DESPEDIDA
“Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada.”
(Fernando Pessoa)
...
Eu acordei mas não abri os olhos de imediato, senti que estava deitada sobre uma grama fofinha. Podia ouvir o canto dos pássaros e tinha certeza que o sol brilhava lá em cima pois podia senti-lo esquentando a minha pele. Sorri, apreciando aquele gostoso momento.
- Veja, Esme, nossa Bella adormecida já acordou! – pude ouvir ao longe a voz de mamãe falando.
MAMÃE?!
Abri os olhos e dei um salto, ficando de pé.
De repente me vi diante do mais lindo jardim de tulipas em que já estive. O campo era imenso, cheio de tulipas rosas, amarelas, vermelhas, laranjas e brancas (as minhas preferidas).
- Ma-mamãe? – minha voz era vacilante.
Vi um enorme clarão na minha frente, a luz era tão forte que tive de proteger meus olhos com a mão. A luz foi aos poucos diminuindo à medida que eu percebia quatro figuras se aproximando de mim, depois de um certo esforço, percebi quem eram.
- MAMÃE! PAPAI!
Corri pra abraçá-los e eles retribuíram ao abraço ao mesmo tempo.
- Meu docinho ... – papai sussurrou e beijou minha bochecha.
-Oh! Meu, bebê ... – mamãe também sussurrou e me beijou.
Quando eles afrouxaram o abraço, vi Esme e Carlisle ao nosso lado, também nos abraçamos.
- Mamãe, por que estamos aqui? – eu tinha uma vaga idéia de que meus pais estavam mortos – Estamos no céu? Eu também morri?
Olhei ao redor apreensiva, procurei por Edward e fiquei feliz por não achá-lo, então ele estava vivo em algum lugar.
- Não, filha. Você não morreu. – papai parecia aliviado ao dizer isso – Mas nós quatro já fizemos a nossa travessia. – ele fez um sinal com a mão, envolvendo também mamãe, Carlisle e Esme.
- E on-onde estamos? No céu? – eu estava muito confusa.
- Bella, isso aqui não é o céu. – Carlisle sorria ao falar comigo – É só um lugar muito agradável.
Olhei mais uma vez para o colorido jardim.
- Aqui é lindo ... – murmurei.
- É o jardim do Criador, Bella. Um lugar onde vivemos em paz. – Esme me explicou.
PAZ!
Essa palavra ultimamente era meio desconhecida pra mim, eu tinha uma vaga idéia de seu significado.
- Ah! Que bom que eu encontrei com vocês ... aqui é tão bom, poderemos ficar para sempre nesse paraíso ...
- Não, Bella! – mamãe e Esme se aproximaram mais de mim e disseram de uma só vez.
- Mas eu quero ficar ...
Ambas ficaram de frente pra mim e puseram, cada uma, uma mão sobre os meus ombros, enquanto as suas outras mãos tocaram de leve na minha barriga.
- Querida, vocês precisam voltar ... – mamãe falou.
-Edward precisa de vocês, Bella. – Esme recomendou.
- E por que Edward também não pode vir ver vocês?
- Porque ele não está pronto pra esse tipo de reencontro, Bella. – Carlisle falou – Essa experiência não faria bem a ele ...
- Eu vou voltar a vê-los de novo? – senti uma centelha de esperança dentro de mim.
- Acredito que não, filha. O Criador é quem decide isso e só quando é realmente necessário. – papai falou.
- Nós ainda tínhamos algo importante pra te dizer, Bella. Algo que vai ajudar a você e a Edward. – mamãe me olhava nos olhos. – Querida, não deixe que o medo escureça a sua visão, não se esqueça que o medo confunde os sentimentos, faz o amor murchar ...
- Não confie de todo mundo, Bella. Mas também não desconfie em todo mundo, ainda há pessoas boas no mundo. Pessoas que vão ajudar vocês dois. Seu coração será seu guia. – papai falou solenemente.
- Não perca o ânimo, querida. Não perca a vontade de viver e de ser feliz ... Lembre-se que haverá dias em que você será a bússola de Edward. Cuide bem de meu filho, Bella. – Esme me pediu mais uma vez.
- Não deixe que o rancor e a mágoa embacem os seus sentimentos, Bella. Lembre-se que o coração é como um jardim, as flores que vão nascer dependem do tipo de semente que você plantar nele. – A voz de Carlisle era suave afetuosa.
Recebi mais uma vez, um beijo e um abraço de todos.
-Is-isso é tudo? Nunca mais vou ver vocês? É a nossa despedida? – senti um nó na garganta e uma imensa tristeza.
Todos se aproximaram de mim novamente, me consolando. Pude senti quatro pares de mãos me tocando.
- Filha, nós sempre estaremos com você. Nós sempre estaremos em você, Bella, no seu coração. – papai sussurrou.
- Cada pedacinho seu, Bella, também é uma parte de nós. – minha mãe acariciava meu rosto. – E nós sempre estaremos olhando você.
- Adeus, Bella. Ame o meu filho, sempre. – sorri pra Esme e assenti.
Ela não cansava de pedir por Edward mas o seu pedido era muito fácil de cumprir, eu sempre vou amá-lo.
- Adeus, Bella, você é a nossa filha do coração. – foi a vez de Carlisle se despedir.
- Te amo, filha. – meus pais disseram de uma só vez.
...
- Edward?
- Shii, Bella. To aqui, amor. - acordei ao redor dos braços de Edward, estávamos deitados no chão, sobre um saco de dormir – Tá tudo bem, você só teve um rápido desmaio. Não ficou nem dois minutos apagada. Isso deve ter sido por estresse ...
Ele sorria torto enquanto afagava as minhas costas. Franzi a testa, parecia que a minha conversa com nossos pais tinha durado bem mais que isso. Quando ia abrir a boca pra falar, ele acariciou os meus lábios com o seu dedo polegar.
