22.
Tempestade
POV JASPER
E
aí, num dia qualquer...
Eu tinha chegado mais cedo que o pessoal da
banda porque realmente não tinha porra nenhuma pra fazer em casa e o estúdio
era um lugar reconfortante.
Estúdio.
Bem na verdade era só uma casa que eu usava como
ponto de ensaio, mas era o lugar onde eu mais gostava de estar em Paradise.
Enquanto afinava meu violão, fui surpreendido
por um desvairado que batia, batia não, dava socos, na porta dos fundos.
Suspirei. Devia ser Chris, o baterista da banda, sem noção desse jeito, só
mesmo ele. Mas me enganei, a figura que avançava na minha direção era uma
pessoa que eu jamais poderia imaginar ter algo para fazer ali. Sendo ela quem
era – chata pra caralho – e eu quem sou – um sarcástico inveterado -, eu sabia
que ‘nossos santos nunca se deram bem’.
- Rose!? – falei espantado quando ela entrou no
meu estúdio de música improvisado parecendo uma tempestade – Ta doida, mulher!?
Ela estava fora de si, ofegante e temerosa... e
me pareceu, mesmo grávida, ter uma força maior que a minha ao me arrastar para
o lado e fechar a porta com rapidez. Seus olhos ferozes, o suor brotando em sua
testa, o rosto excessivamente corado, as mãos trêmulas sobre o ventre... tudo
aquilo fez o meu corpo retesar e meus sentidos ficarem em alerta.
- Você precisa me ajudar...
- Rose? – minha voz não passava de um sussurro –
O que houve?
De imediato ela não disse não, apenas se lançou
sobre mim e eu a abracei meio sem jeito. E cara... ela chorou um choro mudo,
seu abraço era apertado e urgente, mas ao mesmo tempo sem jeito e inseguro. Alguma
dentro de mim se convulsionou e eu acho que até aquele dia eu nunca consegui
sentir algum tipo de afeto pela minha prima. Não sei... deviam ser nossos genes
se cumprimentando... ‘olá, sou o gene imaculado Hale’... ‘olá, sou o gene destrambelhado
Mansen’
Devagar, arrastei a Rose para o sofá e ainda
abraçada a mim, ela chorou por um tempo que parecia uma eternidade, ensopando
uma manga da minha camisa. Só sei que quando dei por mim, eu estava –
desajeitadamente – afagando suas costas e cabelos. Suspirei e desejei de todo o
coração poder ajudá-la.
- Jazz... – ela disse sem me olhar nos olhos –
Pelo amor de Deus, me ajude. – uma pausa longa se seguiu a isso, talvez ela
estivesse reunindo coragem – Eu e meus filhos corremos um risco de vida muito
grande.
- Risco de vida!? – afastei seus ombros para
poder olhar em seus olhos – Rosalie, o que está acontecendo? – falei
pausadamente.
E então a minha prima despejou em mim toda a sua
historia. Mas teve um pequeno detalhe, nos primeiros 10 minutos de narrativa
saquei o meu celular e liguei para o pessoal da banda. Sim, a conversa ali era
mesmo séria.
Rose me contou com riqueza de detalhes tudo o
que vinha acontecendo aos Hale desde que Adam Macabeus entrou na vida deles. E
cara... esse Macabeus era muito, muito perigoso!
Fiquei sabendo como era a vida na fazenda da
igreja, as revelações de uma mulher chamada Corine, sua morte supostamente
natural, as desconfianças de Rose em relação ao marido e sogro, a vida idílica
e quase alienada dentro da fazenda, a primeira esposa de Macabeus... o
flagrante de assassinato no celeiro, o forte tapa que ele deu na minha esposa...
Deus do céu, nessa hora eu vi tudo vermelho na
minha frente. Tudo bem que nunca gostei da Rose, mas ela era minha prima e tava
grávida!
- Rosalie Hale, - falei solenemente, minhas mãos
ainda envolviam seus ombros – por que você veio me pedir ajuda?
- Ah, não... – os olhos dela se encheram de
lágrimas, sua voz era suplicante – Jasper, por favor, por favor, não diga que
não vai me ajudar!
- Shii... calma. Eu não disse isso! – vi um
lampejo de esperança em seus lindos olhos azuis – Eu só preciso saber por que
você acha que pode confiar em mim.
Ela congelou de repente, seus olhos fixos nos
meus.
- Jazz... eu estou perdida. Meus pais não
merecem confiança e estão tão perdidos quanto eu. Você sempre foi inteligente e
bem relacionado aqui e no continente, você fez Direito, deve conhecer as
pessoas certas. Digo, as pessoas certas na polícia... Tenho certeza que se eu
não fizer nada, não verei meus filhos crescerem.
