Despedida
Naquela época, era comum que uma noiva visse seu noivo pela primeira vez apenas na cerimônia de casamento, mas Isabella esperava ter a sorte de, ao menos, ter um vislumbre do homem antes disso. A única informação que tinha sobre o Laird Black era que se tratava de um homem bem mais velho que ela. Isabella tinha agora, 17 anos de idade. Bom, se ele era bem mais velho, poderia ter 27, 37, 47 anos ... Entretanto, ninguém havia dito a Isabella o quanto o seu noivo era mais velho e isso a estava deixando muito preocupada. O que seria dela se ele parecesse um ogro? Ou se fosse tão velho que não fosse capaz de manter-se de pé? Ou se não tivesse nenhum dente e só pudesse comer mingau? Isabella tentava se convencer que a idade e aparência de seu futuro marido não deveriam ser tão importantes para ela. Mas o que lhe aconteceria se as maneiras dele fossem grosseiras? Ou pior, se ele fosse cruel com as pessoas que tinha a seu redor? Poderia ela viver com alguém que maltratava aos homens e mulheres que dependiam dele? A Princesa mordia o lábio inferior e franzia a testa enquanto pensava nessas coisas.
Sua mãe sempre lhe dizia que ela se preocupava muito, mas não era o desconhecido algo sempre preocupante? Para Isabella era. Oh, como ela desejava que sua mãe estivesse ali para lhe aconselhar e consolar nesse momento! Ela seria capaz de acalmar os temores de Isabella. Mas sua mãe tinha morrido há dois anos, durante o inverno. Embora Isabella soubesse que era uma bênção ter tido por tantos anos a presença da mãe em sua vida, havia ocasiões em que o anseio e a necessidade de falar com ela se tornavam tão inquietantes quanto uma dor física. Hoje era uma dessas ocasiões, já que Isabella estava a caminho do desconhecido, a caminho de seu casamento.
A comitiva da Princesa era composta de vinte soldados, funcionários e criados pessoais. Todos acompanhavam Isabella e a seu pai, o Barão Charlie de Phoenix às Highlands da Escócia. O destino final era a Abadia de Arbane, onde no prazo de uma semana seria realizada a cerimônia de seu casamento. A Abadia dispunha de quartos reservados para o grupo de cansados viajantes.
O cortejo subia a montanha de forma lenta e trabalhosa. E embora ninguém soubesse, quanto mais Isabella se aproximava de seu destino, mais distante ela estava de se tornar Lady Black.
O caminho era estreito e acidentado, mas depois que fizeram uma curva muito fechada, seu pai conseguiu cavalgar ao lado dela. O Barão Charlie tratou de pensar em uma forma de aliviar as preocupações de Isabella sobre o futuro e também numa forma de melhorar o ânimo da filha.
Fez um gesto apontando para o rico vale que havia abaixo.
— Você já percebeu como tudo é verde por aqui, Bella?
— Sim, papai, eu percebi — respondeu ela, sem entusiasmo.
— E reparou o quanto é revigorante o ar fresco das montanhas das Highlands?
— Reparei — ela disse.
O bom Barão estava decidido a levantar o ânimo de sua filha.
— Alguns highlanders (n/a: habitantes das regiões montanhosas da Escócia) acreditam que aqui, estamos elevados o suficientemente para tocar o céu com as mãos. O que você acha?
Isabella estranhou a atitude do pai, não era habitual que ele fosse tão imaginativo. Sua mãe era a imaginativa, cheia de sonhos que tinha transferido para sua filha. Mas seu pai não era um sonhador. Era um líder de homens, um protetor e um homem extremamente prático.
— Penso que estão equivocados — respondeu ela — Aqui não estamos perto o suficiente para tocar o céu com as mãos. Somente em St. Noah isso seria possível.
— E como você poderia saber isso? Você nunca esteve em St. Noah.
— Mamãe. — Isabella respondeu e sorriu triste.
— Ah — disse o Barão Charlie com um sorriso igualmente melancólico. — E que foi o que te contou?
— Mamãe sempre me dizia a mesma coisa: que quando estava de pé, ao lado da estátua de St. Noah, no porto principal da ilha, ela o lugar na terra onde ela ficava mais perto do céu.
Isabella acariciou com os dedos o medalhão de ouro que tinha pendurado em uma corrente no pescoço. O medalhão tinha sido feito com uma moeda onde fora cunhada a imagem de St. Noah. Desde suas remotas memória de criança, Isabella sabia que tinha aquela jóia. Sua mãe tinha sido enterrada com uma exatamente igual a essa.
Seu pai notou o gesto.
— Eu também sinto falta dela, Bella. — disse. — Mas Rennè sempre estará viva em nossos corações. — depois de um longo suspiro acrescentou — Você notou como é azul o céu nas Highlands? Tão azul como os olhos de sua mãe.
— Notei. — respondeu ela — E também notei muitas vezes que o senhor enalteceu bastante as belezas dessa terra. Será que há algum motivo especial para isso? — brincou ela.
