Sem contar que eles acordaram com fastio e enjoados, não quiseram saber de outra pessoa que não fosse eu. Não venha você me dizer que eu procuro problemas, eu simplesmente não me escondo deles, porque eu sei que isso está fudendo com a gente... Agora eu só fico me perguntando quando o todo poderoso aqui – apontei para ele - vai acordar e ver a merda que ele mesmo tá fazendo e se chafurdando nela como um porco. O pior, é que a merda é sua, mas você me leva também...
Eu já chorava muito.
- Sinta-se à vontade para sair do chiqueiro. – ele disse as palavras lenta e precisamente, seus olhos ficaram frios, medindo meu rosto, observando o estrago de suas palavras.
Sua fria resposta me confundiu. Cambaleante, eu dei alguns passos para trás e me encostei à parede. Balancei a cabeça várias vezes tentando clarear as idéias, meu corpo tremia à medida que eu absorvia as infames palavras. Sair? Sair de casa? Sair de sua vida?
Eu não podia fazer isso! Não enquanto existia uma organização criminosa querendo minha cabeça, não porque seria arriscado para os meus filhos, não porque eu não tinha como me sustentar, não porque... porque eu o amava...
- Você... – reencontrei minha voz – Você... – fechei os olhos – Você sabe que eu não posso fazer isso...
- Bella... amor... – ele estava aflito – Eu... eu lamento, Bella...
- Não lamente... Por Deus, não lamente... – sussurrei.
A dor corria em minhas veias, parecia que eu ia desmaiar, fugi dele e me escondi no quarto, trancando a porta por dentro.
- Abra essa porta, Bella! – sua voz estressada me irritou.
- NÃO!
- ABRA! – ele gritou.
- NÃO!
- Bella, eu...
- Por favor, Edward vá... – implorei – Eu não agüento...
Meus joelhos fraquejaram e eu fui escorregando, encostada à parede, devo ter começado a tremer e a ficar tonta porque os móveis do quarto começaram a girar ao meu redor. O sangue martelava em minhas veias, a cabeça latejava e as lágrimas me banhavam. Longe, muito longe, ouvi alguém batendo na porta e chamando ‘Sra. Fields?’, mas ouvi outra pessoa dizendo ‘vamos dar um tempo à ela’.
Meu corpo foi escorregando mais e mais e aos poucos fui sentindo o chão tocar minha pele, meu nariz sentiu o cheiro da cera que lustrava o linóleo do piso do meu quarto. Eu queria morrer, ou até mesmo desmaiar e só acordar dali a mil anos, mas continuei consciente. Ondas de dor faziam meu corpo tremer, me afogando e testando meus pulmões. Então eu afundei na minha desilusão. Fiquei ali por não sei quanto tempo e me vi consciente de todos os sons ao meu redor. O tique do relógio, uma buzina de carro lá fora, o telefone tocando...
Despertei aturdida e me levantei vacilante quando a babá eletrônica repetiu o choro de meus filhos. Trôpega, ajeitei meus cabelos, desamassei minhas roupas e abri a porta do quarto.
‘Se nada mais me restar nessa vida, eu ainda tenho que seguir em frente por Anthony e por Thomas’, pensei enquanto caminhava.
Jenny estava no quarto e me ajudou a amamentar os meninos, depois demos banho neles e vestimos roupinhas limpas. A babá me olhava com preocupação e disse que Sid já havia ido embora. Ele me deixou um recado de Edward que dizia não chegar cedo para o jantar já que teria uma comemoração de aniversário para ir.
‘Isso deve ser mais uma mentira’, pensei.
- Sid deixou outro recado, senhora. – olhei para ela sem entender.
- Ele mandou dizer que a senhora é uma pessoa maravilhosa e que gosta muito da senhora. – ela fez uma pausa – Faço minhas as palavras dele. – ela sussurrou e eu me debulhei em lágrimas.
