Caos
Lady Alice andava de um lado pro outro, no pequeno terraço de seu quarto. Desde que se casara com Jasper, Edward havia mandado construir um anexo ao castelo Cullen. As duas construções eram interligadas pela enorme sala de banquetes. Um dos guerreiros Cullen já havia chegado, informado a Alice e a Carlisle, o médico do Clã, que Jasper estava relativamente bem, mas que precisava de cuidados.
- Alice, por favor, sente-se um pouco. – Lady Esme sugeriu com doçura – Seu parto foi a menos de duas semanas, querida, você não deve se consumir desse jeito. Seu marido está vivo e vindo para cá agora!
- Ah! Esme eu não consigo ... – Alice choramingou e sorriu – Meu coração parece que vai saltar pela boca ... Meu Jasper está vivo, afinal!
- Então, Alice, procure se conter! – Esme a abraçou – Pense em sua filhinha, você precisa se controlar por causa dela. Lembre-se que seu leite não pode secar ...
Como se quisesse confirmar as palavras da parteira, a pequena Hannah, que dormia num lindo bercinho de madeira entalhada, construído pelo tio e pelo pai, chorou a plenos pulmões. Já era hora de ela mamar novamente. Lady Alice sentou-se na cama com a filha nos braços, abriu os cordões de seu corpete e ofereceu-lhe um seio. A menina sugou com determinação, como se sua frágil vida dependesse daquele singelo ato.
Lady Esme olhava com admiração a linda cena. Hannah era uma das inúmeras crianças do Clã Cullen que ela havia ajudado a vir ao mundo ... De certa forma, a parteira sentia uma ligação especial com todas essas crianças! Afinal, Deus nunca permitiu que ela concebesse um filho ... Nunca, exceto daquela única vez ... Ah! A dor atingiu em cheio o coração daquela linda dama ao lembrar-se de seu bebezinho que veio a este mundo sem o sopro da vida.
As memórias de Lady Esme foram invadidas por difíceis recordações.
- Vamos sua tonta! Faça força! – a voz embriagada de Justin, seu primeiro marido, ecoava pelo quarto.
- Calma, Barão. A sua esposa está muito fraca. – o jovem médico intercedeu por ela.
- Para o inferno vocês dois! – o homem gritou – Esme, traga meu filho ao mundo!
- Barão ... desse jeito o senhor não está ajudando ...
- Cale a boca, seu escocês de merda! – o marido furioso gritou para o médico – Se meu filho morrer, eu mato vocês dois. Ouviu?! Meus guardas estarão aqui, do lado de fora do quarto. Vocês só sairão daqui quando esta criança nascer!
Justin, o Barão de Ayres era um inglês famoso por seu temperamento colérico. Ele havia se casado com a doce e bela Lady Esme e ansiava por um herdeiro. A gravidez de sua esposa foi muito difícil, vários médicos foram chamados, mas nenhum pode ajudar muito. Até que um dia o jovem e ingênuo Carlisle, um escocês, foi assaltado numa estrada da Inglaterra por cruéis bandidos. Carlisle foi deixado meio-morto à beira de um riacho, Justin foi acometido de uma inédita compaixão. Ordenou aos seus soldados que levassem o rapaz ao estábulo e o alimentassem. Depois de curado, Carlisle se apresentou a Justin como médico e ofereceu seus serviços em troca do favor que havia recebido. O Barão aceitou a oferta de bom grado, afinal sua débil esposa precisava de cuidados.
Carlisle era jovem mais amava a medicina, então fez algumas pesquisas e rapidamente diagnosticou o problema de Lady Esme. A criança em seu ventre não mexia, a mulher estava fraca, com os nervos abalados e morria de medo do marido. Carlisle sabia que logo ela teria as contrações para expulsar a criança morta de seu corpo, então a única coisa que pode fazer foi recomendar repouso e boa alimentação para que a infeliz mulher recobrasse as forças.
- Meu filho já está morto, não é? – Lady Esme lhe perguntou num fraco murmúrio.
- Sim, Milady. – Carlisle falou desanimado
- E você vai contar a ele?
