VISITANTES
Durante muito tempo tudo era silêncio. Perdi a noção do tempo e do espaço, naquele momento eu não era nada. Isabella era só um ponto vago, pairando em algum lugar longe de mim. Eu só era dor ... lágrimas ... vazio ...
Ao meu lado, Edward estava sentado na cama. Ele antes fitava o nada à sua frente, mas nossos olhares se encontraram e não se deixaram mais. Meu anjo chorava densas lágrimas, seu peito subia e descia acompanhando seu soluço entrecortado. Eu não tinha forças para consolá-lo. Deslizei uma de minhas mãos pela cama e segurei a dele, por muito tempo ficamos assim.
O silêncio mórbido foi quebrado pelo som estridente que entrou rasgando pelos meus ouvidos. Uma vez, duas, três vezes ... Mas o que era mesmo aquele barulho? Meu cérebro obrigou que os meus músculos se mexessem, sentei na cama e atendi o celular.
- Alô.
- Bella, aqui é Billy Black. – reconheci de imediato a sua voz.
- Tio Billy! Ah! Tio Billy ... Tio ... meus pais ... a polícia ... Aaaah!
Meu choro se tornou apenas soluços, eu não tinha mais lágrimas.
- BELLA! BELLA! Querida, escute. Preste atenção. – tentei me concentrar – Eu, Jake e Leah estamos aqui na portaria de seu prédio. Por favor, interfone para que o porteiro possa liberar a nossa entrada.
Larguei a mão de Edward e fui até a cozinha, interfonei para o Sr. Morales, nosso porteiro, e autorizei que eles subissem. Não sei qual era o aspecto de meu rosto naquela manhã, não sei qual era a aparência de minhas roupas, só tenho uma vaga lembrança de estar vestida decentemente.
- Bella ... – Jake e Leah disseram em uníssono e me abraçaram quando abri a porta.
Tio Billy apenas me abraçou afetuosamente. Uma onda de calma me invadiu e eu consegui raciocinar, pedi licença a eles, voltei ao quarto, vesti um hobby e tentei ‘acordar’ Edward.
- Ed? Amor? – toquei levemente em seus ombros – Tio Billy está aqui. Ele ... já sabe sobre ... sobre meus pais.
Grossas lágrimas voltaram a lavar meu rosto. Edward parecia ter acordado de vez, ele deu um pulo da cama, franziu a testa e pegou meu rosto em suas mãos.
- Bella. Amor, escute. – ele respirou fundo, tentando buscar forças, talvez – Eu sinto muito mas meus pais ... eles ... eles ...
Edward começou a chorar de uma forma que eu nunca tinha visto antes e embora ele fosse incapaz de terminar a frase, entendi perfeitamente o que quis dizer. Abracei-o.
- Eles também se foram, Bella. – sua voz era apenas um murmúrio, ele caiu na minha frente, ajoelhado.
Fiquei de joelhos também e naquela hora, não sei bem de onde me vieram forças, eu o acalentei. Seu rosto pousou em meu ombro, minhas mãos afagavam suas costas. Ficamos assim até que seu choro parasse e sua respiração ficasse estável.
Na minha mente tudo era muito confuso, o policial havia ligado para dizer que meus pais haviam sido assassinados. Eu entrei em choque, eu acho, e Ed pegou o telefone, falou mais alguma coisa e depois eu não sei mais. Deve ter sido nessa hora que ele disse a Edward sobre Carlisle e Esme. Minha mente continuou a se esforçar, tentando entender a seqüência dos fatos, depois eu me lembrei, na noite anterior tinha sido o jantar beneficente do MS Hospital.
- Edward, escute. – afastei um pouco o seu corpo para poder olhar em seus olhos – Billy, Jake e Leah estão aqui. Eles já sabem de tudo e vieram nos ajudar. Vem, vamos no banheiro lavar o rosto antes de falar com eles.
Ele apenas assentiu e se levantou. Já na sala, percebemos um Billy Black bastante nervoso e abatido.
- Sinto muito, meus filhos ... Sentem-se, preciso conversar um pouco com vocês.
- Como foi isso, Billy? – a voz de Edward era embargada – Como nossos pais morreram?
- Nós estávamos no jantar beneficente no Plaza Hotel e por volta das duas da manhã a nevasca havia parado. Eu e Rachel, assim como os outros convidados, resolvemos aproveitar a melhora do tempo e fomos embora. A direção do hotel informou à polícia que Esme e Rennè ainda ficaram bastante ocupadas até por volta das quatro da manhã, então Carlisle e Charlie também ficaram por ali, esperando-as. Um sem-teto que estava do outro lado da rua relatou à polícia que dois motoqueiros apareceram do nada e simplesmente atiraram, enquanto eles estavam na entrada do hotel esperando que o manobrista trouxesse o carro ...
A cada palavra de Billy, meu coração dava um salto. Senti que Edward me abraçava, sentado ao meu lado no sofá.
- O sem-teto disse que as armas deveriam ter algum tipo de silenciador porque tudo foi muito discreto e rápido. – ele continuou o relato – Meus filhos, vim aqui na qualidade de amigo de seus pais pra ficar ao lado de vocês no que for preciso. Vocês têm que ir a NY, alguém precisa cuidar do velório. E eu estou aqui pro que vocês precisarem.
- Obrigada, tio. Eu realmente não tenho cabeça pra isso. – murmurei.
- Além disso, Bella, a polícia vai querer conversar com vocês. – olhei pra Ed com espanto – Escutem, seus pais não foram vítimas de latrocínio ... nada foi levado deles. Os quatro foram mortos num intervalo de menos de cinco minutos. A polícia já pensa na hipótese de ... execução.
