Salvadora
Isabella interrompeu um assassinato.
Tudo o que a Princesa havia planejado era um despretensioso passeio quando pudesse pensar em paz e afastar um pouco as preocupações de sua mente, mas certamente ela não tinha desejado testemunhar nada tão vil e atroz. O passeio começou bastante agradável, de fato foi revigorante até aquele momento em que ela presenciara a quase execução de um homem.
Depois de ter beijado afetuosamente barbuda bochecha de seu pai e lhe haver desejado uma boa viagem até as terras dos McCarty para apresentar seus respeitos, Isabella se forçou mesma a caminhar, sem correr, até seu cavalo, Rogue. A Princesa até permitiu ao soldado Samuel que a ajudasse a subir à montaria só para que seu pai ficasse feliz ao contemplar a ‘dama sensível’ que ela era. Rogue empertigou-se, se apoiando nas patas traseiras, percebendo que logo teria permissão para correr como o vento.
Segura de que o Barão Charlie ainda a estava observando, Isabella fez o papel de tola donzela e não permitiu que Rogue se lançasse ao galope como era o costume do vigoroso cavalo. Forçou-o a começar um trote muito mais lento. Como Isabella sabia que seu pai sabia exatamente o que ela estava fazendo, ou seja, fingir ser uma ‘donzela frágil’, ela sustentou o sorriso enquanto se virava para acenar com a mão uma última vez antes de sair do campo de visão dele.
Quando se sentiu livre para fazer o que quisesse, Isabella afrouxou as rédeas e gentilmente esporeou Rogue. O cavalo se lançou rapidamente a galope, e quando chegou ao topo da colina mais próxima, Isabella se sentiu voando. Riu de pura alegria que sentia nesse momento. O fardo que a pressionava começaram a desaparecer.
Como sempre, Samuel tomou a dianteira. Paul e Jared flanqueavam as suas laterais e Embry, o mais jovem, ia por último, protegendo suas costas. Os quatro soldados poderiam ser irmãos, de tão parecidos que eram, com seus cabelos loiros quase brancos, olhos azuis e a pele muito bronzeada e curtida pelo sol. Todos se vestiam iguais, com uniforme de soldado, todo preto, mas com um pequeno e notório emblema da casa real do St. Noah, um pouco acima da altura do coração.
Entretanto suas personalidades eram bastante diferentes. Talvez por ser o mais velho e por ser o comandante, Samuel era o mais sério e raramente sorria. Paul era o que dizia o que lhe vinha à cabeça e também era o mais fácil de irritar; Jared tinha um magnífico senso de humor, e Embry era o mais introspectivo deles.
Todos falavam em sua língua nativa. Apesar de, como Isabella, podiam entender e falar gaélico, embora preferissem não fazê-lo.
Isabella sabia que era uma pessoa de sorte por contar com a lealdade desses quatro homens. Tinham sido seus protetores a maior parte de sua vida. Eles a tinham protegido quando sua natureza aventureira a tinha levado a situações precárias e guardaram seus segredos … inclusive de seu pai quando ela não desejava que ele se inteirasse de alguma de suas escapadas. Sua segurança sempre foi a prioridade, mas Isabella também valorizava a confiança que eles depositavam nela. Em várias ocasiões, eles a salvaram do perigo, mesmo arriscando suas próprias vidas.
Precisamente o mês passado, Embry tinha saído em sua defesa no mercado da aldeia. A Princesa caminhava entre as barracas quando dois bêbados começaram a segui-la, seus sorrisos evidenciavam suas intenções lascivas. No momento que se moveram sua direção à Princesa, Embry apareceu e derrubou os homens antes que se dessem conta do que tinha acontecido.
Isabella também recordava um incidente que tinha ocorrido no ano passado. Ela caminhava para os estábulos de seu pai para ver o novo potro que acabava de nascer. Justo quando estava dando a volta para entrar na estrebaria, a amarra de uma carroça de grão que estava no alto da colina se rompeu, liberando a carroça que saiu em disparada para cima dela numa velocidade fantástica. Mal virou-se para ver o que vinha em sua direção quando Paul a agarrou pelos ombros e a tirou de seu caminho, absorvendo o impacto da roda em sua perna. O tornozelo do soldado ficou tão machucado e inchado que não pôde caminhar durante semanas.
