MORANGO
Era pra ser mais uma noite “em famílias” para nós dois. Enquanto meus pais (Charlie e Rennè Swan) e os de Edward (Carlisle e Esme Cullen) conversavam amenidades após o agradável jantar de ação de graças – ocasião que sempre reuniu nossas famílias – eu e Ed estávamos no escritório de meu pai, dando uns “amassos”.
- Ah! Bella, você tá me deixando louco – Ed sussurrou no meu ouvido, enquanto uma de suas mãos acariciava meio seio direito e a outra, contornava a minha cintura.
- Edward ... amor, para ... – gemi baixinho sem ao menos tentar me afastar dele.
Estávamos deitados no divã de couro preto do escritório de papai, Ed sobre mim, me tocando, me beijando ... Mas tínhamos que sair dali, se não, aquele divã ia pegar fogo.
- Ed – falei já me afastando dele a contragosto, de modo que ele deitou ao meu lado – Amor, nossos pais estão a dois cômodos daqui!
Ele fez biquinho (que delícia de biquinho) e deu seu sorriso torto que eu tanto amo. No mesmo instante se levantou e saiu me puxando em direção à sala de estar onde nossos pais estavam.
A noite de novembro estava um pouco fria em Long Island (NY), a lareira da sala estava acesa, a lenha crepitava e fazia um barulhinho gostoso. Lembranças de infância percorreram minha mente, quando uma pequena Bella de longas tranças castanho-avermelhadas e um pequeno Edward de cabelos bagunçados cor de bronze sentavam diante dessa mesma lareira e tomavam chocolate quente. Lembrei também do nosso primeiro beijo – ambos com dez anos de idade – também diante dessa lareira, no Natal de 1999. Mamãe havia me presenteado com um gloss, sabor morango, era a primeira vez que eu usava algum tipo de maquiagem. Ed, naquela noite, saiu me arrastando pela casa até que chegamos junto a lareira, ele tava meio ... esquisito? Como se estivesse prestes a se engasgar com as próprias palavras.
FLASH BACK – NATAL DE 1999
- Bella, eu ...
- Você o quê, Ed?
- Bella, eu sei que ainda somos muito jovens mas – ele tirou do bolso de sua calça um saquinho de veludo azul e, o que veio a seguir foi o jorro de palavras que marcou nossas vidas – vocêquernamorarcomigo?
Ed falou aquelas palavras de uma só vez, muito rápido, muito nervoso e em seguida, abriu um sorriso torto cheio de expectativas. Eu nem tive tempo de olhar o presente, fiquei absorta, captando o som da voz, o significado daquelas palavras ...
- Bella? Desculpa, eu sou um tonto mesmo. Claro que você preferiria namorar uma cara mais velho e ...
- PSIU!!! - falei, colando os lábios dele com o meu polegar e indicador – Ed, você quer morango?
- Morango?! – ele tentou falar com os lábios “quase colados”.
Cheguei perto dele, muito perto, nossos narizes quase se tocando, um sentindo a respiração do outro ... meu coração, pulando que nem uma lebre, dentro do meu peito, minhas pernas, tremendo ...
Edward percebeu o que eu queria e colou nossos lábios. Uma explosão de sensações me invadiu, meu coração já não era mais uma lebre, parecia a queima de fogos de quatro de julho. A boca de Ed era macia, doce e quente. Mas era nosso primeiro beijo, então não foi de língua, foi casto, puro e comportado. Foi lindo.
Depois de um tempinho, os ex-boca virgens separaram os lábios. Na verdade, eu não sabia bem o que fazer e acho que ele também não!
- Bella!!! – Ed me encarou com aqueles lindos olhos verde-mar e me abraçou com ternura.
- Ed, eu quero sim namorar você – falei em seu ouvido.
Ele me afastou delicadamente para poder me encarar de novo.
- E sim, somos jovens mas eu sei o que quero pra minha vida – terminei minha declaração.
Naquele momento, como se meu coração soubesse que aquelas palavras eram mais do que verdadeiras, meus olhos ficaram úmidos e uma lágrima sorrateiramente escapou.
- Não chore, namorada – Ed falou com carinho, enquanto envolvia minhas mãos nas suas, abri um sorriso quando ele disse ‘namorada’.
- Oh! Ed, eu sou tão feliz. Você sempre foi meu melhor amigo e agora é meu ‘namorado’, isso quer dizer que somos mais agora! – ele também sorria.
