Invasão
Emmett não podia acreditar que dessa vez era ele quem falara com a voz da razão. Geralmente, ele era o esquentado e de mau gênio. Mas não naquele dia quando seu dever era claro: evitar que Edward fizesse uma tolice. E essa não era uma tarefa fácil. Emmett teve que gastar muito verbo para convencê-lo que não valeria à pena invadir a Abadia e derrubar cada parede até descobrir o que tinha acontecido a seu irmão.
Edward tinha resistido a qualquer argumento do amigo, mas enquanto cavalgavam para a Abadia tinha conseguido controlar sua ira. Porém assim que viu Jasper recostado contra a porta da Abadia, começou a arder em fúria.
— Bom Deus — sussurrou Emmett quando viu Jasper, tomou fôlego, e recordou que tinha que fazer o papel de pessoa razoável, por isso disse: — Ele está vivo, graças a Deus.
Edward não respondeu. Foi capaz somente de observar os vacilantes passos de Jasper, durante um angustiante minuto antes de descer da montaria para ir a sua busca. Golpeou seu irmão na mandíbula, o que fez com que Jasper caísse sobre o ombro fraterno que o esperava. Assim que Edward colocou seu irmão no lombo de seu cavalo, fez gestos a dois cavaleiros para que o flanqueassem e não o perdessem de vista até que ‘acordasse’ novamente.
— Alguém nessa Abadia sabe o que ocorreu a meu irmão, Emmett. – Edward rosnou - Quem quer que o tenha trazido para cá deve ter presenciado alguma coisa. Não há uma maldita forma de que Jasper pudesse ter se levantado para sair caminhando do campo até aqui. Deve ter sido transportado. Olhe para ele, Emmett. Jasper não chegou aqui sozinho. Alguém o ajudou.
— Alguém pode ter deixado ele na porta.
— Como também poderia tê-lo levado para dentro. Se alguém na Abadia sabe o que aconteceu, eu o encontrarei e farei com que me diga a verdade, mesmo que eu tenha que usar a força.
Emmett apontou para as tendas que estavam dispostas fora dos muros.
— Com toda esta gente nos arredores, você deve usar a cabeça. Não pode forçar a entrada contra a Abadia! Por Deus, é um lugar sagrado! Nem sequer pode levar a espada nem nenhuma outra arma quando passar através dessas portas.
Edward não gostava que ninguém lhe dissesse o que podia e não podia fazer. Olhou para Emmett.
— Desde quando você respeita as regras? O casamento está enfraquecendo você.
— Minha esposa não ficaria casada com um homem fraco.
Edward montou em seu cavalo, tomou as rédeas, e começou a subir a colina.
— Talvez você tenha ficado fraco porque ela é fraca. A maioria delas é fraca.
O insultou rabugento de Edward divertiu Emmett.
— Conheceu a minha esposa, não é verdade?
Edward encolheu os ombros.
— Sim, já nos conhecemos. — um sorriso torto se esboçou em seu rosto e sua voz tinha uma pitada de humor — É uma mulher forte. Uma verdadeira raridade.
— É isso mesmo, ela é forte. – Emmett sorriu – E não adianta tentar me provocar, Edward. Não te ajudarei a guerrear contra um bando de velhotes que usam batinas!
— Não tenho intenções de começar uma guerra com os padres. Agora que Jasper está a salvo e a caminho de casa, vou entrar lá e averiguar o que aconteceu.
Perdido em pensamentos, Edward se deu conta que seria difícil esquecer o estado deplorável em que Jasper se encontrava. Parecia que lhe tinham esmigalhado ou arrancado cada polegada de pele das costas e das pernas dele.
Não, Edward não esqueceria logo essa espantosa visão.
— Seus homens deveriam levar Jasper à cabana de Kevin Drummond. Dizem que a esposa dele tem boas ervas medicinais.