Ela se encolheu ao lembrar-se dos problemas que tinha causado a estes leais homens, mas logo sorriu pensando em outros momentos em que tinham estado ali para cuidar dela. Lembrava das noites quando era pequena e Samuel lhe dava cobertura para que pudesse escapar de seu quarto para escutar aos músicos que tocavam na praça. Também lembrava da tarde que, apesar das advertências de seu pai, ela e sua amiga Marian tinham subido num galho de salgueiro que estava perto do rio e tinham caído nas águas cheias de lodo. Jared levou apressadamente as pequenas meninas à cozinheira para que as criadas as lavassem e lhes dessem roupas limpas antes que o Barão Charlie se inteirasse da travessura. E Isabella nunca poderia esquecer quando tinha nove anos e um bando de pedintes acampou na campina próxima ao castelo de seu pai. A Princesa foi advertida para que permanecesse afastada deles, mas se sentiu indignada já que pensava que todos os visitantes eram hóspedes e deviam ser tratados como tais. A cozinheira havia assando bolos de amora para o jantar, e Isabella esperou que fossem colocadas em uma janela aberta para esfriar e as amontoou em sua saia. Sentiu-se feliz quando os hóspedes engoliram os bolos com grande apetite, e teria esticado sua visita e inclusive teria aceitado o convite para cavalgar com eles por um momento, se não tivesse se dado conta de Paul e Jared parados a dez pés de distância dela com os braços cruzados sobre o peito e os cenhos franzidos em seus rostos. Quando nessa noite a criada perguntou a Isabella pelas incomuns manchas na saia, os guardas não mencionaram sua desobediência, mas mais tarde quando ficaram a sós com a menina, advertiram-na para os perigos e maldades do mundo.
Paul e Embry eram os membros mais novos do guarda, mas Samuel e Jared tinham estado com ela desde suas tenras memória de criança. Em todos os momentos importantes e corriqueiros de sua vida, um ou mais deles tinha estado a seu lado. Quando sua mãe piorou e Isabella foi chamada mais uma vez a seu leito, soube no mais profundo de seu coração que essa seria sua última visita. Durante dois longos e tristes dias, seu pai e ela permaneceram sentados ao lado da cama da mulher enferma, sustentando sua mão e lhe acariciando a face. Muitos criados e médicos vieram durante esses momentos, mas fora da porta da antecâmara dos aposentos da Princesa Rennè, os quatro guardas de Isabella permaneceram em vigília nesses dois dias. Nenhum deles abandonou seu posto.
Agora enquanto Isabella cavalgava com eles para Finney’s Flat pensando em tudo o que tinham feito por ela, fez uma prece agradecendo por esses quatro amigos tão queridos.
Samuel a tirou de seus pensamentos quando virou para o este. Isabella o seguiu. Depois que os cavalos deram um bom passeio, ela diminuiu a marcha. A paisagem que a rodeava era escarpada e estava coberta por um manto verde deslumbrante. Havia arbustos de brilhante urze púrpura, alsináceas-brancas e ervas-leiteiras derramando-se pelas encostas das colinas. Seu pai havia dito que toda a Escócia era formosa, mas Isabella, olhando a vasta paisagem, pensou que as Highlands eram maravilhosas.
Quanto mais subiam a colina, mais frio ficava o ar. O cheiro do pinho era bem intenso, e Isabella sentia o vento frio acariciando o seu rosto.
Fazia quase duas horas que subiam quando finalmente chegaram ao topo de um platô. Samuel já havia feito o reconhecimento da área e explicou a Isabella que só havia um caminho para chegar a seu destino.
— Já que viemos do sul, a rota mais curta seria seguir em frente, mas como a Princesa pode ver, o caminho cruza um bosque muito denso, repleto de árvores e isso dificultaria a caminhada dos cavalos. Embora, é provável que conseguíssemos atravessar.
— E se não conseguimos? — perguntou Paul.
— Então seguiremos um caminho alternativo. — respondeu Jared.
— Finney’s Flat está do outro lado desse bosque? — perguntou ela.
— Sim, Princesa.
Isabella cobriu os olhos com a mão para protegê-los do sol e olhou para o leste e logo para o oeste. A linha de árvores parecia estender-se até onde a vista alcançava. O platô era enorme.
— Qual é a extensão do bosque? — perguntou ela.
— Não o atravessei por completo. — disse Samuel e olhou para o céu para ver a posição do sol — Ainda teremos bastante luz do dia para verificar.
