A Rival
O Barão Caius se sentia ultrajado, a vista lhe escureceu e ele se sentou numa pedra pra não poder desabar, suas pernas fraquejaram. Caius estava então derrotado, suas esperanças de salvar-se já não existiam mais. O Barão acabava de retornar de sua viagem a St. Noah quando um mensageiro do rei lhe deu a notícia de que Lady Isabella ia se casar com Laird Black na Abadia Arbane dentro de três meses. Como podia ser isso? A notícia o deixou primeiro aturdido e depois irado, Caius era um homem em chamas. O mensageiro real também tinha ordens a transmitir por parte do Rei William, mas o Barão estava tão perplexo e tão envolto nos próprios pensamentos que parecia quase impossível se concentrar. O mensageiro teve que repetir as ordens reais várias vezes.
O Barão estava ensandecido e apenas conseguiu conter a fúria até retornar a sua casa. Ao cruzar os portões de seu casarão, deixou a ira dominar-lhe. Estava furioso com o Rei por ter quebrado mais uma vez a sua promessa que quase lhe saia fogo pelas orelhas, sentiu sua pele arder e sabia que estava a ponto de explodir. Entrou pisando duro no grande salão, pegou uma jarra de vinho e uma taça, e os lançou à sua frente, tingindo de rubro não apenas a parede mais também a cortina e o chão.
Jane, a filha única de seu finado irmão Marcus, estava ali para lhe dar a boas-vindas. Ela era uma jovem sonsa e muitas vezes as pessoas a taxavam como tímida e recatada. Ela tinha estado com seu tio desde os 10 anos de idade, quando seus pais morreram de tuberculose. Caius a tinha acolhido em sua casa, ele era sua única família. Desde então, a sobrinha idolatrava Caius e vivia subordinada a cada uma de suas vontades. Pelo menos era assim que Caius e todos naquela casa achavam. No passado, Jane havia presenciado vários momentos de fúria de seu tio e ela tinha aprendido que devia recolher-se em um canto do salão até ele que tivesse terminado de descarregar a sua ira nos objetos.
Em sua fúria, Caius nem havia notado que Jane estava no salão. Ele parecia um cão acuado, passeava ao redor de si, chutando e atirando tudo o que encontrava em seu caminho. Jane segurou o riso ao imaginar o tio como um cachorrinho louco tentando morder o próprio rabo. Outra vez Caius se valeu de uma taça e de outra jarra que estavam em cima de um baú e quando se fizeram em pedacinhos contra a parede, fez uma careta e riu com perversa satisfação.
— Eu só posso culpar a mim mesmo! — esbravejou e jogou as mãos ao lato — Mais uma vez eu fui um tolo ao acreditar naquele mentiroso, filho de puta, arrogante e hipócrita. Por que é que eu pensei que desta vez seria diferente? Quando todos sabem a verdade, que o Rei William é um cretino, bastardo e mentiroso? Por que acreditei nele? — gritou.
Jane estava nervosa, nunca vira o tão irado desse jeito, ela puxou o seu bliaut (N/A: vestido usado Idade Média justo no busto e no abdômen e com uma volumosa saia. As mangas do vestido se ajustavam do ombro até o cotovelo e se abriam caindo quase até o chão.) e deu um tímido passo afastando-se da parede e caminhando em direção ao tio. Será que seria prudente lhe responder? Será que ele queria que ela assim o fizesse? Franziu a testa e apertou os lábios enquanto pensava nisso. Se Jane tomasse a decisão errada, poderia ocorrer o risco de o tio voltar sua fúria contra ela. Certa vez, Caius já tinha perdido a compostura contra a sobrinha. Num momento de grande fúria, ele a empurrou escada a baixo e por muita sorte a sobrinha não tinha se machucado seriamente. Quando o médico da família foi chamado, Caius a fez dizer que havia escorregado nos próprios pés e tinha rolado pelos degraus. Por quase um mês Jane tinha carregado os hematomas nos braços e pernas, mas em seu coração ficou um hematoma permanente. Jane jurou a si mesma que um dia, quando pudesse fazer-lhe algum mal, se vingaria. Essa lembrança a ajudou a decidir-se. Jane permaneceu em silêncio até que Caius se acalmou.