- Não, senhora ... Eu deveria fazer, mas o Barão já a ameaçou de morte ...
- Ele também ameaçou você ... – os olhos cor de mel da linda mulher encontraram-se com os olhos azuis do jovem médico.
- Não temo por minha vida, Milady ... Mas a senhora não merece morrer ...
- Você é escocês, não é?
- Sim! Sou das Highlands ... Meus pais morreram quando era apenas uma criança. Meu tio cumpriu o último desejo de minha mãe e me mandou para o mosteiro quando ainda era um jovem, o sonho dela era que eu fosse médico e padre. (n/a: na Idade Média, muitos médicos eram padres)
- Você é padre? – um brilho de esperança brotou dos olhos de Esme.
- Não, Milady. Não tive a vocação religiosa. – os olhos dela ficaram tristes – A senhora gostaria de ver um padre?
- Sim ... queria me confessar antes de ... antes de morrer ...
A mulher chorou copiosamente e Carlisle se sentiu arrasado por não poder fazer nada. Ele queria chorar também ... Ele não queria que ela morresse ... Ele a amava? Talvez. Mas ele não permitiria que ela morresse! Mas se ele a salvasse? Certamente teria de se responsabilizar por ela.
- Milady ... eu tenho um plano. – ele fez uma pausa antes de continuar – A senhora acha mesmo que seu marido vai lhe matar? – ela assentiu com a cabeça – A senhora gostaria de tentar salvar a própria vida?
- Sim ... mas para onde eu iria? Ninguém em toda a Inglaterra receberia uma mulher que abandonou o marido ... Eu seria considerada uma prostituta ...
- Ninguém no meu Clã perdoaria um marido que maltrata sua esposa. - Carlisle falou com ódio – Um homem como o Barão não tem valor em nossas terras.
- Você é de qual Clã?
- Fui adotado pelo meu tio, Gerard Cullen quando tinha dois anos de idade ... Os filhos de sangue dele são mais novos que eu, Edward será seu sucessor na liderança do Clã.
- Eles me aceitariam lá? Ouvi dizer que os Highlanders não gostam dos ingleses ...
- A senhora é uma vítima de um bastardo inglês, está na mesma posição que nós. – ele esboçou um sorriso – Escute, Milady ...
O plano de Carlisle se consumaria quando Esme tivesse as contrações para expulsar o natimorto. Naquele dia, Justin disse uma série de impropérios e ameaças, trancou a porta do quarto por fora e ‘ordenou’ que a criança nascesse. Durante a dolorosa expulsão do feto, Lady Esme não gritou, gemeu ou fez nenhum barulho, ela nem teve tempo de chorar sua desgraçada sina. Carlisle fez o que pode para estancar sua hemorragia, limpou bem a região e rezou a Deus para que a mulher sobrevivesse. Depois enrolou o corpo da criança em lençóis e quase chorou ao constatar que se tratava de uma menina. Com muito cuidado, ajudou Lady Esme a escalar a janela e minutos depois eles estavam no estábulo. Escolheram um bom cavalo, forte o bastante pata agüentar o peso dos dois e cavalgaram por dois dias e duas noites até às Highlands. A viajem só foi interrompida quando Carlisle teve certeza de que estavam seguros, abrigados pelo denso e escuro bosque, ali eles enterraram a pequena criança, choraram e rezaram por ela.
Lady Esme nunca se arrependeu de ter tomado aquela decisão há dez anos trás. Sua nova família escocesa a recebeu de bom grado e as outras pessoas do Clã sabiam de sua origem inglesa (embora desconhecessem que já tinha sido casada), mas a admiravam por sua compaixão em ajudar cada mulher que estivesse dando a luz. Ela era feliz em seu casamento e embora Carlisle fosse três anos mais novo que ela, os dois vivam um sólido e forte amor.
Uma discreta batida na porta do quarto de Alice fez com que Esme voltasse ao presente. A figura rechonchuda e risonha de Sue, a governanta do castelo Cullen, apareceu na soleira da porta.
- Lady Alice? – ela sussurrou para não assustar a criança já adormecida no colo da mãe – A senhora vai jantar aqui no quarto?
- Não tenho fome, Sue. – Alice murmurou.
