Emboscada
Enquanto o Padre Erick tentava reunir forças para realizar a difícil empreitada de viajar até a fazenda da família Cullen e informar a eles sobre o paradeiro de Jasper, Isabella preencheu seus dias com obrigações sociais e preparativos para o casamento. Tarde da noite, quando todos já haviam se recolhido, a Princesa abandonava seu quarto para ver com seus próprios olhos o estado de saúde de Jasper. Seus guardas mantinham a porta vigiada e Isabella tinha absoluta certeza que essas suas saídas furtivas não seriam percebidas por ninguém. Seria muito azar da Princesa se alguém pudesse vê-la entrando no quarto de um homem ...
Quando o paciente finalmente acordou, o Padre Berty tinha-lhe dito que embora a Abadia fosse um santuário e, portanto considerada terra sagrada por todos os homens e mulheres bons e tementes a Deus, ele não iria arriscar a que nenhum pagão pudesse entrar lá para machucar Jasper ainda mais. Disse a Jasper que Lady Isabella tinha chegado para a cerimônia de seu casamento e que trazia um contingente de guardas, e que lhe tinha pedido ajuda. Dada sua débil condição, Jasper não protestou. Ele sabia que aqueles padres estavam cuidando de seus ferimentos, mas não falava com nenhum deles, e quando os guardas e padres falavam entre si, era em uma linguagem que Jasper nunca tinha escutado e não podia entender.
Assim que Jasper recuperou a consciência, o Padre Erick anunciou que partiria para entregar sua mensagem aos Cullen, e saiu ao amanhecer do dia seguinte. Retornou ao anoitecer desse mesmo dia e quando bateu à porta do quarto de Isabella, esta se alegrou em vê-lo, mas se surpreendeu que o velho Padre tivesse retornado de sua importante missão tão rapidamente. Fez que se acomodasse em uma cadeira na varanda, para se refrescar, e logo se sentou frente a ele.
— O senhor está bem, Padre? — perguntou-lhe.
— Sim! Estou. — respondeu. — E você, Milady?
— Estou muito bem. — respondeu — Mas tenho muita curiosidade. O senhor se importaria se eu lhe perguntasse algo? - o Padre acenou com a cabeça, indicando que ela continuasse - Como foi capaz de completar sua missão em tão curto tempo?
— Cavalgando muito rápido. — ele se gabou.
Uma criada apareceu na porta com uma bandeja. Isabella fez sinal para que entrasse e ela se aproximou, oferecendo uma taça de água fria ao sacerdote. O Padre Erick agradeceu com um sorriso e um assentimento e logo bebeu um grande gole.
— O Laird Cullen ficou feliz com as notícias a respeito de seu irmão? – ela inquiriu – Ele ficou aliviado?
— Imagino que se sentiu alegre e aliviado. — o sacerdote respondeu vagamente — Sabe, Princesa, não fui às terras dos Cullen. Pensei que seria mais prudente … sim, prudente. — repetiu e corou de vergonha — ir às terras dos McCarty e dar ao Laird McCarty as notícias para que tivesse a honra de contar ao Laird Cullen. Os McCarty são aliados dos Cullen, e sua propriedade está muito mais perto da Abadia.
— Entendo. — Isabella estreitou os olhos, cruzou as mãos sobre o colo, tentou disfarçar o desagrado de conhecer um homem tão covarde e perguntou: — E o Laird McCarty se sentiu alegre e aliviado com as notícias?
— Imagino que sim. — disse ele muito mais envergonhado.
— O senhor não sabe?! — perguntou-lhe, completamente confusa, dessa vez ela não conseguiu driblar o tom de desagrado na voz.
Ele limpou a garganta.
— Deus, Nosso Senhor, providenciou as coisas para que eu não tivesse a necessidade de percorrer todo o caminho até a propriedade dos McCarty. Seu pai, o Barão Charlie, estava justamente saindo das terras dos McCarty pela única estrada existente, e tive a oportunidade de interceptar o Barão e lhe dar a feliz notícia. Tenho certeza que ele sentiu uma imensa alegria em transmitir a notícia ao Laird McCarty.