Jenny se sentou ao meu lado e me abraçou, tentando me consolar. Para evitar que os meninos se assustassem, reprimi o choro e fomos para a cozinha. Ela fez chá de camomila para mim e fez o jantar (lasanha congelada)! Graças a Deus a babá me fez companhia até quase sete da noite, me despedi dela e agradeci sua atenção. Por volta das oito horas, os meninos foram dormir e eu me sentei na frente da TV para assistir uma estúpida comédia.
O choro me fez ir ao quarto. Enquanto Anthony se entregava ao sono dos justos, Thomas choramingava irritado, eu o tirei do berço e o levei para sala. Na hora imaginei que era fome porque antes de dormir eles mamaram, mas Thomas mamou pouco. Ofereci-lhe o seio e ele sugou com força uma duas vezes, mas depois ele empurrou o peito e não quis mais mamar. Aninhei meu bebê em meu colo e o ninei novamente, voltei ao quarto e o deixei lá.
Meia hora depois o choro ficou mais intenso, eu me apressei para que Thomas não acordasse Anthony e quando peguei meu bebê nos braços, ofeguei e me assustei. Febre. Muita febre.
Aturdida, sozinha, sem saber direito o que fazer e me deparando com a primeira febre de um filho, eu peguei o termômetro dentro da caixinha de remédios e sai do quarto com Thomas se acabando de chorar em meus braços. Meus olhos já estavam marejados, eu sabia que meu filho estava sentindo alguma dor.
- Onde ta doendo, bebê? – sussurrei.
Deus mandou Thomas fazer aquilo! Meu pequeno se contorceu em meus braços e mexeu na orelhinha esquerda. Tive um insight. Otite! Otite?!
Enquanto ninava Thomas e esperava que o termômetro lesse a temperatura, enumerei fatos na minha cabeça. Há uma semana os dois bebês estavam um pouquinho resfriados, mas foi coisa rápida. Agora veio a febre e essa mexidinha na orelha. Bem, se há febre há infecção...
Se fosse otite mesmo, isso explicaria o choro desesperado, afinal dor de ouvido é terrível!
Tentando me virar em duas, amarrei o sling em mim, colocando um Anthony adormecido de um lado e um Thomas choramingando de outro lado. Minha coluna protestou ao sentir o peso de dois bebês de sete meses gordinhos e pesados. Nunca o sling foi tão útil para mim como naquela noite, Thomas ficou mais relaxado ao se sentir colado a mim e próximo ao irmão. Peguei a bolsa deles, coloquei umas fraldas ali dentro, a nécessaire e duas mudas de roupas deles, peguei minha bolsa no quarto.
- Merda, tá chovendo! – praguejei quando olhei pela janela.
Voltei ao quarto dos meninos e peguei uma grossa manta para cobri-los. Peguei um guarda-chuva enorme e sai, recebendo uma rajada de vento no rosto, já que o guarda-chuva protegia mais os meus filhos do que a mim.
No carro, decidi não desamarrar os meninos e dirigi até o hospital com os dois em meu colo, enroladinhos no sling. Não era a coisa mais sensata a se fazer, mas fiz, afinal bebê tem que sentar na própria cadeirinha...
Uma enfermeira viu minha cara de desespero e veio ao meu encontro assim que parei o carro da entrada da emergência pediátrica do hospital. Estressada eu murmurava, febre, otite, cadê o Dr. Molina...
- Deixe que eu estacione seu carro, Sra. Fields! – Mou, o segurança do hospital sorriu para mim, eu lhe entreguei a chave.
Dez minutos depois eu já estava no consultório do Dr. Molina. Ele preferiu não tirar Thomas do sling porque o menino ameaçou protestar.
- Sim, Sra. Fields! – ele sussurrou enquanto olhava atentamente para o ouvidinho de meu bebê – Temos uma leve otite aqui...