— Quero que goste da sua vizinhança, e quero que esteja contente aqui e que seja feliz com o seu casamento também, Bella.
Ela queria discutir, queria argumentar, queria dizer que não poderia saber se seria feliz, já que não conhecia o próprio noivo. A felicidade era tudo o que alguém podia desejar? Será que a paixão, o amor e o prazer existiam apenas nos sonhos? Seria possível ter tudo? Será que sua mãe estava delirando quando contou a Isabella sobre as alegrias do casamento? Ou será que nem todas as mulheres eram tão afortunadas com um marido bom, generoso, amável e apaixonado quanto o da Princesa Rennè? Isabella ansiava expor estas perguntas a seu pai, mas não podia. Conteve a língua. Enquanto continuavam a viagem, ela adotou o firme propósito de ser mais prática, como seu pai. Já era uma mulher adulta, logo se tornaria uma esposa. Era hora de colocar os pés no chão e deixar de lado seus sonhos infantis.
— Tentarei ser feliz. — prometeu Isabella.
Uma vez mais tiveram que diminuir a marcha por causa de um declive rochoso. O pai viu a expressão de resignação no rosto da filha e a tristeza que havia em seus olhos. Aquilo estava espancando o coração do Barão.
— Filha! — o Barão falou num lamurio — Você não vai a um funeral, Bella! É o seu casamento! Tente se mostrar alegre.
— Vou tentar — Isabella respondeu noutro lamurio.
Uma hora mais tarde quando a caravana parou para que os cavalos pudessem descansar e eles pudessem esticar as pernas, o pai de Isabella pediu que ela caminhasse um pouco com ele.
Pai e filha não pronunciaram uma única palavra até que se detiveram para descansar debaixo de umas bétulas perto de um pequeno riacho.
— Sabe filha, eu já tive a oportunidade de conhecer o Laird Black e alguns de seus familiares. Ele será um marido gentil e bondoso com você.
Isabella não desejava falar a respeito de seu futuro esposo, mas seu pai parecia decidido em ter esta conversa com ela.
— Então eu também serei bondosa com ele, papai. — ela suspirou profundamente antes de responder.
O Barão sacudiu a cabeça e continuou a falar tentando não dar atenção à dor nas palavras da filha.
— Bella, você é uma filha muito teimosa. Eu não sei se um dia você vai se conformar com esse casamento. Talvez você seja como eu, incapaz de esquecer as coisas e de mudar de idéia.
Ela girou os calcanhares para enfrentá-lo.
— Pai, o que é o que está sendo tão difícil de o senhor me dizer? A idéia de eu me casar com um desconhecido me é apavorante, mas o senhor fala como se pudesse ser ainda pior.
O Barão suspirou.
— Sua vida mudará quando você se tornar uma esposa. Seu marido é quem terá a palavra final. Você não estará em igualdade de condições em seu casamento. E você terá de aceitar isso. Os casamentos são assim.
Isabella arregalou os olhos e fitou o pai com incredulidade.
— O senhor considerava minha mãe uma igual, não é verdade?
Ele sorriu.
— Sim! — admitiu— Mas éramos uma exceção. Com o tempo o nosso casamento foi solidificado no amor e eu fui educado para respeitar a minha esposa e levar em consideração as suas palavras.
— Possivelmente eu e o Laird Black também sejamos uma exceção.
— Com o tempo, se Deus quiser. — o Barão Charlie rogou a Deus que assim fosse — Não quero que se preocupe com seu futuro marido. Ele nunca levantará a mão contra você. Infelizmente, há muitos maridos que são cruéis com suas esposas, mas Laird Black é um homem bom.
— Papai, acho que o senhor está mais preocupado com este casamento que eu. – Isabella esboçou um sorriso – O senhor está curioso em saber o que eu faria se meu marido, ou qualquer outro homem, levantasse a mão contra mim?
Meio envergonhado, o Barão Charlie, respondeu:
— Não, não me pergunto isso. Sei exatamente o que você faria porque conheço a educação que você recebeu. Porém — continuou antes que ela pudesse interrompê-lo, — conheço o seu temperamento também. Preciso lhe alertar que haverá mudanças quando se casar. Você já não será livre para fazer o que desejar. Em tudo, você deverá levar em consideração os sentimentos, as necessidades e as vontades de seu marido. Você sempre foi independente e autoconfiante em muitos aspectos, recebeu a educação de uma princesa, você carrega em suas veias a soberania e a altivez da Família Real de St. Noah, mas agora deverá aprender a se conter.
— O senhor está me dizendo que devo renunciar }à minha liberdade?
Charlie suspirou, Isabella parecia estarrecida com a idéia.
— De certa forma. — ele se esquivou.
— De certa forma? Por favor, papai, explique-se. – Isabella foi incisiva.