Senti o corpo de Ed tensionar ao lado do meu.
- Vocês sabem de alguma coisa? Se seus pais estavam sendo ameaçados?
- Não, tio. – falei rapidamente.
Embora naquela hora eu tivesse tido o flash daquela conversa esquisita que tive com papai sobre um tal de Felix Cudmore e sua amante, ambos mortos, embora eu também tivesse lembrado da viagem à Suíça e de todo o mal estar que essa história tenha me causado, e também da súbita explosão do iate NOVO de Carlisle, nada disso parecia fazer sentido ou poderia estar relacionado com o assassinato de nossos pais.
As coisas eram estranhas, mas essa série de acontecimentos não deixava a minha mente, eram como um enigma.
“Eu e Carlisle estamos trabalhando numa investigação pessoal, pode-se assim dizer, que tá tirando o nosso sono e a nossa paz.”
A voz de papai ecoou das minhas memórias aos meus ouvidos, recapitulei aquela nossa conversa na noite do jantar de ação de graças.
- Tem certeza, Bella? – Billy perguntou de novo e o meu sexto sentido, ou seja lá o que foi, me mandou continuar mentindo.
- Não tio. Eu realmente não sei de nada que pudesse estar ameaçando os nossos pais ou as nossas mães.
- E você, Edward?
Olhei pra Edward e balancei minimamente a cabeça de um lado para o outro e apertei os olhos. Essa era uma de nossas formas de ‘comunicação silenciosa’, tantos anos juntos nos permitiram desenvolver uma linguagem própria.
- Não. Eu também não sabia de nada.
UFA! Graças a Deus, ele entendeu.
- Edward, nós estamos com um dos jatinhos do Yankees no aeroporto. Papai conseguiu pegar emprestado pra que pudéssemos levar vocês a NY, se vocês quiserem. –Jake falou pela primeira vez e percebi que meu amigo segurava o choro.
- Queremos sim, é muita gentileza de vocês. – Edward falou por nós.
- Devemos nos apressar então. Se o serviço de meteorologia estiver correto, haverá uma nevasca no começo da tarde. Os aeroportos correm o risco de ficarem fechados. – Billy falou.
Leah se levantou da cadeira onde estava e se ajoelhou à nossa frente, segurou na minha mão e na de Edward.
- Bella, Edward, eu sinto muito. – Leah também chorava - Agora, sugiro que vocês tomem um banho e troquem de roupa. Vou até a cozinha fazer um café pra nós e alguma coisa pra vocês comerem. Nem precisam me dizer que não estão com fome, eu sei disso. Mas vocês precisam comer alguma coisa. OK? – nossa amiga tentava sorrir em meio às lágrimas.
Nós apenas assentimos, pedimos licença e entramos no quarto. Em seguida, Ed fechou a porta com chave e me abraçou.
- Amor, você mentiu pro Billy. – ele afirmou ao meu ouvido.
- Sim. – sussurrei de volta.
- Por quê?
- Não sei, Ed ... Eu só senti que Billy não precisava saber de nada.
- OK. Parece sensato já que nós também não sabemos de quase nada.
Tomamos banho e vestimos roupas pesadas de inverno, jeans, botas, camisa de flanela e casaco. Deveríamos ir para NY ainda naquela manhã e eu nem fazia noção da hora. Olhei no relógio, passava das oito horas.
- Edward, eu vou fazer uma pequena mala pra nós dois, só com o essencial. Lá temos outras roupas. Na verdade, acho melhor preparar duas mochilas. – ele apenas assentiu.
Quando entrei no closet, minhas mãos foram hábeis em pegar somente o necessário. De repente, meus olhos vagaram até o pequeno cofre dentro de uma das gavetas da cômoda. Não sei por que, mas coloquei-o dentro da minha mochila, nele havia as minhas poucas jóias e todos os nossos documentos. Fui à sala e abri a estante, numa de suas gavetas havia alguns álbuns de fotos, coloquei-os dentro da mochila.
Voltei ao nosso quarto e olhei ao redor, e senti uma coisa: saudade. Seria essa uma despedida?
O sentimento era de perda e naquele momento não era a perda de meus pais e futuros sogros. Era a perda de meu lar, de nosso cantinho. Olhei pra nossa cama onde tantas e tantas vezes nos amamos ... Aquele parecia o momento errado pra pensar nessas coisas. Mas eu não consegui me censurar por isso.
Na cozinha, tomamos café preto. Leah me empurrou uma maçã e Edward comeu alguma outra coisa.
Uma SUV do aeroporto estava a nossa espera na frente do prédio. O vôo até NY foi rápido e silencioso. Do aeroporto, fomos direto para a mansão Swan onde eu quase morri de tanto chorar.
- Eu sinto muito, minha menina. – Nettie veio me abraçar, ela também chorava.
Cada pedacinho daquela casa, onde nasci e vivi com meus pais por todos esses anos, me trazia recordações. A voz alegre e estridente de minha mãe e o olhar acolhedor de meu pai estavam em todos os lugares.
Lembrei das nossas brincadeiras de esconde- esconde pelos cômodos da casa ... Mamãe dizia: ‘Bella, seu pai está cansado. Depois do jantar vocês brincam.’ E quando eu pensava em protestar, papai se escorava na parede e entrava na brincadeira: ‘1,2,3 ... 9,10. Lá vou eu, Bella!.’
‘Filha, qual é a historinha que você quer hoje?’ Mamãe olhava para a minha estante de livrinhos e perguntava antes de deitar comigo na cama. E quando eu estava prestes a pegar no sono, ela recitava comigo a oração do anjo da guarda: ‘Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, já que a ti me confiou à piedade divina: hoje e sempre me governa, rege, guarda e ilumina. Amém.’