— Não, Jasper vai para a fazenda Cullen. Carlisle lhe dará os cuidados de que necessita. – Edward suspirou – Além do mais, Alice já não se agüenta mais de tanta aflição, Lady Esme me alertou que o leite da criança poderia acabar, caso Alice de contrariasse demais. – ele apressou os passos – Vou tentar conversar com Jasper e depois vou entrar na Abadia.
— E eu vou com você.
— Não, não vai. Já estou em grande dívida com você. Aqueles bastardos poderiam ter enterrado Jasper se você e seus homens não tivessem aparecido no momento oportuno. Eu nunca teria chegado até ele a tempo.
— O homem que estava morto perto do buraco com uma flecha no peito… isso não foi obra nossa. — recordou Emmett.
— Ainda assim tenho grande dívida com você.
Emmett sorriu.
— Sim, é verdade.
Os Lairds seguiam adiante. Felix, o primeiro-comandante de Emmett, ia atrás dos guerreiros Cullen. Mas ao ouvir o agudo assobio de Emmett, deteve a caminhada dos homens. Havia uma dúzia de homens do Clã Cullen e quase igual quantidade do McCarty somente à espera das instruções de seus Lairds.
Os dois guerreiros que flanqueavam Jasper conduziram-no até uma pequena clareira, decidiram deixá-lo descansar uns poucos minutos antes de continuar. O irmão de Edward ainda estava atordoado pelo golpe que levou na mandíbula. Rechaçou a ajuda que lhe ofereceram para desmontar e quase caiu de joelhos. Os dois guerreiros viram que o solado dos pés de Jasper estava endurecido pelo sangue coagulado, mas ninguém se adiantou para oferecer sua ajuda. Esperaram que se endireitasse por si mesmo. Jasper não se queixava da dor, embora seu rosto lhe traísse com uma careta horrível a cada doloroso passo que dava. Quando finalmente não agüentou mais, deixou-se cair no chão e apoiou as costas contra uma rocha plana.
A saudação de Edward para seu irmão foi seca.
— Quem fez isso com você? — parou diante de Jasper e cruzou os braços sobre o peito enquanto esperava a resposta.
— Se eu soubesse quem fez, já teria matado todos eles. — respondeu Jasper com ferocidade.
Ambos sabiam que aquilo não passava de alarde. Jasper não estava em condições de matar a ninguém. Seu rosto tinha um tom tão pálido, que Edward pensou que poderia desmaiar outra vez. Mas o orgulho de Jasper estava em jogo, e por essa razão, Edward aceitou sua arrogante afirmação.
— É claro que sim — concordou Edward — Agora me diga o que aconteceu.
— Não lembro muito bem. Eu já havia saído da fazenda Brandon há cerca de duas horas, me aproximava das planícies de Finney’s Flat para me dirigir para casa, eu seguia pelo leste, margeando o rio. – Jasper fez uma pausa - Com certeza eu já estava em Finney’s Flat. Algo me golpeou em um lado da cabeça, e talvez tenham me golpearam outra vez nas costas. Os golpes me aturdiram, e quando recuperei o sentido, tinha as mãos e os pés atados. Puseram um capuz sobre minha cabeça.
Jasper fechou os olhos por um momento, tentando recuperar a memória.
— Havia ao menos quatro homens. Recuperei o sentido por um momento, mas decidi deixá-los pensar que ainda estava inconsciente. Ouvi-os falar antes de voltar a desmaiar. Estou seguro de que eram quatro vozes distintas… não, espera. — deixou escapar um suspiro, sentindo-se frustrado. — Pode ser que fossem mais.
Jasper esfregou a nuca e fechou os olhos outra vez.
— Algum deles falou com você diretamente? — Seth, o comandante de Edward, perguntou a Jasper enquanto ele e alguns outros o rodeavam.
— Não, acho que não. — a cada resposta que dava, a voz de Jasper se voltava cada vez mais rouca e mais difícil de entender. — Por que não posso me lembrar? É terrivelmente irritante.
