O Acordo
Qualquer pessoa bem informada na Inglaterra sabia a respeito da ferrenha inimizade familiar entre os barões. O Barão Caius de Axholm um dos conselheiros mais próximos do Rei William, e o Barão Aro de Werke, também chamado amigo e confidente pelo Rei, tinham passado os últimos dez anos, numa disputa insana, tentando destruir o um ao outro. A competitividade entre os dois homens era acirrada, feroz e insensata. Cada um queria mais riquezas que o outro, mais poder, mais prestigio, e certamente mais favores do Rei. Brigavam ferozmente, por tudo, e cobiçavam nada mais que um tesouro: a Princesa Isabella. Bastava a mera menção de seu nome para que esses barões ficassem tão violentos como cães raivosos. Ambos os barões estavam decididos a casar-se com a valiosa Princesa Isabella.
O Rei se divertia com os ataques de ciúmes de seus barões. A cada oportunidade que lhe apresentava, enfrentava a um com o outro. Em sua mente, eram como bobos da corte que fariam qualquer truque necessário somente para agradá-lo. Conhecia a obsessão que que osa Barões tinham por Lady Isabella, a filha do Barão Charlie, mas não tinha intenção de dar-lhe a nenhum dos dois. Ela era muito preciosa para ser desperdiçada nas mãos daqueles dois idiotas. Em vez disso preferia, quando convinha a suas necessidades, levantar a falsa possibilidade de que cada homem ainda poderia ter a oportunidade de ganhar a mão da Princesa em matrimônio.
Todos na Inglaterra sabiam quem era Isabella. Sua beleza era famosa. Tinha crescido em Phoenix não muito longe do palácio do Rei. Sua vida ali, ao lado do pai e protetor, o Barão Charlie, tinha sido tranqüila e relativamente discreta até que alcançou a idade apropriada e foi apresentada na corte. Com seu pai ao seu lado, Isabella tinha suportado uma audiência com o Rei William que não durou mais de dez minutos, mas que ainda assim foi tudo o que bastou para que o Rei ficasse completamente encantado com a beleza e a graça daquela linda Princesa.
O rei William tinha o costume de tomar o que queria e quando o queria. Sua má reputação de libertino e conquistador era bem conhecida. Não era incomum que seduzisse as belas — e as não tão belas — esposas e filhas de seus barões, e logo, na manhã seguinte, gabava-se de suas lascivas conquistas para o seu séquito de bajuladores. Entretanto, ele ainda tinha um pouco de juízo, não tocou em Isabella, já que seu pai era um dos mais poderosos e influentes barões da Inglaterra.
William já tinha muitos conflitos nas mãos e não necessitava suscitar a ira do Barão Charlie, de Phoenix, se por acaso ele tentasse tirar a virtude a moça. O Rei estava sendo atacado de todas as direções, e pensava, ironicamente, que nenhum dos conflitos era culpa dele. Seus problemas com o Papa Inocent III recentemente se avolumaram dez vezes mais, devido à negação de William em aceitar a proposta do Papa para que Sebastian Langton fosse arcebispo de Canterbury, o Papa declarou uma interdição sobre a Inglaterra. Então, todos os serviços da igreja se viram suspensos, exceto os batismos e as confissões. Entretanto, os bispos e os sacerdotes tinham fugido de suas igrejas, pois temiam encontrar a fúria do Rei William, sendo assim, tornou-se difícil conseguir qualquer sacerdote que praticasse um desses dois sacramentos. Era uma missão quase impossível.
O interdito enfureceu o Rei William de tal forma, que este respondeu confiscando todas as propriedades da Igreja na Inglaterra.
A reação do Papa foi igualmente severa. Excomungou o Rei William, comprometendo dessa forma a sua capacidade de governar o país. A excomunhão não só condenava a já negra alma de William aos eternos fogos do inferno, como também eximia os seus súditos dos votos de obediência e lealdade. Sendo assim, os barões já não tinham motivos para serem leais ao Rei.
Através de fontes confiáveis, William se inteirou que o Rei da França, Laurent Larousse, tinha os olhos sobre o trono inglês e, nessa empreitada, estava sendo incitado por alguns dos traiçoeiros barões ingleses a preparar uma forte invasão. Embora William estivesse seguro de contar com homens e recursos para enfrentar essa dura ameaça, seguia constituindo o seu reinado num empreendimento custoso e que requeria sua total atenção.