- A senhora deve comer, pelo bem da criança ... – Alice olhou da sua linda filhinha adormecida em seus braços para Sue e assentiu.
- Vou mandar trazer uma bandeja. – Sue olhou para Esme – Lady Esme jantará conosco?
- Oh! Não, Sue! – Esme se levantou da cadeira onde estava sentada – Preciso ver Maggie, a coitadinha deu a luz ontem de manhã ... Vou ver se precisa de algo ...
- Então leve pra ela um caldo de cozido de carneiro que fiz. – Sue ofereceu.
Esme se despediu de Alice e de Sue, foi até a cozinha, pegou uma vasilha de barro, colocou nele o caldo de carne e também embrulhou um pão de cevada num pedaço de pano limpo.
- Isso lhe pertence, Lady Esme? – uma voz amarga ecoou da despensa da cozinha.
Era Leah, a filha mais nova de Sue e uma das empregadas do castelo.
- Ah! Olá, Leah! Como vai você? – Esme sorriu gentilmente para ela.
- A senhora não respondeu minha pergunta, Milady. – Esme percebeu que Leah proferiu a última palavra com desprezo e zombaria.
- Não Leah, isso não me pertence. – Esme pegou a vasilha e o pão – Isso pertence ao Laird Edward Cullen.
Esme não parou para discutir, simplesmente deu as costas para a infeliz empregada e saiu do castelo. O Clã Cullen era muito bem cuidado por seu Laird, ninguém mendigava por comida, as doenças não dizimavam o povo ... Edward era um senhor consciente de suas obrigações, defender e cuidar das pessoas de seu Clã era a sua principal missão. Por isso, o ato de Esme de levar o jantar para uma jovem mãe, enquanto seu esposo acompanhava seu senhor nas batalhas, não seria recriminado pelo Laird.
Já na cozinha, Sue preparou uma bandeja de comida para Lady Alice. Ela dispôs em pequenas tigelas, mingau de aveia, caldo de carne, batatas cozidas, pão de cevada e uma taça de água fresca. Ordenou a Leah que levasse o jantar da senhora em seu quarto.
- Ela é aleijada? – Leah deu um muxoxo antes de falar.
- Não. – Sue respondeu pacientemente – Mas está se recuperando de um parto muito difícil. Agora deixe de murmúrios e faça seu trabalho.
- Aquela mimadinha e sonsa ... Se acha no direito de mandar em todos nós. – Leah continuou com seu discurso obstinado.
- Filha, pelo amor de Deus! – Sue tinha uma expressão de pena e de dor – Jasper é um homem casado agora! Esqueça-o, Leah! Há mais de um ano você remói uma dor que não deveria existir ... Jasper nunca se interessou por você.
- Os Cullen deveriam se casar somente com as mulheres de seu próprio Clã! – Leah falou exasperada.
- Ninguém diz a um Cullen o que ele deve fazer. – Sue franziu a testa e sussurrou – Agora cale a boca! Vá levar o jantar de Lady Alice e não crie problemas, menina!
Leah segurava as alças da bandeja com muita revolta, com o pé, deu três batidas na porta e entrou no quarto. Murmurou forçadas palavras de educação, deixou a comida e saiu de lá às pressas. Definitivamente, Leah odiava Alice. Leah odiava todo mundo ...
Quando ainda era uma criança, ela colocou na cabeça a idéia fixa que se casaria com Jasper e que Emily, sua irmã mais velha, se casaria com Edward. Na cabecinha dura de Leah isso devia acontecer, afinal Sue havia terminado de criar os dois meninos depois que Lady Elizabeth morreu no parto de Jasper ... Para a indignação de Leah, uma criaturinha mirrada, nanica, falante e de olhar astuto chamada Alice apareceu na fazenda (Lady Alice não era nada disso, mas a visão deturpada de Leah a enxergava assim). Ela já veio como noiva de Jasper! O Clã Cullen e o Clã Brandon tiveram muita alegria na celebração daquele casamento.