— Se a proximidade das árvores é motivo de preocupação, não poderíamos nos aproximar de Finney’s Flat pelo leste ou pelo oeste? Não seria mais rápido? — foi Jared quem fez a pergunta.
Paul respondeu.
— O pai da Princesa Isabella nos disse que havia bosques na parte leste do vale, e que atrás deles estava o Lago Kaenich. Também há densos bosques alinhados ao longo do lado oeste do Finney’s Flat, e atrás desses bosques vivem os selvagens McCarty.
— Selvagens McCarty? — Jared se sentia curioso pela descrição que Paul fez do Clã.
— É assim como o Barão Charlie os chama, e a julgar por algumas historia que contou, não acredito que o nome seja um exagero.
— Fiquei sabendo que nenhum dos Clãs admite intrusos. — acrescentou Embry.
Isabella franziu o cenho e se voltou para olhar o guarda de voz suave.
— Embry, agora estamos na terra dos Newton, e ninguém tentou nos deter.
— Não, Princesa — respondeu Embry — Não estamos em terra dos Newton. Embora seja verdade que suas posses limitam com Finney’s Flat, mas estamos no extremo sudeste, e este pequeno pedaço de terra é controlado pelo Laird Black, seu futuro esposo. É por isso que não nos atacaram.
Lentamente, Isabella examinou o horizonte. Para ela a área estava completamente deserta. Desde que tinham começado sua longa viagem através das Highlands, não tinham visto nenhuma alma. Será que as pessoas que viviam nessa vasta extensão estavam escondendo-se para não ter que relacionar-se com estrangeiros, ou eram tão poucos e estavam afastados uns de outros?
— Samuel, e se tentarmos cortar caminho pelo leste e nos aproximar de Finney’s Flat pelo lado norte? — ela perguntou.
— Princesa, não vê a montanha ao norte? — perguntou Samuel — O Laird McCarty disse a seu pai que perto da base da montanha há um penhasco escorregadio com uma pedra suspensa, acima de Finney’s Flat…
— Seu pai, o Barão, nos disse que a passagem que sai dessa pedra suspensa é o único caminho para lá embaixo. Mas esse caminho é constantemente vigiado. Se fechar um pouco os olhos contra o sol, poderão ver. — explicou Jared.
— A montanha do início do caminho até as terras à acima é controlada pelo Clã Cullen, e eles não gostam de intrusos. — Embry comentou.
— Não gostam de intrusos? — ela sorriu com desdém enquanto repetia as palavras.
— Os Cullen irritam-se facilmente. — disse Paul. — E reagem com rapidez.
— Não podemos permitir que a princesa vá até lá. — disse Samuel.
— O Laird Cullen é um homem perigoso — disse Embry.
— Sim, ouvimos que o Clã Cullen é bastante feroz, e que seu líder é um selvagem. — disse Paul.
Ela sacudiu a cabeça.
— Eu não me apressaria tanto a julgar um homem porque alguém falou mal dele.
— O que deseja fazer, Princesa? — perguntou Samuel — Como devemos proceder?
— Vamos passar pelo bosque que à nossa frente. É a rota mais rápida, certo? E vai ser bom esticar as pernas. – respondeu a Princesa.
Samuel inclinou a cabeça.
— Como desejar, Princesa. Mas sugiro que cavalguemos o mais rápido possível para dentro do bosque para que nossos cavalos fiquem escondidos de qualquer curioso que possa passar. – ele se virou para Embry – Você tomará conta dos animais quando tivermos que seguir a pé.
No final das contas, puderam cavalgar uma boa distância entrando no bosque, embora tivessem que se esquivar de arbustos espinhosos. Por duas vezes tiveram que voltar para encontrar caminho melhor, mas depois que cruzaram um estreito riacho, conseguiram ganhar velocidade. Quando chegaram ao último grupo de árvores, desmontaram. Entregando as rédeas de seu cavalo ao Embry, Isabella seguiu Samuel que separava os arbustos diante deles.
A clareira estava a poucos metros de distância quando subitamente Samuel se deteve e estendeu o braço para evitar que Isabella avançasse mais. Ela permaneceu de pé junto a ele, e concentrou-se para escutar os sons da floresta. Enquanto esperava, ela silenciosamente ajustou a correia que prendia a aljava sobre os ombros e se preparou, segurando o arco com a mão esquerda. Alguns segundos depois, ela escutou um grosseiro bramido de risada seguido por uma forte blasfêmia.