- Agora, tente relaxar. Eu preciso me levantar e checar os monitores porque os nossos ... visitantes ainda estão aqui.
Arfei e arregalei os olhos, me lembrei que não estávamos sós.
- Calma, Bella. Ta tudo bem – ele falou ao meu ouvido – Estamos seguros aqui dentro – apenas assenti pra ele – Fique deitada descansando, eu preciso ficar de olho neles pelas telas dos monitores.
Fiquei onde ele mandou, deitada, olhando pro teto e tentando recapitular a ‘conversa’ que tive com nossos pais.
Que coisa bizarra!!!
Pensei em contar pra Edward mas lembrei, na mesma hora, que Carlisle falou que ele não estaria preparado para esse tipo de experiência. Fechei os olhos bem apertados, tentando me lembrar de tudo ... tentando fixar cada palavra em minha mente, mas nem tudo fazia sentido.
Desisti e me levantei, fui até onde Ed estava, de frente pra aquela parafernália tecnológica. Parecia que estávamos num daqueles filmes de espionagem. Na tela de um monitor o tempo de gravação já indicava oito minutos e aquele casal desconhecido andava calmamente pela casa, revirando gavetas e armários. Eles estavam com certeza procurando alguma coisa mas não queriam deixar rastros, então faziam tudo com muita calma.
Percebemos que eles estavam subindo as escadas, instintivamente segurei com força na mão de Edward. Meu coração começou a dar saltos e eu tive que me concentrar em respirar direito.
- Calma, Bella. Estamos seguros ... – Ed sussurrou.
- Por que você tem tanta certeza? – sussurrei de volta.
- Porque este bunker foi feito pra ser invisível. – ele falou com calma enquanto seu polegar fazia movimentos circulares nas costas de minha mão.
Nesse momento, uma das telas indicou que o casal entrou num quarto vazio, passaram para o closet, entraram nele. Senti Edward se retesar ao meu lado.
Eles saíram e foram ao quarto de Esme e Carlisle. Ed ficou tenso de novo e dessa vez, eu entendi o porquê. Se do quarto dele nós tivemos acesso a esse bunker, então deveria haver outros cômodos da casa que permitissem tal acesso. A suíte de meus quase-sogros seria um desses lugares.
O pânico foi em conjunto quando eles entraram no quarto de Edward.
- Veja. – o cara falou – A cama está desfeita. Tem alguém na casa.
- Talvez ... – a mulher baixinha respondeu – Ou talvez eles já tenham saído.
- Isso é da Swan. Senti esse mesmo cheiro dela hoje no cemitério, parece ser um perfume de jasmim.
Arfei quando ele pegou o meu hobby em cima de uma poltrona, cheirando-o. Escutei um barulho saindo da garganta de Edward, tipo um rosnado.
- Pode ser. – a mulher também cheirou e falou com desdém– Afinal, pelo que sabemos, o Cullen e a Swan estão juntos.
Eles avançaram closet a dentro e começaram a procurar por entre as roupas, fiquei mais tensa porque num momento de inspiração nada divina, um deles poderia descobrir como entrar ‘na parede’.
- Vamos, Mansen. Já to farta disso aqui. Talvez eles tenham vindo pra cá e ficaram deprimidos aí decidiram ir para a mansão Swan. Talvez a gente esteja procurando algo que nem existe ...
- Duvido, Brandon. Eles estão ou estiveram há pouco tempo por aqui. Sinto o cheiro dela.
- Ah! Não sabia que você tinha um faro de totó, Mansen. – a baixinha falou sarcasticamente – Por acaso ficou interessado na Swan?
Olhei de lado pra Edward e ele fez uma cara muito, muito feia.
- Vá à merda, Brandon. E se eu estiver interessado nela? O que é que tem?– o cara falou com sarcasmo também – Mas eu não misturo trabalho com prazer. A Swan é bonita, mas não é meu tipo.
- Ah! É mesmo? E qual é o seu tipo de mulher, Jasper Mansen? – a baixinha virou o corpo e ficou de frente pra ele.
- Não sei. Não lhe interessa. Mas com certeza é uma que fale pouco, Srta. Mary Alice Brandon. – o cara fez cara feia ao responder.
Os dois se encararam por um bom tempo. Pareciam que falavam por telepatia.
- Só espero que nós os encontremos a tempo. – a mulher mudou de assunto, parecia que estava completamente à vontade com o mau humor dele.
Eles foram embora da casa rapidamente, depois eu e Edward literalmente despencamos, exaustos, no saco de dormir onde eu tava antes. Ele me abraçou, me deixando um pouco por cima de seu corpo.
- Amor, quem são essas pessoas? O que eles querem? Será que eles mataram nossos pais? Eles sabiam nossos nomes e também sabiam que estamos juntos ...
- Calma, Bella. Vamos tentar raciocinar. – Ed me puxou mais para si e passou a beijar os meus cabelos - O pânico não vai nos ajudar, querida. Infelizmente agora somos só nós dois.
- Oh, Ed, eu to com tanto medo. – comecei a chorar – Sinto tanto a falta deles ...
Ele virou os nossos corpos, ficando por cima de mim, apoiando seu peso com uma das mãos, sempre me olhava nos olhos.
- Shii, Bella ... Eu estou com você, amor. Sempre vou estar, eu juro.
Seus beijos foram descendo de meus cabelos até uma de minhas têmporas, chegando à bochecha, nariz e queixo. Edward parecia vacilante, talvez com receio de beijar meus lábios, num pensamento do tipo: ‘Estamos de luto.’ Decidi por nós dois e segurei seu rosto em minhas mãos, colei nossos lábios. Ele ficou surpreso mas de imediato retribuiu ao toque dos meus lábios nos dele. Naquele momento, a nossa necessidade de carinho, calor e conforto era muito maior que qualquer outro sentimento.