É, eu realmente não conseguiria ficar ali.
- Ed ... Amor, eu ... eu não posso ficar nessa casa.
Ele me abarcou com ternura e sussurrou ao meu ouvido.
- Tudo bem, amor. Nós vamos passar a noite mansão Cullen. OK?
- Tá.
- Nettie, por favor, vá no quarto de Bella e faça as malas apenas com o que for necessário, roupas do dia-a-dia, próprias para o frio. Separe também sapatos apropriados. – ele ordenou, ela assentiu e se retirou.
O telefone tocou e Jake atendeu.
- Residência dos Swan. – uma pausa – Aqui é Jacob Black, um amigo da família. Quem fala? – outra pausa – Só um momento (...) Bella, uma mulher chamada Wanda Goldman diz que é sua tia.
- Tia Wanda ... irmã de papai. – peguei o telefone – Oi, tia ...
Ela ficou sabendo de tudo pela internet e já que mora em Dublin, na Irlanda, só chegaria em NY na manhã do dia seguinte, sábado. Mas eu a tranqüilizei dizendo que o velório só seria no sábado à tarde. Mamãe era filha única, Carlisle e Esme também, então não havia mais nenhum parente próximo pra poder avisar.
- Ed, você pode me esperar aqui? – ele me olhou de cima a baixo, medindo meu estado emocional, talvez – Eu quero ir no quarto dos meus pais ...
- Pra quê, amor? Você vai ficar mais emocionada.
- Não, amor, eu to bem. Eu juro. – menti e ele fingiu que acreditou.
Eu não sei o que me deu, foi mais um insight e dessa vez, eu lembrei dos conselhos de mamãe de uma forma muito nítida. Eu tinha 8 anos de idade e a professora havia dito à mamãe que eu tinha uma compreensão intuitiva aguçada. Eu cheguei em casa radiante, pensando que era alguma ‘fadinha mágica’.
“Intuição não é magia, minha filha. É uma capacidade de seu cérebro que pode ser desenvolvida de forma que você tome as melhores decisões. É como uma bússola, mas não funciona de forma perfeita porque quem comanda os seus sentimentos e a sua razão nessa hora, é o seu subconsciente. Você deve estar atenta aos seus sentimentos e ao que estiver acontecendo ao seu redor. E nunca esqueça de consultar o seu coração.”
Fui ao quarto e passei direto para o closet de mamãe. Peguei uma enorme bolsa de viagem e tentei lembrar da combinação do cofre de jóias. Consegui e peguei tudo o que estava lá. Fui na sala de TV, abri a estante onde ficavam todos os álbuns de fotos e joguei-os de qualquer jeito na sacola. A minha intuição simplesmente me dizia que eu não voltaria mais à mansão Swan, o mesmo sentimento de despedida que tive em relação ao nosso apartamento, em Boston, então tinha que pegar tudo o que era importante. As jóias não tinham apenas o valor pecuniário, tinham valor sentimental, como por exemplo, a tiara de ouro e topázio amarelo que vovó Marie usou em seu casamento, seguida por mamãe. Um dia, talvez eu também usasse.
- Cadê todo mundo? – perguntei a Edward quando voltei à sala.
Ele olhou pra bolsa em minha mão, juntou as sobrancelhas e franziu a testa.
- Foram embora. Billy ficou de passar na ... funerária e Jake e Leah vão se concentrar em informar às pessoas sobre o horário do velório amanhã.
- Edward? – Nettie apareceu no alto da escada com duas malas enormes – Me ajude, meu filho. Eu já não sou tão jovem ...
Ed subiu rapidamente e pegou as malas, enquanto Nettie descia devagar. Senti que devia tipo, me despedir dela mas sem deixar isso muito explícito, fui ao seu encontro.
- Nettie, acho que isso é tudo por enquanto. Eu tenho que ir embora, não consigo ficar nessa casa. Amanhã nós nos vemos. OK?
- Sim, minha menina. – mais lágrimas escorriam por seu rosto.
- Obrigada por tudo, Nettie. – sussurrei enquanto lhe abraçava.
Pegamos o carro de mamãe, ela não gostava muito de dirigir e mal saia com aquele carro, então ele não me trazia tantas recordações.
Na mansão Cullen tudo estava silencioso apenas duas empregadas esperavam por nós. Tomamos um banho e trocamos de roupa, peguei a minha mochila e tirei o cofre e os álbuns de lá, guardando-os na bolsa de viagem de mamãe. Escondi tudo no fundo do closet de Edward, por trás de vários casacos enormes. Eu nem sabia direito o que estava fazendo, só sabia que precisava fazer.
Quando sai do closet, Ed tava deitado na cama. Suas mãos estavam sob a cabeça e ele olhava pro teto. Deitei ao seu lado.
- Bella?
- Hãn?
- Por que exatamente você quis mentir para Billy?
Ergui um pouco o meu corpo, apoiando-me nos cotovelos pra poder olhar em seus olhos.
- Não sei direito, Edward. – ele me olhou desconfiado – Amor, escute. Lembra daquela conversa de papai sobre o amigo dele e de Carlisle, Felix Cudmore? E sobre a investigação particular que eles dois estavam fazendo?
Ele apenas assentiu e eu continuei.
- Pois é. Quando Billy perguntou se havia algo de anormal, isso foi a única coisa que me veio na cabeça. Eu não sei por que mas achei que Billy não tinha nada a ver com isso.
- Eu não estou te acompanhando, Bella.
- Ed, segundo papai e Carlisle, Felix e sua família foram, supostamente assassinados, a amante dele também foi. E agora, nossos pais. – minha voz já estava embargada de novo – É muita coincidência ...