Dez minutos depois, o Barão se sentou numa das cadeiras da mesa de banquetes e ordenou que uma criada lhe trouxesse vinho. A pobre criatura se apressou a entrar no salão com uma taça e uma jarra para substituir as que seu patrão tinha quebrado. Muito nervosa, encheu a taça até a borda com o líquido de cor vermelho sangue. Suas mãos tremiam e quando pôs a taça sobre a mesa um pouco de vinho transbordou a borda. Rapidamente limpou o que tinha derramado com um pano, fez uma profunda reverência, e se afastou rapidamente do Barão.
Ele tomou um grande gole, inclinou-se para trás na cadeira, apoiou os pés na cadeira ao lado e deixou escapar um sonoro suspiro.
— Já não existem homens honestos na Inglaterra nos dias de hoje. Eles simplesmente não existem mais.
Esgotado, derrotado e sem saber o que fazer, Caius olhou ao seu redor e encontrou Jane, chamou-a.
— Venha sentar-se ao meu lado. – ordenou – Conte-me tudo o que aconteceu aqui na minha ausência. Conte-me o que se sabe sobre o cretino do Aro. O que anda fazendo aquele bastardo?
Jane era uma mulher sem muitos encantos, por isso, se sentiu feliz com a atenção do tio. Suas perninhas finas se apressaram em levá-la até ele, tomou assento no lado oposto da mesa e sorriu antes de falar.
— O Barão Aro foi enviado às Highlands assim que o senhor meu tio partiu para St. Noah.
— Isso eu já sabia — disse com impaciência. — Já voltou o infeliz?
— Sim, sim já voltou — respondeu. — Mas ouvi dizer que seu escudeiro já está fazendo os preparativos da nova viagem do Barão Aro. Ele irá voltar as Highlands, dessa vez, para a Abadia Arbane nas próximas semanas. – Jane olhou nos olhos do tio antes de continuar – Andam falando que Aro ficou muito desgostoso com o casamento de Lady Isabella com o Laird Black, dizem que ele teve um colapso nervoso, o escudeiro contou que seu patrão até tinha chorado.
Essa era a primeira boa notícia que Caius tinha escutado desde que tinha descido do miserável navio e tinha descoberto sobre o infortúnio casamento de Lady Isabella. Ao imaginar Aro chorando e soluçando como uma velha, Caius se sentiu um pouco melhor.
— Você tem certeza? Aro realmente chorou? Alguém viu? Conte mais, minha sobrinha.
Jane estava a ponto de lhe contar que tinha realmente ouvido dizer que Aro tinha feito um escândalo, que ele havia chutado, gritado e atirado coisas nas paredes quando se inteirou de que a ‘sua prometida’ ia se casar com Laird Black. Mas logo Jane se deu conta de que Caius tinha acabado de apresentar o mesmo comportamento, era provável que o tio não gostasse da comparação. Ela abaixou a cabeça na tentativa de reprimir o riso de escárnio e falou.
— O Barão Aro deveria se conformar logo. Suas expectativas em relação a sua futura esposa estão muito altas. – Jane levantou o olhar e encarou o tio – O seu escudeiro disse que ele ficou se lamentando e dizendo que ninguém, nem mesmo o Rei lhe passaria para trás.
Caius sorriu com ironia.
— Aquele idiota sempre teve delírios de grandeza. O que ele pensa em fazer? O Rei é soberano.
Ela inclinou a cabeça.
— O Barão Aro deveria se conforma logo e buscar outra esposa. Há muitas donzelas tão ou até melhores que Lady Isabella aqui mesmo na Inglaterra. – Jane suspirou resignada.
Caius não deu importância ao comentário da sobrinha. Bebeu o resto do vinho que tinha na taça, usou a manga da camisa para limpar os restos do líquido que escorriam do queixo, e ainda se serviu de mais.
— Aro contou a alguém como planeja realizar a tão assombrosa proeza de descumprir as ordens de seu soberano?
— O senhor se refere aos planos dele de se casar com Lady Isabella sem obter a permissão do Rei?
— Sim, me refiro a isso.
Antes que o tio pudesse castigá-la por deixar sua mente divagar e não lhe dar atenção, ela respondeu.
— Não, ele não explicou a ninguém. O seu escudeiro anda dizendo por aí que se o Rei não assistir à cerimônia de casamento, será representado pelo Barão Aro.
— Quer dizer então que o Rei William planeja ir à Abadia Arbane?
Jane assentiu com a cabeça e continuou.