Isabella teve certeza que o sacerdote tinha feito de um simples recado uma missão bastante complicada. O medo que sentia do Laird Cullen chegava a ser irracional. Afinal de contas, o sacerdote tinha boas notícias para dar ao Laird. Por que deveria se preocupar de que o homem pudesse lhe fazer algum mal?
— Sim, estou segura de que meu pai se alegrou. — disse.
— Seu pai deve chegar a qualquer momento — assinalou o padre.
— Ficarei feliz em vê-lo. Talvez ele saia para cavalgar comigo pelo campo. Não estou me queixando, mas eu adoraria sair da Abadia por um momento, meu cavalo deve estar tão ansioso por exercitar-se quanto eu.
— O campo está muito movimentado estes dias. — disse o sacerdote — Há mensageiros de muitos países que vieram para seu casamento. Vários Barões da Inglaterra acamparam aqui. E como a princesa sabe, quando viajam, trazem todas as comodidades de seus lares. Ouvi dizer que uma das tendas é tão grande como uma igreja. Seu casamento com o Laird Black promete ser em uma ocasião memorável.
— Surpreende-me que tenham viajado tão longe para vir à cerimônia. — disse ela.
— Este é um evento muito importante para muitas pessoas. — explicou o padre – A aliança que resultará da sua união com o Laird Black será o começo de uma nova era de paz nas Highlands. O Rei Ewan e o Rei William desejam estabelecer um tratado de paz permanente ...
Enquanto o homem tagarela, Isabella se sentia nauseada. Ela ainda acreditava que um casamento deveria ser realizado por amor e não por convenções diplomáticas. Ela constatou que assim como todas as mulheres, estava sendo também usada como moeda de troca. ‘Eles estão me vendendo. Mamãe também foi vendida, mas ela teve sorte, papai a amou e a respeitou ...’
O Padre Berty interrompeu o discurso político do Padre Erick com uma rude batida na porta. Assim que a criada o deixou passar, o sacerdote entrou apressadamente no quarto. Quando viu Erick, deteve-se abruptamente e fez gestos para que se aproximasse.
— Parece que Berty quer falar comigo em particular. Acredito que sei do que se trata. Faltei às preces do meio-dia — explicou — E imagino que deseja me dar um bom sermão.
Um momento depois os dois sacerdotes estavam discutindo acaloradamente, sussurrando entre si. Isabella dirigiu sua atenção para o pátio enorme que estava abaixo da varanda de seu quarto. Inclinou-se sobre o corrimão e viu um sacerdote correndo e gritando a outros dois que saíssem da capela, mas não pôde entender o que estava dizendo. Rapidamente o grande pátio se encheu de homens, e todos pareciam extremamente agitados, gesticulando com as mãos e sacudindo a cabeça. Uns poucos monges fizeram o sinal da cruz, ajoelharam-se e começaram a rezar.
Alguma coisa terrível tinha acontecido.
— Lady Isabella?
O Padre Erick rogou-lhe atenção. A expressão de seu rosto não deixava dúvidas. As notícias eram más.
A mente da Princesa trabalhou rápido, contemplando negras possibilidades. Tratava-se de seu pai? Teria lhe ocorrido algo? Deus querido, por favor, que não fosse assim. Seu pai, não ...
Isabella forçou-se a adotar uma expressão serena e esperou que um dos sacerdotes explicasse o acontecido.
O Padre Erick deu uma cotovelada em Berty.
— Você, diga-lhe tudo.
— Se trata de Laird Black, Milady. Ele não pode se casar com você.
— É obvio que ele não pode casar com ela! — murmurou Erick impaciente.
— Não pode? Como assim? — perguntou ela, visivelmente confusa.
— Não, Milady, não pode. — Erick se apressou em dizer — Laird Black está morto.