Para Edward, era óbvio porque a memória de Jasper estava tão precária. Tinha recebido vários golpes na cabeça.
— Você disse que ouviu a conversa deles. O que estavam dizendo? — perguntou Emmett.
— Que esperavam matar tantos Cullen quanto pudessem.
— Se eram somente cerca de quatro captores, como poderiam matar os experientes guerreiros Cullen? — perguntou Emmett.
Seth entregou a Jasper seu cantil de couro. Jasper tomou um longo gole de água, assentiu para agradecer ao comandante, e logo respondeu.
— Havia homens escondidos no bosque, esperando para atacar. Receberam ordens para atacar o maior número de Cullen que pudessem. Quantos mais matassem, mais alta seria a recompensa.
Jasper tomou outro gole antes de continuar.
— Um deles tinha medo que não houvesse tropas esperando no bosque para ajudá-los, e que estariam sozinhos para enfrentar a ira de Edward. Na verdade ele estava apavorado! – Jasper soltou um riso de escárnio - Queria me matar e terminar com isso, mas o líder continuava lhe dizendo que deviam esperar.
— Esperar o quê? — perguntou Edward.
— Não sei.
— Chegou a ouvir algum nome? — perguntou Emmett.
— Se ouvi, não lembro.
Edward continuou fazendo perguntas a seu irmão, com a esperança de obter alguma pista a respeito de quem estava por trás dessa atrocidade, mas Jasper não era de muita ajuda e se mostrava impaciente com o interrogatório.
— Recorda de ser levado à Abadia? — perguntou-lhe.
— Não, mas lembro de haver despertado ali. Estava em uma cela pequena. Havia dois sacerdotes comigo. Um era um médico, o outro usava uma estola e rezava. Acredito que pensava que eu estava morrendo.
— Quais eram esses sacerdotes? — perguntou Seth.
— O Padre Berty era o médico. Perguntei-lhe como tinha chegado ali, e ele disse que não sabia.
— Acreditou nisso? — Edward arqueou uma sobrancelha.
— Sim, acreditei, depois que me explicou. Disse-me que o Padre Erick tinha ido buscá-lo e tinha solicitado sua ajuda. Erick era o sacerdote que estava rezando. — acrescentou.
— E o Padre Berty não sentiu curiosidade por saber como você tinha chegado ali? — perguntou Emmett.
— Sim, sentiu curiosidade. Perguntou-me como tinham me ferido, e eu disse que não podia me lembrar. Ouvi-lhe fazer a mesma pergunta ao Padre Erick, e este respondeu que era melhor que não soubesse os detalhes.
— O que o sacerdote Erick te disse?
— Disse que estava do lado de fora da Abadia, descarregando uma carroça de grãos. Quando levantou a vista, ali estava eu.
— Ali estava você? Isso é tudo? Não havia ninguém mais com você? — perguntou Edward visivelmente irritado – E você brotou milagrosamente na carroça tal qual repolho brota da terra? Este Erick pensa que somos o quê? Idiotas?
- Calma, Edward ... – Emmett murmurou.
— Fiz ao Padre Erick essa mesma pergunta outras vezes, mas ele não pôde me dar uma resposta adequada. Quando lhe pedi que me explicasse a que se referia, disse-me que não podia responder nem que sim nem que não.
— Falou utilizando adivinhações! — disse Edward furioso.
Jasper tentou se levantar. Apoiando a mão contra a pedra, chegou a ficar de joelhos antes de cair para trás. Amaldiçoando sua debilidade, descansou outro momento antes de voltar a tentá-lo.
— Esse sacerdote Erick não usará adivinhações comigo. — Edward rosnou — Ele dirá o que quero saber.
— Edward, tente entender. O Padre Erick tentava me proteger. Preocupava-se que quem quer que tivesse me ferido pudesse entrar na Abadia…
— Para te matar. — assentiu Emmett ao terminar de formular a idéia de Jasper.
— Sim — Jasper continuou — Erick acreditava que os demônios, como chamava os homens que me atacaram, não respeitariam o santuário. Como medida de segurança, ele e Berty estiveram de acordo em manter minha presença em segredo até que você chegasse, Edward, mas havia um problema. Os dois não podiam montar guarda junto a mim dia e noite sem levantar suspeitas, e nenhum dos dois resultaria de muita ajuda contra um intruso.
— E como solucionaram esse problema? — perguntou Edward.
— O Padre Erick pediu ajuda de alguns poucos homens bons que conhecia para que me protegessem enquanto dormia. Explicou-me que procurou homens entendidos na arte da batalha.
— Nenhum sacerdote tem esse tipo de treinamento. — intercedeu Seth.
— Não, não tem. — acordou Edward.
Jasper deteve seu perambular em frente de seu irmão.
— A quem encontrou este sacerdote para que cuidasse de sua segurança? – Edward perguntou.
— Pediu a uns soldados que estavam ali por causa do casamento do Laird Black.
— De que Clã eram esses homens? — perguntou Emmett.
Antes que Jasper pudesse responder, Edward perguntou:
— Esses homens eram Highlanders?
— Não, não eram, mas o Padre Erick confiava neles plenamente.
— Então tinham que ser Highlanders! — raciocinou Emmett.
Todos os guerreiros que estavam escutando a conversa assentiram imediatamente demonstrando seu acordo. Somente os Highlanders eram de confiança, e ainda assim nem todos.
— Estou dizendo que não eram Highlanders. Não sei de onde vieram, mas o Padre Erick deve conhecê-los bem para confiar neles.
Edward sabia que devia apressar-se com as perguntas, já que desejava obter a maior quantidade de informação possível de seu fatigado irmão antes que o cansaço o dominasse por completo. Jasper já estava sonolento. Apenas podia manter os olhos abertos, e estava tendo problemas para concentrar-se.
— Quantos eram? — perguntou-lhe
— Quantos o que? — perguntou Jasper um pouco desalentado.
Edward se armou de paciência, pois estava prestes a explodir de ira.
— Os soldados, Jasper ... Quantos soldados cuidavam de você?
— Quatro. Eles se revezavam de dois em dois, seja dentro da cela comigo ou simplesmente do outro lado de minha porta.
Emmett olhou Edward quando este perguntou:
— E estes homens levavam armas?
Nessa hora, Jasper sorriu.
— Não, não levavam.
— A pergunta parece divertida? — perguntou-lhe Emmett, tentando entender a reação de Jasper.
— Sim, com certeza! Quando vir estes homens entenderá o porquê. Mas posso te assegurar uma coisa, Emmett. Eles não necessitam de armas para se defenderem.
— São invencíveis? É isso o que sugere? — perguntou Seth como se a intenção de tal elogio a respeito da força de um forasteiro devesse ser tomada como uma afronta pessoal contra seu próprio povo.
— Nenhum homem é invencível. — disse Edward bruscamente — Que lhe disseram esses soldados, Jasper? Esclareceram-lhe como tinha chegado à Abadia?
— Não. Falavam entre eles, mas não falavam comigo.
Ambos, Edward e Emmett esperaram que Jasper desse alguma outra explicação. Quando não o fez, Emmett perguntou:
— Por que não falavam com você?
— Penso que não me entendiam. — disse finalmente. — E certamente eu não os entendia. Falavam em uma língua que nunca tinha ouvido antes.
Edward se sentia cada vez mais frustrado e irritado.
— O Padre Erick deve entendê-los.
— Não estou seguro disso. Nunca o ouvi falar com eles.
— Então como fez para… — Edward se deteve.
Era inútil continuar interrogando seu irmão. Jasper precisava descansar, e Edward esperava que quando seu irmão recuperasse as forças, fosse capaz de recordar algo mais a respeito dos homens que o tinham mantido cativo.
Além disso, raciocinou, o Padre Erick lhe diria o que desejava saber.
Tirou a espada da bainha e entregou a Seth.
— Leve Jasper para casa, agora. — ordenou.
Foi até seu cavalo agarrou o arco e as flechas e também as entregou a Seth.
— Emmett, mande os McCarty para casa.
Antes que Edward pudesse discutir, Emmett subiu em seu cavalo.
— Eu vou com você à Abadia — disse.
— Quer que algum de nós vá à Abadia com você? – Seth perguntou.
— Não, não quero. — o tom de voz de Edward era inflexível.
Seth estava acostumado às maneiras bruscas de seu Laird.
— Então posso sugerir que metade de nossos homens levem Jasper para casa e que eu e a outra metade o espere do lado de fora das portas com suas armas, Laird?
Felix, o comandante de Emmett se adiantou para parar ao lado de Seth.
— E já que meu Laird McCarty vai com você, sugiro que eu também espere com as armas de meu Laird do lado de fora das portas. Os outros guerreiros McCarty podem acompanhar os Cullen e se encarregar de que Jasper chegue a sua casa a salvo.
Emmett estava de acordo.
— Seria bom ter nossas armas se tivermos a boa sorte de nos encontrar com os homens que torturaram o seu irmão.
— Prefiro usar as mãos. — Edward sorriu torto, mas não havia humor em sua voz.
— Mesmo se os outros tiverem armas? – Emmett o provocou.
Edward o olhou com dureza.
— O que te parece?
Emmett sacudiu a cabeça.
— Parece-me que hoje você tem muita vontade de matar a alguém, não é verdade?
— Vou matar a quem quer que seja que tenha feito isto a meu irmão. — respondeu Edward.
Aquilo não era nem um desejo nem uma promessa. Era um voto solene.
Aro sentia seu estômago arder com a enorme úlcera da perplexidade, desapontamento, ira ... Quem Charlie Swan, Barão de Phoenix pensava que era para poder impedi-lo de falar com Isabella? Afinal de contas, Aro tinha vindo à Abadia de Arbane numa missão real ... Ali, naquele lugarzinho verde e insignificante, ele era os olhos e os ouvidos do Rei William! Dentro de sua luxuosa tenda, armada nos arredores da Abadia, Aro andava impaciente, de um lado para o outro, ainda remoendo o constrangimento que sofrera horas atrás na missa de sepultamento do Laird Black ... ‘Miserável, maldito, prepotente’ Aro gritava em sua mente. ‘Ele é tão inglês quanto eu. Ah! Mas assim que eu puser as mãos na preciosa filhinha dele, Charlie de Phoenix vai se arrepender de ter me destratado dessa forma ...’
O ambiente da tenda tornou-se claustrofóbico naquela noite de primavera. Aro resolveu sair, esticar as pernas, pensar ... A morte de Black tinha soado aos seus ouvidos como uma bela sinfonia, tudo parecia dar certo ... E ele só precisava de uns minutinhos a sós com a Princesa, então tudo se acertaria ... Agora, Aro se via em desvantagem! E para piorar a sua noite já arruinada, ele avistou a espalhafatosa, ridícula e barulhenta comitiva de bajuladores de seu arquiinimigo, o Barão Caius de Axholm.
Já que a competição entre o Barão Caius e o Barão Aro se tornou mortal e notoriamente conhecida, algumas pessoas resolveram tirar proveito da situação. Uma dessas pessoas era Demetri, o nada fiel mensageiro de Aro. Os dois Barões se esforçavam ao máximo para descobrir que tortuoso plano estava tramando o outro. Havia espiões por toda parte, entretanto Aro confiava cegamente em Demetri, porém este já havia se vendido a Caius por um preço bem alto. O mensageiro era um informante bem recompensado que memorizava cada palavra dita e cada ato levado a cabo por Aro e seus conspiradores para logo reportar-se a Caius.