Ficamos um tempinho assim, de mãos dadas, nos encarando, nos admirando, completamente enamorados. Até que ele quebrou o silêncio.
- Hum, Bella, esse foi o melhor morango que eu já provei na vida. – corei quando ele disse isso – Será que eu poderia provar mais? – ele terminou a frase enquanto suas mãos envolviam a minha nuca e as minhas, seus ombros. O segundo beijo foi melhor, claro, mais molhadinho.
- BELLA!!! - uma voz histérica e feminina nos tirou de nossa “bolha natalina”
- Mamãe!
- Re-rennè – gaguejou Edward.
Ambos coramos em vários tons de vermelho mas mamãe não nos passou sermão, ao contrário, nos abraçou e nos conduziu à sala de jantar.
Após o jantar, finalmente vi o que tinha no saquinho de veludo azul: uma corrente de ouro com um pingente em formato de coração. Era uma pedra meio rosa, meio lilás muito linda. Ed me disse que a pedra era ametista.
- Ed, é lindo. – sussurrei, corando em seguida. Aquela corrente está até hoje em pescoço, não tiro pra nada.
Diante daquele lindo presente, o meu pareceu até sem graça: um porta-retrato de madeira escura e aço com uma foto nossa, tirada no último verão, quando nossos pais nos levaram ao Parque Yellowstone.
- Bella, não seja boba, amei a foto e o morango também – falou essa última parte também num sussurro.
FIM DO FLASH BACK
- Terra chamando Bella! Terra chamando Bella!
Fui tirada de minhas lembranças por um Charlie desconfiado e brincalhão. Meu pai nos observava, nossas mãos entrelaçadas, minha cara de boba, a cara de pateta de Ed ...
- E aí, Bella?
- E aí o quê, pai? –perguntei de volta.
- Você achou o que tava procurando no meu escritório?
Corei. Corei muito.
- Na verdade, Charlie – Edward falou em meu socorro – eu tava esperando um e-mail de um colega de faculdade, um trabalho que ainda não terminei e ...
- EDWARD – Charlie gritou – você mexeu no meu notebook?
Todos nós olhamos assustados para papai. Mamãe e Esme que estavam no sofá, olhando revistas de decoração, pularam assustadas e Carlisle, que estava ao piano, parou abruptamente a melodia suave que tocava.
- PAI – gritei de volta – isso é jeito de falar com Edward?
- Bella, querida – Carlisle interveio – seu pai não quis ser grosseiro. Calma, Charlie – ele virou-se pra meu pai – assim, você fica parecendo um velho rabugento!
Os dois desataram a rir e todos nós acompanhamos. É claro que na hora foi estranho, mas depois, foi engraçado. A cara de espanto do Ed foi hilária ...
Depois de cerca de uma hora, os Cullen se despediram de nós. Bem, aqui não é Boston (sim, eu e Edward dividimos o mesmo apartamento e também estudamos na mesma universidade, Harvard) então, nada de dormir juntos aqui em casa. Papai até que é tolerante mas não tanto assim. Se bem que, o que os olhos não vêem, o coração não sente ... Desejei boa noite aos meus pais e subi para o meu quarto, tava morrendo de sono, fiz minha higiene e pus um pijama fofinho. Antes de cair nos braços de Morpheus, liguei para a razão minha existência (eu sei, eu sei, sou muito apaixonada, mesmo) pra desejar, de novo, uma boa noite.
- Boa noite, amor. Sonha comigo. – Ed respondeu já com a voz de sono.
E foi o que eu fiz. Mas não foi um sonho bom. Estávamos num jardim, eu acho, tava muito frio, um nevoeiro mórbido, silencioso ... Eu chorava desesperadamente, enquanto Ed apenas me abraçava, beijava minha testa, meus cabelos e dizia “Sinto muito, meu amor”. Acordei ofegante, tremendo, suando frio. Fiquei deitada por um bom tempo, tentando controlar a respiração. Que sonho ruim! Quanto medo senti!
Desci em direção à cozinha, desejando um chá de camomila pra ver se me acalmava. Passando pelo corredor, vi que a luz do escritório de papai estava acesa. Bati na porta.
- Papai?
- Entre, Bella. Caiu da cama, filha? São duas da manhã!