- Sr. Cullen? – uma das empregadas bateu na porta do quarto – A polícia está lá embaixo, quer falar com o senhor e com a Srta. Swan.
- OK, Ruth. Nós já vamos descer. – Ed respondeu pra ela e virou-se pra falar comigo – Bella, devemos mentir pra esse policial também?
- Não sei, Edward. – pensei por um instante – Não perca o contato visual comigo. OK? Eu não tenho interesse em prejudicar as investigações, mas nós não sabemos em quem confiar no momento e principalmente, não sabemos com o quê estamos lidando.
Na sala de estar havia dois policiais fardados e um outro que foi logo se identificando.
- Boa tarde, eu sou o Ten. Mark Stevenson. – ele mostrou a sua carteira de identificação e estendeu a mão pra Ed e depois pra mim. – Desde já quero lhes informar que isso não é um interrogatório, é apenas uma visita informal e vocês não são obrigados a conversar comigo. Mas se puderem fazê-lo será melhor, pra que possamos avançar com as investigações.
Ele explicou que os objetos pessoais de nossos pais estavam na delegacia e que seriam devolvidos posteriormente e disse que não seria necessário que nós fizéssemos o reconhecimento dos corpos. Outras pessoas, como os Black e Harold, o gerente do Plaza Hotel já tinha feito isso. Em seguida, fez uma série de perguntas sobre nossos pais, todas normais e respondemos com sinceridade. Quando perguntou se eles tinham algum inimigo ou se estavam sofrendo algum tipo de ameaça, também fomos sinceros em dizer que não tínhamos conhecimento de nada. Mas na última pergunta, eu e Ed mentimos.
- Vocês têm alguma informação que possam achar ser útil para a investigação?
Por hora não sabíamos se era certo falar.
Quando os policiais saíram, Edward me arrastou pra cozinha. Parece que nós dois alternávamos períodos de desespero e de lucidez, sabíamos que precisávamos nos alimentar.
- Susan, eu a Srta. Swan vamos voltar para o quarto. Não queremos ser incomodados por ninguém, exceto se forem os Black ou Leah Clearwater.
- E se alguém ligar querendo saber sobre o enterro, Sr. Cullen?
- Dê o telefone da casa dos Black, eles estão providenciando tudo.
- Devo fazer algo para o jantar?
- Faça qualquer coisa leve. Mas não precisam nos esperar, podem se recolher no horário habitual.
Voltamos pro quarto e pouco nos falamos, apenas nos tocávamos e chorávamos abraçados. Era bem tarde da noite quando descemos. Jantamos sopa e torradas depois tomamos um banho e Edward preparou uma dose de em calmante fitoterápico para nós.
Não sei se foi o cansaço ou se o remédio fez efeito mas consegui, depois de muito choro, dormir.
O sábado, 09 de janeiro começou com uma nevasca terrível. Os Black chegaram logo cedo nos informando que já tava tudo certo e que haveria uma missa na capela do Cemetery of the Holy Rood (aqui mesmo em nosso bairro), às três da tarde. Tia Wanda chegou antes do meio dia e se hospedou num hotel em Manhattan.
Fizemos um desjejum e voltamos para o quarto, eu sinceramente não conseguia falar com ninguém, só queria Edward comigo. O tempo passou, não sei como, tomamos um banho e vestimos roupas pesadas, de luto. Ruth levou até o quarto uma bandeja de comida, comemos mecanicamente.
A pequena capela do cemitério estava vazia quando chegamos, pouco depois das duas e meia da tarde, apenas havia o pessoal do serviço funerário e os nossos pais. Chegamos cedo de propósito porque queríamos nos despedir deles com calma. Havia um padre e pedimos a ele que nos desse alguns instantes a sós com nossos pais.
Eu quase não tive coragem de chegar junto dos caixões e se não fosse por Edward, ao meu lado, eu realmente não teria ido. Mas foi bom ter feito isso pois o meu coração se encheu de muita paz ao ver seus rostos tão serenos. Eles pareciam ... dormir.
As pessoas chegaram na hora marcada. Pude ver, além dos nossos empregados, os Black, Leah e o mesmo policial com quem conversamos, os Hamilton, os Burton e os Rogers, além de todos os colegas de trabalho de nossos pais. Tia Wanda veio me abraçar e cumprimentou Edward. Victoria, James e Jess também vieram, assim como o Dr. Gerandy, antigo colega de trabalho de mamãe. Outras poucas pessoas que nós conhecíamos de vista também estavam presentes.
- Bella, eu sinto muito. – Vic me abraçou apertado.
- Oh! Bella, eu ... eu – Jess também me abraçou.
O padre rezou uma missa muito rápida e depois um cara que se apresentou como o diretor do MS Hospital pegou um microfone e proferiu poucas palavras elogiando mamãe e Esme. O hospital resolveu fazer a elas uma homenagem póstuma e o novo prédio de quimioterapia pediátrica vai se chamar “Edifício Dra. Rennè Swan & Dra. Esme Cullen”. Nessa hora, eu e Edward não agüentamos, choramos muito.
O cortejo fúnebre saiu da capela e o céu da tarde de inverno estava incomumente escuro, parecia quase noite. A neve não caia naquela hora mas fazia muito frio e o silêncio era horrível. À medida que caminhávamos parecia em entrávamos numa nuvem mas era apenas um denso nevoeiro de inverno. Em todo esse percurso Edward nunca soltou minha mão. Quando paramos próximo às covas, havia um toldo branco sobre nós. O padre falou mais algumas coisas, rezamos o Pai Nosso e uma jovem que deveria ser do serviço funerário cantou a Ave Maria de Schubert em latim.