- Obrigado, Bella. – ele falou com sua voz rouca depois que cessamos o beijo.
Dei um selinho nele e olhei em seus olhos.
- Por que você ficou na dúvida? – eu já sabia a resposta mas queria conversar logo sobre isso.
Ele se acomodou ao meu lado e me puxou para si.
- Bom ... eu fiquei com medo achando que você poderia achar que essa não era uma boa hora pra um tipo de ... contato mais íntimo. – ele sorria torto enquanto se justificava.
- Edward, amor, escute. Nós dois estamos de luto, perdemos as pessoas mais importantes das nossas vidas. Isso já é fato e por mais que nos machuque, nós não podemos mudar a realidade. Agora, graças a Deus, temos um ao outro e acho que a nossa vida sexual vai assumir, com o tempo, um papel muito importante na superação desse luto.
Ele juntou as sobrancelhas e franziu a testa. Caraca! Será que eu estou me fazendo entender? Respirei fundo e continuei.
- Edward, fazer amor com você sempre é uma forma de te mostrar o quanto eu te amo e te desejo e o quanto eu pertenço a você. Não podemos ‘nos punir’ achando que isso é ‘não estar de luto por nossos pais’ ou achando que fazer sexo é uma forma de mostrar que ‘esquecemos a nossa dor’. Ao contrário, acho que superaremos melhor esse tempo difícil se o nosso relacionamento continuar a ser tão forte e tão lindo como sempre foi. Dentro da nossa ‘bolha de amor’ encontraremos um novo consolo para nós dois.
Ele ouviu tudo com atenção. Depois colou nossas testas, seus olhos verdes estavam sempre nos meus, respirou fundo e sorriu.
-Te amo, Bella. Eu não sou nada sem você.
Ficamos assim por mais um tempinho até que ele respirou fundo de novo e falou.
- Acho que demos sorte por você não querer ter ficado na mansão Swan. Não me lembro de vocês terem um bunker lá. – ele sorriu o meu sorriso torto.
- Nem eu me lembro de você ter me falado desse aqui. – fiz careta e beijei a pontinha de seu nariz.
- Desculpe, amor. Mas eu ia te falar depois de nosso casamento porém, hoje ele foi essencial para nós. A única pessoa que sabia desse lugar além de mim e de meus pais era Charlie.
- Papai? Por quê?
- Ele era como um irmão para Carlisle era natural que soubesse. Aos dez anos de idade meu pai me trouxe aqui e explicou a importância desse lugar, me fazendo jurar que eu só contaria para a minha esposa e DEPOIS do casamento.
- Hum ... isso que dizer então que agora você SÓ pode casar comigo!
Sorri e me surpreendi por tentar ser engraçada.
- Eu só posso, só quero e só vou me casar com você. – ele me beijou de novo com muita ternura.
Sua boca passeava na minha com suavidade, seu toque acariciava não somente os meus lábios mas também a minha alma. Todo o meu ser se preencheu por Edward Cullen e num curto intervalo de tempo eu pude esquecer da minha dor.
- Te amo, Edward. Muito. – falei entre beijos.
- Amor, eu acho mais seguro que por hora a gente termine de passar a noite aqui. Nós ainda estamos sem saber de muita coisa sobre aquele casal, talvez eles voltem e ...
- Tá tudo bem, Edward. – falei e encostei a minha cabeça em seu peito.
- Apesar do isolamento térmico, lá fora tá frio, se afaste um pouco pra que agente possa entrar nesse saco.
Nos afastamos, abrimos o zíper e entramos no espaçoso saco de dormir. Lá dentro ficou beeem melhor. Me aninhei rapidamente em seus braços e inspirei, sentindo seu cheiro tão gostoso.
- Esse saco até que é confortável.
- É um saco de dormir com manta de proteção contra o frio e contra o fogo.
- Caramba! Tudo aqui é muito bem planejado. – falei surpresa. – Me fale mais sobre esse bunker, Edward.
- Você não quer tentar relaxar e pegar no sono?
- Não acho que vá conseguir relaxar logo, minha adrenalina deve estar nas maiores alturas. Quero que você me fale sobre este lugar. Quem o construiu?
- John Alfred Cullen era o bisavô de papai. Ele foi comandante da 17ª Infantaria de New York, lutando ao lado dos principais comandantes da União na Guerra da Secessão. Em 1863, Alfred esteve na mais sangrenta de todas as batalhas, em Gettysburg, na Pennsylvania. Mais de 150 mil homens morreram em três dias de batalha. No final, a vitória da União foi decisiva para os rumos da guerra. – ele fez uma pausa – Tá acordada ainda?
- To, pode continuar. – ele sorriu baixinho e prosseguiu.
-Alfred voltou da guerra e em 1866 casou-se com Lizzie Thompson dois anos depois, a herdeira dessa propriedade.
- Quer dizer que essa mansão já foi a ‘mansão Thompson’?
- Não necessariamente. Era uma grande propriedade. O pai de Lizzie era um banqueiro quase falido que perdeu tudo na guerra. Inclusive a filha.
- Hãm?
- Ele era um viúvo viciado em prostitutas, uísque e jogos. Numa noite de bebedeira apostou a sua casa e tudo o que havia nela, inclusive a virgindade da sua filha de quatorze anos.
- Miserável! – falei um pouco mais alto.
- John Alfred tinha trinta e quatro anos na época. Ganhou o jogo e se apossou de tudo mas parece que havia um pouco de decência nele porque quando veio conhecer a futura mulher, encontrou uma menina de tranças bastante assustada.
- Coitadinha. – murmurei.
- Meses depois, o velho Thompson morreu de tuberculose e Alfred assumiu a posse de tudo. Mas ele soube respeitar a menina Lizzie, nos dois anos seguintes ele se preocupou em reformar a propriedade e se tornou sócio de uma tecelagem. Casaram-se quando Lizzie completou dezesseis anos e tiveram nove filhos. Quando Alfred juntou dinheiro suficiente, demoliu a velha casa e mandou construir esta com o bunker. Ele tinha medo que uma nova guerra chegasse e dizimasse sua família.