Há apenas dois dias atrás, aquela sinistra e suja aliança se formara rapidamente. O ganancioso Laird e o nobre Barão inglês não tiveram muito tempo para preparar tudo. Era uma pena que não tivessem tido tempo de fazer com que o assassinato parecesse um acidente casual. Isso teria simplificado suas vidas. Tinham considerado a possibilidade de asfixiar Black, mas um homem alto e forte como aquele à beira da morte bem que podia demonstrar a força de dez homens quando brigava por sua vida. Não, morte por sufocamento era muito arriscado e demorado.
Assim como por afogamento. Principalmente porque todos nas Highlands sabiam que Jacob Black era um exímio nadador. Mesmo na mais remota possibilidade de ele estar se afogando, por que não gritaria, pedindo socorro? Afogá-lo, tinham decidido, também estava fora de questão.
Vários outros métodos de assassinato poderiam ter passado por acidentes, mas finalmente tinha descartado todos. Alguns eram muito complicados, outros dependiam muito da força física ou da sincronização do tempo para se efetuar o oportuno ataque.
Ao final decidiram-se por uma faca. Uma lamina afiada proporcionava uma morte rápida e fácil. Infelizmente, ninguém acreditaria que tinha sido um acidente. Como poderia alguém acidentalmente cair sobre uma faca cinco ou seis vezes? Foram necessárias várias punhaladas para matar o Laird Black.
Ele já tinha matado antes, mas nunca dessa forma. Todos os homens que morreram por suas mãos eram fisicamente mais fracos, estavam desarmados ou tinham sido covardemente emboscados, aquele Laird não era corajoso a ponto de atacar um homem cara a cara. Devido a sua posição de comando, poderia encarregar esse tipo de tarefa tão desagradável a outra pessoa. Mas agora era diferente. Não se atrevia a confiar a ninguém mais a importante tarefa. Devia fazê-lo sozinho. Era a única maneira de assegurar-se que não haveria riscos de que o rastro do assassino apontasse para ele. Engoliu em seco antes de sair de casa, suas pernas tremiam e ele pisava firme no chão, numa tentativa débil de disfarçar o nervosismo. Um terrível mal estar se apoderava de seu estômago ... o almoço queria voltar pela garganta ... sua testa suava frio ... sua boca estava seca ...
Será que aquele plano daria certo? Seu novo amigo, um Barão inglês tão inescrupuloso quanto ele, garantira que sim. Ambos alcançariam seus objetivos, o tesouro de St. Noah estaria acessível a um e Finney’s Flat seria dada ao outro.
O Laird contava com o descuido de Jacob Black. Com o passar dos anos, ele não se cuidava como devia, e seus homens se tornaram tão descuidados como ele em sua tarefa de vigiá-lo. Não esperavam que surgissem problemas porque seu Laird não tinha inimigos. Como poderia ter? Nunca tomava partido quando um Clã brigava com outro, e nunca desejou mais do que já tinha. O Laird Black não tinha absolutamente nenhuma ambição.
Jacob Black nunca variava sua rotina. Todos os dias, ao crepúsculo dava um longo passeio antes do jantar, sem se importar com o tempo, nem onde estivesse. Sempre gostava de caminhar sozinho.
Aquele Laird considerou esconder-se na escuridão e esperar que Black voltasse de seu tedioso passeio. Quando o barulho das folhas pisadas lhe disse que Black se aproximava, agarrou a faca com firmeza e esperou pacientemente o momento adequado para saltar sobre o inocente homem.
Foi um fato terrível, mas inevitável. O Laird Black tinha experimentado uma morte muito desagradável.
A missa do funeral foi celebrada na capela norte da Abadia. Muitos dos integrantes do Clã Black estavam a caminho da cerimônia de casamento quando receberam a notícia do súbito falecimento de seu Laird e sua alegre viagem de celebração se converteu em uma procissão lamuriosa e sombria. Muitos Lairds das Highlands assistiram ao funeral, mas muitos mais teriam percorrido a longa distância para apresentar seus respeitos pela morte de Black. O ritual — que se realizou um dia depois de sua morte — teve que ser realizado rapidamente devido ao incomum clima quente e ao estado avançado de deterioração do corpo.