- E você, tá sem sono? – falei, enquanto entrava.
Papai, que estava com o notebook aberto e um monte de papéis espalhados a sua frente, num instante juntou tudo e pôs numa gaveta, fechando-a com chave.
- Nossa, pai, até parece que você tá envolvido numa hiper-super-mega-operação-ultra-secreta! – brinquei – Vai, me conta, o que tá pegando?
- Bella, um Procurador Federal não pega, processa. – falou, divertido – A curiosidade matou um gato, sabe mocinha? Vamos, que tal um chocolate quente?
Na cozinha, dispensei o chocolate e fiz o chá para nós dois. Papai estava meio distante, pensativo, mais calado do que já é. Tentei mais uma vez, puxar conversa.
-Hei, pai, o que é que você tem? Eu não preciso saber realmente no que você tá trabalhando agora mas eu sei que você tá muito tenso. Por favor pai, eu tô ficando preocupada.
- Bella, filha, é verdade. Eu e Carlisle estamos trabalhando numa, investigação pessoal, pode-se assim dizer, que tá tirando o nosso sono e a nossa paz. – papai falou fazendo uma careta e franzindo a testa, enquanto bebericava o chá de camomila. Em seguida, se levantou da mesa e foi ao armário, pegando um copo e uma garrafa de conhaque.
- Pai, você vai beber a essa hora?
- Arg! Esse chá de camomila é pra doente, filha. – ele fez uma pausa e sentou-se, novamente ao meu lado - Querida, preciso mesmo conversar com você. Sei que eu não deveria lhe dar um fardo tão pesado mas é que ... é para o seu bem filha – ele me olhava nos olhos, seus olhos castanhos refletidos nos meus, também castanhos, demonstravam medo – É para o seu bem e de Edward também – papai estava com a voz embargada.
-Pai, eu tô ficando preocupada. O que Edward tem a ver com tudo isso?
- Meu anjo, você o ama, não é?
- Sim.
- E o quanto é esse amor que você sente por ele?
- Ah, pai, não dá pra medir. Só sei que eu não sou nada sem ele.
- Bom, filha, isso é muito bom para vocês. Acredito que Carlisle deva ter essa mesma conversa com Edward também. Preste atenção, filha. E perdoe o seu velho pai por tudo o que eu vou lhe dizer.
E então Charlie Swan abriu uma verdadeira caixa pandora.
“Filha, havia em Washington D.C. um procurador federal, Felix Cudmore. Ele fez faculdade de direito comigo e com Carlisle em Yale e também optou por seguir a mesma carreira que nós. Felix sempre foi um servidor público exemplar, daqueles que amam o seu trabalho. Mas a família dele, ao contrário dos Swan e dos Cullen, não era rica. Há quase um ano, a casa de campo onde Felix estava passando férias com a família sofreu um incêndio. Ele, esposa e dois filhos adolescentes morreram carbonizados. A polícia local levantou a hipótese de incêndio criminoso mas as investigações não avançaram muito e foram encerradas três meses depois. No dia do enterro, eu e Carlisle viajamos até Washington e notamos uma mulher muito bonita, alta, cabelos ruivos e lisos, enormes olhos verdes, usando um vestido preto que parecia de grife e jóias que pareciam valiosas. Essa mulher chorava copiosamente e se debruçava sobre o caixão de Felix. Chegou até a ser ridículo o comportamento dela.
Fiquei intrigado com acena, cheguei perto de Carlisle e perguntei, de forma discreta se ele já tinha visto aquela mulher antes. Ele estava tão surpreso quanto eu e chegou a suspeitar que ela era algum parente. Aos poucos as pessoas foram deixando o cemitério, menos ela e nós. Carlisle já estava impaciente, querendo voltar logo para casa. Mas eu só ficava mais e mais curioso e resolvi puxar conversa com a ruiva.
Perguntei se ela estava se sentindo bem e ela disse, pra nossa surpresa, com um forte sotaque italiano, que não poderia estar se sentindo bem quando o amor de sua vida estava morto.
- Perdão, a senhora, esta falando de Felix Cudmore? – Carlisle perguntou-lhe com muita educação.
- E de quem mais estaria falando? Felix e eu nutríamos um lindo amor, um relacionamento de dois anos. Eu sei, talvez seja surpresa para vocês ... mas eu sou a amante de Felix, Gianna Lombardi – a ruiva se apresentou, estendendo a mão para Carlisle e depois para mim.