Lady Alice vivia em plena felicidade desde o dia em que se casou com Jasper, assim nunca percebeu que Leah às vezes lhe lançava olhares maléficos. Alice nunca imaginou que pudesse haver tantas alegrias no casamento, principalmente no leito matrimonial ... Enquanto se esforçava para engolir seu jantar, ela agradecia a Deus em pensamento por seu Jasper estar vivo e também por sua pequena Hannah estar crescendo forte e bem de saúde. Seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho dos trotes de cavalos, seu coração perdeu uma batida ao constatar que Jasper estava chegando. Alice abriu a porta do quarto e do alto da escada chamou Emily, a outra filha de Sue e também empregada da casa. Desde o nascimento de Hannah, Emily sempre se mostrou mais apta e paciente para cuidar do bebê. A empregada chegou rapidamente e se sentou numa cadeira próxima ao bercinho da criança para velar seu sono.
Alice desceu as escadas de dois e dois degraus, seu coração batia freneticamente e suas pernas bambeavam. Logo ela já estava em frente à porta principal da casa, Sue estava ao seu lado segurando uma tocha. Alice sorria e chorava discretamente ao contemplar seu marido meio deitado, meio sentado sobre o lombo de um cavalo. Ao mesmo tempo em que seu coração estava alegre, também estava em pedaços. Nenhum Highlander merecia a humilhação de ser miseravelmente espancado! Por alguns segundos, Lady Alice desejou que os homens que emboscaram seu marido tivessem uma morte muito dolorosa.
Enquanto se dirigiam para a Abadia, Emmett compartilhava dos desejos de Edward. Se tivesse oportunidade, ele também mataria a todos os bastardos que tinham atacado Jasper. Os Cullen eram aliados dos McCarty, assim, seus inimigos eram também os inimigos dos McCarty. Pouco mais de dois anos atrás, Emmett tinha se aventurado a entrar em território inglês em uma perigosa missão para ajudar a família de sua esposa. Na época, os Cullen tinham prestado ajuda aos McCarty, e agora era a hora dos McCarty corresponderem o favor.
Entretanto, o Laird Cullen era um homem solitário. Mesmo Emmett McCarty sendo seu amigo de longas datas, Edward negava-se a reconhecer os benefícios de ter a alguém além de seu próprio Clã que lutasse a seu lado. Emmett estava acostumado a pensar da mesma forma, e quase lhe havia custado uma guerra com a Inglaterra fazê-lo trocar de opinião. Mas agora, por experiência própria, reconhecia o valor dessas alianças, e considerava não só aos Cullen mas sim também aos Maitland e os Sinclair, dois dos mais poderosos Clãs das Highlands, seus aliados mais próximos. Esses Lairds também se tornaram bons amigos de Emmett.
Os dois homens não falaram durante a maior parte do caminho até a Abadia. Então, Emmett apressou seu cavalo para pô-lo ao mesmo tempo do de Edward, e perguntou:
— Você sabe como conheci minha esposa?
Essa era uma pergunta estranha, pensou Edward.
— Ela estava trazendo de volta o irmão do Laird Ramsey Sinclair para que se reunisse com ele. — respondeu Edward.
— Sim, isso mesmo. O menino só tinha cinco ou seis anos de idade. Um dos homens do Clã Sinclair pensou que deveria ter sido nomeado Laird em lugar de Ramsey e conspirou para se apoderar do Clã. O menino foi usado para atrair Ramsey a campo aberto com a intenção de matá-lo.
— Por que você está me contando isso agora?
— Talvez Jasper tenha sido capturado com o mesmo propósito. Para atrair você.
— Pode ser. No mês passado, por duas vezes, sofri emboscadas de guerreiros que vigiam as fronteiras de meu território.
— Perdeu algum homem?
O Laird Cullen se sentiu insultado pela pergunta.
— É obvio que não! Meus guerreiros estão treinados para esperar do inesperado.
— E os homens que os atacaram?
— Infelizmente nenhum viveu o suficiente para contar quem os tinha enviado, mas não eram Highlanders.
— Seriam bandos de assaltantes? Com a intenção de roubar o que pudessem?
(n/a. Proscrito: nesse contexto, significa assaltante)
Edward negou com a cabeça.