Também havia pequenos problemas internos que o importunavam, eram como pequenas vespas, sozinhas, zumbiam e incomodavam um pouco; reunidas, porém, eram um grande e perigoso vespeiro. As rebeliões em Gales e na Escócia estavam voltando-se cada vez mais contra o seu reinado, elas já eram bem organizadas e ameaçadoras. O Rei Ewan da Escócia, entretanto, não era o problema, já tinha prometido fidelidade a William. Porém, eram os Highlanders (N/A: habitantes das regiões montanhosas da Escócia) os que queriam sangue. Embora O Rei Ewan acreditasse que os tinha sob controle, os chefes em realidade não se comprometiam a responder a ninguém exceto ao seu próprio clã. Quanto mais se dirigisse ao norte da Escócia, mais violentos e desumanos se tornavam os clãs. Havia tantas disputas familiares que era impossível detectar e entender a origem de todas elas. Era praticamente impossível manter o controle e estabelecer a paz naquela inóspita região.
Havia somente um Laird (N/A: título dado aos proprietário de terras na Escócia) nas Highlands do norte que não era uma ameaça para os outros e que atualmente havia ganhado um pouco de respeito: o Laird Jacob Black. Ele era um homem grande e de meia idade, dono de longos cabelos negros, de fala pausada e de feições gentis, qualidades que eram totalmente desconhecidas nos chefes das Highlands. Estava satisfeito com sua vida e não tinha nenhum desejo incontrolável de incrementar suas posses. Talvez por isso ele fosse de certa forma um pouco apreciado e respeitado.
Em um surpreendente intento de apaziguar a ira de alguns de seus barões mais influentes, e atendendo a uma sugestão do Rei Ewan da Escócia, o Rei William ordenou o matrimônio entre Lady Isabella e o Laird Black. Embora não tivesse necessidade de fazê-lo, adicionou ao dote da Princesa uma grande extensão de terras nas Highlands chamada Finney’s Flat, que tinha adquirido anos atrás. As terras do Laird Black estavam no extremo sudeste dessa cobiçada e rica propriedade.
Desta forma as inquietações de William a respeito da possível reunião de um grande exército das Highlands com muitos dos Lairds da fronteira desejando unir-se com a intenção de atacar e destruir a Inglaterra, poderia ser esquecida por um tempo e o Rei Ewan já não teria que preocupar-se com uma possível insurreição de seus furiosos Lairds. Já, os por si só inquietos e briguentos Barões Aro e Caius, ficariam enfurecidos quando finalmente descobrissem os intentos do Rei.
Quando a proposta de casar com Isabella foi posta à consideração do Laird Jacob Black, este concordou com alegria. Também pensava que com o decreto real de William terminaria a luta desgastante que havia entre os Lairds pelo controle de Finney’s Flat, e que finalmente haveria paz na região das Highlands.
O pai de Isabella, o Barão Charlie, felizmente também estava a favor do matrimônio. Por muito que tivesse gostado que sua filha se casasse com um correto Barão inglês e vivesse na Inglaterra, onde poderia vê-la ocasionalmente e também a seus futuros netos, sabia que Isabella não estaria a salvo enquanto William fosse Rei. O Barão Charlie tinha visto a luxúria cintilando nos olhos do Rei quando este olhava para Isabella. O Rei atacava de forma muito parecida com um animal peçonhento, esperando pacientemente para apanhar e devorar a sua presa indefesa. E pelo que Charlie tinha ouvido da boca dos McCarthy, que eram uns parentes distantes que viviam na Escócia, o prometido de Isabella era um bom homem que a trataria com consideração e respeito. De fato, era um grande e sincero elogio para o Laird Black, já que os McCarthy não gostavam de ninguém que não pertencesse ao seu próprio clã. O Barão Charlie e o Laird McCarthy eram parentes por afinidade, através de um matrimônio, mas o Laird apenas podia tolerar o pai de Isabella; embora parecesse bastante irônico, o Laird McCarthy, que odiava todos os ingleses, estava casado com uma dama inglesa, a bela Lady Rosalie.
Com a bênção do Rei William e a aprovação do Barão Charlie, o casamento de Lady Isabella foi programado. A única pessoa que não tinha opinião alguma sobre o assunto e a última a inteirar-se do acordo foi a noiva, a Princesa Isabella.
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