- Como vocês ficaram sabendo disso tudo?
- Ao que parece, Lizzie escrevia diários. Narrou toda a sua vida como uma Senhora Cullen.
- Mas o que fez esse bunker ser tão bem aparelhando? Os homens Cullen parecem se importar muito com ele.
- Anthony Michael Cullen, meu avô, era agente da CIA. Você lembra dele?
Assenti com a cabeça e ele continuou.
- O velho era paranóico e sempre fez questão de um sistema de vigilância bastante moderno para a mansão. Ao que parece, papai entrou na dele e depois de hoje, eu também. – ele sorriu torto.
- As mulheres dos Cullen têm muita sorte. – falei e suspirei aliviada.
- Hãm?
- Vocês são muito inteligentes e precavidos. – bocejei. – Então foi Carlisle quem equipou este bunker com todos esses computadores?
- Papai só pegou carona nos cuidados de vovô. A idéia sempre foi a mesma, a de fazer deste lugar uma fortaleza.
Bocejei de novo.
- Vamos dormir agora, princesa?. – ele beijou meus cabelos.
- Vamos. – me apertei mais contra seu corpo – Boa noite, te amo.
- Boa noite. Eu te amo mais.
*POV EDWARD*
O dia já tinha sido extenuante pra nós dois e quando chegou a hora de dormir e finalmente Bella conseguiu pegar no sono, aqueles dois desconhecidos apareceram. Foi por muito pouco.
Graças a Deus que não estávamos na mansão Swan e que eu estava acordado. Se eu tivesse a oportunidade de conversar com J. Alfred Cullen algum dia, eu juro que beijaria seus pés por ter tido a idéia de ter feito este bunker. Só de pensar em Bella correndo algum tipo de risco, sinto um aperto grande em meu peito.
Mas agora ela está aqui, segura em meus braços. Sua respiração é calma e compassada mas seu rosto parece cansado. Bella é tudo o que me resta, tudo o que importa pra mim. Agora preciso dela mais do que nunca, minha vida está completamente em suas mãos.
Sinceramente, acho que não conseguirei pregar os olhos mas precisava fazê-la dormir. Primeiro porque ela precisa descansar, segundo porque eu preciso pensar. Pensar no que devemos fazer.
Procurar o Ten. Stevenson? Talvez.
Mas o que diríamos a ele? Quem um casal desconhecido e extremamente habilidoso em desativar um sofisticado alarme de segurança esteve aqui?
Não, o Ten. Stevenson iria se perguntar o que aquele casal estaria procurando aqui em casa. Talvez isso o levasse a essa suposta investigação que papai e Charlie estavam fazendo.
E nesse ponto, eu concordo inteiramente com Bella. Nós não sabemos ainda o que é, mas deve existir uma correlação entre o suposto assassinato de Felix Cudmore, sua família, sua amante e nossos pais. A viagem à Suíça é que não se encaixa muito porque papai e Carlisle voltaram dizendo que o amigo só deixou umas poucas economias para os filhos.
Mas e se eles estivessem mentindo? Isso é absolutamente possível. Eu mentiria se achasse que isso protegeria minha família ...
Então, é isso!
Considerando a hipótese de papai e Charlie terem realmente descoberto algo de muito relevante, eles tentaram ao máximo esconder de nós para nos proteger ... Mas isso não nos leva a lugar nenhum. O que de tão importante estaria acontecendo? Poderia ser um bilhão de coisas!
Sinto lágrimas escorrerem pelo rosto. Lembro que papai e Charlie viviam de segredinhos e que até Rennè reclamava horrores disso. Nos últimos dias de vida eles também conversaram bastante com aquele amigo deles, Ben ... Ben Chenney. Isso. No dia seguinte telefonaria pra ele. Estranho ... percebi que os Chenney não estiveram no velório.
Outra coisa que preciso fazer é uma nota mental para no dia seguinte perguntar a Bella o que danado tem naquela bolsa tão pesada. Parecia chumbo quando eu a carreguei mais cedo. Eu e Bella precisaremos redefinir a nossa relação se antes já não existiam segredos, a partir de agora teríamos que ler o pensamento um do outro, pra nossa segurança, claro.
No dia seguinte também teria que procurar o Sr. Howard, advogado de ambas as famílias, precisamos passar uma procuração pra ele. Seu escritório de advocacia continuaria a administrar nossos bens até que eu e Bella terminemos a faculdade e ...
*FIM DO POV EDWARD*
Acordei relaxada nos braços de Edward. Levantei a cabeça e sorri, percebi que meu amor ainda dormia. Ele é tão lindo, tão perfeito, não me canso de olhar seu rosto tão glorioso. Mas pela minha visão periférica logo percebi onde estávamos, no bunker da mansão Cullen. Meu sorriso murchou porque me lembrei de tudo, da morte de nossos pais, do choro, da saudade, daqueles dois que invadiram a casa no meio da noite ...
‘Obrigada, meu Deus, porque ainda estamos vivos’, fiz uma rápida oração e me mexi um pouco na tentativa de abrir o zíper do saco de dormir. Com um certo esforço consegui sair dele com a maior sutileza possível porque Ed ainda dormia. Comecei a fazer um tour pelo bunker.
O espaço era na verdade uma grande sala com vários aparelhos de vigilância de última geração, no meio da sala tinha uma pequena mesa em madeira maciça e de estilo vitoriano com quatro cadeiras. Mais alguns metros adiante, se percebia ao fundo uma meia parede, caminhei até lá e vi uma minúscula pia, um frigobar, um mini fogão, um microondas e armários embutidos na parede. Numa porta a uns dois metros de distância, havia um banheiro. Entrei nele e me surpreendi pois tinha creme dental, três escovas de dente e sabonetes ainda na embalagem e um kit de primeiros socorros num pequeno armário na parede. Aproveitei a oportunidade e fiz minha higiene pessoal, lavei o rosto e tentei melhorar o aspecto de meu cabelo.