Rachel Black nos entregou algumas rosas brancas e jogamos sobre os caixões enquanto a música era entoada.
Eu chorava sem parar, era um choro baixo e contido mas meu corpo tremia. Edward me abraçou por trás, como se quisesse me segurar, ele também chorava. Seu abraço em nenhum momento me faltou, ele beijava meus cabelos e sussurrava: “Sinto muito, meu amor.”
Fiquei estática.
Tive um déjà vu?
Imediatamente lembrei do sonho que tive há tão pouco tempo atrás, na noite do jantar de ação de graças. Eu e Edward estávamos num lugar frio e eu estava chorando, ele me abraçava e dizia essas mesmas palavras.
Lembrei também da noite que voltamos do Caribe e eu tive um flash com a explosão do iate no mar que só aconteceu no dia seguinte.
Chorei desesperadamente ao constatar que eu havia sonhado com a morte de nossos pais, não um sonho qualquer, mas uma coisa que se tornou real, e eu não pude fazer nada para impedir isso.
A neve começou a cair e aos poucos as pessoas foram se despedindo de nós. E embora o meu estado fosse quase catatônico, não pude deixar de perceber um casal. Eles olhavam com intensidade pra mim e pra Edward, com certeza eles não estiveram conosco na capela. O espaço lá era tão mínimo que eu os teria notado.
O homem aparentava ter talvez uns 28 anos, era esguio porém musculoso, olhos castanhos e seu cabelo era loiro escuro, um pouco cacheado e não muito curto. A mulher era mais jovem, era baixinha, mais baixa até que eu, e parecia uma bonequinha. Ela era magra, com feições pequenas, todo o seu corpo era proporcionalmente pequeno. Seu rosto era muito harmonioso e bonito, seus olhos negros me encararam uma vez com curiosidade. O cabelo dela era muito preto, cortado curtinho na altura do queixo e era repicado, apontando pra todas as direções. Estavam vestidos com roupas formais como se tivessem saído direto do trabalho.
- Ed? – sussurrei somente pra que ele ouvisse – Não olhe agora. Mas há um casal que está a uns dois metros de distância de Vic e James. Ele é alto e loiro, ela é baixinha de cabelos pretos. Ele está de blazer cinza e ela de tailleur preto. Você conhece aqueles dois?
Edward disfarçou um pouco e olhou ao redor.
- Não, Bella, nunca os vi antes.
*POV EDWARD*
Eu me sinto nocauteado, perdido e nesse momento, não sei o que fazer. Ao meu lado, Bella está inerte, parece dilacerada e eu não me sinto capaz de minimizar a sua dor.
Tudo aconteceu muito rápido e eu ainda me pergunto ‘como foi’. Só sei que de uma hora pra outra, a nossa vida mudou por completo. Um telefonema, algumas palavras ditas e eu já não sei mais o que fazer. Parece que eu também estou morrendo, não sinto meu coração, não sinto o ar entrando em meus pulmões, não consigo pensar. A dor é tão grande, é tão maior do que eu, talvez ela nunca passe.
Mas é justo quando estou nesse estado de ‘limbo’ que sinto a força e o amor da razão minha existência me tocando. Bella se moveu ao meu lado, nossos olhares se encontram e aquele mar de chocolate e ternura me encheu de amor. Sua delicada mão deslizou sobre a cama e ela segurou na minha mão com força, me passando calor, fé, esperança.
Nossos pais morreram. Dá pra acreditar nisso, meu Deus? Perdemos as pessoas mais maravilhosas das nossas vidas, as pessoas que nos amaram incondicionalmente, as pessoas que nos deram tudo.
Jamais conseguirei expressar em palavras o tamanho do amor e do respeito que tenho por Carlisle e Esme, as únicas pessoas que me amaram quando eu ainda nem existia, quando eu era apenas um sonho, uma pessoa idealizada, fruto do amor deles. E quando minha mãe me percebeu dentro de seu ventre, ela disse que chorou de emoção só de me imaginar em seus braços. Era palpável a alegria e o prazer de meu pai sempre que ele podia me oferecer uma ajuda, um conselho, uma palavra de incentivo. Nunca conheci outra pessoa tão generosa quanto Carlisle Cullen.
É difícil ter que admitir o óbvio: tudo que tem um começo tem um fim. Definitivamente, nós não somos preparados para enfrentar perdas, embora a nossa vida esteja repleta delas. Mas é difícil aceitar quando as pessoas que nós amamos são arrancadas de nós de uma forma tão brusca.
Nossos pais foram assassinados! Eles não morreram aos 80 anos de idade após terem vivido plenamente e terem conhecido os netos. Morreram jovens, suas vidas foram brutalmente abreviadas.
O celular de Bella tocou, ela atendeu e depois saiu do quarto. Não sei quanto tempo demorou, o tempo passou a ser uma coisa meio sem sentido pra mim. Só sei que depois ela voltou ao quarto.
- Ed? Amor? – senti suas mãos sacudirem de leve os meus ombros – Tio Billy está aqui. Ele ... já sabe sobre ... sobre meus pais.
Como assim? Será que Bella ainda não sabia sobre os MEUS PAIS? Isso chamou minha atenção, me levantei da cama e peguei seu rosto em minhas mãos.
Senhor!!! Ela está nesse estado e ainda nem sabe que as coisas são bem pior do que já eram. Respirei fundo, procurei forças dentro de mim e tentei falar.
- Bella. Amor, escute. Eu sinto muito mas meus pais ... eles ... eles
Senti um nó na garganta e não consegui terminar de falar mas vi pânico e dor em seus olhos. Ela entendeu e me abraçou.