Absorvi com cuidado as palavras de minha prima,
vasculhando em seus olhos se poderia haver ali algum traço de mentira. Mas só
achei medo e desespero. O que era pior! Uma pessoa desesperada pode fazer muita
coisa ruim.
- Por Deus, Jasper! Sei que você nunca morreu de
amores por mim, eu... eu nunca dei razão para você se afeiçoar a mim... Mas
veja, - ela pegou uma de minhas mãos e colocou em seu ventre – tenho outra vida
aqui e mais duas vidinhas inocentes em casa. Eles são filhos do Adam, mas
também são meus e eu os amo mais do que a minha própria vida.
Meu coração estava dividido.
Eu sabia que aquilo tudo poderia mesmo ser
verdade, mas sabia que Rose nunca teve muito escrúpulo e em toda a sua vida ela
nunca deu um ponto sem nó. Mas... e se o Macabeus estivesse mesmo por trás daquilo tudo? Se bem que
ele não teria motivos para inventar crimes contra si mesmo!
Teria!?
Mas e se Tim Hale estivesse confabulando com a
filha para, juntos, darem algum golpe no Macabeus?
Ah, vai saber! Quando a pessoas não tem vergonha
na cara e fazem tudo por dinheiro, a gente fica mesmo meio desconfiado.
- Adam ainda não desistiu de comprar as terras
dos Cullen. - ela sussurrou – Tenho medo que ele comece uma guerra aqui em
Paradise...
- Guerra?
- Eu acho que eles escondem muitas armas no
porão do templo. – sua voz parecia sufocada.
- E quanto ao tal dossiê que o cara que foi
assassinado disse que tinha? – questionei.
- O irmão Deam Grey - ela relembrou o nome -.
Bom, nos dias que se seguiram, eu não ouvi mais nenhum comentário sobre esse
suposto dossiê. Se ele existia mesmo, acho que não foi difícil para meu marido
recuperá-lo.
- Rose, não diga a ninguém sobre a nossa
conversa. – ela assentiu fracamente – Entendeu Rosalie!? Não conte isso nem
mesmo a você mesma! Prometa! Jure!
- Eu juro! – ela assentiu com vigor.
- Mas fique sabendo que vou ter contar tudo a
papai, afinal ele ainda é o delegado desta ilha. – ela concordou – E para...
manter as aparências, continue me tratando do mesmo jeito. Ok?
- Ok. Mas e se eu precisar falar com você? Se eu
descobrir mais alguma coisa?
Pensei por alguns instantes. Ela não podia usar
a internet com segurança, não tinha seu próprio telefone celular e não deveria
falar comigo em público... Tava difícil!
- Vamos fazer assim: Isobel Morgan é enfermeira
no hospital, sempre que você precisar entrar em contato, peça para ela falar
comigo.
- Posso confiar nela?
- Pode. Isobel me deve uns favores, hoje mesmo
vou falar com ela.
Depois que Rose foi embora eu fiquei feito um
doido, andando de um lado para o outro dentro do estúdio.
‘O
que vou fazer!?’
Pensei aturdido e me deparei com a constatação
de que eu sempre fui o primo zuado, o mais fodido de todos, aquele que só
queria saber de farra e mulher... Abri uma garrafa de conhaque e fiquei
pensando na vida.
Por quê!? Por que uma bomba dessas foi
justamente cair em cima de mim!?
‘Porque
ela já não tem mais ninguém, seu idiota!’, meu
subconsciente respondeu à pergunta não verbalizada.
‘Ah,
vá dar a bunda’, respondi pra ele.
‘Boa
idéia, afinal... a bunda é sua!’, ele retrucou e
depois estreitou o olhar para mim antes de continuar... ‘Não se trata apenas de Rosalie e dos Hale metidos, se trata da
segurança dos Cullen, seus primos. Investigue.’
‘Não
sou delegado’, retruquei com petulância.
‘Não é
delegado, mas quase concluiu o curso de formação, você sabe... Você tinha
chance, se não tivesse trepado com a sua instrutora da Academia de polícia...’
‘Eita,
mulher gostosa, aquela... fogosa’ sorri com malícia.
‘Foco,
Jasper! Você pode ajudar seu pai a investigar’,
ele me persuadiu novamente.
‘Investigue
você’... grunhi em pensamento e me encolhi com as
lembranças da cara dos meus pais quando contei que havia ‘desistido’ da
carreira de delegado.
‘Não
posso ir sem você, seu merda, estou preso ao seu corpo’
Ok. De repente eu me vi numa versão moderna de ‘O médico e o monstro’, sendo
que eu é que me sentia o monstro.