— E quando estiver casada — continuou o Barão Charlie como se a filha não tivesse falado nada — Você deverá compartilhar o leito com seu marido e…
Muito tarde o Barão compreendeu para onde tinha levado a conversa. Sua face estava corada com o constrangimento de ter de falar do leito matrimonial com a sua filha. Deteve-se, e logo tossiu para encobrir sua confusão. Em que estava pensando para começar semelhante assunto? Era impossível para ele falar do leito matrimonial com sua filha. Depois de considerar por um momento decidiu que pediria a uma das mulheres mais velhas que lhe explicasse o que ocorreria na noite de núpcias. Simplesmente não estava à altura da tarefa.
Isabella segurou o riso ao ver o pai corar! Sua mãe morreu quando ela tinha 15 anos de idade e entes disso, Rennè conversou com a filha sobre todos os assuntos possíveis. Tudo o que a mãe considerava importante repassou à filha. Isabella não era uma completa ignorante sobre as atribuições da esposa no leito matrimonial. Pelo menos na teoria, ela sabia o que esperar.
— O que o senhor estava dizendo, papai? — ela o provocou.
— Já estamos perto da abadia — balbuciou Charlie — Eu diria que estamos a mais ou menos uma hora de lá. Suponho que estejamos igualmente perto de Finney’s Flat, basta cavalgarmos na direção oposta. Talvez você queira dar uma olhada nas terras que farão parte de seu dote.
— Ainda é cedo. Então temos tempo de dar uma olhada no vale antes que o sol se ponha.
— Você se esqueceu que devo apresentar meus respeitos ao Laird McCarty? — disse o Barão, apontando para o oeste. — Quando chegarmos à próxima subida da colina vou deixar vocês. E quando chegar à casa do Laird Emmett McCarty a noite já deverá ter caído. Você e outros continuam no caminho para a Abadia.
Surgia na cabeça da Princesa a idéia de cavalgar um pouco pelos vales de Finney’s Flat. Seria como num gesto de despedida. Isabella estaria se despedindo da sua liberdade.
— Será que eu e meus guardas poderíamos ir ao vale enquanto os outros continuam a viagem? Tenho certeza de que não nos levará muito tempo para alcançá-los. E eu estou muito curiosa para ver o dote que o Rei William me deu.
O Barão Charlie Swan considerou o pedido da filha durante um longo tempo antes de concordar.
— Desde que você leve seus quatro guardas, que leve seu arco e as flechas, e que seja extremamente cuidadosa. E deve me prometer, Bella, que não se atrasará e que será um passeio sem aventuras. Se for assim, eu o permito.
Ela conteve um sorriso e arqueou uma sobrancelha.
— Sem aventuras, papai?
Ao ver o brilho nos olhos dela, o Barão Charlie sentiu uma súbita admiração por sua filha. Com os cabelos castanho-avermelhados e os olhos castanhos, tão parecidos com os seus, Isabella tinha se tornado uma moça formosa e refinada. Seu peito se encheu de orgulho enquanto pensava nas inúmeras conquistas de Isabella. Ela sabia ler e escrever e falava quatro idiomas com perfeição. Sua mãe se preocupou de que Isabella fosse bem instruída nas atividades femininas e ele cuidou para que a filha fosse bem treinada em assuntos mais práticos. A Princesa podia montar a cavalo tão bem como qualquer homem, e não se intimidava se tivesse de usar o arco e as flechas. Para falar a verdade, ela tinha melhor pontaria que o próprio pai.
— Sem aventuras, papai? — repetiu Isabella, perguntando-se por que ele estava tão distraído.
Charlie sacudiu a cabeça, na tentativa de afastar os devaneios.
— Você sabe o que quero dizer, Bella. Não se faça de inocente comigo. Você já nasceu inclinada a fazer travessuras!
Ela protestou, fingindo estar ofendida e sorriu.
— Não posso imaginar por que o senhor pensaria isso de mim …
Ele a interrompeu.
— Apenas me prometa, Bella, que será um passeio sem aventuras e que não haverá travessuras. Quero que dê sua palavra, filha. – Charlie falou sério.
Ela assentiu com a cabeça e jurou solenemente.
— Prometo, papai. Não farei travessuras, e será uma tarde sem aventuras.
O Barão não se sentia à vontade com os gestos que demonstravam afeto, então, afagou rapidamente o ombro de sua filha e logo caminhou de volta para onde estavam os cavalos.
Isabella se apressou a alcançá-lo, tocou em seu ombro e lhe abraçou com muito carinho.
— Papai, o senhor se preocupa muito. Tomarei cuidado como prometi, e, por favor, deixe de franzir o cenho desse jeito. Não vai acontecer nada. Até parece que o senhor não confia em minha palavra! – ela afagou o rosto do pai e beijou-lhe a face – A propósito, papai, eu te amo.
— Também te amo, filhinha. – a voz de Charlie estava embargada pela emoção – Não se preocupe com os anseios de seu velho pai, eu confio em você.
Duas horas depois Isabella se viu obrigada a matar a um homem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário