A Princesinha
Phoenix, Inglaterra
Isabella era uma linda menininha, dona de vivos olhos castanhos, seus cabelos combinavam com a cor dos olhos, mas se mostravam em tons rubros sob o sol, seu sorriso era um misto de ingenuidade, travessura e felicidade. Sua pele era bem branquinha e quando Isabella se via em apuros ou numa situação embaraçosa, suas bochechas assumiam um tom rosado. Ela era a única criança do castelo, filha do Barão e da Princesa, adorada e respeitada por todos, Isabella era uma boa menina.
A Princesinha tinha apenas oito anos de idade quando foi convocada ao leito de morte de sua mãe. Há dois anos, a Princesa Rennè vivia acamada, uma desconhecida moléstia tinha acabado com o vigor da linda Princesa, dona de longos cabelos loiros e olhos azuis. Suas pernas estavam fracas e aos poucos, ficaram finas. Samuel, o leal guarda da pequena Princesa, escoltava-a pelo longo corredor, enquanto Paul e Jared, soldados mais jovens, recentemente incorporados à guarda pessoal de Isabella, seguiam adiante, todos andavam devagar para que ela pudesse acompanhar o passo. O único som que se podia ouvir era o das botas dos saldados chacoalhando contra o frio chão de pedra do castelo.
Isabella já tinha sido chamada ao leito de morte de sua mãe tantas vezes que tinha perdido as contas. Ela sempre ficava triste nessas horas, enquanto caminhava, permanecia com a cabeça baixa, olhando intensamente a pedra brilhante que tinha encontrado no jardim. A sua mãe iria ficar encantada com a beleza singular daquela pedrinha, ela era negra com uma pequena linha branca em zigue-zague que a rodeava completamente. Um lado era tão macio quanto à mão de sua mamãe quando acariciava a bochecha de Isabella. O outro lado da pedra era áspero como a barba de seu papai.
Cada dia ao crepúsculo, Isabella trazia para sua mãe um pequeno tesouro diferente. Dois dias atrás tinha capturado uma borboleta de asas formosas, douradas com pontos de cor púrpura. A mãe tinha lhe assegurado que aquela era a borboleta mais linda que já viu na vida. Quando Isabella caminhou para a janela e a deixou sair voando a mãe a elogiou por ser tão gentil e bondosa com uma criaturinha de Deus.
No dia anterior Isabella tinha recolhido flores que cresciam à beira do lago, próximo à colina que estava fora dos muros do castelo. O aroma de lilases e mel a tinha rodeado, e pensou que o delicioso aroma era ainda mais agradável que os perfumes e os óleos especiais de sua mãe. Isabella havia amarrado uma fita muito bonita ao redor dos caules das flores e tratou de fazer um lindo laço, mas não sabia como e fez uma confusão, o laço se transformou num nó. Pelo menos o tosco buquê não se desfez quando o entregou a sua mãe.
As pedrinhas eram os tesouros favoritos de sua mãe. Em uma mesa perto da cama, tinha uma cesta cheia de pedras coloridas que Isabella tinha recolhido para ela e desta vez, ela gostaria mais da pedra negra do que das outras.
Isabella não estava preocupada com a visita desse dia, pois sua mãe havia lhe prometido não ir para o céu muito em breve, e nunca, nunca a sua mamãe quebrava uma promessa.
O sol projetava sombras engraçadas ao longo das paredes de pedra e do chão. Se Isabella não estivesse ocupada, na missão de levar a pedra, teria gostado de perseguir as sombras e tentar capturar alguma. O longo corredor era um de seus lugares favoritos para brincar e correr, apesar de ser uma menina e Princesa, Isabella gostava de saltar em um pé só, de uma pedra à outra e ver quão longe poderia ir sem cair no chão. Ainda não tinha chegado à segunda janela de vitrais, e faltava mais cinco, o corredor era grande mesmo. Às vezes a pequena Princesa fechava os olhos, abria os braços amplamente e girava ... girava até que perdia o equilíbrio e se derrubava sobre o chão, gostava especificamente desse enjôo quando as paredes pareciam voar ao redor de sua cabeça.