‘Tá
legal. O que devo fazer?’, arqueei uma sobrancelha e me
surpreendi ao perceber que meu subconsciente tinha a cara do Grinch! Sim, eu estava discutindo com um
monstrinho verde, mal humorado, cheio de rugas na cara e que, de alguma forma,
era o meu eu interior.
Viadagem pura!
‘Vá
procurar seu pai. AGORA, JASPER MANSEN!’
...
- Filho, essa é uma história e tanto. – meu pai
balbuciou enquanto esfregava a barba rala sobre o queixo – Devemos ser discretos
na investigação.
- Posso partir para Utah amanhã mesmo, pai. –
falei com uma convicção que até então desconhecia – Mas não diga nada a mamãe,
não diga nada a ninguém.
Acertei mais algumas com papai, dentre elas que
mamãe deveria ficar no escuro por enquanto. Dona Olivia era muito chegada a um
bom filme de suspense e com certeza confundiria realidade com ficção! Depois
fui ao hospital para falar com Isobel, ela me recebeu de cara amarrada.
- O que eu ganho com isso, Mansen!? – ela me
olhou com cara de desdém, mas seus olhos varreram meu corpo com lascívia.
- Um beijo e um abraço... – foi pouco, ela
estirou o dedo médio para mim.
- Ah, por favor, meu docinho... – ronronei –
Pelos velhos tempos! Nós até podemos sair uma noite dessas, tomar umas cervejas
e tals...
- Ah, Jasper, toda vez que você surge, as
promessas falsas vem junto!
- Isobel, - toquei em seu braço – dessa vez é
muito importante, acredite em mim.
Algo no meu tom de voz a fez me escutar e ela me
prometeu que ficaria de olho todas as vezes que Rosalie aparecesse no hospital.
Sai dali com a sensação de dever cumprido, fui para casa e procurei nos sites
de companhias aéreas uma passagem baratinha para Salt Lake City. Eu já estava
no quarto, arrumando uma pequena mala – e meu inseparável violão – quando ouvi
minha mãe matracando ao telefone com alguém.
‘Aaaaaahhhhhhhh
meus sobrinhos e minha sobrinha estão terminando os estudos no continente e
daqui a umas semanas voltam para a nossa ilha. Eu sinto a falta deles e...’
Um arrepio insano percorreu o meu corpo, por um
instante, senti uma grande urgência em meu peito. Meus instintos me diziam que
o perigo estava próximo.
Instintos?
Isso é coisa de mulherzinha...
...
Cheguei à Salt Lake City num fim de manhã, fazia
38ºC e eu achava que ia derreter! Eu me sentia num forno, suando em bicas...
ainda no aeroporto, resolvi não perder tempo, aluguei um carro e segui para o
Condado de Jastha, ao norte do Great Salt Lake.
A viagem foi muito solitária, estranha até! A
rodovia I-5 cortava o ‘meio do nada’, com campos verdes de ambos os lados,
intercalados por faixas de deserto. À minha esquerda estavam fascinantes montanhas
de picos nevados, à direita somente um campo meio verde, meio arenoso e de vez
em quando um carro ou caminhão aparecia na estrada. Uma hora depois cheguei à
Brigham City, a principal cidade do condado, alguns dos seus 17 mil habitantes
estranharam a minha intempestiva chegada. Procurei um motel e foi difícil
conseguir um quarto sem dar maiores explicações.
- O moço ta aqui a negócio ou a lazer!? - uma
senhora magrinha e franzina preenchia minha ficha.
- Pode-se dizer que... a lazer... – ela
estreitou os olhos – Gosto de ecoturismo!
- Humf... – ela bufou com desdém e me entregou a
chave do quarto.
Depois de matar a fome e tirar um cochilo, parti
a procura de um bar ou restaurante, um lugar onde eu pudesse me socializar com
o povo. Três quarteirões depois, achei uma boa comida, uma vitrola de ficha com
jazz dos anos 60 e uma garçonete falante. Flertei com a garota, que não devia
ter nem 20 anos, e fiquei sabendo que o tal Detetive Foster (que Rosalie havia
mandado procurar) havia morrido num acidente de carro há cerca de um ano atrás.
Meus planos de repente mudaram, na verdade, eu
fiquei sem planos!
Conversar com a Srta. Sorriso – Kimberly, era
seu nome - parecia ser a única coisa a se fazer, de modo que esperei que seu
expediente acabasse para tomar uns drinques com ela. Foster tinha sido um
policial por longos 20 anos até que no último verão ele sofreu um acidente de
carro e morreu de forma trágica. Rapidamente puxei conversa sobre religião,
Kimberly deu um sorriso amarelo e disse que havia sido criada nos moldes
rígidos da igreja local, mas que havia desistido de ‘seguir os passos para o
céu’.
- São muitas regras... – ela sorriu como quem se
desculpa.
- Entendo. E os líderes aqui são... muito
rigorosos? Fanáticos!? – indaguei enquanto mordia a azeitona do meu drinque,
tentando soar indiferente.
Ela suspirou e se inclinou sobre a mesa, como se
quisesse me contar um segredo.
- Aqui há muitos barris de pólvora... – ela engoliu
em seco – Igrejas tradicionais não são o problema! - sua testa se vincou – O
problema são as congregações neo-ortodoxas que surgem todos os dias.
Ela fez uma pausa e sua boca se retorceu num
pequeno sorriso.
- Essas igrejas ‘aleluiadas’ são muito radicais
e disputam entre si... na política, nos negócios, na vida das pessoas!
- Deve ser sufocante, não!? – arqueei uma
sobrancelha e sorri, tentando fazer graça – Como elas brigam? Gritando mais
alto nos microfones de seus púlpitos?
- Você já ouviu falar em ‘lei do silêncio’? –
ela olhou ao redor - Inclusive até já falei demais... Meu sonho é ir embora
daqui, to juntando uma grana, quero ir para Los Angeles... – ela suspirou e de
repente percebi que minha companhia não falaria mais nada sobre o assunto.
No dia seguinte fui à delegacia e me passando
como um velho amigo do Detetive Foster, tentei saber sobre as circunstancias de
sua morte. Primeiro perguntei, casualmente, ao oficial – um moreno, carrancudo
e de corpo atarracado - na recepção da delegacia e então percebi que duas
coisas aconteceram ao mesmo tempo. Primeiro, o oficial estreitou os olhos e sua
boca se contorceu minimamente; segundo, a escrivã, uma senhora ruiva, na casa
dos 50 anos, levantou o olhar rapidamente, seus olhos ficaram marejados. O
oficial rosnou uma ordem para que eu esperasse o delegado O’Nell. Uma hora
depois o delegado mandou me chamar, fui escoltado pelo oficial da recepção –
que me lançava um olhar de esguelha. Eu pensei que iria ser recebido na sala do
delegado, mas na verdade fui empurrado para a sala de interrogatório, fria,
úmida, sem janelas... apenas uma mesa e duas cadeiras, todas de alumínio e
grudadas ao chão.
A porta se abriu num rompante e eu reprimi o
impulso de pular da cadeira. Um homem alto, forte e de olhos apertados... seu
cabelo era grisalho e a testa era vincada de muitas rugas... entrou a passos
lagos, deu um soco na mesa e gritou.
- QUEM É VOCÊ? E NO QUE LHE INTERESSA SABER DO
DETETIVE FORTER!?
Tive que usar todo o meu autocontrole para não
estragar o disfarce.
- Meu nome é Jasper Mansen, senhor, e eu só queria rever um velho amigo do meu pai... estou de
passagem pela cidade...
- DE PASSAGEM, HEIN!? E O QUE VOCÊ FAZ DA VIDA!?
- Sou músico, senhor...
O
homem pareceu relaxar e sentou na cadeira em frente à minha, seu olhar se
estreitou tanto que ele parecia estar de olhos fechados.
- Músico... que tipo de coisa você toca!?
- Violão, guitarra, baixo, piano... essas
coisas... – dei de ombros, não entendendo a pergunta dele.
- Qual o estilo musical?
- Blues, jazz, soul, country...
- Olhe... escute, perdoe meus maus modos, ando
com os nervos à flor da pele. – sua voz se tornou suplicante – O que você acha
de cantar no próximo fim de semana? Eu pago bem, pago por hora, pago até
adiantado!
De repente uma ideia se formava na minha mente.
- E para quem... exatamente... eu iria tocar? –
perguntei despreocupadamente.
- Ah, para a alta sociedade do condado! – ele
falou afetadamente – Oficiais de polícia, médicos, políticos... gente muito
influente...
Reprimi o riso, o homem se gabava como se a
festa fosse um encontro de diplomatas!
- E quanto exatamente eu ganharia?
Ele tirou do bolso um cartão com seu nome e
telefone impressos e no verso do papel escreveu a quantia. Não era muito, mas
resolvi atuar... Assoviei e sorri, mas disse que ligaria para ele naquela tarde
para confirmar, já que supostamente eu estava de férias e aquela festa iria me
atrasar um pouco.
Quando deixei a delegacia, senti um olhar nas
minhas costas, quando me virei, meu olhar se cruzou com a escrivã ruiva. Ela me
encarava com olhos tristes. Naquela mesma tarde liguei para o delegado e
confirmei minha participação artística. Também liguei para papai e contei-lhe o
meu pequeno progresso, não deixei de relatar que o delegado ficou muito, muito
nervoso quando perguntei do detetive Foster. Depois peguei meu violão e comecei
a ensaiar várias músicas, eu tinha apenas dois dias para montar um repertório
decente. Durante o dia eu ensaiava e à noite eu sempre pegava a Kimberly no
restaurante quando terminava seu turno... Tocar&Trepar...
Parecia um bom estilo de vida... Mas eu não podia me desviar do foco!
No sábado, o delegado foi até o motel onde eu
estava hospedado e me entregou um conjunto completo de smoking.
- Cuidado, Sr. Mansen, isso foi cortesia da Tinturaria Golish e se o senhor danificar
a roupa vou descontar de seu pagamento.
- Pode deixar senhor! – prestei continência e
ele esboçou um sorriso.
O jantar seria no salão nobre da prefeitura,
então à tarde fui até lá, o delegado disse que o piano estava afinado, mas eu
precisava ver por mim mesmo. Uma
secretária da prefeitura me mostrou onde ficava o salão e me deixou à vontade
depois, conferi o instrumento, realmente me certificando que ele estava em
ordem. Penduradas nas paredes do salão havia várias fotos de pessoas, pessoas
comuns, cidadãos locais... Fotos coloridas e em preto e branco, recortes de
jornais... Algumas eram datadas de 1898, quando a cidade ainda era uma pequena
vila no meio do nada. Uma foto me chamou a atenção e ela era bem recente,
aquele rosto me era muito familiar.
- Admirando as fotos!? – uma voz rouca ecoou
pelo salão vazio.
Quando me virei, ela estava lá, a escrivã da
delegacia, a ruiva de olhar tristonho.
- Meu nome é Nancy Groove e eu realmente quero
saber por que o senhor veio procurar o Detetive Foster. – ela sussurrava – Quem
é o senhor?
Fugi de sua pergunta com outra pergunta.
- Este homem aqui? A senhora o conhece? –
apontei o dedo indicador para a grande foto.
- Adam Macabeus, - sua boca se retorceu, era
como se ela cuspisse o nome - e esse ai, o mais velho, ao lado dele é Caleb
Macabeus, seu pai.
- Eles moram aqui? – indaguei.
- Não! – ela falou exasperada – Eles fazem parte
da ‘família de fundadores’ da cidade, os Macabeus são muito influentes nessa
região. Mas há 20 anos atrás uma briga entre irmãos e suas poderosas igrejas os
fez se dividir. Caleb e seu filho se mudaram, levando toda a congregação deles
para um rancho... uma enorme propriedade... no vale das Montanhas de Oquirrh.
- Montanhas de Oquirrh... – repeti debilmente.
- Ao sul do Great Salt Lake, no condado de Tooele.
- ela explicou.
Tentei mudar de assunto, eu não sabia se poderia
confiar nessa mulher.
- O que há nas antigas minas de ouro de
Promontory? – apontei, despreocupadamente para um mapa pendurado na parede.
A mulher arregalou os olhos e isso me fez
continuar.
- Foster uma vez me disse que o lugar era muito interessante...
para um turista como eu...
- FOI!? – sua voz subiu umas oitavas e ela
assentiu minimamente, um minuto de silêncio se fez entre nós.
- Olhe, meu rapaz, - ela agarrou meu braço com
força – as minas de Promontory agora só são pilhas e pilhas de pedra. Elas
foram demolidas e suas entradas foram lacradas pela prefeitura. Foster só achou
a própria destruição por lá...
Quando abri a boca para falar, ela me silenciou
com um olhar.
- Não perca seu tempo aqui, seja o que for que
esteja procurando, você não vai achar... Pessoas poderosas vivem aqui e elas
manipulam tudo, até a verdade.
- O que a senhora realmente está tentando me
dizer...
- Eu e Foster estávamos juntos há mais de 10
anos, ele era um bom homem, policial honesto... Mas ele começou a investigar
pessoas poderosas da cidade, de repente ele ficou obcecado, achando que muitas
igrejas eram apenas fachada para encobrir vários crimes... – ela sussurrava tudo num fôlego só – Então
ele morreu num acidente de carro... os freios do carro novo falharam...
Estreitei o olhar mais ainda, a mulher estava
prestes a se debulhar em lágrimas.
- Saia da cidade, não procure por respostas que
não terá! – ela soluçou – Não aqui!
- Quando a senhora diz ‘não aqui’...
- Em Salt Lake City... uma jornalista... Erick
sempre estava em contato com ela.
- Erick?
- Erick Foster.
- Salt Lake City é grande demais... – murmurei.
Nancy me passou um pedacinho de papel com o nome
e o endereço da jornalista, li, dobrei-o em mil partes e escondi num bolso da
carteira. Agora eu tinha realmente por onde começar.
A noite de sábado e sua festa entediante
passaram num borrão de imagens, assim que me vi livre de todos, arrumei as
malas e peguei a estrada.
...
Noutro hotel mais-ou-menos decente, já em Salt
Lake, desfiz as malas, tomei um banho e não perdi tempo. Graças ao GPS do carro
não foi difícil achar o endereço da jornalista. O prédio antigo e de tijolos
vermelho-desbotado ficava numa rua movimentada do centro da cidade, interfonei
para o apartamento 11 e uma voz esganiçada respondeu.
- VÁTOMARNOCUSEUFILHODAPUTAIMPRESTÁVEL!
Levei um susto.
Porra!?
- Boa tard... – tentei.
- BOATARDEÉOCARALHO! – a voz parecia tomar
fôlego – SE EU DEPENDENSSE DE VOCÊ PARA VIVER, JÁ ESTARIA MORTA E ESTURRICADA
NO CHÃO, SEU IMBECIL.
- Madame!? Perdão...
- MADAME? Madame? – fez-se um minuto de silêncio
espectral - Qu-quem está aí?
- Meu nome é Jasper Mansen, madame, e eu preciso
falar com a Srta. Alice Brandon.
- Aaahhh, pare de me chamar de madame, como se
eu fosse uma matuta peituda. – sua voz suavizou, ela parecia sorrir – Como você
sabe meu nome? Meu endereço? O que quer de mim?
- Erick Foster, madam... – me contive a tempo –
Eu vim por causa dele.
Pelo que percebi, houve um momento de hesitação
enquanto a voz esganiçada processava a ideia. Por fim, ela deu um longo suspiro
e antes de responder.
- Não te conheço, não confio em você, me
encontre no Cyber Café do Shopping Salt Lake daqui à uma hora. – outro momento
de hesitação – Vou estar usando uma jaqueta do Arizona Wild Cats.
- Ok.
Na hora marcada, cheguei ao tal Cyber Café e meus
olhos varreram a mesa, procurando alguma mulher com uma jaqueta do Arizona Wild
Cats. Não foi difícil de achar, ela era baixinha, parecia uma boneca, magra e
com mãos pequenas. Seu cabelo era curto, preto e cortado de uma forma meio
repicada. Ela era linda... De perfil pude contemplar seu nariz afilado e sua
boca miúda, embora seus lábios fossem cheios, sensuais. Ela gesticulava
enquanto falava e de repente imaginei aquelas mãos pequenas e aquela boquinha
miúda contornando e chup... Meu grande amigo criou vida lá nos países baixos.
Porra,
Jasper, foco.
Mas Alice Brandon não estava sozinha, um homem
moreno, com traços latinos estava sentado com ela, me aproximei com cautela.
- É isso mesmo, Jared, depois do bolo que você
me deu, - ela fungava e assoava o nariz de uma forma nada educada – eu não
espero mais nada de você.
- Mas docinho... – o cara miou.
- Docinho é escambau, - ela levantou o olhar e
rapidamente me viu – De mais a mais... você chegou tarde demais.
Meio aturdido, eu assistia àquela cena jocosa
sem conseguir acreditar muito na lógica dos fatos. O cara me encarou com um
olhar homicida e se levantou, quase derrubando a cadeira. A mulher sentada à
mesa tinha um ar petulante, seu olhar acompanhou o cara por um longo tempo e quando
ela teve a certeza de que ele não poderia mais nos ouvir, sua atenção se voltou
para mim... com má vontade.
- Jasper Mansen? - ela modulou a voz – Sente-se
e me diga de uma vez do que se trata.
A mulher estava me dando nos nervos. Que
criaturinha chata era aquela? Bonita, quero dizer, linda, mas chata e mandona.
- Eu... err... boa tarde.
E de repente me vi, pela primeira vez na vida,
inseguro diante de uma mulher. Ela apenas arqueou uma de suas sobrancelhas – e
que sobrancelhas lindas ela tinha - e bebericou do que estava na sua xícara.
- O que você está tomando? – tentei puxar
assunto.
- Chá verde com mel e hortelã. Aceita? –
imediatamente, ela fez sinal para uma garçonete - May?
- Oi Alice! - a jovenzinha veio saltitante.
- Traga o de sempre para mim, estou morta de
fome. E você?
Agora ela estava falando comigo, eu acho.
- Apenas um cafezinho, por favor.