Isabella ficou imóvel. Ouviu homens falando, mas suas vozes lhe chegavam abafadas e era impossível entender o teor da conversa.
Levantando a mão para indicar aos seus que seus guardas que não admitiria ser impedida, avançou lentamente. Estava bem escondida pelas árvores, mas quando se moveu levemente para a esquerda teve uma visão clara da clareira que havia adiante. Avistou sete homens, todos vestidos com hábitos de monges com os capuzes marrons cobrindo as cabeças.
Por um momento, a Princesa acreditou que estavam velando o corpo de um deles, rezando por sua alma antes de enterrá-lo. Estavam muito próximos, em volta do que parecia ser um buraco e ali ao lado, havia um monte de terra recentemente escavada. Quando a Princesa compreendeu as verdadeiras intenções daqueles homens, quase deixou escapar um grito de terror. Um oitavo homem estava deitado no chão. Não estava vestido como monge, mas usava uma suja capa de cores escuras. Tinha as mãos e os pés atados, e estava coberto de sangue.
Isabella se aproximou mais. Ao sentir a mão do Samuel no ombro, ela negou com a cabeça e continuou a avançar. Ainda escondida pelas árvores, ela observou e escutou a discussão que se estava acontecendo.
Os homens estavam discutindo de que forma de jogariam o homem amarrado dentro do buraco. Três deles queriam colocá-lo de cabeça para cima. Os outros discordavam veementemente, querendo colocar o prisioneiro de cabeça para baixo. O que tinha permanecido em silêncio, provavelmente o líder, tomou a decisão final.
Todos estavam de acordo numa coisa: queriam que o prisioneiro despertasse para que soubesse o que estavam a ponto de lhe acontecer.
Isabella se sentiu nauseada e espantada pelos pedaços de conversa que o vento lhe trazia. Qual teria sido a falta do prisioneiro? Qual era sua transgressão? Será que todos os criminosos nas Highlands eram punidos dessa forma? Ela decidiu que não importava o que o homem tivesse feito, pois crime merecia um castigo tão sádico. Era desumano.
Enquanto escutava a crescente disputa, ela descobriu a verdade. O único crime daquele prisioneiro era seu parentesco. Ele era o irmão do Laird Edward Cullen.
Finalmente, o líder falou.
— Hamish, mantenha seus olhos naquela encosta. Não podemos enterrar Jasper Cullen até que vejamos seu irmão.
— Tyler, eu não estou surdo. Você já me disse o que devo fazer! Meus olhos estão pregados na encosta. O que ainda não sei é o que vamos fazer se o Laird Cullen não vier salvar seu irmão.
— Ele virá. — respondeu um deles — E quando chegar lá em cima, verá o que está acontecendo, mas, não importará quão rápido cavalgue, não chegará a tempo. E quando aqui chegar será muito tarde para salvar seu irmão e nós teremos cruzado a fronteira há muito tempo.
— E como ele será capaz de adivinhar que é seu irmão o que estamos enterrando? — perguntou outro.
Tyler lhe respondeu.
— Edward Cullen já sabe que seu irmão está em apuros. De onde estará não poderá ver o rosto, mas reconhecerá o detalhe do tecido xadrez dos Cullen na capa de seu irmão.
— E se ele não reconhecer a capa olhando de tão longe? — perguntou Hamish.
— Ainda assim nos verá jogar Jasper dentro do buraco e enterrá-lo. Ele saberá.
— Já que ele não pode ver o rosto do irmão, tampouco será capaz de distinguir os nossos. Então por que devemos usar esta roupa? Ela me arranha a pele. Sinto como se tivesse insetos rastejando em cima de mim. Também cheira mal, como merda de porco.
— Pare de reclamar, Kenneth! — ordenou Tyler. — Estamos usando os hábitos que roubamos porque não devemos correr o risco de que Edward Cullen possa reconhecer nossos rostos.
— Se ele descobrir que fizemos isto… — Hamish se estremeceu visivelmente — Fará algo pior que nos enterrar vivos.
Houve um grunhido de assentimentos.
— Talvez seja melhor deixá-lo e partir agora. — disse Kenneth, nervoso e se afastando do buraco.
— Não seja idiota! —disse Tyler. — O Laird Cullen nunca descobrirá que fomos nós. Por que acha que nos contrataram? Nem da região nós somos! Além do mais recebemos um pagamento generoso. Quem de vocês está disposto a desistir do pagamento? — acrescentou apressadamente antes que pudesse surgir outra queixa.
— Não, mas… — começou a dizer Hamish.
— Chega dessa conversa de fugir! — disse bruscamente e voltou-se para o soldado que estava de pé sobre o guerreiro inconsciente — Chute-o, Roger. Veja se ele se move. Quero que esteja acordado quando o colocarmos no buraco.
Roger fez o que lhe mandou, e chutou a lateral do corpo. Jasper não se moveu.
— Não acredito que ele vá despertar. — disse Kenneth — Acho que está morrendo neste exato momento.
— Você não devia tê-lo golpeado tão forte, Tyler. — murmurou Hamish.
— Todos nos alternamos em bater nele. — recordou Roger.
—Só fizemos o que nos mandaram fazer — falou outro.
Tyler assentiu com a cabeça.
— Isso é certo! Só estávamos seguindo ordens, como bons soldados que somos.
Kenneth jogou o capuz para trás, e coçou a orelha.
— Mas me conte outra vez. O que foi que fez Jasper Cullen?
— Já lhe disse isso uma dez vezes! — gritou Tyler enquanto dava em Kenneth um forte empurrão, quase atirando-o dentro do buraco.
O soldado lutou para recuperar o equilíbrio.
— Diga outra vê.z — disse.
— Capturamos Jasper, e vamos matá-lo para fazer com que seu irmão desça da montanha, assim os soldados que estão escondidos nos bosques à leste poderão emboscá-lo.
Kenneth voltou a coçar a orelha como se estivesse tirando dali um inseto.
— O que os soldados que estão escondido farão com ele quando o apanharem?
Tyler sacudiu a cabeça.
— Matá-lo, seu imbecil, e enterrá-lo junto a seu irmão.
Kenneth não se sentiu ofendido pelo insulto.
— De que Clã são os soldados que estão escondidos? — fez um gesto com a mão para o leste, espremendo os olhos para ver se podia ver algum deles.
— Não importa a que Clã eles pertencem. — respondeu Tyler — Quanto menos souber, melhor para você.
— Olhem! Pode ser que Jasper estar despertando. — anunciou outro dos soldados, empurrando o prisioneiro com o pé e cacarejando de puro prazer sádico.
— Melhor assim! Jasper saberá o que lhe espera quando o atirarmos para dentro do buraco. Você tem um pouco mais de água para lhe atirar na cara, Manus? Deixe-o bem acordado.
Antes que lhe respondesse, Kenneth disse:
— Ele nunca despertou. Estive observando seu rosto, e não tentou abrir os olhos nem sequer uma só vez. Está morto.
— Mas talvez seja como disse Tyler, se lhe atirarmos água na cara… — sugeriu outro soldado.
— Usei a última que ficou. — disse Manus — Poderíamos cuspir na cara dele.
Os homens pensaram que essa era uma boa idéia e começaram a rir. Isabella escutou o nome dos dois últimos homens enquanto se empurravam, brincando como crianças, atuando como se estivessem numa festa. Fergus e Cuthbert. Ela sabia que era importante recordar os sete nomes, porque algum dia haveria um justo castigo para aqueles homens.
Os roncos de risada de Hamish cessaram quando ele olhou para cima e avistou o Laird Edward Cullen.
— Lá está ele! Lá está ele! — gritou Hamish enquanto lutava para colocar o capuz sobre a cabeça. — Lá está o Cullen!
Todos, inclusive Isabella, olharam para a encosta. A silhueta de um imponente guerreiro no lombo de um cavalo se movia como uma mancha dourada contra o sol.
— Temos muito tempo. — disse Kenneth — O Cullen não pode voar até aqui.
— Olhe todos os homens que o seguem. Já contei vinte — gritou Manus com a voz tremendo pelo medo.
Tyler se estava ficando nervoso. Pensou que tinha escutado um ruído atrás dele. Girou de repente, com a mão posta no punho da espada. Quando não pôde detectar nenhuma ameaça, voltou a girar para olhar para o leste e logo para o oeste. Nada.
— Já perdemos muito tempo. — disse Tyler — Coloquem Jasper no buraco. Temos que cobri-lo com terra e sair daqui.
Roger e Cuthbert se apressaram até Jasper e o puseram de pé. A cabeça do prisioneiro caiu para frente. Fergus o agarrou pelo cabelo e jogou a cabeça para trás.
— Seus olhos estão fechados outra vez — disse evidentemente decepcionado.