Mais do que tudo, amava correr pelo corredor, especialmente quando seu papai estava em casa. Ele era um homem muito grande e magnífico, mais alto que qualquer um dos pilares da igreja. Seu papai a chamava e esperava que ela o alcançasse, logo a tomava em seus braços e a lançava alto sobre sua cabeça, Isabella sorria e dava gritinhos de alegria. Quando estavam no pátio, ela levantava as mãos ao céu, imaginando que quase podia tocar uma nuvem. Seu pai sempre fingia não poder segurá-la para que ela pensasse que ia deixá-la cair, mas ela sabia que nunca o faria, mesmo assim gritava e sorria ante a possibilidade dos dois virem ao chão. Envolvia-lhe os braços ao redor do grosso pescoço e o apertava enquanto ele caminhava com grandes passos para os aposentos de sua mãe. Quando estava especialmente contente, seu papai costumava cantar, mas ele tinha uma voz terrível e às vezes Isabella continha a risada e cobria os ouvidos de tão espantosamente feia que era a voz do pai, mas nunca ria abertamente. Não queria ferir seus sentimentos.
Nesse dia seu pai não estava em casa. Havia partido de Phoenix, para dirigir-se ao norte da Inglaterra, para visitar seu tio Peter e não voltaria para casa por vários dias. Isabella não estava preocupada, sua mãe não morreria sem ele a seu lado.
Samuel, o chefe dos guardas, abriu a porta da antecâmara de sua mãe e deu um leve empurrãozinho nas costas de Isabella para que a Princesa entrasse.
— Adiante, Princesa — ele falou.
Ela se voltou para ele com o cenho franzido em sinal de desgosto.
— Papai diz que deve chamar a minha mãe Princesa Rennè, e se supõe que a mim deve me chamar Lady Isabella.
— Aqui na Inglaterra é Lady Isabella — mostrou o escudo bordado que tinha na sua túnica — mas em St. Noah você é uma Princesa. Agora vá, sua mãe lhe espera.
Ao ver Isabella, sua mãe a chamou. Tinha a voz débil, e parecia terrivelmente pálida. Já havia um bom tempo que sua mãe tinha permanecido na cama, a Princesa Rennè tinha explicado a Isabella, que suas pernas tinham esquecido como caminhar, mas tinha esperanças e rezava a Deus para que um dia recordassem como fazê-lo. Tinha prometido a Isabella que se esse milagre acontecesse, iria fazer longas caminhadas com a filha pelo jardim, em busca de pedrinhas coloridas.
E também dançaria com seu pai.
A antecâmara dos aposentos reais estava lotada de gente. As pessoas fizeram um corredor estreito para que Isabella passasse. O padre Garret, estava perto do quarto entoando uma prece em um murmúrio, e o médico real, que sempre tinha o cenho franzido e que gostava de sangrar a sua mãe com seus bichinhos negros e viscosos, também estava presente. Isabella se sentia agradecida de que hoje ele não tivesse posto nenhum bichinho grudento nos braços de sua mãe.
As damas de companhia, o mordomo, e as serviçais rodeavam a cama da Princesa. Sua mãe deixou o bordado e a agulha de lado, ordenou que os criados se afastassem e fez gestos a Isabella para que se aproximasse da cama.
— Venha querida e sente-se comigo — lhe ordenou.
Isabella cruzou a câmara correndo, subiu à plataforma da cama e estendeu a pedrinha para sua mãe.
— Oh, é muito formosa. — sussurrou enquanto tomava a pedra e a examinava cuidadosamente. — Esta é a melhor de todas, até agora — acrescentou sorrindo e acariciando o rostinho da filha.
— Mamãe, você diz isso cada vez que te trago uma pedrinha. Sempre é a melhor.
A mãe lhe indicou o lugar próximo a ela na cama, Isabella se aproximou rapidamente, se sentou e disse:
— Mamãe, você não pode morrer hoje. Lembra? Você prometeu.
— Eu lembro, filha.
— Papai ficaria terrivelmente zangado, também, assim é melhor que não morra hoje.