— Você ouviu o que Jasper nos contou. As ordens eram para matar tantos Cullen quanto possível. Os bandos de assaltantes não estariam tão bem organizados. Eles se proliferam no caos e, igual aos ratos, roubam e fogem.
— O que você diz é verdade. — disse Emmett. — O irmão de Ramsey era somente um menino, mas Jasper é um homem adulto. Ele tem quase a mesma idade que você, não é?
— É cinco anos mais novo, mas ainda assim já é um adulto.
— Então por que não esperou o inesperado? Ele foi treinado tão bem quanto os outros.
— Farei essa mesma pergunta a meu irmão assim que ele recuperar o juízo.
— Edward, quem está por trás destes ataques tem a intenção de livrar-se de todos os Cullen.
— Concordo com você.
— Finney’s Flat. Os ataques são por causa da terra.
— Sim — respondeu Edward. — Newton está por trás disto. Tenho certeza.
— Mas você não tem provas.
— Newton é um homem ambicioso. Ele quer se apoderar da terra, e eu não vou deixar que a tenha. Não poderia suportar nenhum dos Newton tão perto de minha fronteira. As planícies de Finney’s Flat funcionam como um amortecedor entre os Newton e nós.
— Faz muitos anos que nosso rei deu de presente a terra ao Rei William. Aquele patife inglês será o dono da terra até que a mulher que escolheu se case com o Laird Black. Ela recebeu Finney’s Flat como dote.
— Estou informado desse acordo.
— Sim, mas do que você não está informado é que esta mulher é prima de minha esposa. Seu pai é o Barão Charlie de Phoenix.
— Você admite ter parentes ingleses? – Edward sorriu torto e arqueou uma sobrancelha.
— Infelizmente admito. Tornei-me mais brando em minhas opiniões, como você sabe, minha esposa é inglesa.
— Não me importa o que ela é.
Chegaram ao topo da colina que estava acima da Abadia, eles puderam ver a aglomeração de tendas que havia na parte sul.
— Essas tendas pertencem aos ingleses. — disse Emmett.
— Não é possível estarem todos aqui para assistir ao casamento de Jacob Black, a não ser que seus familiares ingleses os convidassem.
— Não tantos — respondeu Emmett — Os Black também não iriam querer tantos ingleses assim! Não, na Abadia deve estar havendo outra celebração.
Assim que desceram a colina, entregaram seus cavalos a Seth e Felix.
— Fiquem atentos. — disse Edward enquanto ele e o amigo se dirigiam para as portas da Abadia.
— Sempre estou atento. — assegurou Emmett e puxou a corda para fazer soar o sino.
Um momento depois um sacerdote abriu a enorme porta de madeira.
O Abade era um homem pequeno e radiante que, a julgar pelo tamanho de seu estômago, nunca perdeu uma refeição. Fez gestos para que os Lairds entrassem e já tinha tirado suas próprias conclusões em relação ao motivo da visita deles dois.
— Vieram oferecer suas condolências, não é?
Antes que qualquer um dos dois Lairds pudesse responder, o Abade continuou:
— Devem sentir-se muito decepcionados por terem perdido a missa do funeral, mas devido ao incomum clima quente foi necessário que a família levasse o corpo para casa para enterrá-lo o mais rápido possível. – o sacerdote lamentava – Os senhores tinham a intenção de encontrar a família para falar com eles? É uma pena, mas já se foram. Quer que lhes mostre o caminho para a capela para que possam rezar por sua alma?
Edward e Emmett trocaram olhares. Em seguida, Edward se dirigiu ao Abade. Embora falasse com um homem de Deus, não cuidou das palavras.
— Em nome de Deus, homem do que você está falando?
O Abade rapidamente deu um passo para trás e deu batidinhas no peito com o intento de tranqüilizar-se. Durante anos tinha vivido uma vida tranqüila e contemplativa no mosteiro, e a agitação dos últimos dias estavam causando fraturas em seus nervos.
— Os senhores ainda não sabem? Eu somente presumi … se trata do Laird Black. — o Abade se apressou a dizer quando viu o olhar ameaçador do Laird Cullen. — Ele está morto. Não é por isso que vieram? Para expressar suas condolências?
— Black está morto? — Emmett estava muito assombrado ante o anúncio do sacerdote.
— Como morreu? — quis saber Edward.
O Abade baixou a voz ao responder.
— Foi assassinado. — Fez uma pausa para fazer o sinal da cruz antes de acrescentar — Foi assassinado na escuridão da noite.
— Quando aconteceu? — perguntou Emmett.
— Como foi assassinado? — perguntou Edward ao mesmo tempo.
As expressões dos Lairds assustaram ao Abade. O Laird Cullen parecia o mais ameaçador dos dois, e também o mais zangado. A voz do sacerdote tremeu ao responder, ele mal pôde manter a linha de raciocínio diante do ritmo das perguntas que lhe disparavam rapidamente os dois guerreiros.
Edward notou que cada vez que se movia, o Abade retrocedia. Entrelaçou as mãos atrás das costas como símbolo de paz, para que o Abade soubesse que não lhe fariam nenhum mal.
O Abade se apressou a explicar.
— Eu pensei que tinham viajado todo o caminho até aqui para apresentar seus respeitos, e é óbvio que não sabiam da trágica morte do Laird Black. Agora me dou conta do que aconteceu. Interpretei-o mau, não é verdade? Sinto muito havê-los recebido com tão más notícias quando é evidente que vieram para presenciar uma ocasião muito mais festiva, o casamento.
— Como pode haver casamento se o noivo foi assassinado? — perguntou Emmett, que já estava começando a pensar que o Abade estava louco.
— O Laird Black já não é o noivo… já que foi assassinado — concluiu o Abade precipitadamente.
— Não estamos aqui para assistir a nenhum casamento … e tampouco estamos aqui para um funeral. — disse Edward — Estamos aqui por cauda do meu irmão.
A resposta do Abade foi olhá-lo inquisitivamente.
— Seu irmão?
Edward considerou a possibilidade de agarrar o homem pelo pescoço e sacudi-lo, mas sabia que não seria prudente atacar a um homem de Deus. Pelo olhar vazio do Abade, era óbvio que não sabia nada a respeito de Jasper.
O Abade estava suando muito. Secou as mãos úmidas nos lados da batina. Os olhos verdes do Laird Cullen se tornaram cinza escuro, da cor de uma tempestade em formação.
— As coisas aconteceram muito rápido. Não estamos acostumados a tanta atividade em nosso mosteiro. Neste exato momento, outro noivo está sendo escolhido para Lady Isabella. Tudo está um caos. — o Abade baixou a voz para falar com sussurros conspiradores — Neste momento há dois Barões da Inglaterra no grande salão. Ambos se declaram porta-voz do Rei William. Uma multidão de ingleses está reunida no salão e no pátio. Se não desejam se envolver nessa questão, recomendo-lhes que esperem lá em cima.
— Por que os Barões estão discutindo? — perguntou Emmett.
— Não precisamos nos preocupar com o bate-boca desses maricas ingleses — disse Edward com sarcasmo e se dirigiu ao Abade outra vez — Existe um sacerdote chamado Erick aqui na Abadia. Quero falar com ele o mais rápido possível.
— Posso perguntar o motivo pelo qual desejam falar com ele?
— Não, não pode. – Edward respondeu seco.
O Abade ficou desconcertado pela rude negativa. Logo assentiu, pensando que entendia a razão pela qual o Laird negou explicar-se.
— Oh, eu entendo! Deseja se confessar. Desculpe. Não deveria ter perguntado. Por que não sobem e eu enviarei o Padre Erick para que se reúna com vocês. Acredito que sei exatamente onde ele está. Ele lhes ensinará o caminho à capela para que possam confessar seus pecados.
E uma vez mais o Abade tinha tirado as conclusões equivocadas, mas nenhum dos dois Lairds se deu ao trabalho de lhe corrigir o engano.
— Não vai demorar muito tempo. — disse o sacerdote, indicando-lhes o caminho para as escadas.
Emmett fez um gesto com a cabeça apontado para Edward.
— Com a quantidade de pecados que ele tem, eu não estaria tão certo disso.
Edward não achou engraçado. Empurrou Emmett para fora de seu caminho.
— Não estou aqui para me confessar. Estou aqui procurando algumas respostas a respeito de meu irmão. Só quero terminar com isto e sair daqui. Possivelmente posso convencer o Padre Erick a vir conosco. Não posso pensar nem respirar direito com tantos ingleses fedorentos me rodeando.
— Duvido que o Padre Erick queira ir conosco. Mas você poderia pedir. — Emmett falou zombeteiro.
— Pedir? Por que teria que pedir?
Emmett encolheu de ombros. Edward faria o que lhe parecesse certo sem se importar com o que Emmett pensasse. Além disso, Emmett certamente teria feito o mesmo se tivesse sido com seu próprio irmão. Ainda assim, arrastar um sacerdote para fora de seu santuário com o único propósito de intimidá-lo para que dissesse o que sabia a respeito dos raptores de Jasper… e dos salvadores … provavelmente iria manchar um pouco mais as suas já enodoadas almas.
O Abade estava tão concentrado, tentando escutar o debate dos Barões ingleses que não se deu conta de que tinham chegado ao alto do muro que rodeava o salão principal. Sem fôlego, falou:
— Já chegamos.
O Abade voltou-se para descer as escadas com a intenção de ir procurar Erick, mas Emmett o deteve com uma pergunta.
— Estou curioso, Abade. O Barão Charlie e sua filha ainda estão aqui, ou já partiram para a Inglaterra?
— O Barão Charlie? Conhece o nobre inglês?
Emmett suspirou.
— Preciso admitir que são nossos parentes … pelo lado de minha esposa — adicionou apressadamente.
— Ainda assim é um pouco embaraçoso. — Edward falou.
Emmett lembrou a si mesmo que Edward era um amigo e aliado. E depois também se lembrou que Lady Esme, esposa do primo de Edward, também era inglesa.
— Eu só vi Lady Isabella uma única vez. — disse Emmett ao Abade.
O Abade respondeu:
— O Barão partiu em viagem para encontrar-se com o rei William, e a filha está se preparando para partir para a Inglaterra, mas penso que será detida.
— Por que Lady Isabella será detida? — perguntou Emmett.
— Vocês não entendem?! — disse o Abade. — Todo esse caos está relacionado à Lady Isabella e o seu novo pretendente.
— Seu pai está informado disto tudo? — Emmett ficou intrigado.
— Não. Ele partiu antes que esses dois Barões se encontrassem.
— E quando o Barão Charlie pretende retornar? — aparentemente, o futuro de Lady Isabella não tinha nenhuma importância para Emmett, porém ele experimentou sentir uma grande responsabilidade e a necessidade de proteger a prima de sua mulher.
— Duvido que alguém tenha tido tempo de enviar uma mensagem ao seu pai. – o Abade lamentava - Parece que os Barões deliberadamente esperaram que seu pai partisse antes de lançarem-se sobre a filha com o assunto do casamento. Ambos atuam como se fosse um assunto de muito urgente. Pelo que ouvi da discussão, querem que Lady Isabella esteja casada antes que o pai se inteire e cause algum impedimento —o Abade lançou um olhar para a esquerda e outro para a direita — É uma conspiração! Sim, se me perguntassem diria que isso é uma conspiração. Mas a Princesa está protegida por seus guardas e está a salvo em nosso mosteiro. Nada lhe acontecerá enquanto estiver aqui.
A ingênua convicção do Abade irritou Edward. A Abadia estava abarrotada de estranhos, e a maioria eram ingleses. Como ele podia acreditar que pessoas como essas respeitariam o santuário? Até o sacerdote Erick tinha tido suas dúvidas, por isso tinha pedido aos soldados que cuidassem de Jasper enquanto dormia. Edward perguntava-se o que pensaria este nervoso Abade se soubesse que Jasper tinha sido um hóspede ali.
— Lady Isabella aceita um novo pretendente? — perguntou Emmett, visivelmente preocupado.
— Ela ainda não sabe, mas será chamada em breve. — sacudindo a cabeça, o Abade suspirou — A princesa ficará sabendo das intenções dos dois Barões quando responder ao chamado deles.
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