- Demetri, venha aqui. – Aro gritou para o mensageiro que acompanhava seu senhor de longe – Vá até a Abadia e descubra se aquela comitiva era mesmo do bastardo do Caius ... Vá e não demore.
Demetri apenas assentiu e cerca de meia hora depois voltou com a notícia de que Caius estava a caminho, pois tinha parado na fazenda de um amigo para prestar-lhe seus respeitos. Aro não entendeu muito bem, pois achava impossível que Caius pudesse se rebaixar tanto a ponto de ter um ‘amigo’ Highlander ... E então, uma centelha faiscou em seus olhos ... Caius estava tramando alguma coisa ... Mas, o quê?
- Se Caius não veio ainda, quem chegou? – Aro fingiu indiferença.
- Somente sua sobrinha Jane e alguns criados. – o mensageiro respondeu – Meu informante me garantiu que o Barão Caius ainda não chegou.
Aro assentiu e despediu o mensageiro, dando-lhe o restante da noite de folga.
‘Jane ... a insossa Jane está na Abadia agora ...’
Sem ter um plano formado em sua cabeça, Aro marchou em direção a Abadia. Ele precisava fazer alguma coisa! Os muros daquele lugar sagrado eram negligentemente protegidos, ninguém o viu entrar. Ninguém o viu subornar uma criada e conseguir dela a informação exata do quarto de Jane. Aro caminhava a passos largos e minutos depois já estava dentro do quarto da donzela.
- Minha querida Jane! – ele fez-lhe uma mesura e beijou-lhe a mão – Soube que você estava aqui e vim trazer-lhe meus mais ternos sentimentos ...
Jane estava encantada ... A viagem tinha sido muito cansativa, a rápida estadia na fazenda do amigo Highlander do tio não foi agradável ... Tudo o que o corpo de Jane pedia eram descanso ... Mas naquele momento, quando Aro entrou em seus aposentos, a realidade se transformou! O coração de Jane galopava, suas pernas tremiam e seus pensamentos ficaram incoerentes.
- Barão Aro! Oh! O senhor não deveria adentrar nos aposentos de uma donzela. – ela sussurrou nervosa.
- Oh! Jane, minha querida! – Aro começou seu teatro cheio de lisonjas – Você não sabe o quanto meu dia foi fatigante! Mas agora, você chegou e eu me sinto muito feliz ao ver o rosto amável, requintado e nobre da mais bela dama de toda a Inglaterra!
Jane sentiu seu coraçãozinho carente se aquecer e seus opacos olhinhos brilharam de felicidade. Ela corou e sorriu antes de responder.
- Oh! Barão Aro ... o senhor é muito gentil ...
- Apenas Aro! Você pode me chamar de Aro, minha adorada flor!
E com isso, Aro se percebeu cortejando Jane. Ele estava surpreso com as próprias atitudes, nunca tinha se imaginado numa situação dessas, sozinho, num quarto com a sobrinha feiosa de seu inimigo ... Ele tentava pensar mais rápido que os seus hormônios masculinos. Apesar de feia, Jane poderia oferecer-lhe algum alívio ... Talvez até, algo mais.
Aro se aproximou mais e mais de Jane e uma de suas mãos contornou a fina cintura da jovem. Ela arfou diante a atitude dele, mas não o repeliu, apenas sorriu. A falta de escrúpulos do Barão o fez avançar nas carícias que Jane aceitava como um cachorrinho faminto aceita migalhas de pão.
- Ah! Jane, minha doce Jane ...
Ele a conduziu até a cama e rapidamente deitou-se sobre ela, levantou as várias saias de seu vestido e de sua roupa debaixo. A donzela estava perplexa e embevecida demais no próprio desejo para lhe opor qualquer resistência, quando sentiu os dedos frios de seu parceiro percorrerem as carnes de suas coxas, ela arfou e murmurou.