Voltei para o minúsculo espaço que seria a cozinha do bunker, abri o armário e vi ali caixas de cereal e granola, leite em pó, café solúvel, barrinhas de cereal, macarrão instantâneo, biscoitos, torradas e bebidas energéticas. Olhei em algumas embalagens e percebi que os alimentos estavam dentro do prazo de validade. Numa outra prateleira tinha um aparelho de jantar completo e um faqueiro, além de algumas tigelas plásticas. Na prateleira superior só havia garrafas de água mineral, muitas delas. Abri o frigobar e vi empanados de frango, hambúrgueres e iogurte. Embaixo da minúscula pia tinha um pequeno conjunto de panelas. Fervi água no microondas e preparei duas xícaras de café, pus cereal e leite em duas tigelas e peguei uma embalagem de torradas. Me dirigi até a mesa e nela tinha uma pequena caixa quadrada de madeira, seus lados deviam ter uns dez centímetros de cumprimento, sua tampa era um bonito mosaico em vários tons de marrom. Sorri comigo mesma, imaginando que até mesmo dentro daquele bunker havia um toque de minha querida Esme, decorando o ambiente. Tirei a caixa de cima da mesa, colocando-a em cima de uma das cadeiras e arrumei o nosso pequeno café da manhã. Corri meus olhos pelos painéis do sistema de segurança e vi ali um pequeno relógio digital. Eram sete e dez da manhã de domingo.
Percebi Edward se mexendo dentro do saco de dormir e sabia que ele tava prestes a acordar. É sempre assim, quando ele vira rosto de um lado e pro outro, franzi a testa e faz um biquinho ... é porque vai acordar logo. Fui até lá e me ajoelhei ao seu lado, comecei a beijar de leve em cada pedacinho de seu rosto. Ele sorriu ainda de olhos fechados.
- Bom dia, amor. – falei baixinho.
- Hum ... bom dia, princesa.
Ele se espreguiçou e sorriu, sem abrir os olhos, mas quando o fez, sua reação foi igual a minha. Estreitou o olhar enquanto olhava ao seu redor e caia a ficha pra ele da nossa situação. Deu um suspiro pesado.
- Por um breve instante esqueci de onde estávamos. – falou desanimado enquanto saia de dentro do saco.
- Eu sei, Ed. Senti o mesmo quando acordei. – me levantei e lhe estendi a mão, fazendo-o se levantar também.
Ele me abraçou e eu falei próximo ao seu ouvido.
- Amor, fiz uma excursão pelo bunker enquanto você dormia. – ele afrouxou a abraço e se afastou, me olhando nos olhos – Tem um banheiro e uma cozinha aqui. Preparei um café pra nós e ainda tá quentinho ...
- Obrigada, Bella. – ele beijou minha testa – Vou lavar o rosto e logo tomaremos café.
Comemos o café da manhã meio calados.
- Bella, eu demorei a pegar no sono, fiquei pensando numas coisas.
Ele segurou uma de minhas mãos e falou depois que terminamos a refeição. Seu semblante era sério e concentrado.
- No que, amor?
- Primeiro, vamos ao mais fácil. Amanhã eu acho que devemos ir no escritório do Sr. Howard e ver com ele uma forma de fazer uma procuração para que sua empresa passe a administrar nossos bens. Pelo menos até que a gente termine a faculdade. São muitos fundos de investimentos, contas bancárias e imóveis que herdamos ...
- Sem falar nas ações, jóias e obras de arte. Declarar o imposto de renda disso tudo deve ser terrível. – assinalei – Você também deve dar folga para as empregadas por tempo indeterminado.
Ele assentiu e respirou fundo, parecia procurar pelas palavras.
- Sabe, eu preciso te dizer com todas as letras que na época em que nossos pais nos contaram daquela investigação pessoal que estavam fazendo sobre Felix Cudmore, eu não dei importância. E até tentei demover de você qualquer tipo de preocupação em relação a essa história e a viagem para a Suíça que eles fizeram. Perdão, amor. Eu não tive a intenção de não dar importância a esse assunto, tudo o que eu queria era que você não se preocupasse a toa ...
Enquanto Edward falava, seu semblante transbordava de dor. Ele tava se desculpando? Era isso mesmo que eu ouvia?
- Então eu tentava te distrair, mostrando que você sempre se preocupava demais. Eu não queria, Bella, eu juro. Não queria ter sido tão tolo. Talvez se eu tivesse me preocupado junto com você, se eu tivesse imaginado que poderia haver mais ali do que uma simples investigação pessoal movida pela curiosidade ... nós dois pudéssemos ter feito algo, como por exemplo, fazê-los desistir da viagem, e nossos pais estariam ... vivos ...
- Pare, Edward! – falei rapidamente, me levantei da cadeira e me sentei em seu colo, suas mãos envolveram minha cintura enquanto as minhas seguravam firme em seu rosto, fazendo-o me encarar – Eu não admito, Edward! Nunca, jamais se culpe pela morte de nossos pais. Nós não podíamos imaginar que isso acabaria assim, nós nem sequer sabemos o que está acontecendo. Eu também tive insights, como por exemplo no dia em que entramos no iate novo de Carlisle e eu tive uma vertigem, lembra? – ele apenas assentiu com a cabeça – Pois bem, na verdade eu senti uma imensa angústia quando entrei nele e depois, no mês seguinte o iate explodiu. E só agora eu entendo os momentos de angústias que senti quando papai me falou da investigação e da viagem à Zurique. Não dava pra sacar tudo, amor. Nós não somos videntes. – eu comecei a chorar baixinho – E você tem muita sorte porque você dificilmente tem pesadelos que se concretizam.