— Mas o Barão Aro não acredita que o Rei chegue a tempo, pois Sua Majestade tem estado muito ocupada com muitos outros compromissos mais urgentes.
— E Aro tem esperança de que William não possa comparecer, não é verdade? — Caius fez uma careta de escárnio enquanto fazia a pergunta.
Mais uma vez Jane assentiu.
— O Barão Aro vem se gabando a todos, dizendo que o Rei tinha lhe dado poder absoluto para falar em seu nome, bem como para tomar as decisões a respeito das benções reais.
O já tão fragilizado humor de Caius voltou a piorar com essa notícia.
— O Barão Aro pode tomar qualquer decisão que queira? —resmungou — Isso é verdade?
— Isso é o que andam dizendo por aí. — Jane apoiou as mãos sobre a mesa, respirou fundo e falou decidida — O meu tio deve se casar com Lady Isabella. Porque embora não seja conveniente, eu tenho sentimentos pelo Barão Aro. O senhor sabe disso. Acaso o senhor não vê como sofro?
Caius passou a mão pelo queixo enquanto escolhia as palavras certas.
— Ele apenas te adula, Jane, porque sabe que qualquer palavra gentil será suficiente para virar a sua cabeça e conquistar a sua lealdade.
Ela levou uma mão ao coração e tentou falar da maneira mais emotiva possível.
— Sempre serei leal ao senhor, meu tio. Quando meus pais morreram, foi o senhor quem me acolheu e se assegurou de que todas as minhas necessidades fossem satisfeitas. Eu o amo como se fosse meu pai, e jamais lhe seria desleal — apressadamente, Jane continuou com seu falso discurso — Mas eu sei o quanto o senhor ama Lady Isabella, e seu casamento com ela o fará feliz, meu tio. – Jane continuava com a bajulação – E então, talvez o Barão Aro poderia pensar em mim como sua futura esposa. Sei que não sou tão bonita como muitas outras jovens, mas se vocês estiverem casados, então eu também estarei aparentada com Lady Isabella, certo? Poderia ser que Aro me visse com outros olhos depois disso.
Realmente Caius não sabia como responder. Ele quase sentia pena de sua sobrinha, quase, porque seus sonhos eram impossíveis. Aro nunca se casaria com alguém como Jane. Caius até duvidava que algum homem se interessasse por ela, já que era muito pouco atraente. Sua pele era amarelada e cheia de manchas, e seus lábios eram duas linhas finas e sem cor, quando Jane falava pareciam desaparecer. Seus cabelos eram tão loiros e opacos, que a faziam parecer uma velhinha de cabelos brancos.
Seu tio estava certo em suas observações, seria difícil encontrar um pretendente para Jane. Ela tinha orelhas muito pequenas e tão coladas na cabeça que lembravam duas borboletinhas pousadas de cada lado. Sua silhueta era a de uma criança, seus frágeis e finos braços, combinavam com as pequenas mãos de dedos finos. Além disso, suas pernas eram como dois pálidos gravetos, seus seios nunca se desenvolveram muito. Jane tinha um corpo sem curvas, seus quadris eram estreitos, suas nádegas eram inexistentes, seus pés eram pequenos, redondos e altos, pareciam cascos de cavalo.
Agora que Jane tinha crescido ela tinha se transformado numa boa criada e numa companhia para Caius, e seu tio não via inconveniente algum em tê-la em sua casa até que ele ou ela morressem. Mas se Jane ansiava por um marido, quem iria querer desposá-la? A pobrezinha além de feia, não tinha um dote valioso e, a não ser que ele acrescentasse algo ao que seu pai lhe tinha deixado, ela nunca arranjaria marido. Caius bem sabia que se o dote era bom o suficientemente, qualquer dama, por mais medonha que fosse, teria muitos pretendentes. Mas o tio não estava disposto a se desfazer do pouco que lhe restava para aumentar o dote. Quando Jane se desse conta da realidade, seria tarde demais para ficar contrariada, afinal agora que seus pais tinham morrido, Caius era sua única família. Jane não tinha outro lugar para onde ir.
— Nunca se deve perder a esperança — murmurou ele por falta de algo melhor a dizer. — Mas lembre-se, Aro e eu somos inimigos. Não acredito que ele se esqueça da nossa inimizade, especialmente se eu me casar com Isabella. Entretanto parece que Laird Black será o ganhador desse prêmio.