- Puro ou com leite? Cappuccino? Ao Latte? - a
jovem May batia aqueles lindos cílios em minha direção enquanto arreganhava
aquela boca cheia de dentes perfeitos pra mim e sorria...
O monstro em mim imaginou-a arreganhando outra
coisa e lá nos países baixos, o meu amigão pulou de novo.
- Ah, tenha mais dignidade, May e pare de
flertar com os clientes! - Alice urrou e a garota corou, atingindo o tom
morango-maduro.
Quando ficamos sozinhos novamente, tentei
começar um diálogo.
- Srta. Brandon, eu, na verdade, não conhecia
Erick Foster. – ela assentiu minimamente, sua testa de vincando numa ruguinha
de preocupação – Mas conheço Adam Macabeus e...
A mulher de repente ficou pálida na minha
frente, seus olhos se arregalaram e seus lábios tremeram levemente.
- Não sei do que você está falando! – ela
despejou e tentou se levantar, segurei em seu braço.
- Por favor, me escute. - sussurrei – Não quero
lhe fazer mal, confie em mim.
Nossos olhares se encontraram por uma fração de
segundo, e foi como se eu pudesse enxergar dentro da alma dela. Foi uma
sensação muito boa e diferente.
- Muita gente já morreu, Sr. Mansen. – ela
sussurrou.
- Erick
Foster, por exemplo. - respondi - Ele estava investigando algo sobre os
Macabeus, não é? – ela assentiu minimamente – Onde está o dossiê que ele tinha?
- Eu, não sei de dossiê algum. – ela se
esquivou.
- Ah, sabe sim!
- rosnei – Olha, por favor, confie em mim. Eu tenho medo dos Macabeus
tanto quanto você, sei do que ele é capaz, sei da história de Sarah Goldman
e...
- Sarah? Sarah Goldman!? – a voz dela subiu umas
oitava.
- Sim, você sabe?
- Ela era minha meio-irmã... – Alice murmurou.
- Sua irmã?
- Sara era filha do 1º casamento de meu pai, eu
pouco me lembro dela. – sua voz se tornou distante, como se ela entrasse num
túnel do tempo – Eu era uma menina de 6 anos de idade quando meu pai sofreu um
ataque cardíaco e morreu em decorrência do desaparecimento de Sarah. Seu corpo
nunca foi encontrado, seu marido, Adam Macabeus foi tido como principal suspeito
do crime, já que ele herdara um seguro de vida de $ 600 mil. As investigações
na época não avançaram muito e o caso foi arquivado, mas em Astoria, nossa
cidade, lá em Oregon, o desaparecimento de Sarah virou lenda urbana.
- O Macabeus... ele nem chegou a ser processado?
- Não. – ela lamentou – Tempos depois ele se
mandou da cidade, desapareceu, evaporou. Peguei o rastro dele há 2 anos quando
descobri a congregação na fazenda próxima às montanhas de Oquirrh. Mas ele
mudou, deve ter feito muitas cirurgias plásticas, está mais jovem... – de
repente seus olhos ganharam foco novamente – Aquele bastardo tem quase 50 anos,
sabia!?
- Ele realmente não parece ter isso tudo... –
minha mente foi longe – Imagino que Rosalie não saiba disso.
- Rosalie? Que Rosalie!?
- Minha prima e... atual esposa de Adam
Macabeus.
- É O QUÊ!?
...
Acabei passando uma semana em Salt Lake City.
E acabou que eu e Alice passamos a nos dar muito
bem. Não tão bem como eu gostaria... mas eu sempre fui um cara paciente.
Mary Alice Brando era formada em relações
públicas, apaixonada por fotografia e repórter free lancer. Sua vocação investigativa foi, sem dúvida alguma, instigada
pelo desaparecimento da irmã. Mas foi lamentável saber que não tínhamos quase
nada que pudesse servir de acusação forte o suficiente para colocar Adam
Macabeus na cadeia.
- DEVE HAVER ALGUMA COISA! – ela falou
exasperada na nossa última tarde de reunião.
- Não há. – minha voz estava cansada. – Não há. Só
temos relatos, nada que comprove, nem mesmo um indício sequer.
- Não vou desistir.
Ela falou com petulância, seu lábio inferior –
cheio e rosado, sem dúvida alguma delicioso - se projetando para frente, como
se ela fosse uma menininha.
- Vou com você.
Eu ouvi. E não ouvi.
Parecia um sonho, mas no sonho ela diria as
palavras num tom de voz meigo e gentil e completaria a frase com um ‘para onde você for’.
Argh... com certeza eu devia estar virando
mulherzinha... tinha muita meiguice dentro de mim.
- Perdão!?