Meu choro se intensificou e ele passou a acariciar meu rosto.
- Que tipos de pesadelos, Bella? – sua voz expressava toda a sua dor.
- Eu ... eu ... sonhei com a morte de nossos pais. Foi tipo um dèjá vu, Edward. Lembra que teve uma hora, lá no velório, que meu choro ficou absurdamente descontrolado? – ele assentiu – Foi nessa hora, que você sussurrou no meu ouvido ‘Sinto muito, meu amor’ que eu me lembrei do sonho. Nele nós não estávamos especificamente num velório, mas havia a densa e gelada neblina e você me abraçava e dizia essas mesmas palavras. Então se tem alguém aqui que poderia se sentir culpada, esse alguém sou eu porque eu tive ...
- Shii, Bella. Eu também não admito que você se culpe. – ele selou meus lábios com seus dedos - Eu não podia imaginar, amor, que você se sentisse assim também. Mas seus pressentimentos não são como o boletim meteorológico, Bella, isso não é ciência exata. Você não pode saber o significado de tudo o que sente. – ele me abraçou – Vamos os dois não se culpar. OK?
- Tá. – sussurrei de volta e me senti melhor porque finalmente eu havia desabafado um pouco. – Edward, já que estamos aqui dentro, devemos ser práticos. – mudei logo de assunto e me levantei de seu colo – Acho que você deveria me dar uma rápida explicação de como esse bunker funciona, como funciona esse sistema de vigilância, essas coisas ...
- OK. Bem pensado, Bella. – Ed se levantou e me puxou pela mão – Estamos no subsolo da mansão, mais especificamente, na área central da casa. Este bunker tem 49 metros quadrados, suas paredes e seu teto são revestidos de concreto e blindagem nível quatro, o mesmo tipo de blindagem do carro do presidente. – nós andávamos pelo cômodo enquanto ele falava – A porta por onde passamos e as outras duas que dão acesso aos outros dois quartos da casa são de aço e também são blindadas.
Eu olhava tudo com muita atenção e me admirava, não podia imaginar que essas coisas existissem em casas de cidadãos comuns como os Cullen.
- O sistema de ventilação é um dos mais modernos do mundo, é independente do resto da casa e muito bem camuflado, feito para passar despercebido ao mais astuto invasor. O gerador de energia também é independente e ainda temos um gerador reserva que tem autonomia de até 24 horas de funcionamento. O sistema de vigilância é composto de uma CPU e de seis monitores de TV que registram imagens de 48 pontos diferentes da propriedade, durante 24 horas. Todo material é arquivado por um gravador digital e podemos assistir de qualquer computador e em qualquer lugar do mundo, basta ter o código de acesso. – ele falou enquanto me mostrava o computador – Temos um telefone celular e uma linha telefônica independente e não há perigo de usá-los porque se tiverem de ser rastreados, aparecerá um endereço inexistente em algum ponto do deserto de Utah. Ainda temos esse notebook aqui com acesso a internet.
- Caraca! – foi tudo o que eu disse.
- Bom, agora sou eu quem precisa de uma explicação. – ele virou seu corpo pra mim e suas mãos seguraram em meus ombros – Aquela imensa bolsa de viagem que você colocou no closet ontem e trouxe pra cá. O que tem nela?
Hum ... Mordi o lábio inferior e semicerrei os olhos. Como é que eu iria explicar isso pra ele? Contar ou não contar? Mas ele me conhece muito bem, sabia que eu estava hesitante.
- A verdade, Bella. Seja ela qual for.
- Edward, eu ... parece bobagem o que eu vou falar agora. – respirei fundo e continuei –Veja, quando eu estava arrumando as nossas mochilas, em Boston, não sei o que me deu mas eu tive a nítida certeza de que nós não voltaríamos pra aquele apartamento. – ele juntou as sobrancelhas e franziu a testa – Não que nós nunca mais voltaremos pra lá, não é isso. Mas eu senti que não vamos voltar lá nem tão cedo. Então peguei o nosso mini cofre porque nele estão todos os nossos documentos e as minhas poucas jóias. Também peguei todos os nossos álbuns de fotografias e pus tudo dentro da minha mochila ...
- Mas por que ...
- Tem mais. Quando chegamos na casa de meus pais, eu tive a mesma sensação. Lembra que eu te disse que ia ao quarto deles? – ele somente assentiu – Então, fui lá e abri o cofre do closet de mamãe e pequei todas as jóias. Também peguei todos os álbuns de fotos, e isso se revelou numa decisão acertada. Você lembra que nossos visitantes saíram daqui com destino à mansão Swan?
- Verdade ... Acho até que deveríamos fazer o mesmo com as jóias de mamãe ...
- E com as fotos também. Afinal, são nossa vida, nossa história.
- Bella, eu também pensei noutra coisa antes de pegar no sono. Não sei se você notou mas os Chenney não estiveram presente no velório.
- É mesmo, Ed. Você acha que deveríamos ligar pra eles? Eu acho que não vieram porque não souberam do ... da ... do que aconteceu. – minha voz foi murchando e ele me abraçou.
- Vai ficar tudo bem, Bella. Nós vamos ficar bem, eu juro. – suas mãos acariciavam minhas costas com leveza. – Acho que é mais seguro se ligarmos para o Chenney daqui de dentro, usando o telefone não rastreável, mas pra isso vamos ter que acessar a internet e procurar o número deles na lista eletrônica.
- Eu faço isso. – desfiz nosso abraço e me dirigi à mesa, liguei o notebook.
- Vou dar uma checada nas câmeras da casa pelo monitores. – ele foi pro outro lado do bunker.
De repente, me ocorreu uma coisa.
- Amor ...
- Oi.
- Tem câmeras no seu quarto? – corei.