- Aro ... Isso é pecado! Não deveríamos esperar até depois do casamento?!
Aro sorriu ao contemplar a vil criaturinha à mercê de seus domínios, bastava-lhe tocar sua pele nos lugares certos, murmurar uma ou duas palavras vãs e logo teria o que bem quisesse dela. Sussurrou palavras doces ao ouvido de Jane, beijou seus lábios levemente e tocou em suas carnes róseas e virgens de uma forma tão delicada e premeditada que conseguiu arrancar pequenos gemidos da moça.
- Jane, perdão querida! – ele fingiu arrependimento e parou com as carícias – Eu ... eu ... te amo! Você tem o incrível dom de me arrebatar os sentidos! Você está certa! Amanhã mesmo falaremos com o Abade a respeito de nosso matrimônio ... uma noite a mais ... podemos esperar ...
A donzela ficou confusa! Minutos atrás ela já não sabia mais como se conter diante de uma sensação tão poderosa e luxuriante ... Mesmo sabendo que poderia ser errado, ela queria mais ...
- Aro! – ela guinchou – Por favor ... – os lábios de Jane procuraram os de Aro – Já que vamos nos casar ...
Aro não perdeu tempo! Não só incutiu na cabeça de Jane um plano diabólico que afastaria de vez qualquer novo pretendente para a Princesa Isabella, como também conquistou a lealdade irrestrita da donzela a quem ele acabara de macular.
Minutos depois do ocorrido, Jane tentava processar todos os fatos em sua cabeça. Seu corpo ainda doía. Resquícios de seu amante estavam em seu corpo e na discreta macha de sangue nas roupas debaixo de seu vestido. Sozinha em seu quarto, ela se sentia dolorida, invadida, feliz ... Finalmente Aro seria seu para sempre ... Ela só precisava fazer exatamente aquilo que ele lhe mandara fazer.
Não tão longe dali, Demetri interceptou a caravana de Caius para contar a notícia do assassinato do Laird Black. O Barão cuidava para que Demetri soubesse de seu paradeiro em todo momento, e dessa forma o informante foi capaz de encontrá-lo justo no momento em que cavalgava em companhia do Laird Newton e de seus guerreiros, em direção a Abadia de Arbane.
As terríveis notícias não geraram a reação que Demetri esperava. Nem Caius nem Newton pareceram surpreendidos. Caius logo encolheu os ombros com indiferença enquanto que Newton, igualmente indiferente, parecia aborrecido ao estirar seu cantil para tomar um gole de água.
O Barão Aro tinha se mostrado igualmente desinteressado ao ouvir as notícias. Acaso ambos os Barões esperavam que o assassinato acontecesse? Tinham antecipado a morte de Black, ou simplesmente a tinham desejado? E por que o Laird Newton também se mostrava indiferente? Um de seus próprios compatriotas tinha sido assassinado! O mensageiro pensou que o Laird Newton bem que poderia ter demonstrado algum pesar.
Caius esporeou seu cavalo e fez gestos para que Demetri o seguisse para um lado mais afastado da estrada. Quando ficaram sozinhos, ordenou-lhe que retornasse ao acampamento de Aro e que mantivesse os olhos e os ouvidos abertos para futuros acontecimentos.
— Vá agora, enquanto aquele bastardo ainda dorme. Chegarei à Abadia cerca de meia hora depois de você.
O mensageiro assentiu e galopou para longe, mas seus pensamentos o deixavam cheio de confusão. Embora desejasse não se atrevia a fazer ao Barão a pergunta que o atormentava. Black tinha sido um Laird poderoso, e para todos os efeitos bem quisto entre os seus ... Laird Black que tinha sido cruelmente assassinado durante a noite.
Por que ninguém se mostrava surpreso com isso?
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