Por via das dúvidas ele ainda examinou Anthony e verificou sua temperatura. Fomos levados a um quarto onde eu me sentei numa enorme poltrona. Uma enfermeira solícita trouxe as chaves de meu carro e colocou outra cadeira diante de mim para que eu descansasse as pernas.
- Essa sua posição está péssima, Sra. Fields. – ela sorriu e afagou meus filhos – Péssima para a senhora!
Ela apontou para os meninos e eu sorri. Sim, eu estava numa péssima postura já que os dois estavam aninhados em mim, amarradinhos no sling. Eu tinha medo de tirar Anthony e ele acordar chorando e Thomas... bem, ele não dormiu e protestaria se saísse dali.
- Não faz mal... – sussurrei.
Outra enfermeira entrou trazendo um remédio em gotas para Thomas beber num copinho. Era o remédio para febre. Para a otite, ela pingou três gotinhas de outro remédio no ouvido dele. Graças aos céus, ele não fez birra na hora da medicação.
- Agora, gatinho, fique ai quietinho no colo da mamãe que essa febre já passa. – ela brincou com Thomas – Ele vai ficar bem Sra. Fields! – sorri para ela – Assim que essa febre for embora, vocês já poderão ir para casa.
- Obrigada... – sussurrei – Ah! Me faz um favor, sim? – ela assentiu – Pegue ai na minha bolsa os dois celulares.
Ela pegou e eu agradeci novamente. ‘Pode ser que Edward ligue para mim’, completei em pensamento e senti dor ao me lembrar dele. Sozinha no quarto, fiquei olhando para meus filhos e devo ter cochilado.
- Sra. Fields? Sra. Fields?
- Hum... - despertei sonolenta, era o Dr. Molina quem me chamava.
-Desculpe acordá-la, mas a febre de Thomas já passou e preciso dar alta a ele.
- Oh! Sim, ele já está bem mesmo?!
- Sim! – o médico sorriu enquanto assinava o prontuário – Vou receitar o antibiótico e a senhora deve pingar três gotinhas na orelha esquerda dela a cada seis horas. – assenti – Mas a farmácia já está fechada à essa hora, por isso vou lhe dar uma amostra grátis do remédio...
- Obrigada, doutor!
Levantei da cadeira e me dei conta que os braços e as pernas estavam dormentes e formigando, peguei a receita, guardei da bolsa e quando me preparava para pegar a bolsa dos meninos, o médico me ajudou.
- Venha... vou lhe ajudar! São muitas coisas para carregar. – sorri em agradecimento – Onde... onde está o seu marido?
Nós já estávamos no corredor do hospital quando ele me fez me lembrar de Edward.
- Ele tinha um aniversário de um colega de trabalho para ir...
Ainda bem que o médico não prolongou o assunto, ele me acompanhou até o carro.
- Escute, Sra. Fields, meu plantão já acabou. – foi ai que eu percebi que ele já estava sem jaleco e segurando sua mala branca – Não acho seguro que a senhora dirija estando tão cansada e com dois bebês em seu colo. Vou levá-la em casa.
Eu fiquei sem ação e, cansada demais, assenti e aceitei o favor. Eu fui no banco de trás, com os meninos no colo e em menos de cinco minutos, chegamos em casa.
Do outro lado da rua, sentado na calçada e com a aparência de quem tinha sido atropelado por um tanque de guerra, eu vi Edward. Seu cabelo estava todo assanhado, o nó da gravata estava frouxo, sua camisa estava amassada e quando nossos olhares se encontraram, vi ali todo o brilho de seu desespero e desilusão.
Mas quando Edward percebeu que eu não dirigia o veículo, saltou como um maluco e em três passadas atravessou a sua, marchando ensandecido para cima do carro. O Dr. Molina nem teve chance de estacionar direito o carro, pois Edward abriu a porta e puxou o médico pela camisa.
- O que você estava fazendo com esse desgraçado, Isabella?!
Meu marido praguejou e suas palavras açoitaram meu coração.