-Sim. Apenas uma que faz um giro de 360°. – corei mais ainda.
- Ligada 24 horas?
- Ãn-ham ...
Caraca! Morri!
- Então ela gravava tudo?
- A intenção era essa, Bella. Mas por que a pergunta? Ah! Saquei.
Ele começou a rir baixinho.
- EDWARD!!! – virei meu rosto pra ele e falei exasperada – Não tem graça, sabia? Desde quando essa coisa me filma quando nós fazemos ... fazemos amor?
- Desde sempre, Bella. – sua risada ficou mais alta – Mas relaxe, porque às vezes eu me lembrava de desligar antes.
Deixei o notebook de lado e fui em sua direção. Cruzei os braços na frente do peito e fiz cara feia.
- Não me olhe com essa cara. – ele continuava rindo – Desde a primeira vez que você dormiu comigo aqui em casa, ninguém, além de mim teve acesso às gravações dessa câmera. Eu juro – ele falou solenemente e me abraçou – Mas amor, você não tem idéia de como era excitante, pra mim, assistir a esses vídeos antes de apagá-los. Por várias e várias vezes eu tive vontade de ter mostrar alguns. Garanto que seria uma ótima experiência pra nós.
Essa segunda parte ele sussurrou ao meu ouvido. Senti o tão familiar arrepio percorrer meu corpo.
- Talvez ... um dia. – falei quando consegui me concentrar – Deixa eu voltar para o notebook e pegar o número dos Chenney.
Localizei rapidamente o número do telefone da casa deles lá em Washington D.C. e ditei para Edward. Ele discou o número na mesma hora.
- Alô, bom dia. Eu estou falando com a Sra. Chenney? - ele esperou um pouco – Como vai, Sra. Chenney? Aqui é Edward Cullen, o filho de Carlisle Cullen, amigo de seu esposo, Ben. Ele está?
A pausa dessa vez foi bem maior e Ed fez uma cara de espanto.
- Sinto muito, Sra. Chenney. Sim, naturalmente nós não sabíamos disso. Meus pêsames. Direi sim, até logo. – Edward encerrou a ligação e ainda ficou com o fone nas mãos.
- Edward? – ele não respondeu – EDWARD! – falei mais alto e toquei em seu rosto – O que houve?
- Ben Chenney não veio ao velório de nossos pais porque ele também está morto, Bella ...
Sua voz falhou.
- Co-como assim? – guinchei.
- Ele foi vítima de latrocínio na manhã do dia 07. No mesmo dia em que nossos pais ... Meu Deus, Bella! – ele me abraçou – O que é isso? De uma hora pra outra uma coisa começou a matar as pessoas ao nosso redor!
Ficamos abraçados, o coração de Ed dava imensos galopes junto com o meu.
- Amor, me diga realmente o que aconteceu. – puxei-o para sentarmos no saco de dormir.
- A Sra. Chenney me disse que na quinta-feira, de manhã, Ben saiu de casa no horário de costume, em direção à sede do FBI. Parou no meio do caminho pra comprar o jornal, como ele sempre fazia todas as manhãs. Quando descia do carro em direção à banca de jornais, um garoto o alcançou, puxou seu relógio e lhe deu um tiro a queima roupa. Depois, entrou em seu carro e saiu em disparada. – Edward despejava tudo num fôlego só – Horas depois a polícia pegou o assassino. Um jovem de 17 anos, viciado em crack. A arma do crime sumiu juntamente com a pasta de documentos que Ben carregava no carro. O veículo só foi encontrado ontem à tarde, estava submerso no Lago Barcroft.
- Você acha que ... Esses crimes têm alguma relação? – eu achava que sim.
- Acho, por isso não contei a Sra. Chenney sobre nossos pais. Mas não consigo ver a ligação entre esses crimes.
- Eu sinto que devemos, para o nosso bem, descobrir que ligação é essa. – ele apenas assentiu.
- Amor, eu ... – ele segurou meu rosto em suas mãos – Eu não sei o que fazer nesse momento. Desculpe, Bella. – juntamos nossas testas e nos olhamos nos olhos.
- Edward, eu não entendo. – franzi a testa – Já é a segunda vez que você se desculpa sem ter feito absolutamente nada de errado. Eu não ...
- Será que você não vê, Bella. – ele falou exasperado – Eu deveria cuidar de você, achar uma solução pra nos tirar daqui, nos tirar da linha de fogo. Alguém muito letal está aí fora e nós nem sabemos de quem estamos nos escondendo. Eu já perdi todo mundo que amo, Bella. Só tenho você ...
Sua voz era rouca e baixa, seu olhos estavam úmidos, suas mãos seguravam as minhas com muita ansiedade. Foi a minha vez de juntar seus lábios com os meus dedos.
- Edward, por favor, pare. Precisamos os dois sair desse espiral de culpa, isso não vai nos ajudar. Nós estamos órfãos mas graças a Deus nossos pais nos ensinaram tudo o que era possível. A única coisa que não temos é experiência e isso nós vamos adquirir juntos. Entendeu? – ele sorriu torto e assentiu – Você e eu. Juntos. A nossa família, eu e você, vai continuar a existir.
- Te amo, Bella.
Ele me abraçou e sussurrou. Beijou o lóbulo da minha orelha e seus lábios fizeram o caminho de meu pescoço e queixo, chegando aos meus lábios, separando-as com doçura. Minhas mãos se enroscaram em seus cabelos e as dele desceram até a minha cintura, e eu me dei conta de que estava faminta de seus beijos, de sua língua enroscada na minha, de seus carinhos, e da magia do seu toque em minha pele. Quando o ar nos faltou, ele voltou a se explicar.
- Eu só fico muito angustiado, Bella, por não saber direito o que fazer. A impressão que eu tenho, nesse momento, é que não sou bom o suficiente para você. – quando eu fiz menção de interromper, ele levantou uma das mãos, detendo-me – Pela lógica, eu deveria te proteger, cuidar de você ...