Os ingleses não eram bem-vindos, embora fosse duvidoso que algum dos Barões tivesse a intenção de se sentar para escutar o sacerdote exaltar as virtudes do homem morto. Afinal, tratava-se de um Highlander, um rude e truculento fazendeiro escocês, o que a seus olhos o convertia em um ser inferior e não merecedor de suas preces.
O Barão Charlie de Phoenix e sua filha, Lady Isabella, foram as únicas exceções. A família Black permitiu sua presença porque a dama tinha estado comprometida em casamento com seu Laird. Mas apesar da permissão, ela e seu pai sentaram no banco de trás e embora houvesse lugar vago, ninguém se sentou a seu lado.
Isabella não esperava receber atenção especial. Sentia-se agradecida de que lhe dessem a oportunidade de rezar pela alma de Laird Black. Seu pai e outras pessoas tinham pelo Laird grande admiração e o apreciavam porque era um homem muito bondoso e generoso. Por que alguém queria matá-lo? Seu assassinato não fazia o menor sentido. Roubo não tinha sido o motivo, já que nada tinha sido levado de seu corpo. Quando foi encontrado tinha o anel de ouro e a adaga cravejada de jóias em seu alforje. Será que tinham matado o homem somente para demonstrar que podiam fazê-lo?
Isabella deixou a mente vagar, e pensou em Jasper Cullen e no terrível homem que o tinha feito sofrer tanto. Como podia um homem tratar seu semelhante de forma tão desumana?
Assim que a missa terminou e o corpo de Black, envolto em linho branco, foi levado para fora. Isabella manteve a cabeça baixa enquanto a procissão de parentes se alinhava para sair da capela. A Princesa teve a infeliz idéia de levantar a vista e se deu conta que a maioria das pessoas a olhavam ao passar.
O último casal se aproximou, era um homem jovem de longos cabelos negros, acompanhado de uma mulher mais velha de rosto enrugado. Eles chegaram ao lado de Isabella, detiveram-se e ela pôde sentir os penetrantes olhares da mulher.
— Vá para a sua casa, vá embora. Não há lugar aqui para você. Volte para sua Inglaterra, case-se com um maldito inglês! Deixe o povo das Highlands em paz! — esbravejou a mulher, cuspindo as palavras como se fossem veneno.
O jovem rapidamente tomou à mulher pelo ombro e gentilmente a voltou para a procissão.
— Venha, mãe, meu tio não iria querer que houvesse inimizades entre nós.
O rosto de Isabella ardeu. A Princesa nunca antes tinha sido tratada com tanto desprezo. Enquanto caminhavam lentamente pela nave lateral da igreja, um homem se voltou para dedicar a Isabella um olhar penetrante, seguido de um sorriso maldoso. Seu pai percebeu o olhar e reconheceu o homem como sendo o Barão Aro e pôs uma mão protetora sobre os ombros da filha para evitar que ela saísse de seu lugar. O pai de Isabella sabia da pretensão que Aro tinha em desposar sua filha, ele suspirou pesaroso antes de falar.
— Vamos esperar que todos saiam. — advertiu Charlie — Aquela mulher é a irmã de Laird Black, acho que seria melhor não sair agora. Poderia haver outros insultos.
— Por que queriam me insultar, papai? — perguntou ela, incrédula.
— O Clã Black atribui a você a causa de seu Laird ter morrido.
Isabella olhou seu pai fixamente como se ele estivesse dizendo tolices.
— Eles a consideram responsável pela morte de seu Laird. — Charlie voltou a repetir.
Ela estava espantada.
— Acreditam que eu o matei? Como podem pensar tal loucura?
— Você não está entendendo, Bella. Não pensam que você o apunhalou com a faca, mas acreditam que se seu Laird tivesse ficado em sua casa e não tivesse concordado em casar-se com você, ainda estaria com vida. Na noite em que foi assassinado, Black e seus homens estavam acampados em um vale próximo daqui. Como estava a caminho da Abadia, para casar-se com você, seus parentes pensam que você é a causa de sua morte.
— Mas isso é ridículo! – ela sussurrou exasperada.
Ele deu-lhe umas tapinhas carinhosas na mão.
— Sim, é ridículo. Mas não deixe que sentimentos vis a incomodem, Bella.
Ela aprumou o corpo.
— Posso suportar seus insultos. – falou com a altivez que todas as princesas possuem - Não sou tão fraca para me deixar abalar por uma ou duas palavras cruéis.
— Bella, mesmo que você não queira admitir, sei que ficou magoada. – seu pai lhe falou com ternura.
Atrás deles, uma das portas da igreja se abriu e entrou Samuel.
— O caminho já está seguro. Os Black se foram, e o Barão que estava esperando na porta já se foi a seu acampamento.
O pai assentiu.
— Então podemos ir. Venha, Bella. Seus guardas lhe escoltarão de volta aos seus aposentos.
— Samuel, quem era o Barão que estava esperando na porta?
Foi seu pai o que lhe respondeu.
— Era Aro de Werke. — seu pai se levantou e deu um passo atrás para que Isabella pudesse passar.
— Não entendo, por que veio ao casamento? Ele não é seu amigo e tampouco seu aliado, e duvido muito que conhecesse o Laird Black — disse Isabella.
O pai suspirou.
— Bella, perdoe seu pai, eu deveria ter explicado isto a você há muito tempo. – Charlie falava pausadamente - Aro diz que foi enviado por ordem do Rei William para ser testemunha da cerimônia, mas estou seguro que tinha outros motivos. Eu apenas queria poupá-la disto. O Barão Aro e o Barão Caius são dois homens muitos manipuladores que não se detêm por nada para obter o que desejam. Eu tinha a esperança que uma que você se casasse, eles deixariam de lado a sua obsessão.
Fez gestos a Samuel para que abrisse a porta.
— Tenho razão, Samuel? — perguntou enquanto baixavam os degraus. — Era Aro quem estava esperando para ter a oportunidade de falar com Isabella?
— Sim, Barão. Ele estava meio escondido no lado da capela e estava com seus amigos. Mas eu ainda não vi o Barão Caius.
— Caius viajou ao norte da Escócia. Tenho certeza disso. Mas só Deus sabe o que ele está planejando. Que eu saiba, Caius não tem nenhum parente ou amigo nas Highlands ...
— Por que esses dois Barões iriam querer falar comigo? — perguntou Isabella.
— Depois eu direi a você em detalhes o que deve ser dito, de uma vez por todas. — disse seu pai. — Agora vá e mande suas criadas fazerem suas malas. Você retornará à Inglaterra amanhã pela manhã. Se não fosse tão tarde faria você partir agora mesmo.
— Mas você não virá comigo, papai? — perguntou Isabella.
— Não, filha. Primeiro devo ver o rei. A esta altura, ele já deve ter sido informado da morte de Black, e necessito de sua aprovação para retornar à Inglaterra. Dentro de poucos dias, me juntarei a vocês.
— Papai, o motivo para que esteja tão ansioso em retornar à Inglaterra é a presença de Aro? — perguntou Isabella.
— Sim, ele é a razão para a minha pressa. — resmungou Charlie – Entretanto ainda não vi o Barão Caius por aqui, somente Aro me inquieta nesse momento.
Mas sabia o Barão Charlie que Caius já havia chegado às Highlands há dois dias, quando firmou a vil aliança com o traiçoeiro Laird que tirou a vida de Jacob Black.
Pai e filha entraram em no pátio, caminhando juntos, seguidos por Samuel e Embry.
— Bella, ainda não lhe disse tudo o que sei a respeito desses dois e sua péssima reputação, ao que parece o que um quer, o outro também o quer. Tudo se converte em um jogo para ver qual deles ganhará e quem perderá. — Charlie sacudiu a cabeça com desgosto. — Pensei que a libertaria do desejo insano deles uma vez que estivesse casada com o Laird Black. E qual não foi a minha infeliz surpresa, cheguei a ficar atônito quando me informe de que Aro tinha vindo ao seu casamento e que estava acampado fora da Abadia. Supus que Caius apareceria também a qualquer momento.
— Homens mortos não podem se casar! — destacou Embry — Quão oportuna a morte do Laird Black foi para eles!
Samuel assentiu.
— Bastante conveniente, não acham?
O Barão Charlie se voltou para eles.
— Estava pensando o mesmo que vocês.
— Estão sugerindo… — Isabella começou a dizer.
— Filha, você cresceu protegida da maldade deste mundo, por isso não pode imaginar que alguns homens são capazes de fazer verdadeiras atrocidades por amor ao poder. Vou lhe dizer com o que me encontrei quando fui visitar os McCarty. O Laird McCarty e vários de seus guerreiros estavam com seus aliados, os Cullen, procurando o irmão de Laird Cullen.
Seu pai não economizou detalhes ao explicar o que os monstros que tinham capturado Jasper tinham tentado fazer.
— Disseram-me que havia sangue na corda com a qual o tinham amarrado e que tinham cavado um fosso para enterrá-lo.
— Eles já sabem quem eram esses homens, Barão? — perguntou Samuel.
— Não, não sabem. Emmett e o Laird Cullen encontraram um deles no chão perto da fossa, mas ninguém pôde reconhecê-lo. Não usava capa com as cores de nenhum Clã para poder ser identificado. Emmett retornou a sua casa por um curto tempo. Eu estava esperando-o.
— O senhor uniu-se à busca, papai?
— Céus, não! – Charlie arregalou os olhos - Ele nunca teria permitido que um inglês os ajudasse, mas resultou que não encontraram o irmão de Laird Cullen. Quando eu estava deixando o território de Emmett, um sacerdote saiu do bosque e me deu as boas notícias. Pediu-me que dissesse ao Laird McCarty que Jasper Cullen estava aqui na Abadia.
Seu pai sorriu antes de continuar.
— O pobre sacerdote estava muito apressado em sair de lá o mais rápido possível, e não quis responder às minhas perguntas. Imagino que o Clã Cullen ficará muito contente quando se inteirar que Jasper está vivo e a salvo. O Abade mencionou algo a você sobre essa pobre alma ferida estar alojada aqui?
Antes de responder, Isabella olhou furtivamente por sobre o ombro de seu pai em direção a Samuel.
— Não, o Abade não nos disse nada sobre ele.
— Tudo bem. O que acontece nas Highlands não nos interessa mais. — disse seu pai. — Quanto menos brutalidade você ver, melhor.
— Prefiro acreditar que há mais bondade que maldade no mundo. — Isabella disse gentilmente.
— Você tem um coração bondoso igual a sua mãe, Bella. — o Barão Charlie lhe beijou brandamente a bochecha antes de deixá-la — Devo me apressar para falar com meus soldados. Tenho muitas coisas que fazer antes de partir, mas me assegurarei de me despedir do Abade. – ele abraçou a filha mais uma vez e envolveu o delicado rosto dela em suas grandes mãos – Você entende a minha urgência, não é minha criança? – ela sorriu timidamente – Sua segurança e seu bem-estar são a minha prioridade. – Charlie beijou a testa da filha – Deus te proteja, Bella. Eu te amo. – o Barão sussurrou.
- Também te amo, papai.
Assim que seu pai sumiu de vista, ela olhou para Samuel.
— Sinto-me culpada, como se tivesse enganado a meu pai ao não lhe dizer como encontramos Jasper.
— A Princesa está protegendo o Barão ao não dizer-lhe a verdade. Nenhum de nós poderia ter previsto as implicações que trariam de matar um homem e salvar outro. Para nós, ambos são estranhos. Não deveríamos envolver seu pai nisso, e é muito provável que isso terminasse por acontecer. O melhor que temos a fazer é voltar para casa.
Ela assentiu.
— Sim, Samuel. Esta foi uma triste viagem para nós. Também não vejo a hora de voltar para a paz e a segurança de Phoenix.
Isabella caminhava com pressa e estava a ponto de entrar em seu quarto quando o Padre Erick a chamou.
— Milady, posso falar com você, por favor?
O Padre correu em sua direção, e sua batina batia contra seus magros tornozelos. Tinha o rosto de uma cor vermelha brilhante e o cenho profundamente franzido.
Embora Isabella não se sentisse capaz de receber mais notícias ruins, não pode deixar de achar engraçados os passos apressados do sacerdote. Ele pareceu-lhe uma gazela assustada! A Princesa tratou de recompor-se e caminhou até ele.
— Sim, Padre?
— Eles ... estão aqui. — ele ofegava tanto que mal conseguia falar direito.
— Quem está aqui? — ela perguntou.
— O Laird Cullen e o Laird McCarty. Ambos trouxeram seus guerreiros consigo. Estão no topo da colina que rodeia a Abadia. – o sacerdote tinha terror nos olhos – Eles nos observam ... agora ...
— Essas são boas notícias, não é verdade?
— Oh, não, não! Quero dizer sim, sim! — gaguejou — Vieram por causa de Jasper, e isso é muito bom.
— Então o senhor deveria ir saudá-los, não é Padre? E deveria acompanhar o Laird Cullen para ver seu irmão?
— Oh! Isso não será necessário. — respondeu o Padre Erick.
— Não entendo! Claro que é necessário. O Laird Cullen viajou todo esse caminho, e deveria ser levado para ver seu irmão. — insistiu Isabella.
— Oh, ele o verá. Eu lhe asseguro isso, Princesa. — afirmou o medroso Padre — Mas o Laird Cullen não será levado até ele.
Isabella estava mais confusa do que nunca.
— Então como verá a seu irmão?
— Jasper está esperando-o fora das portas da Abadia. — o sacerdote despejou o resto da notícia.
Indignada, Isabella disse:
— Desde que chegou aqui, esse pobre homem não foi capaz de levantar-se da cama! Como é possível que tenha conseguido chegar ao outro lado das portas da Abadia?
Isabella falou rispidamente e se esquecera que falava com um sacertode. Sua boa educação inglesa tinha sido posta de lado ao constatar que o Padre Erick não teve coragem de receber os Lairds com dignidade e boa educação.
Sem poder olhar para frente, o Padre balbuciou:
— O Padre Berty e eu o levamos.
— E simplesmente o deixaram ali fora? Desprotegido e à mercê do vento frio? — a Princesa não podia acreditar no que o sacerdote estava dizendo.
— Milady não entende ... O Laird Cullen é um guerreiro poderoso. Todo mundo ouviu falar de sua assombrosa força… e de seu assombroso temperamento.
Subitamente, Isabella entendeu a situação.
— O senhor tem medo dele.
— Só um tolo não teria medo do Laird Cullen.
— Mas abandonar esse pobre homem lá fora … — Isabella começou a dizer.
— Venha comigo, Princesa. — disse o Padre — Acredito que entenderá melhor quando você mesma o ver. Não se preocupe. O Laird não poderá lhe ver. Subiremos ao muro e espiaremos de lá. Eu mostro o caminho.
O sacerdote levou Isabella para fora e subiu por uma estreita escada até uma abertura cavada na rocha do grosso muro de pedra.
Padre Erick apontou para a colina.
— Pode vê-los?
A maneira como Isabella respirou profundamente respondeu a pergunta. Àquela hora do dia, quando o crepúsculo se aproximava, o céu tinha um lindo tom alaranjado, a visibilidade era boa. A Princesa simplesmente perdeu a fala quando avistou os guerreiros e só pôde assentir com um rápido movimento de cabeça.
Isabella não teve nenhum problema em identificar os Lairds. Os dois homens estavam à frente de seus guerreiros, cada um montado num magnífico cavalo, um negro, o outro cinza. Ambos pareciam ter sido esculpidos pelas mãos de algum deus da antigüidade. Ela sabia que Zeus nunca tinha existido de verdade, mas quando viu aqueles homens, fortes, imponentes ... não pôde evitar pensar que talvez … Imediatamente, ela reconheceu seu primo distante, Emmett, ele era o que cavalgava do lado esquerdo. Isabella só o tinha visto uma única vez, mas sabia distingui-lo por ele tinha negros cabelos levemente encaracolados. Entretanto, foi o da esquerda que despertou os sentidos da Princesa ... Sentidos que ela nem julgava ter ... A visão daquele maravilhoso guerreiro de madeixas acobreadas balançando ao vento ... aqueles braços fortes ... aquele corpo grande e viril ... Isabella jamais tinha visto um homem como Laird Cullen.
— O que está à direita é o Laird Cullen. — o Padre disse o óbvio.
Ele era real? Isabella fechou os olhos, voltou a abri-los, e constatou que o Laird Cullen ainda estava ali. Nem em seus mais remotos sonhos ela poderia ter imaginando que houvesse um homem tão ... lindo ... intimidador ... atraente ... forte ... másculo ...
Nem em seus mais remotos sonhos, Isabella poderia imaginar que um único homem pudesse roubar dela tantos adjetivos. O Padre Erick olhava para a Princesa com se esperasse dela alguma resposta.
— É bastante… grande, não é verdade? Os dois, melhor dizendo.
Isabella corou, mordeu o lábio inferior e passou o olhar do Cullen para o McCarty na tentativa inútil de conter o desconhecido calor febril que lhe acometera aquela luxuriante visão.
O sacerdote riu antes de responder.
— São Highlanders, homens das montanhas. — disse com desdém, como se isso explicasse tudo — Não são tão civilizados como o resto de nós.
— Mas Padre, eles vieram aqui à procura de um dos seus, o que indica que são capazes de sentir amor fraternal. São humanos, Padre. — Isabella usou um tom de desaprovação ante o veredito negativo e preconceituoso do sacerdote.
— Ali está Jasper. — sussurrou ele, embora certamente soubesse que era impossível que os Lairds os ouvissem.
— Oh! Então conseguiremos ver o feliz reencontro. — disse a Princesa.
Olharam por um minuto ou dois, e logo ela sussurrou:
— Jasper está tendo problemas para caminhar. O senhor vê como está se esforçando para não mancar? Está apoiando-se no pé direito, não é verdade? Também está diminuindo a marcha. Como poderá subir a colina?
— O orgulho o levará até o topo.
— Mas orgulho é um pecado, Padre.
— Não para um Highlander.
Isabella olhou fixamente para o Laird Cullen, a Princesa não entendia, mas não conseguia tirar os olhos dele por muito tempo. Sua expressão era rígida. Não havia vestígios de sentimentos em seus olhos enquanto observava seu irmão lutar para avançar na caminhada.
‘Ele é um bárbaro’, Isabella julgou. O Laird Cullen era um bárbaro! Será que não tinha sentimentos por seu irmão? Tinha viajado tão longe para buscá-lo! Por que não o ajudava nesse momento? Por que nenhum deles ajudava o pobre Jasper a subir a colina?
‘Todos eram bárbaros’, decidiu ela. Absolutamente todos eles.
Jasper tentava manter o corpo erguido, mas quando moveu o pé para frente para dar um passo, cambaleou, tropeçou e caiu para trás. Imediatamente o Laird Cullen desceu de seu cavalo e deu as rédeas ao Laird McCarty.
— Oh! Deus! Hoje a minha fé foi renovada! — exclamou Isabella — Vejo que me equivoquei ao pensar tão mal do Laird Cullen. Decidiu-se em ajudar Jaspe, afinal. — Isabella sorriu enquanto acrescentava cheia de convicção — Isso é amor fraternal!
Ansiosa, a Princesa observou em grande expectativa como o Laird avançava a passos largos para o homem débil. Não se deteve para falar com ele, não sorriu para ele e, com certeza não o abraçou.
O que se fez foi descarregar no irmão a toda a força de seu punho poderoso.
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