— Seus olhos nunca estiveram abertos! — repetiu Kenneth.
Estavam arrastando Jasper para o buraco quando um estrondo distante captou a atenção deles. Os sete se voltaram ao mesmo tempo, justo quando uns guerreiros a cavalo avançavam através das árvores na parte mais afastada do vale. Seus cavalos esmurravam a terra enquanto se aproximavam. Estavam tão longe, que não eram mais do que pontos escuros no horizonte.
— Poderiam ser os McCarty! — gritou Manus — Ainda não posso vê-los bem, mas acho que são eles.
— Eles nos matarão! Matarão a todos! — chiou Hamish e começou a girar em círculos como um camundongo encurralado tentando se decidir por qual caminho fugir — Onde vamos nos esconder? Onde?
Cuthbert e Manus deixaram cair o corpo inerte de Jasper. A urgência gritava na voz de Tyler quando ordenou.
— Levantem o homem, seus idiotas! Levantem-no. Quando puxei o cretino do cavalo ele tinha os olhos abertos, assim fui o único a ser visto. Devo matá-lo antes de colocá-lo no buraco. Não há tempo para enterrá-lo e deixar que morra asfixiado.
Cuthbert e Manus não obedeceram à ordem. Nem tampouco Roger nem Kenneth nem Hamish nem Fergus, já que todos eles estavam correndo para ficar escondidos.
Tyler tirou a espada. Ao mesmo tempo, Isabella estirou a mão para agarrar uma flecha e a pôs no arco antecipando-se.
Os guerreiros McCarty estavam ainda muito longe para que suas flechas alcançassem os sete homens, e os guerreiros Cullen que se apressavam a baixar a montanha para salvar um dos seus, também estavam muito longe.
Repentinamente, escutou-se outro alvoroço. Os soldados que esperavam para emboscar o Cullen irromperam através das árvores e se dirigiram através da planície para atacarem os McCarty. Uma grande e sangrenta batalha estava a ponto de começar. Se não agissem rápido, Isabella e seus guardas logo se encontrariam no meio dela.
Isabella manteve o olhar fixo em Tyler, o líder desse exército de ratos. Seu prisioneiro não se movia. Jasper estava sobre a terra, deitado de costas, e Tyler continuava olhando nervosamente para o norte. El voltou alguns passos, vacilou, e logo voltou a adiantar-se. Isabella sabia que Tyler não podia fugir deixando Jasper para trás. Jasper tinha visto seu rosto.
— Samuel — sussurrou. — Se eu errar …
—A Princesa não vai errar.
—Mas se eu errar … esteja preparado.
Tyler se decidiu. Girando na direção de Isabella, ele balançou a espada para trás com a intenção de cortar Jasper ao meio.
A flecha de Isabella o deteve. Ela acertou o alvo, e a ponta da flecha se penetrou através da carne e das costelas, afundando-se no negro coração do vil soldado.
Segundos depois, a terra pareceu tremer debaixo de seus pés quando os McCarty e seus inimigos se chocaram no campo de batalha. O som de metal golpeando contra metal era ensurdecedor. A batalha tinha começado.
O pandemônio se movia na direção da Princesa. Isabella rezou para que Jasper Cullen não fosse pisoteado pelos cavalos dos homens antes que ela pudesse salvá-lo. Felizmente, Paul e Embry fizeram um excelente trabalho e, em tempo chegaram ao seu lado com os cavalos. Isabella subiu no lombo de Rogue e avançou para campo aberto, erguendo a capa sobre a cabeça com a esperança de que no caos ninguém a visse.
Samuel lhe bloqueou o caminho. Ele sabia o que a Princesa queria fazer.
— Paul e eu nos ocuparemos da tarefa. Jared e Embry a levarão de volta ao riacho que cruzamos. Depressa, Princesa. Precisamos sair daqui.
Ela não perdeu tempo em discutir. Esporeou Rogue com o pé e voltou através do bosque. Samuel e Paul os alcançaram, uns momentos depois no riacho. Isabella deu graças a Deus por seus soldados não terem sido apanhados na batalha.
— Ele está vivo? — ela desmontou e se apressou a ir até Samuel.
Jasper Cullen estava de bruços sobre os arreios de seu cavalo.
— Ele ainda respira. — respondeu.
— Vamos nos apressar, então. – ordenou Isabella - Sei onde podemos conseguir ajuda.
Nenhum comentário:
Postar um comentário