— O senhor poderia mudar esse destino. — Jane se preparava, escolhia falsas palavras de lisonjas para o tio — O meu tio é esperto e muito inteligente. Poderia encontrar uma forma de se casar com ela. Ouvi dizer que ela ainda nem sequer sabe que vai casar-se com o laird.
Caius ainda não tinha um plano, mas nessas palavras de sua sobrinha, ele viu uma centelha de esperança brilhar. Entretanto não quis que seus sentimentos transparecessem para ela, ele lhe lançou o seu melhor olhar resignado e sorriu triste.
— É provável, minha cara que você esteja alimentando falsas ilusões, mas não vou desencorajá-la.
— E se eu conquistasse conquistar o Barão Aro, o senhor me daria permissão para me casar com ele? — perguntou Jane ansiosamente.
— Sim, daria.
— Obrigada, meu tio — Jane sussurrou emocionada e depois se lembrou das suas boas maneiras. — O senhor fez boa viagem? Correu tudo bem?
Caius afrouxou o cinto ao redor da cintura e se espreguiçou da cadeira.
— St. Noah é um lugar miserável. É frio quando deveria fazer calor e muito quente quando deveria fazer frio.
— O senhor encontrou o tesouro para o Rei?
— Não, não o encontrei.
— Ele realmente existe?
A resposta dele foi imediata.
— Não.
Não tinha sentido em dizer a Jane o que realmente pensava. Apaixonada como estava por Aro, Jane poderia deixar escapar em um momento inoportuno, algo que seu tio lhe contasse. Caius tinha a absoluta certeza que o amor transformava as mulheres em tolas.
Caius não ia dizer a ninguém que acreditava que o tesouro existia. Seu plano era encontrá-lo e conservá-lo todo para si mesmo. Certamente não ia compartilhar uma só moeda de ouro com o Rei William, que tinha mentido pela última vez. Com sua nova fortuna, Caius poderia levantar um exército e tomar para si o que quisesse e quando o quisesse. Ah, o pensamento de tal poder fazia que sua cabeça desse mil voltas.
Para alcançar seus sonhos, Caius tinha que ser prático. Isabella tinha a chave para encontrar o tesouro. O Barão estava certo de que o segredo do tesouro escondido tinha sido transmitido de uma geração a outra na família real de St. Noah. Se não podia ter a Princesa, para tirar-lhe a informação, então se asseguraria de que Isabella fosse dada a alguém a quem ele pudesse facilmente manipular. E já tinha em mente o homem perfeito.
— Jane, em poucos dias devo fazer outra longa viajem — advertiu Caius.
— Deve ir longe?
Ele assentiu.
— Até as Highlands.
Ela ofegou.
— Vai à Abadia Arbane, meu tio?
— Primeiro devo me reunir com o Rei William para responder suas perguntas a respeito da missão que fiz em St. Noah. Felizmente, neste momento o Rei está no norte, e quando terminarmos com nossa reunião seguirei caminho para as Highlands.
— Para a abadia. — disse ela, assentindo com a cabeça enquanto fazia a afirmação.
— Tenho outro destino em mente, mas quando terminar ali irei para a abadia. Deverei chegar a tempo para as bodas de Lady Isabella.
Jane tomou um profundo fôlego para reunir coragem.
— Sei que não é correto que peça algo, mas há alguma possibilidade de que eu possa ir com o senhor? Eu adoraria ver o casamento da Princesa – Jane falou esta palavra com escárnio - Estou certa de que será uma linda cerimônia.
Agora ela estava mentindo muito. Jane não queria ver Lady Isabella se casar, na verdade, tudo o Jane desejava era que a sua rival não chegasse perto de Aro. Jane queria vê-lo. Caius estava a ponto de lhe negar o pedido, mas então mudou de opinião. Sua sobrinha podia lhe ser de utilidade.
Desanimada, Jane baixou a cabeça abatida, aceitando a negativa do tio mesmo antes que a formulasse.
— Sim, você pode vir comigo.
A jovem levantou a cabeça de repente. Feliz, ela quase deixou que as lágrimas inundassem seus olhos. Logo veria o amor de sua vida, e possivelmente encontraria uma forma de fazer que o Barão Aro a amasse. Tudo era possível. E Jane estaria disposta a fazer qualquer coisa para ter o amor do Barão Aro.
Qualquer coisa.
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