Pigarreei. A voz tinha saído abafada demais.
- Vou com você. – ela repetiu, como se
explicasse o óbvio – Vou com você para Paradise, preciso ver isso com meus
próprios olhos.
...
Fiou acertado que Alice fotógrafa profissional e
irmã de uma colega de faculdade. O disfarce era seguro e fácil de manter. Mas
até agora essa tem sido a única coisa fácil nisso tudo.
Já se passaram muitos e muitos meses, nossos
primos já voltaram do continente, o bebê de Rosalie já nasceu e Adam Macabeus
parece prosperar em nossa ilha.
Rose nunca mais fez contato comigo e isso me
inquietava bastante.
Por falar em bebê, Bella está em final de
gravidez, o bebê está previsto para o final de mês. Estamos em março, finzinho
de um inverno bem gelado e difícil.
Tudo parece meio agourento, principalmente porque
sabemos que Macabeus está tramando algo. Todos nós estamos fazendo um grande
esquema de vigilância, sem que Bella saiba é claro! Ah, mamãe também não sabe,
mas coopera maravilhosamente bem. Hoje mesmo, ela acordou cedinho e começou a
cantarolar pela casa, alegre porque iria passar o dia inteirinho com Bella, já
que Emmett e Edward passarão o dia todo em mar aberto.
Mas aquele dia também parecia agourento porque
os ‘crentes’ da igreja do Macabeus estavam fazendo uma espécie de celebração na
praça central da cidade. De vez em quando a voz macia e condescendente do
marido de minha prima rompia o silêncio da congregação. Adam usava três
microfones e berrava para quem quisesse ouvir alguns trechos da Bíblia.
Reconheci que se tratava do livro de Jó, eu só não lembrava o capítulo.
“E
sucedeu um dia, em que seus filhos e suas filhas comiam, e bebiam vinho, na
casa de seu irmão primogênito, que veio um mensageiro a Jó, e lhe disse: Os
bois lavravam, e as jumentas pastavam junto a eles; E deram sobre eles os
sabeus, e os tomaram, e aos servos feriram ao fio da espada; e só eu escapei
para trazer-te a nova.”
- OS PECADORES RECEBERÃO O CASTIGO DE JÓ! –
gritava a multidão de fiéis na praça, quando Macabeus terminava de ler um
trecho.
“Estando
este ainda falando, veio outro e disse: Fogo de Deus caiu do céu, e queimou as
ovelhas e os servos, e os consumiu, e só eu escapei para trazer-te a nova. Estando
ainda este falando, veio outro, e disse: Ordenando os caldeus três tropas,
deram sobre os camelos, e os tomaram, e aos servos feriram ao fio da espada; e
só eu escapei para trazer-te a nova.”
- OS PECADORES RECEBERÃO O CASTIGO DE JÓ!
“Estando
ainda este falando, veio outro, e disse: Estando teus filhos e tuas filhas
comendo e bebendo vinho, em casa de seu irmão primogênito, eis que um grande
vento sobreveio dalém do deserto, e deu nos quatro cantos da casa, que caiu
sobre os jovens, e morreram; e só eu escapei para trazer-te a nova.”
- OS PECADORES RECEBERÃO O CASTIGO DE JÓ!
Era reunião era pacífica, mas era estranha.
Todos estavam ali, plantados de joelhos, desde as 5hs da manhã, rezando em
silencio e às vezes gritando palavras de ordem. As pessoas pareciam... bonecos,
marionetes sem vida, sem opinião, sem emoções. Até mesmo Rosalie e as crianças
estavam ali, de longe também pude avistar tia Lilian e seu marido.
Da janela do bar eu olhava tudo aquilo enquanto
tomava um pouco de conhaque, tentando acalmar meus nervos. A reunião da igreja
não era ilegal, mas a barulheira chateava bastante! Sem contar que aquela frase
‘O pecadores receberão o castigo de Jó’
aguçava meus sentidos de uma maneira estranha. Era com se houvesse algo, nas
entrelinhas, a ser entendido.
Eu me vi tentando decifrar um enigma quando meus
pensamentos foram interrompidos pelo toque do celular, era meu pai, sua voz
parecia insana.
- JASPER, VENHA DEPRESSA ATÉ HOSPITAL! – senti um
estalo agudo na cabeça – Sua mãe foi encontrada na praia por pescadores,
desacordada e com um pequeno ferimento na cabeça.
- O QUÊ!? COMO ELA ESTÁ? – gritei.
- Está viva... mas... Bella está desaparecida...
ela foi sequestrada.
Amei essa fic queria tanto ver o final dela...
ResponderExcluir10 anos depois e ainda to esperando o final
ResponderExcluir