— Se aproxime mais, Bella — lhe disse a mãe. — Tenho a necessidade de sussurrar.
A faísca em seus olhos azuis indicou a Isabella que novamente estava jogando o seu joguinho infantil.
— Um segredo? Você vai me contar um segredo?
A multidão se aproximou. Todos estavam ansiosos por escutar o que a Princesa ia dizer.
Isabella olhou ao redor do quarto.
— Mamãe, por que essa gente toda está aqui? Por que?
A mãe a beijou na bochecha.
— Pensam que sei onde se esconde um grande tesouro e têm a esperança de que te direi onde está.
Isabella riu. Gostava deste jogo de caça ao tesouro.
— Você me dirá isso?
— Hoje não. — lhe respondeu e sorriu.
— Hoje não. — a Princesinha repetiu para que os curiosos espectadores pudessem ouvi-la.
A mãe lutou para se sentar sobre a cama. A ama se adiantou com urgência para lhe pôr travesseiros detrás das costas. Um momento depois o médico anunciou que a cor do rosto da Princesa estava melhorando.
— Estou me sentindo muito melhor — disse — Vão-se todos, agora — ordenou, com a voz fazendo-se mais firme com cada palavra. — Eu gostaria de ter um momento a sós com minha filha.
Pareceu que o médico tinha a intenção de protestar, mas diante do olhar sério da Princesa, se manteve em silêncio, e acompanhou o grupo à saída. Fez um sinal a duas donzelas para que ficassem. As mulheres esperaram perto da porta para cumprir os desejos de sua senhora.
— Mamãe, você se sente melhor hoje para poder me contar uma história? — perguntou Isabella.
— Sim, filha! — a Princesa Rennè sorriu — Que história você gostaria de escutar?
— A história da Princesa. — respondeu ansiosa e seus olhinhos castanhos brilharam.
A sua mãe não se surpreendeu. Isabella sempre pedia a mesma história.
— Havia uma vez uma Princesa, de cabelos loiros e olhos azuis, que vivia em uma terra longínqua chamada St. Noah — começou a mãe. — Seu lar era um magnífico palácio branco que estava no alto da cúpula de uma majestosa montanha. Seu tio era o Rei Phillip, ele era muito carinhoso com a Princesa, e ela era muito feliz.
Quando a mãe fez uma pausa, Isabella soltou impaciente:
— Você é a Princesa.
— Bella, sabe que eu sou e que esta história é a respeito de seu pai e de mim.
— Eu sei, mas eu gosto de ouvi-la dizer isso.
Sua mãe continuou.
— Quando a Princesa teve a idade adequada, fez-se um trato com o Barão Charlie de Phoenix. A Princesa se casaria com o Barão e viveria com ele na Inglaterra.
Como sabia que a sua filha adorava ouvir a respeito da cerimônia das bodas, os trajes e a música, narrou o dia de seu casamento com grande riqueza de detalhes. A pequena menina aplaudiu com alegria e quando escutou a parte a respeito da festa e do banquete, especialmente a descrição dos bolos de fruta e dos bolos de mel, sua boca ficou cheia de água. Ao final da história, a narrativa de sua mãe se tornou lenta e arrastada. O esgotamento físico a estava dominando. A pequena menina percebeu e, como era seu ritual diário, fez a mãe lhe prometer que não morreria nesse dia.
— Prometo Bella. Agora é a sua vez de me contar a história que te ensinei.
— Cada palavra tal como me ensinou, mamãe? E como te ensinou sua mamãe?
A Princesa sorriu e assentiu.
— Cada palavra, Bella. E você as recordará sempre e um dia as ensinará a suas filhas para que conheçam sua família e o St. Noah.
Isabella adotou uma postura solene e fechou os olhos para concentrar-se nas palavras. Sabia que não devia esquecer nenhuma parte da história. Esta era a sua herança, e sua mãe lhe tinha assegurado que um dia entenderia o que isso significava. Dobrou as mãos sobre o colo e logo abriu os olhos novamente. Fixou seu olhar no sorriso alentador de sua mãe, começou.
— Era uma vez, há muito tempo atrás, um pequeno Reino chamado Forks ...
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