- Eles também se foram, Bella. – murmurei a cai à sua frente, ajoelhado.
Ela também se ajoelhou e começou a me consolar, senti o toque suave de suas mãos em minhas costas. Seu carinho não me deixou, até que eu parei de chorar.
- Edward, escute. – ela me afastou e olhou em meus olhos – Billy, Jake e Leah estão aqui. Eles já sabem de tudo e vieram nos ajudar. Vem, vamos no banheiro lavar o rosto antes de falar com eles.
- Sinto muito, meus filhos ... Sentem-se, preciso conversar um pouco com vocês. – Billy Black falou assim que entramos na sala.
Sentamos no sofá e instintivamente, abracei Bella.
- Como foi isso, Billy? Como nossos pais morreram? – perguntei.
- Nós estávamos no jantar beneficente no Plaza Hotel e por volta das duas da manhã a nevasca havia parado. Eu e Rachel, assim como os outros convidados, resolvemos aproveitar a melhora do tempo e fomos embora. A direção do hotel informou à polícia que Esme e Rennè ainda ficaram bastante ocupadas até por volta das quatro da manhã, então Carlisle e Charlie também ficaram por ali, esperando-as. Um sem-teto que estava do outro lado da rua relatou à polícia que dois motoqueiros apareceram do nada e simplesmente atiraram, enquanto eles estavam na entrada do hotel esperando que o manobrista trouxesse o carro ... O sem-teto disse que as armas deveriam ter algum tipo de silenciador porque tudo foi muito discreto e rápido. Meus filhos, vim aqui na qualidade de amigo de seus pais pra ficar ao lado de vocês no que for preciso. Vocês têm que ir a NY, alguém precisa cuidar do velório. E eu estou aqui pro que vocês precisarem.
- Obrigada, tio. Eu realmente não tenho cabeça pra isso. – Bella agradeceu.
- Além disso, Bella, a polícia vai querer conversar com vocês. – ela me olhou, chocada – Escutem, seus pais não foram vítimas de latrocínio ... nada foi levado deles. Os quatro foram mortos num intervalo de menos de cinco minutos. A polícia já pensa na hipótese de ... execução.
Meu corpo ficou tenso e imediatamente lembrei da conversa que papai teve comigo há pouco tempo atrás sobre uma investigação que ele e Charlie estavam fazendo a respeito da morte de um amigo deles. Lembro até que nessa época, Bella ficou bastante apreensiva e eu nem dei muita importância ao fato.
- Vocês sabem de alguma coisa? Se seus pais estavam sendo ameaçados?
- Não, tio. – Bella respondeu muito rápido, ela mentiu, com certeza.
- Tem certeza, Bella? – Billy insistiu.
- Não tio. Eu realmente não sei de nada que pudesse estar ameaçando os nossos pais ou as nossas mães. – sua voz agora era mais estável, sua mentira ficou melhor.
- E você, Edward?
Hãn ...? Mentir ou não mentir?
Bella olhou pra mim e balançou discretamente a cabeça de um lado para o outro e apertou um pouco os olhos. Isso era um NÃO na nossa linguagem pessoal.
- Não. Eu também não sabia de nada.
Senti seus músculos relaxarem ao meu lado.
- Edward, nós estamos com um dos jatinhos do Yankees no aeroporto. Papai conseguiu pegar emprestado pra que pudéssemos levar vocês a NY, se vocês quiserem. – nosso amigo Jake falou, bastante emocionado.
- Queremos sim, é muita gentileza de vocês.
- Devemos nos apressar então. Se o serviço de meteorologia estiver correto, haverá uma nevasca no começo da tarde. Os aeroportos correm o risco de ficarem fechados. – Billy se levantou da poltrona e foi até a janela para olhar o céu.
Leah veio até nós e sugeriu que tomássemos um banho e comêssemos alguma coisa. Concordei principalmente por causa de Bella, eu não tava com fome mas se eu não comesse, ela também não comeria.
- Amor, você mentiu pro Billy. – falei ao seu ouvido quando já estávamos no quarto.
- Sim.
- Por quê?
- Não sei, Ed ... Eu só senti que Billy não precisava saber de nada.
- OK. Parece sensato já que nós também não sabemos de quase nada.
Após banho, Bella entrou no closet.
- Edward, vou fazer uma pequena mala pra nós dois, só com o essencial. Lá temos outras roupas. Na verdade, acho melhor preparar duas mochilas.
O jatinho nos esperava para nos levar à NY naquela manhã. Deitei na cama enquanto Bella andava de um lado pro outro dentro do quarto.
Quando chegamos à mansão Swan,ela se derramou em muitas lágrimas. Nettie, a empregada da casa há tantos anos, veio ao seu encontro e a abraçou.
- Ed ... Amor, eu ... eu não posso ficar nessa casa. – seu choro era de partir meu coração.
- Tudo bem, amor. Nós vamos passar a noite mansão Cullen. OK? – a abracei e sussurrei ao seu ouvido.
- Tá.
- Nettie, por favor, vá no quarto de Bella e faça as malas apenas com o que for necessário, roupas do dia-a-dia, próprias para o frio. Separe também sapatos apropriados. – ordenei-lhe.
O telefone tocou e Jake atendeu. Era a tia de Bella, a única irmã de Charlie. Bella pegou o telefone e falou com ela um pouco.
- Ed, você pode me esperar aqui? Eu quero ir no quarto dos meus pais ...
- Pra quê, amor? Você vai ficar mais emocionada. – eu não tava entendendo nada, não queria que ela sofresse tendo muitas lembranças.
- Não, amor, eu to bem. Eu juro. – fingi que acreditei e assenti.
Os Black e Leah se despediram pois teriam que tomar providências quanto ao velório, a missa e o enterro. Graças a Deus, temos amigos nessas horas. Fiquei na sala sozinho por um bom tempo.
- Cadê todo mundo? – Bella voltou à sala.
Ela segurava uma enorme bolsa de mão e eu não entendi também o que era aquilo. Expliquei que todos tinham providências a tomar, por isso tiveram que sair. Nettie me chamou do alto da escada, pedindo ajuda para carregar as malas de Bella. As duas se despediram e seguimos em direção à mansão Cullen usando o carro de Rennè, um Mercedes AMG C63 preto.
Em casa, fomos recebidos pelas nossas duas empregadas, Ruth e Susan que estavam visivelmente abaladas. Após um banho e roupas confortáveis, deitei de novo na cama enquanto Bella andava de um lado e pro outro, meio elétrica, entrando e saindo do closet. Bom, pelo menos ela parecia mais estável. Mas seu semblante era o de uma pessoa pensativa, como se estivesse resolvendo mentalmente um quebra-cabeça.
Quando ela terminou de fazer não-sei-o-quê, deitou ao meu lado. Há tempos que eu queria esclarecer uma coisa com ela.
- Bella?
- Hãn?
- Por que você quis mentir para Billy?
Ela quase se sentou na cama e me encarou.
- Não sei direito, Edward. Amor, escute. Lembra daquela conversa de papai sobre o amigo dele e de Carlisle, Felix Cudmore? E sobre a investigação particular que eles dois estavam fazendo?
Assenti.
- Pois é. Quando Billy perguntou se havia algo de anormal, isso foi a única coisa que me veio na cabeça. Eu não sei por que mas achei que Billy não tinha nada a ver com isso.
- Eu não estou te acompanhando, Bella. – eu tava mesmo boiando.
- Ed, segundo papai e Carlisle, Felix e sua família foram, supostamente assassinados, a amante dele também foi. E agora, nossos pais. – acho que ela ia chorar de novo – É muita coincidência ...
Ruth, bateu na porta do quarto e interrompeu nossa conversa. Veio avisar que um policial estava lá embaixo à nossa espera.
– Bella, devemos mentir pra esse policial também? – precisava saber o que ela achava.
- Não sei, Edward. – ela parecia hesitante – Não perca o contato visual comigo. OK? Eu não tenho interesse em prejudicar as investigações, mas nós não sabemos em quem confiar no momento.
Suas palavras pareciam sensatas, em todos esses anos, aprendi que Bella é uma pessoa muito perceptiva. Quando a razão começa a não fazer sentido, é bom confiar no que ela diz.
Na verdade, eram três policiais mas somente um conversou conosco. Mentimos pra ele também.
Fiz questão de comer alguma coisa após a saída dos policiais, só pra que Bella comesse algo também. Aproveitei que Susan, a cozinheira estava lá e dei algumas instruções. Mandei que fizessem alguma coisa leve pro jantar e que nos chamassem apenas para falar com os Black ou com Leah.
O começo de noite estava gelado em NY, deitamos e choramos mais uma vez. Ficamos naquele estado de abandono e dor até que me percebi com fome, descemos e comemos alguma coisa. Após o banho, lembrei que mamãe tinha sempre em casa um calmante fitoterápico. Achei apropriado tomarmos porque o dia seguinte seria difícil, tínhamos ao menos que dormir.
No sábado, antes do enterro, Ruth levou uma refeição para nós no quarto. No começo da tarde chegamos ao cemitério e nos dirigimos à capela. Bella queria ter um momento mais íntimo, somente nós e nossos pais. Só havia um padre e as pessoas do serviço funerário quando chegamos. Os corpos já estavam lá.
Todos nos deram privacidade.
Foi difícil caminhar até eles e eu sabia que Bella também não tava com coragem. Peguei em sua mão e fomos até lá. Eles pareciam bem, era ... reconfortante olhar pra eles.É difícil descrever o que senti quando os vi ali, deitados mas não foi uma experiência ruim, apesar da dor excruciante que senti, era bom olhar novamente naqueles rostos tão serenos e cheios de paz.
Quando menos percebi, as pessoas chegaram e a pequena capela rapidamente ficou lotada. O padre fez um sermão que eu não escutei muito e depois, o Sr. Fletcher, diretor do MS Hospital falou um pouco, elogiando mamãe e Rennè não apenas como médicas mas também como duas pessoas queridas e admiradas por todos. Quando ele disse que o hospital fez uma homenagem póstuma às duas, batizando o prédio de quimioterapia pediátrica de “Edifício Dra. Rennè Swan & Dra. Esme Cullen”, eu e Bella ficamos visivelmente emocionados.
Após a missa, seguimos em direção às sepulturas, era muito difícil fazer aquela caminhada e eu só consegui porque Bella estava ao meu lado. A mãe de Jake nos deu algumas flores para que jogássemos sobre os caixões e nessa hora, Bella chorou descontroladamente. Eu me vi triplamente angustiado, enterrando meus pais e futuros sogros e vendo Bella sofrer tanto. Eu sofreria mil vezes sozinho a ter que vê-la daquele jeito.
Uma nevasca suave começou a cair e embora estivéssemos sob um toldo, o frio era muito intenso. As pessoas foram se despedindo de nós, falei rapidamente com Ruth e Susan e lhes dei o resto do fim de semana de folga. Mas havia um casal que parecia não querer ir embora. Bella também os notou porque me perguntou sobre eles, o cara me flagrou encarando-o e rapidamente eles foram embora.