Bella, filha, de cara eu não gostei daquela mulher. Seu olhar parecia o de um felino predador, me causava arrepios na nuca. Mas a minha curiosidade só aumentava.
- Gianna, lamento que nos conheçamos sob essas circunstâncias. Eu sou Charlie Swan e este aqui é Carlisle Cullen, somos amigos de Felix.
Para o desespero de Carlisle, que já queria estar voltando para Long Island naquela hora, eu convidei a ruiva para tomar um café conosco. Já no caminho, eu comecei o meu interrogatório. Ela conheceu Felix numa viagem que ele fez a trabalho para Florença, na Itália. Segundo ela, foi um tórrido romance de uma semana, depois ele mandou passagens aéreas para ela vir para a América, montou um apartamento para ela lá em Washington D.C. e comprou um carro zero também.
Ela relatava aquilo com a maior naturalidade do mundo e quanto mais ela contava, menos parecia ser verdade.
- Como assim? – Carlisle falou exasperado – O salário de um procurador federal não dá para fazer tudo isso. A família de Felix nunca foi rica e ...
- Sr. Cullen, o Fê nunca me negou luxo algum, até a insossa da Heidi Cudmore desfilava pelas ruas de Washington num Mercedes preto ...
- Heidi Cudmore? A esposa de Felix? – perguntei perplexo.
- Ele tinha outra esposa? – retrucou ironicamente a amante misteriosa.
Bella, as declarações de Gianna não estavam fazendo o menor sentido. Felix sempre foi um pai de família dedicado e um marido apaixonado. Por fim, encerramos o encontro, aquela conversa já estava me enojando. Na viagem de volta a Long Island, Carlisle e eu chegamos à conclusão que precisávamos tirar aquela história a limpo, era difícil de acreditar cegamente naquela mulher.
Duas semanas se passaram e nos esquecemos de Gianna até que me deparo com uma pequena nota do Washington Post, relatando que Gianna Lombardi, prostituta, viciada em drogas e imigrante ilegal foi encontrada morta numa lixeira da capital federal. Na mesma nota, a polícia relatou que o seu cafetão era o assassino confesso e que ele havia matado por dívidas de drogas. A morte daquela mulher nos deixou muito intrigados, é coincidência demais.
Bella, há uns quinze dias atrás eu e Carlisle recebemos um telefonema, de um gerente do Banco da Suíça, em Zurique, Sr. Laurent Garnier. Este senhor nos informou que Felix Cudmore tinha dois cofres particulares naquele banco e que o conteúdo havia sido deixado para nós.
Querida, Carlisle e eu estamos embarcando para Zurique na segunda semana de dezembro, precisamos saber o que tem lá. Mas de uma coisa nós dois temos certeza: as mortes de nosso amigo Felix e de sua amante, estão relacionadas.”
Papai falava tudo aquilo e eu tentava absorver o que ele dizia, mas parecia surreal demais, quase uma teoria da conspiração.
- Pai, você tem certeza que é seguro para vocês viajarem sozinhos e ...
- Bella, querida, eu não queria te preocupar mas você e Edward precisavam saber disso, principalmente se algo vier a acontecer comigo e com Carlisle.
-PAI !!! – falei alarmada.
- Isabella Marie Swan – falou papai solenemente – quero que me prometa que haja o que houver , nunca desista de você. Não se esqueça que você é uma Swan.
Aquela conversa toda era muito sinistra. Minha cabeça rodava, tudo zunia na minha mente. Eram muitas e poucas informações ao mesmo tempo. Eu só sabia que papai e Carlisle sabiam pouco sobre algo bastante intrigante e letal. E de repente, o pânico que senti em meu pesadelo tomou conta de mim de novo.
- Calma, Bella, respire filha, você está ficando pálida.
-Pai , tô com dor de cabeça, preciso me deitar.
- Claro, filha. Só mais uma coisa – ele me parou quando em tentei me levantar da cadeira – Não se preocupe, meu anjo. E ... eu te amo, muito. – e beijou minha testa com carinho.
Voltei ao meu quarto e dei de cara com uma foto minha e de Edward que tomava toda uma parede. Aquele homem bonito, sexy e todo meu ... me fez esquecer daquela conversa maluca que tive com papai. Cai no sono, sem sonhos dessa vez.
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