Tudo o que ele me dizia agora era muito, muito difícil de se escutar. Meus olhos se encheram de lágrimas.
- Mas eu juro, Bella, vou fazer o meu melhor por você. Essa coisa toda nunca vai te machucar, não enquanto eu viver ...
- NÃO! Não quero mais que você pense nessas coisas, Edward! Olhe pra mim, olhe nos meus olhos agora. – ele me encarou com atenção – Você é a minha vida, o meu mundo. Você é quem deve cuidar de mim, me proteger, me amar. Não existe, Edward Cullen, NINGUÉM mais que possa ser melhor pra mim do que você. – eu acho que chorava porque ele passou os dedos em meu rosto – Agora pare de pensar em bobagens. Você cuida de mim e me protege. Eu cuido de você e te protejo. É assim que as coisas são, amor. Entendeu? – ele apenas assentiu – Agora, pelo amor de Deus, NUNCA MAIS pense que você não é bom o suficiente pra mim. Você promete?
Ele apenas assentiu.
- Promete? – insisti.
- Prometo. – seu olhar indecifrável ainda se fixou no meu por um bom tempo – Acho que podemos sair desse bunker agora, pegar algumas coisas lá fora e voltar pra cá. Precisamos de roupas limpas. – ele falou por fim.
- É mesmo. Quero tomar um banho.
Ed se levantou e me puxou com ele.
- Então, você fica no quarto e pega uma roupas pra nós. Eu vou até o quarto de meus pais e vou abrir o cofre de mamãe, pegar as jóias e o que mais tiver de importante.
Subimos rapidamente as escadas em direção a casa. Prestei bastante atenção na forma como ele ‘abria a parede’. Voltamos ao seu quarto.
- Ed, não quero que você vá sozinho. – segurei em seu braço.
- Não, Bella. Sem chances de você ir comigo. – ele se livrou de minha mão – Só vou aqui no quarto ao lado, conte cinco minutos eu estarei de volta. Você nem vai ter tempo de contar pois vai estar ocupada. – me deu um selinho e saiu.
Não gostei de ele ter ido sozinho. Tentei ser rápida. Peguei umas roupas, minha nécessaire e nossos celulares, coloquei tudo na minha mochila que estava em cima da poltrona. Sentei na cama e vi que tinham oito chamadas não atendidas em meu celular. Eram Vic, Jess, Jake e Leah mas achei melhor não ligar de volta. Levei a mochila até o closet, próximo à entrada do bunker. Voltei ao quarto e nada de Edward, sentei na cama e esperei.
Esperei.
Esperei.
Respirei fundo e abri a porta do quarto. Caminhei uns cinco metros em direção ao quarto de Esme e Carlisle. Quando eu ia abrir a porta, Edward abriu primeiro.
- AH! – tomei um susto e ele ficou possesso de tanta raiva, seus olhos me queimaram.
- Mas que droga, Bella. PUTA QUE PARIU!!! – uma de suas mãos me pegou pelo braço e ele me arrastou de volta ao quarto – Será que dá pra você ficar quieta num canto e fazer o que eu te peço? Pelo menos uma vez na vida?
Fiquei muda. Edward nunca falou assim comigo. Me senti como o mosquito do cocô do cavalo do bandido. Veio um nó na minha garganta e eu selei meus lábios se não, eu ia chorar. Baixei meu olhar enquanto andávamos.
Voltamos ao quarto dele e entramos. Ed deixou uma sacola no chão e respirou fundo. Fechou os olhos e seus dedos seguraram a ponte de seu nariz.
- Bella ... – sua voz era baixa e rouca, puro estresse – Agora eu realmente te devo desculpas. Mas eu fiquei muito preocupado com sua segurança.
- Tu-tudo bem. – eu ainda olhava para o chão.
- Vou até a biblioteca. Você quer ir comigo ou quer voltar para o bunker agora? – senti uma mão sua tocar em meu ombro e a outra segurou em meu queixo, erguendo meu rosto.
- Eu vou voltar lá pra dentro, então. – falei tão baixo que nem sei como ele pode me escutar.
Peguei a sacola e fui para o closet, dessa vez eu ‘abri a parede’ sozinha.
- Volto logo. – ele me deu um selinho e saiu.
Desci as escadas ao mesmo tempo em que lágrimas desciam pelo meu rosto. Sentei numa das cadeiras e pus a sacola em cima da mesa. Só nessa foi que reparei nos detalhes dessa mesa tão antiga.
Ela tinha duas gavetas! Que engraçado! Mesas com gavetas são realmente muito raras. No assento de uma das cadeiras ainda estava a caixinha de madeira que eu havia deixado. Peguei-a de volta e a deixei sobre a mesa. Era uma caixinha muito bonita mesmo, achei que era uma bomboniere. Tirei sua tampa na esperança de achar um chocolatinho qualquer mas só tinha duas pequenas chaves dentro delas e um bilhetinho.
“Para Edward e Bella.
De seus pais, Carlisle e Charlie.”
Havia duas assinaturas e eu reconheci a de papai. Meu coração começou a bater MUITO forte, minhas mãos tremiam enquanto eu pegava nas chaves.
É isso!!!
As chaves só podiam ser daquelas gavetas!
- Bella? Voltei. – ouvi Ed falar.
Peguei as chaves e corri de volta em direção ao som de sua voz e quase o atropelei. Eu acho que sorria e chorava.
- EDWARD! Ah, Edward ... nossos pais ... – mostrei as chaves em minha mão – Eles deixaram alguma coisa pra nós!!!
- Hãm ?
- A mesa ... as chaves ... o bilhete!
Eu tava feliz, subitamente meu coração se encheu de esperança. Era como se aquelas pequenas chaves fossem realmente as chaves para a nossa segurança e para a nossa nova vida.
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