Bella estava muito, muito abalada e isso só aumentava o meu desespero. Na volta pra casa, mansão Cullen (nossa casa, por enquanto), não trocamos nenhuma palavra dentro do carro. Assim que chegamos, ela disse que tava com muita dor de cabeça e que iria tomar um banho e se deitar. Tomamos banho juntos e vestimos roupas quentes mas eu resolvi descer até a cozinha e preparar um chá pra ela. Acabei levando pra nós dois no quarto, chá, leite e torradas, forcei goela abaixo um pouco de comida pra que Bella pudesse comer também.
- Edward ... você podia me dar um pouco daquele remédio? Eu sinto que vou enlouquecer se não conseguir dormir. – ela me pediu suplicante.
Fui até o banheiro e preparei uma porção do medicamento, ela sorveu de uma só vez, me deu um beijo leve e um abraço.
- Te amo, querido. Eu ... eu ... to tão esgotada, Edward.
Ela deitou na cama e se encolheu numa bolinha, cobri seu corpo com o edredom.
- Descanse, princesa. Também te amo, Bella. – beijei sua testa.
Levei a bandeja até a cozinha e voltei para o quarto, naquela noite eu não tomei o calmante. Antes, parecia que eu ia me rasgar de tanta dor e que não ia melhorar mas agora, após o velório, o meu lado prático-racional PRECISAVA entrar em ação. Fiquei na cama, ao lado de Bella, esquentando seu corpo com o meu e pensando na vida ... na nossa vida.
‘É, Edward, agora você cresce de vez’, pensei comigo mesmo. Mas ainda não tinha condições de decidir nada importante, nem eu nem Bella tínhamos cabeça pra isso. No dia seguinte, ou na segunda-feira, no máximo, eu teria que entrar no bunker e ver se papai já havia deixado algo de importante para mim. Duvidava que isso fosse possível pois sua morte foi terrivelmente prematura. Parecia um ‘cacoete qualquer’ mas era uma tradição de família entrar naquele bunker após a morte de um patriarca Cullen. Lembro como se tivesse sido hoje, o dia em que vovô Anthony (pai de papai) morreu. Eu tinha quatorze anos de idade e quando chegamos do velório, papai me chamou pra ir até o bunker. Meu avô apenas deixou uns discos raros e umas obras de arte, nada demais. Aquele bunker feioso parecia mais um abrigo nuclear ...
Tentei bloquear meus pensamentos por uns instantes e esperar o sono chegar.
A luzinha vermelha do painel do circuito de segurança (em cada cômodo principal na mansão Cullen havia um painel do sistema de segurança eletrônica) começou a piscar e quando eu me levantei da cama pra desligar aquela porcaria, percebi que ela só piscaria de fossem detectados movimentos pelo andar inferior da casa.
ARFEI!!!
Tinha mais alguém dentro da mansão!
‘Pensa, Edward. Pensa’. Eu tinha que fazer algo, em sessenta segundos o alarme seria disparado.
Pensei em trancar a porta do quarto, mas se trancasse POR DENTRO, alguém saberia que nós estávamos em casa.
O BUNKER!!!
- Bella. Bella, acorde. – falei já a puxando da cama.
- Hãn ...? – droga, o remédio fez efeito.
– Vem, Bella. Tem gente na casa.
- HÃN!? – ela acordou de vez, arregalou os olhos e gritou, tampei sua boca.
- Psiu, Bella. Confie em mim. – sussurrei. – Calma, amor, apenas me siga.
Entrei com ela no closet, sai empurrando os cabides onde estavam pendurados os casacos enormes de frio e quase tropecei numa bolsa imensa. Percebi que Bella se abaixou e pegou a bolsa.
Comecei a tatear pela parede falsa até encontrar o dispositivo que fez a meia-parede de madeira se erguer um pouco. Nos abaixamos e descemos por uns degraus, me virei e puxei a ‘parede’ de volta. Tateei um pouco no escuro até achar um interruptor.
Acendi uma lâmpada.
- On-onde estamos Edward? – Bella estava confusa.
- Estamos no meio das escadas em direção ao bunker da mansão.
- Bunker? – sua voz aumentou de volume.
- Shii, Bella. Vem, me dá essa bolsa pra eu segurar.
Caralho! Que bolsa pesada!!!
- Cuidado onde pisa, amor. Venha, ainda não estamos seguros. – falei por sobre o ombro.
Descemos todos os degraus e passamos por um corredor escuro, acendi outra luz já dentro da sala do bunker.
- Caraca! – Bella sussurrou, perplexa.
Havia todo um aparato tecnológico lá dentro, imediatamente o sistema de ventilação começou a funcionar e quando cheguei perto dos monitores de vigilância, já havia cinco minutos de imagens gravadas.
- Ed, essas câmeras gravam no escuro?
- Sim. – respondi sem tirar os olhos das telas.
Estávamos com os rostos bem próximos aos monitores. Podemos ver que havia duas pessoas na sala de estar, elas caminhavam despreocupadamente. O que eu achei estranho, pois já deveriam saber que os alarmes tinham sido acionados.
Só se ... É isso!
Eu não escutei o barulho dos alarmes. Meu Deus, isso significa que essas pessoas sabem como desativar sofisticados alarmes de segurança!
Não são simples ladrões, são profissionais!
Tentei fazer ‘cara de paisagem’, Bella não precisava se estressar tanto assim, respirei pausadamente e fiquei atento.
Um dos invasores chegou em perto de uma das câmeras escondidas na sala e tivemos um zoom perfeito de seu rosto.
Bella arfou e segurou meu braço com força.
- São eles, Edward! São eles! O casal desconhecido que vimos hoje no cemitério! – seus pés vacilaram e ela segurou em minha camisa, meus braços envolveram sua cintura – Eles vieram nos matar! Meu Deus ...
Bella desmaiou em meus braços.
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